NONO SERÃO

D. José I.--As transformações sociaes.--O marquez de Pombal

e a revolução.--Terramoto de 1 de novembro de 1755.--As

grandes reformas de Sebastião de Carvalho.--Expulsão dos

jesuitas.--Reforma da universidade.--Reorganisação do

exercito.--Agricultura.--Industria.--Inquisição.--Christãos novos e

christãos velhos.--Politica estrangeira.--Energia com Roma e com

Inglaterra.--Reconstrucção de Lisboa.--Estatua de D. José.--Attentado

contra o rei.--Supplicio dos Tavoras.--D. Maria I.--Reacção contra as

medidas do marquez de Pombal.--Processo do grande ministro.--Pina

Manique, Francisco de Almada.--Martinho de Mello.--Loucura da

rainha.--Regencia do principe D. João.--A republica franceza.--Campanha

do Roussillon.--Campanha de 1801.--Napoleão e o tratado de

Fontainebleau.--Fuga da familia real para o Brazil.--Guerra

peninsular.--Congresso de Vienna.--D. João VI.--Conspiração de

1817.--Revolta de Pernambuco.--Revolução de 1820.

Hão de vocês notar, rapazes, observou o João da Agualva mal todos se

sentaram no domingo seguinte em torno da lareira, que, em estando para

haver uma grande mudança na sorte dos homens, parece que todos, sem o

querer e sem o saber, trabalham para essa mudança, desejando fazer

muitas vezes exactamente o contrario. Por exemplo, lembram-se vocês que

ali por 1500 é que os reis se fizeram senhores absolutos, porque

acabaram com os privilegios da nobreza, e com os foraes do povo.

Quem é que contribuiu para isso? O povo, que ajudou o rei a dar

cabo dos nobres. Agora encaminha-se tudo para a liberdade e para a

igualdade, e quem é que no nosso paiz vae concorrer mais para similhante

cousa? O marquez de Pombal. Dir-me-hão vocês: Então o marquez de Pombal

era algum liberalão por ahi alem como os de vinte? Qual historia! Era um

tyranno e dos mais ferozes que nunca houve, mas, sem o querer e sem o

saber, ninguem mais do que elle trabalhou pela liberdade.

Em primeiro logar hão de vocês saber que o rei D. José, que subiu ao

throno por morte de seu pae D. João V, quasi que nem conhecia o marquez

de Pombal, que já era homem dos seus cincoenta annos, e que tinha andado

por fóra como embaixador, ora em Londres, ora em Vienna de Austria, onde

casára com a filha de um figurão austriaco. Quem metteu empenhos para

que elle fosse ministro foi a mãe de D. José, D. Marianna se chamava

ella, archiduqueza de Austria, e por isso amiga da mulher do marquez,

que então se chamava simplesmente Sebastião José de Carvalho e Mello.

Era um ministro como os outros, e o rei não fazia mais caso d'elle do

que fazia dos seus collegas, quando de repente acontece uma grande

desgraça em Lisboa, que veio a ser o terramoto do dia 1 de novembro de

1755. A cidade foi quasi toda a terra, morreram muitas mil pessoas,

outras ficaram a pedir esmola, e sobretudo reinava um terror

tamanho que ninguem sabia o que havia de fazer nem para onde se havia de

virar. O Sebastião de Carvalho não perdeu a tramontana. Toma elle a

direcção de tudo, arranja sustento, enforca ás portas da cidade quantos

ladrões apanha, porque isso então era uma praga, trata do desentulho, e

logo em seguida de reconstruir a cidade, isto com uma actividade, com um

desembaraço, com um acerto, que D. José disse comsigo: Temos homem!

D'ahi por diante quem governou foi elle, e é de uma pessoa pasmar ver o

que fez. Até ahi os governos, para fallar a verdade, em quem menos

pensavam era no povo e no paiz. O dinheiro do estado não servia senão

para elles fazerem o que lhes agradava, e por felizes se podiam dar os

povos quando lhes dava o capricho para cousas uteis. Sebastião José de

Carvalho e Mello tratou do paiz e mais nada. Ora de que é que o paiz

precisava?

Precisava, primeiro que tudo, de acabar com as despezas no gosto das que

fazia el-rei D. João V, que era umas mãos rotas com fidalgos e com igrejas.

