S. BARTHOLOMEU

_Per signum crucis..._

Sempre é bom acautelar n'este dia!

Vamos lá para a Foz, com toda a gente, depois de persignados.

Encontramo-nos uns com os outros pela rua de Ferreira Borges abaixo:

--Para a Foz?

--Pois!

--Almoçar?

--E jantar!

--Mais um copito por minha conta!

--Mais dous por minha!

--A D. Rosalia não vem?

--Foi de vespera; dormiu lá!

--Que soffreguidão!

--A D. Rosalia não quer perder uma festa!

--Então é como as esposas ciumentas...

--Maganão!

No caminho de ferro americano. Dous gordos:

--Esta romaria mette muita gente!

--O poder do mundo!

--Você passa o dia?

--Eu vou almoçar a casa do cunhado.

--Mas você vae de palito na bocca?

--Isto foi para experimentar os dentes.

Duas magras, que valem por seis tagarellas:

--De ponto em branco!

--Sim... a _polonaise_ é nova...

--Catita d'uma vez!

--O mesmo posso dizer de ti!

--Ah sim... o chapéo.

--Está muito fresquinho! Eu gosto dos chapéos arranjados com pouca coisa...

--Não disse isso a Ravoux, que me pediu oito mil e quinhentos...

--Ellas pedem sempre muito.

--Tu lá sabes quanto te pediram pela _polonaise_...

Um sujeito, pondo a cabeça fóra da carruagem, para outro que desce a rua

de Ferreira Borges:

--Ó Bernardo! Ó Bernardo! Anda p'r'aqui!

O outro agitando os braços:

--Olé! Ahi vou!

Uma velha rabugenta:

--Que gordura d'homem! Vamos aqui morrer de calor! Por isso é que eu

gostava dos carroções...

O gordo, atravancando a portinhola, e produzindo um breve eclypse no

interior da carruagem:

--Vamos lá a esse _S. Barthalameu_!

O que o chamava:

--Ora o Bernardo! O Bernardo!

Um _petit-crevé_ para um _crevé-petit_, atravez do fumo do charuto:

--Palpita-me que vamos ter _bernardices_.

Uma creança esmagada pelo Bernardo, que se sentou:

--Ai!

O Bernardo, cuja sensibilidade está embotada pelo habito de trilhar

pessoas:

--Não é nada!... Ora coitadinha! Isto fez-me lembrar a anecdota da

melancia e da avellã...

Abala o trem.

A velha, estremecendo:

--Nos carroções não havia isto!

Lá vae aquella fluctuante colonia de romeiros povoar a Foz durante vinte

e quatro horas. Vão á romaria! disseram elles. Pois que vão. Chegarão

lá, percorrerão todas as cangostas, todas as ruas, irão ao adro, á

praia, a Carreiros, procurando, sempre procurando, e não encontrarão

a... romaria.

O que elles encontrarão será:

_Na igreja_--Duas cortinas vermelhas e seis velas acesas, no altar de S.

Bartholomeu. Um homem sentado a uma mesa, a vender registos e a receber

esmolas. Algumas mulheres, que se ajoelham deante da mesa para

beijar a imagem e beijam o diabo, que a imagem tem aos pés...

_No adro_--Quatro mesas com bonecada. Um grupo d'homens de guarda-soes

abertos.

_Na praia_--Muita gente sentada e muita gente de pé.

_Em Carreiros_--Algumas pessoas que vão á procura dos lavradores, os

quaes lavradores não apparecem.

_Pelas ruas_--Muita gente que vae e que vem.

_N'uma encrusilhada_--Um sujeito da provincia perguntando a uma pequenita:

--Onde é a romagem, menina?

A rapariga com cara de lorpa conscienciosa:

--Cá não ha essa rua.

_Nas casas particulares_--Algumas meninas sentadas na sala das visitas.

Ao centro, quatro velhos a jogar a bisca sueca. Tudo á espera do... jantar.

