O fallatorio é este:
--Quando chegam?
--Quantos são?
--Devem vir muito moidos!
--Rijas pernas!
As donas de casa:
--Não sei como podem dispensar a loiça!
Os paes de familia:
--Prescindirem do sophá para dormir a sesta!
As meninas umas ás outras:
--Eu se fosse namoro d'algum não consentia!
--Nem eu!
--Porque?
--Porque não queria um marido com habitos de recoveiro...
Os leitores do _Primeiro de Janeiro_:
--Elles... quem são?
--De quem está fallando?
--A quem se refere?
N'uma palavra,--todas as explicações. Estamos fallando dos cinco
intrepidos cavalheiros lisbonenses, que se propozeram fazer a pé, em
verdadeiras condições de bohemios, uma insignificante jornada de Lisboa
a Braga,--resolução que importa o sacrificio de dar apenas alguns passos
como quem vae da Praça Nova ao Palacio de Crystal para aproveitar a
companhia de dois amigos que lembraram um duello a cerveja.
Mas, sendo um pouco mais profundo,--porque o folhetinista tem obrigação
de fazer a anatomia das intenções--vejamos se não haverá porventura
n'este caso, que denota á primeira vista bons pulmões, bom sangue e boas
pernas, algum proposito recondito, algum plano philosophico, que revele,
em segunda leitura, que os cavalheiros de Lisboa são tão intrepidos de
espirito como de corpo.
Leriam ha pouco tempo o _Roman comique_ de Scarron, o _Diable à Paris_
de Eduardo Ourliac, _L'Angleterre et la vie anglaise_ de Affonso
Esquiros, o _Grand homme de province á Paris_, de Balzac, e
enthusiasmar-se-iam com as comicas aventuras dos actores ambulantes e
dos musicos das ruas?
Não é de suppôr que rapazes que se encostam ás _vitrines_ do Chiado, que
frequentam o Gremio, que vão a S. Carlos, que não faltam á espera dos
touros, que costumam passar o verão em Cintra, que calçam bota de
polimento, que se frisam no Baron, que se vestem no Keil, se aguentem,
por mero capricho, n'uma caminhada de sul a norte, que os obriga a
viver entre montes, durante dois mezes, n'uma barraquinha de campanha,
onde mal se póde lêr a _Correspondencia de Portugal_ e onde seria
impossivel desdobrar o _Times_.
E tanto isto não é provavel, que dois dos peregrinos do rancho
desanimaram a meio da jornada com saudades do _robe-de-chambre_ e do
Martinho.
Se o intento fosse um simples devaneio d'espiritos moços, uma
extravagancia dos vinte annos, haveriam retrocedido todos, e affogariam
o seu desalento n'um copo de champagne, que é como os rapazes costumam
enterrar ruidosamente qualquer ideia que lhes morre...
Mas tres d'elles, os snrs. A. C. da Silva Castro, Estevão Ribeiro da
Silva e Pedro de Campos Menezes, avançaram sempre, chegaram ás Caldas da
Rainha, demoraram-se em Coimbra, acampando no rocio de Santa Clara, e
devem ter já partido do Bussaco.
Segue-os uma carroça, puxada por um macho. Na carroça vae o _chalet_
ambulante, dobrado em fórma de biombo, e sentado em cima da lombada do
_chalet_ o cosinheiro, que, precisando de trabalhar com os braços, se
dispensa de trabalhar com as pernas. É o Sancho Pança da aventura, que
se presume a assistir áquelle acto da _Cora_ em que vae passando em
frente do espectador o panorama do Mississipi, porque vae vendo
regaladamente as margens do caminho mettido dentro da sua mitra
d'algodão branco, do seu avental de linho e dos seus oculos de metal
amarello.
Elle é o unico do rancho que se sente despreoccupado, porque apenas
tem uma ideia: a cosinha. Os patrões vem andando e pensando, porque esta
viajata representa para elles uma lucta entre as velhas tradições e as
ideias modernas, entre as forças do homem e as forças da machina, entre
os artelhos e os _rails_, entre a vontade que manda mover e a locomotora
que faz andar.
O empenho d'estes cavalheiros é naturalmente mostrar que o homem é mais
completo do que o suppõem; que o progresso é uma simples mistificação de
preguiçosos que querem viver na indolencia, e viajar sentados; que os
caminhos de ferro são uma patarata engendrada para negocio d'uma
companhia, e finalmente, que a raça latina tem ainda sangue rico, alma
arrojada, altura de pensamentos, colorido nas creações, valentia nas
empresas.