Precisava de poder pensar e estudar, sem ser sempre debaixo da

palmatoria dos frades e dos jesuitas.

Precisava de acabar com a inquisição, porque era uma vergonha que ainda

se queimasse gente em Portugal só porque não ía á missa.

Precisava de ter exercito e de ter marinha.

Precisava de ter industria.

Precisava de ter lavoura.

E nada d'isto elle tinha.

Sebastião de Carvalho via estas cousas e disse comsigo: Mãos á obra. Ora

digam-me vocês: Quando chegam a uma quintarola que compraram e vêem tudo

estragado: os pardaes a darem cabo da fructa, as cearas a morrerem á

sede, a terra fraca por falta de estrume, as hervas ruins a afogarem o

trigo, o que é que fazem? Arregaçam as mangas e dizem: Vamos a isto. E

sacham as hervas, sem dó nem piedade, e saltam ao tiro nos pardaes até

os pôrem fóra, e deitam estrume na terra, e levam a agua da rega para as

cearas, e levantam os muros arrasados, e enxotam os porcos que lhes

vinham fossar nas batatas, e sacodem as gallinhas que lhes depinicavam

tudo, e até vocês se riam se os accusassem de crueldade porque matavam

os pardaes, ou porque arrancavam e deitavam fóra as hervas ruins.

Pois Sebastião José de Carvalho e Mello tratou Portugal exactamente como

vocês tratariam a tal quintarola. Olhou para tudo e disse comsigo: Eh!

com os diabos, como isto está. No paço ha um bando de pardaes que dá

cabo da melhor fructa dos pomares da nação. Toca a enxotar os pardaes,

e, como os pardaes refilaram, saltou ao tiro n'elles. As cearas da

intelligencia, que tambem são trigo porque dão o pão do espirito, não

podiam medrar porque os affogava por toda a parte o joio do jesuitismo.

Toca a sachar os jesuitas. Os muros da quinta estavam arrasados, quer

dizer, estavam as fronteiras a descoberto, e em vez de haver fortes o

que havia era igrejas, e elle mandou fazer o forte da Graça em Elvas, e

poz o exercito a direito, mandando vir para isso um militar estrangeiro,

o principe de Lippe, que era da escola de um rei da Prussia que foi o

primeiro militar do seu tempo. Não havia lavoura nem havia industria,

porque ninguem lhe dava a protecção da rega e do adubo, e Pombal deu-lhe

tudo isso á moda do seu tempo, que elle tambem não podia adivinhar o que

hoje se sabe. Elle reformou os estudos e a universidade, elle fundou

companhias e fabricas, elle partiu os dentes á inquisição, elle poz fóra

os jesuitas, elle tirou a censura dos livros aos padres, elle acabou com

distincções de christãos-novos e christãos-velhos, e na India e no

Brazil acabou tambem com todas as tolices das raças, elle arreganhou os

dentes a Roma, e soube pôr o papa no seu logar, elle bateu o pé á

Hespanha, elle fez-se respeitar da Inglaterra, elle acabou com os

morgados pequenos que só faziam mal á lavoura, elle não deixou que

entrassem para padres e frades todos quantos o queriam ser, porque, se

as cousas continuassem assim, ás duas por tres não havia senão

cabeças rapadas em Portugal, emfim, meus amigos, é de uma pessoa pasmar

ver que aquelle diabo de homem, que ao mesmo tempo fazia de Lisboa uma

cidade nova e levantava uma estatua ao seu rei no Terreiro do Paço, em

tudo poz a mão, tudo melhorou, tudo reformou, tudo arranjou, e póde-se

dizer que virou a nação de dentro para fóra. Já se vê que fez tudo isto

com o «posso, quero e mando.» Mas a quem é que prestou verdadeiros

serviços? Foi á liberdade, porque tirou o povo da miseria e da

ignorancia em que vivia, porque o livrou de ter os jesuitas por tutores,

e assim o animou a cuidar dos seus direitos, e o preparou para um bello

dia reclamar a liberdade. Foi cruel, bem sei, não digo menos d'isso.