_Na cosinha_--A dona da casa a apressar a cosinheira. A cosinheira a

dizer ao criado que se apertarem muito com ella deixa o jantar por fazer

e vae-se embora.

_Nos hoteis_--A mesa redonda cheia. A mesa quadrada, idem. A mesa

triangular, idem. Mais quatro familias a perguntar se não ha mais mesas.

_Á porta do castello_--Dois veteranos a comer melancia, e outro a dormir

com o lenço vermelho estendido sobre a cara.

_Nos bilhares_--Dois caixeiros que jogam o bilhar toda a tarde, porque

elles foram á Foz, não procurar a romaria, mas divertir-se.

_No pharol da Luz_--Um pae a explicar ao filho a espheroicidade da

terra pela curva que vae descrevendo um vapor. O menino: Ó papá, mas se

o mundo fosse redondo, aquelle vapor cahia agora! O pae: Cala-te,

cala-te, tu não sabes o que dizes!

E a romaria?

Procuraram-n'a, rebuscaram, vascolejaram tudo, e não poderam encontral-a...

E os lavradores a tomar banho?

Os lavradores tomam banhos todos os dias, menos hoje. Teimavam em

farpeal-os; elles teimam em não dar sorte.

Diz-se que costumavam tomar sete banhos na manhã de S. Bartholomeu.

Eu acho que tomarão sete, em qualquer dia, se tiverem muita pressa d'ir

para a terra. Dois tomam elles todos os dias: um de madrugada outro de

tarde. Acontece por lá a cada passo demorar-se um camponez quinze dias e

retirar-se com trinta banhos. Já houve um, meu conhecido, de Castello de

Paiva, que esteve quinze dias na Foz e tomou trinta e quatro banhos.

Perguntou-me se eu queria alguma coisa para os seus sitios.

--Então já vaes?

--Esta noite.

--Quantos dias estiveste?

--Quinze.

--Quantos banhos tomaste?

--Trinta e quatro.

--Como fizeste isso?

--É que aos domingos tomava quatro.

Um anno por outro acontece que alguns d'elles tanta pressa teem de

_acabar com o remedio_, que tomam um unico banho. Isto é, morrem depois

do jantar, no mar, com uma apoplexia.

O pretexto d'ir vêr os lavradores é um mau pretexto, porque, ainda que

elles se banhassem, como dizem que se banhavam antigamente, n'este

dia,--não prestava aquillo para nada, de certo.

Eu vou explicar como os lavradores tomam banho na Foz.

Vão para as praias da Luz com a sua trouxa sobraçada, aos ranchos, por

que um lençol chega para quatro. Elles entendem por um acertado

instincto suino, que quanto mais salgados ficarem, melhor. Mettem-se

entre os fragoedos. Homens e mulheres vão de branco, ligeiramente

vestidos; a côr da roupa faz com que deixem no banho o _ligeiramente_ e

saiam sem adverbio e sem decencia.

Esperam a onda, de bruços na areia, com a cabeça virada para a terra, e

a parte opposta para o mar. Isto poderia offender os peixes, se os

peixes tivessem brios. Mergulham sete vezes, porque, para elles, de sete

em sete ondas, vem uma que traz grande virtude curativa.

Depois vão a correr para entre as fragas, cheios d'areia e d'agua, e

limpam-se ao lençol a que já se limparam tres.

Isto é invariavel.

E o diabo, que anda ás soltas n'este dia?

A respeito d'este bicho eu sou exactamente da opinião do padre Antonio

Vieira:

«O diabo já não tenta no povoado, nem é necessario, porque os homens lhe

tomaram o officio, e o fazem muito melhor que elle.»

Ora é este mais um motivo, vista a substituição, para eu acabar como

principiei:

--_Per signum crucis..._

* * * * *

Entre o caffé e o cognac · 第 50 / 64 题