Os chefes de familia, que logram contar vinte annos de praça conjugal,
devem hoje chamar seus filhos á sala do jantar e dizer-lhes, indicando a
meza:
--O Natal foi alli.
Que ss. ss.as os moços pennujentos oiçam reverentemente a voz de seus
paes, e desçam olhos de commovido respeito ás mudas tabuas onde o Natal
vaporou as mais succolentas iguarias, e caldeou a mais serena embriaguez
do genero humano nas garrafas scintillantes de vinho e luz.
O Natal foi alli.
Tudo quanto de indigestamente pesado póde haver para o mais vigoroso
estomago, aqueceu as loiças que se deixaram cahir de maguadas das mãos
dos criados, quando souberam que certo dia o menino mais velho tivera
uma gastrite por haver comido uma gemma d'ovo depois da meia noite. E
tiveram rasão. A espada de D. Pedro IV prefere a inactividade do Museu
de S. Lazaro a lampejar ao reflexo do sol em dia de solemne
patuscada militar no Campo de Santo Ovidio.
Viram o throno deserto dos cortezãos do seu tempo e não quizeram
sobreviver á ruina do estomago portuguez. Os homens contemporaneos
d'aquellas loiças comiam uma gallinha em dia de natal, e um perú em dia
d'anno novo. Os filhos, que simplesmente herdaram o nome paterno,
sentem-se affrontados com a digestão d'um ovo, e estão adoptando á meza
os legumes porque a teia de aranha onde caiem os alimentos não consente
mais que uma folha d'alface, e uma vagem de conserva.
Por isso se suicidaram as amplas terrinas de ha vinte annos, e não resta
da primeira festa portugueza mais que este epitaphio na bocca dos velhos:
--O Natal foi alli.
Era alli. A mesa deslumbrava de candelabros e garrafas. Em derredor
estavam as largas cadeiras de couro tauxiado. N'aquelles alterosos
espaldares podia recostar-se uma cabeça impassivel á fermentação dos
liquidos. Sabia-se que nenhum dos convivas cabecearia a ponto de
fracturar o craneo na pregaria amarella. Aproveitava-se o encosto
unicamente para se estar aprumado, de modo a facilitar a descida dos
alimentos ao longo do esophago. Os criados entravam e sahiam para pôr os
pratos; hoje o principal cuidado dos criados é dispol-os. N'aquelle
tempo não havia symetria; a symetria foi creada e é observada
exclusivamente por nós, que somos a geração mais artificial que tem
vindo ao mundo.
A abundancia era a condição unica a attender. Ha vinte annos
dizia-se de uma mesa: Estava cheia; hoje diz-se apenas: Estava bonita.
Dispensavam-se as flores. Para recrear os olhos bastava a variedade dos
pratos; para deliciar o olfato era sufficiente o perfume dos cosinhados.
Baralhavam-se as terrinas, as travessas e as taças. A luz passava d'umas
ás outras como o reflexo de luar que atravessa as ondas. Era um mar
agitado, amplo e alegre. De espaço a espaço, como ilha deleitosa,
erguia-se a garrafa; já se sabia que se tinha de parar alli para fazer
aguada. A prudencia do marinheiro está em não se demorar nos portos onde
toca, de modo a atrazar a viagem. Assim observavam nossos paes á mesa.
Faziam escala por todos os archipelagos de crystal, por ser vergonhoso a
um maritimo não conhecer a mais insignificante ilhota. Saudavam na
passagem o promontorio da gallinha, a bahia do arroz, a cordilheira dos
paios, o isthmo do pernil, o cabo dos mexidos, os escolhos das
rabanadas, e a frescura oleosa dos verdejantes oasis de grêlos que
ensombravam os pequenos desertos das travessas.