Tratou os homens como se fossem pardaes, e praticou mesmo barbaridades

escusadas; mas que diabo! não sei que sina é esta: reforma graúda sem

muito sangue parece que não ha modo de se fazer; uma vez são os

reformadores que derramam o seu proprio sangue, e então é que a reforma

vem de Deus, como acontece com o christianismo; outras vezes os

reformadores derramam o sangue dos outros, e então é que a reforma vem

dos homens, como aconteceu com a revolução franceza; porque lá isso de

regar as arvores do bem com o sangue das nossas proprias veias, Deus é

que o ensina, que os homens só por si não são capazes de chegar a

tanto.

--Ó sr. João, exclamou o Bartholomeu, mas parece-me que tenho ouvido

dizer que os Tavoras, o duque de Aveiro e os mais fidalgos soffreram

tormentos do diabo ali na praça de Belem. Ora, ainda que fosse

necessario dar cabo d'elles, acho que não era preciso atormental-os, e

que o marquez de Pombal tinha na verdade cabellos no coração.

--Não digo menos d'isso, Bartholomeu, mas ouve lá uma cousa: tu sabes

porque é que os fidalgos foram executados, não sabes? Foi por darem uns

tiros no rei. Elles queriam livrar-se do ministro, o rei não largava o

ministro, cada vez se lhe agarrava mais, como depois mostrou, fazendo-o

conde de Oeiras e marquez de Pombal, e então lembraram-se de dar cabo de

D. José. Ora sabes tu como fôra castigado em França, pouco tempo antes,

um homem que tinha querido matar o rei Luiz XV? Foi posto a tormentos,

depois nas feridas abertas deitaram-lhe chumbo a ferver, e a final

ataram-n'o aos rabos de quatro cavallos, e esquartejaram-n'o. E comtudo

ninguem diz que Luiz XV tivesse cabellos no coração. As cousas faziam-se

assim no seu tempo, não foi o marquez de Pombal que as inventou.

Hão de vocês dizer: Este diabo gaba sempre as tyrannias por toda a

parte. Já defendeu D. João II, agora defende o marquez de Pombal. Eu não

as louvo, rapazes. Se vivesse n'esses tempos e podesse, havia de berrar

contra ellas; mas cá de longe, vendo as cousas com socego, digo que

ninguem é perfeito, e que todos os homens têem, como dizia o tal

engenheiro francez que esteve em Bellas, os defeitos das suas

qualidades. Ali está o Francisco Artilheiro que foi soldado: havia de

ter servido com muitos coroneis. Encontrou algum que fosse teso a valer

e que ao mesmo tempo desatasse a chorar, no tempo das varadas, quando

tinha de mandar chibatar algum soldado? Não póde ser. Estes pimpões que

quebram todos os abusos, que põem um joelho de ferro em cima de todas as

revoltas, fazem aos homens o mesmo que fazem ás cousas, e o dever de

quem depois conta a historia é perceber isso tudo, e não estar a berrar

contra aquelles que fizeram serviços ao seu paiz, só porque nem sempre

paravam onde seria melhor que tivessem parado.

Mas vamos nós ao resto da historia que d'aqui a pouco já as noites são

mais pequenas, e mal chega o tempo para dormir a quem tem de se levantar

com o sol. D. José morreu em 1777, e, apenas elle fechou os olhos,

rebentou o odio que havia contra o grande ministro; ninguem quiz lá

pensar no bem que elle tinha feito, e todos clamaram contra as suas

crueldades. Demais a mais quem succedia a D. José era sua filha a rainha

D. Maria I, muito beata, embirrando muito com o marquez, porque

desconfiava que elle quizera fazer passar o throno para o filho

d'ella, um rapazito muito esperto, chamado D. José; e então o rei a

morrer hoje e o ministro a ser demittido ámanhã. Não houve picardia que

lhe não fizessem. Mandaram-n'o para a sua quinta do Pombal, e, estando

elle já doente e amargurado, moeram-n'o com perguntas porque lhe armaram

um processo. Se podessem desfazer tudo o que elle fizera, desfaziam, mas

a final só soltaram os presos, porque emquanto ao mais tiveram medo de

dar bordoada no finado rei, que a final de contas respondia pelos actos

do ministro, porque elle é que assignava as ordens. Tiraram o retrato do

marquez da memoria do Terreiro do Paço, qué só em 1834 se tornou a pôr

como era justo; em vez do retrato pozeram as armas de Lisboa que são um

navio á véla, e foi então que o marquez de Pombal disse, ao saber do

caso: Ai! Portugal que vaes a véla!