Querem pois supplantar as invenções modernas, dispensando-as, e tanto o
conseguiram, que de Lisboa até Coimbra entretiveram-se a ensinar a andar
o caminho de ferro.
Por um esforço pouco vulgar chegaram a dominar a propria curiosidade: ha
um mez que não recebem cartas nem jornaes. Não sabem nada do que se
passa no seu paiz, porque a direcção do correio é tão pouco intelligente
que os não manda procurar onde estão. Mais um triumpho para elles! Então
o correio foi feito para entregar as cartas a quem lh'as pede ou para as
ir entregar a quem as deve receber? Nada sabem do que ha trinta dias
acontece em Lisboa, nem siquer teem tido noticias da cotação dos
fundos hespanhoes. E fallar-se sempre da rapida transmissão do
pensamento, de telegraphos electricos, de cabos submarinos, de paquetes
a vapor! Ha um mez que inteiramente ignoram o que se pensa no Chiado, e,
visto que já os incendios começavam quando partiram, não sabem ao certo
se Lisboa ardeu, e se já se encommendou algum marquez de Pombal para
reedifical-a.
Diz-se que o progresso tem levado commodidades a toda a parte,
desbravando florestas, povoando desertos. No Cartaxo desejaram sorvetes
e não os obtiveram; em Chão de Maçãs pediram toicinho do céo e
alcançaram a certeza de que o céo em Chão de Maçãs era mahometano.
Apregoa-se a diffusão da instrucção publica, a creação de cadeiras
primarias, e na Pampilhosa, querendo sentar-se a tomar a fresca,
offereceram-lhes uma cadeira em tão mau estado, que de nenhum modo se
podia considerar primaria. Em Alfarellos quizeram passar a noite a lêr,
e estando Alfarellos a dois passos de Coimbra, e sendo Coimbra, segundo
o pensamento de Heitor Pinto, a cidade d'onde irradiam as virtudes e as
lettras para todo o reino, como do centro da esphera sahem as linhas
para a circumferencia, apenas conseguiram haver em Alfarellos um
reportorio de 1872.
Pois então, n'este seculo de extrema e assombrosa mobilidade, ha no
mappa de Portugal uma terra que em agosto de 1873 se governava pela
chronologia de 1872, dormindo um anno inteiro!
Um dos nossos guapos viajantes sentiu-se no caminho um pouco embaraçado
com um calo no dedo minimo do pé direito. Então ainda ha calos! E os
jornaes a assoalharem que a pomada Galopeau é o verdadeiro pedicuro
descoberto até hoje! Um pouco crestados pelo sol, desejaram refrigerar a
pelle. Onde estava esse famoso Charles Fay, inventor do pó de arroz
preparado com bismutho? Banharam as faces n'uma fonte, que serpejava por
entre rochas, e saudaram enthusiasticamente mais uma vez o passado,
porque a agua é tão antiga, que já o diluvio foi... d'agua! A frescura
do liquido constipou-lhes os dentes. Reclamaram a presença do snr. de
Vitry, _chirurgien dentiste de leurs majestés trés fideles_, e o snr. de
Vitry não os ouviu chamar na sua casa da rua do Ouro em Lisboa! Pois se
o pensamento se transmitte com a apregoada rapidez parecia que... Em
Souzellas viram á porta de uma tenda, invadida por dous meirinhos, o
pobre do logista que se lamentava da desgraça a que o ia redusir a penhora.
Perguntaram:
--O que tem aquelle homem?
--Quebrou.
E os jornaes de Lisboa a dizerem que o snr. Carvalho Junior inventou um
efficaz emplastro para soldar as pessoas quebradas!
Ó suprema irrisão! Ó verdadeiro triumpho ganho pelo passado sobre o
presente! indubitavel victoria do homem sobre a machina! E vós,
illustres bohemios d'uma crusada santa, que ides dilatando a fé e o
imperio, dizei-me, sinceramente, intimamente, se este não é o
verdadeiro fim da vossa rude jornada! Podeis, ao longo do caminho, ir
cantando a velha canção dos actores ambulantes:
Veut-on savoir d'ou nous venons,
La chose est trés-facile;
Mais, pour savoir où nous irons,
Il faudrait être habile.
Sans nous inquiéter, enfin,
Usons, ma foi, jusqu'à la fin
De la bonté céleste!
Il est certain que nous mourrons;
Mais il est sur que nous vivons:
Rions, buvons!
Et moquons--nous du reste!
e eu guardarei ufano o diploma de--_être habile_--porque descortinei a
vossa intenção recondita.
Até á vista, e felicidade!
* * * * *