(POR OCCASIÃO DA VISITA DO SHAH DA PERSIA Á EUROPA)
--Estou summamente aborrecida, primo!
--Confesse, o que não é nada lisonjeiro para mim!
--O primo não me julga divindade para me fazer o sacrificio das suas
palavras... d'oiro!
--Perdão, é que eu estava provando o chá.
--Cuidado. Então não escalde a eloquencia. Ainda se não póde tomar.
--N'esse caso...
--N'esse caso?
--Esperemos que o chá arrefeça.
--Agora é impossivel!
--Impossivel?
--Sim, porque o shah já não está na Russia.
--Bravo! A prima faz espirito! Repta-me; atira-me a sua delicada
luva _gris-perle_. Está aceite. Conversemos.
--Pois conversemos.
--Dizia eu...
--O que dizia o primo?
--Nada. Eu ia dizer que esta chavena é do tamanho da Europa.
--Que disparate, primo!
--Perdão, é que tem dentro o shah...
*
As mães dos primos, exportando maledicencia e importando fatias pela bocca:
--Lá estavam hontem no theatro!
--Estavam. Elle e Ella. É gente da primeira sociedade...
--Ora o que tu quizeres, Gertrudes! Fidalguia que sahiu da quinquilheria
e do fundo d'um chapéo. Elle tolo: ella filha de criada!
--Mas fazem figura...
O filho mais novo, que estuda geometria no lyceu:
--Figura de... cylindro.
As mães:
--Cala-te, Luizinho!
--Deixa fallar o rapaz. Eu não entendi o que elle disse, mas póde ser
que tivesse graça...
--Pois eu estou pelo meu dito. Parecem da primeira sociedade.
--Parecem, começando pelo fim.
*
Um dos pequenos:
--Ó mamã, então sempre vamos para a Foz?
--O papá vae amanhã alugar casa.
O pequeno sahindo da sala a correr:
--Ó Jucá! o papá vae amanhã alugar casa!
As mães:
--Não ha remedio, Leocadia, eu tenho uma filha. É preciso vêr se
tractamos de casal-a.
--Que pressa!
--Tenho cá uma rasão; não digo bem, temos cá uma rasão.
--Aquillo em Hespanha está mau...
--Que tem a Hespanha com tua filha?
--É que meu marido anda com a mania de comprar fundos hespanhoes, e, se
a Hespanha fizer bancarota...
--Percebo. O marido que se aguente, e fique com a mulher sem dote...
--Tal e qual. Nós cá... pensamos assim.
*
O pae da menina lendo o _Jornal do Commercio_, e interrompendo-se para
chamar o sobrinho;
--Ó Arthur?
--Meu tio!
--Tu já leste esta biographia do shah da Persia?
--Eu não, meu tio.
--Pois olha que tem sua graça! Lendo pausadamente: «Mal subiu ao throno
reformou o shah os costumes do palacio, redusindo as despesas do
serralho a limites mais equitativos. Seu tio, a quem succedeu, como já
indicamos, tinha nada menos de quinhentas mulheres, das quaes houve
cento e um filhos e cento e sessenta filhas, o que constitue regular prole.
«O monarcha actual tem unicamente quinze esposas e é pae só d'uma duzia
de filhos. Na sua viagem levou algumas d'aquellas até S. Petersburgo;
faziam parte da criadagem e costumavam alojar-se com os cavallos e os
palafreneiros; na capital da Russia, o shah mandou-as embora,
obrigando-as a voltar para Téhéran.»
As mães poisam as chavenas e dão attenção.
O pae poisando o jornal:
--Pois, senhores, sempre é um shah muito forte!
As mães:
--Ah! ah!
A menina:
--Ó primo, vamos fazer _paciencias_ depois do chá?
--Como a prima quizer.
O pae:
--Deixem a paciencia para o shah: com quinze mulheres!
*
O primo, levantando-se da mesa, abre a carteira e começa a escrever para
evitar que a prima o force a ir fazer paciencias.
A mãe do primo:
--Lá está o rapaz a tombos com os versos!
--Aquillo não lhe faz mal nenhum!
--Sim, mas é que já tem impresso tres volumes á minha custa e estão para
lá as aguas-furtadas cheias de livros.
A prima levantando-se surrateiramente:
--São para mim. Não dá o braço a torcer, mas ama-me com toda a certeza.
O primo fechando a carteira e erguendo-se:
--Com toda a metrificação.
--Que dizia, primo?
--Que fiz um milagre. Ha um mez que não faço versos, e escrevi tres
quadras com toda a metrificação recommendada nas poeticas!
--Póde saber-se qual foi a inspiração?
--Oh! uma loucura, prima, uma extravagancia minha.
A menina, á parte:
--São a mim. Não se atreve a dizer-m'o!
Em voz alta:
--Diga sempre...
--Olhe que não valem nada...
--Mas porque não lê? São...
--A mr. Du Barry.
--A quem? O primo está-me enganando!
--Acredite. São a mr. Du Barry, author da _Revalescière_.
A prima ainda desconfiada de ser a inspiração;
--Ora leia!
--Ahi vão:
Meu Deus! eu vi suar os bons pedreiros
A encastelar as pedras calcinadas
Com que armaram alfim uns pardieiros,
Pendurados de rochas empinadas.
Certo dia nefando a tempestade
Rugiu, rolou, desceu em turbilhões,
Lascando a rocha, arremeçando a herdade
Do vendaval aos rábidos baldões.
Então, ó Du Barry, obreiro ingente,
Que reconstrues as raças com farinha,
Pensei em ti, que vês morto o doente
Quando a _R'valescièr_' salvado o tinha!
A prima:
--Ora!
O primo:
--Du Barry é um grande homem!
A prima agastada:
--E o primo um grande ingrato!
*
A mãe do primo;
--Ó mano, que diz a folha do que vae por Hespanha?
--A folha diz que os internacionalistas descubriram agora uma nova
especie de banhos.
--Uma nova especie de banhos?!
--Já havia os do mar, que estão desacreditados desde que muitas meninas
vem de lá solteiras. Havia os de chuva, que já não faziam effeito a
ninguem. Havia os russos, e ha-os agora de petroleo...
--De petroleo!
--Mana e senhora--de petroleo, diz a folha.
A mãe do primo:
--Aquelle meu rapaz metteu por força a cabeça em algum banho de petroleo!
*
A prima:
--Então vamos fazer _paciencias_?
Elle:
--Ó prima, eu estava com vontade de fazer mais versos. Ainda tinha
tenção de cantar esta noite o dr. Paterson, author das pastilhas
americanas, e o Melchior Sola, fabricante de lumes promptos. Dois
grandes homens, prima! Um dá a saude; o outro a luz. A pastilha é o
colorido das suas faces; o phosphoro é a alma do meu charuto. A prima
come uma pastilha e sente-se forte; eu acendo um charuto e sinto-me poeta.
Procurando o chapéo:
--Ó Paterson! Ó Sola! Ó pastilha! Ó phosphoro!...
A prima:
--Então vae-se embora?
O primo, já do patamar:
--Vou ao theatro ainda.
A mãe do primo:
--É o que eu digo, é: o rapaz toma banhos de petroleo!
* * * * *