Iam conhecendo o mappa palmo a palmo, vendo o mundo retalho a retalho,
n'aquella noite. Corria a ceia na doce intimidade de bordo. Ria-se
serenamente; fallavam todos e ouvia-se cada um. Á cabeceira da mesa
estava o pae com os seus cabellos nevados, radeante d'alegria. Parecia o
piloto á cana do leme. Dilatava-se n'aquelle suavissimo conchego a alma
dos convivas como se dilata a alma dos passageiros na contemplação do
infinito. Quando a tripulação saltava em terra, quer dizer, quando
pouco antes da meia noite se levantavam da mesa, iam em rancho á missa
do gallo, com aquella religiosa solicitude de muitos marinheiros que vão
orar á Senhora da Boa Viagem mal que descem a escada de portaló. Era uma
festa! N'aquelle tempo o vinho não embriagava nem as comidas
affrontavam. O estomago dilatava-se tanto como o coração... O somno
fugia amedrontado da alegre voz do gallo. Estava-se bem toda a noite e
ninguem pedia amoniaco nem soda Watter. O livro da felicissima
gastronomia d'aquelle tempo era digno do prologo, e levava quinze dias a
lêr-se. Só no dia de Reis se virava a ultima folha. E no dia 7 de
janeiro ninguem se queixava de dyspepsia!
Hoje tudo é differente.
Os convivas introduziram os vinhos francezes porque são espuma que desce
ao estomago, e que dá uma falsa alegria de momento. Todavia querem
mostrar que são valentes, e arremettem contra uma garrafa de champagne,
que durante meia hora os descompõe, a ponto de se supporem a ceiar com
_cocottes_. Esquecem-se de que estão á mesa com suas irmãs e com sua
mãe. Até para ellas precisam de pedir emprestada a alegria ás bebidas! Á
meia noite ninguem os encontra em casa; estão no botiquim a tomar caffé,
porque se sentem incommodados do estomago. Á ceia o unico que está
sinceramente risonho é o pae, porque se alegra das suas recordações. Os
filhos começam a fallar depois que salta a primeira rolha de champagne.
Não distinguem aquella ceia das ceias ordinarias: não se lembram do
irmão que está no Brazil ou do irmão que está no cemiterio.
Antigamente, se estava ausente uma pessoa da familia, punha-se-lhe o
retrato na mesa.
Era para que não faltasse ninguem á ceia. Hoje não se colloca o quadro
para não desmanchar a symetria. Mettemos a arte em tudo; até nos
lembramos de a metter entre os pratos! Para tudo ha preceitos, tudo se
faz por medida. Os criados andam collocando a loiça com a _Arte de
servir á mesa_, do snr. João Matta, no bolço. Como se põe a mesa? O snr.
Matta dil-o:
«A toalha convém que seja adamascada. Quando se estende, deve ficar bem
posta, repartida com egualdade para todos os lados e sem rugas. A peça
principal, para ornato ou serviço, colloca-se ao centro. Em torno
d'ella, põem-se serpentinas com vellas; vasos de flores; grupos de
figuras; pratos de doce de copa: pratos montados de porcelana, crystal,
ou prata, com pastilhas, amendoas torradas, doces de ovos e de côco,
foguetes e algumas flores artificiaes para embelezamento d'esses pratos.
Se houver _plateaus_ com grandes vazos de bronze dourado, devem
collocar-se symetricamente na mesa, tendo cada vaso sua garrafa de vinho
de Champagne rodeada de gelo, para contentamento da vista e ostentação
da grandeza do dono da casa.»
Antigamente os criados não tinham compendio. O que se punha na mesa não
era para se vêr mas para se comer. Em dezembro o que se queria na mesa
_para contentamento da vista e ostentação da grandeza do dono da casa_
era o vinho. O gêlo, por ser frio, deixavam-n'o á vontade no topo
do Marão e da Estrella. Hoje, para aquecer os convivas e os vinhos,
põe-se gelo na mesa. Se uns e outros não hão-de estar frios! Ha vinte
annos o que _ostentava a grandeza do dono da casa_ era o diametro da
vazilha. O vinho mais desejado era o _quente_; hoje querem o champagne
bem nevado, _frappé_, como dizem os francezes. É tudo como os francezes
dizem. O caso é que se lhes obedece, e que já se deixa passar a noite de
Natal _á franceza_. Não sei como se chama em francez ás _rabanadas_ e
aos _mexidos_, que se fazem ainda em attenção á velhice de nossos paes.
Hão-de ter um nome exquisito, para não parecerem portuguezes. Tudo nos
tem levado a França,--até o feijão branco! (Já não é feijão branco:
diz-se _flageolets_.) Deu-nos a arte, e podemos dizer que nos levou o
Natal. Pois apezar de estar casquilha a mesa, cheia de insignificancias
bonitas, de pastilhas, de amendoas torradas e de rosetas de gêlo, podeis
dizer a vossos filhos, indicando a mesa, ó celeberrimos valentões da
guarda velha:
--O Natal foi alli.
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