Bem quizera D. Maria I admittir os jesuitas outra vez, mas não podia

ser, porque o marquez de Pombal não só os expulsára de Portugal, mas

fizera uma liga contra elles em toda a Europa, e conseguira que o papa

Clemente XIV acabasse com a Ordem. Muito trabalharam os parentes dos

Tavoras para conseguir que se désse uma sentença a declarar que era peta

o que se dissera a seu respeito, e injusta a sentença que os condemnava;

mas a final não conseguiram isso, porque a rainha percebeu que,

condemnando o marquez de Pombal, a quem condemnava era ao pae.

No mais tudo andou para traz, a não ser na marinha, que teve um bom

ministro, Martinho de Mello, e n'isto de escolas que sempre se foram

desenvolvendo. Houve alem d'isso dois homens que fizeram muito bem a

Lisboa e ao Porto, a saber, o intendente da policia Pina Manique e o

corregedor do Porto Francisco de Almada. É que já se não podia deixar de

cuidar de melhoramentos; mas o que deu cabo de nós foi a birra que

tivemos em nos metter na bulha contra a republica franceza. Isso, fallar

em Portugal nas idéas novas, era o mesmo que fallar no diabo, e D. Maria

I, em vez de tratar da sua vida, seguio o caminho de D. João V. Este

ía-se metter com os turcos que lhe não faziam mal nenhum, D. Maria I

foi-se metter com a republica franceza, que estava lá tão longe e que

nada tinha com Portugal.

O que resultou d'aqui é que mandámos uma divisão ao Russilhão a ajudar

os hespanhoes, e uma esquadra a Toulon a ajudar os inglezes. A divisão

do Russilhão portou-se o que se chama bem, mas depois? A Hespanha fez a

paz com a França, e nós ficámos a olhar ao signal, a Inglaterra

mettia-nos na dança, e depois punha-se de palanque. Tivemos de andar a

pedir a paz á republica franceza, quasi de joelhos, e o Napoleão, que já

n'esse tempo começava a governar em França, e que nos tinha jurado pela

pelle, teve a habilidade de açudar a Hespanha contra nós,

resultando d'ahi a guerra de 1801. Foi uma guerra vergonhosa. Tinhamos o

exercito escangalhado, não fizemos senão levar bordoada, e, para

alcançarmos paz, tivemos de pagar bom dinheiro, e de dar aos hespanhoes

Olivença que nunca mais apanhámos. De nada nos valeram todas as

humilhações. Em 1807, Napoleão, que já era imperador, e que andava n'uma

lucta de morte com a Inglaterra, quiz que fechassemos os portos aos

nossos antigos alliados. Andámos a hesitar, até que Napoleão, que não

gostava de perder tempo, declara que a casa de Bragança deixára de

reinar, e mette-nos cá dentro um exercito commandado pelo Junot. A

familia real não teve senão tempo de fazer as malas e de partir para o

Brazil, por conselho dos inglezes. Devo-lhes dizer uma cousa: a rainha

D. Maria I endoidecera havia muito tempo, e quem governava em seu nome

como principe regente desde 1792, era o principe D. João, seu filho mais

velho, porque aquelle D. José, de quem lhes fallei, e que dava tantas

esperanças, tinha morrido em 1788.

Imaginem vocês como ficaria o povo com esta _partida_, e agora é que é o

caso de se lhe chamar _partida_.

Abandonado pela familia real, viu o Junot tomar conta do governo,

agarrar no exercito portuguez, que não tinha ordem para resistir, e

mandal-o para França servir no exercito de Napoleão, lançar

contribuições pesadas como o diabo, e emfim tratar isto como terra

conquistada. E, para maior vergonha, Junot invadira o paiz, no coração

do inverno, com meia duzia de gatos, e entrára em Lisboa á frente de

quatro soldados estropiados e esfarrapados. A vergonha de todas estas

humilhações começou a fazer ferver o sangue aos portuguezes, e um bello

dia rebentou a revolta no Porto. Foi como quem diz um rastilho de

polvora. Desde o Minho até ao Algarve, não houve terra em que se não

pegasse em armas contra os francezes. O Junot mandou as suas tropas

esmagar as revoltas, e os francezes fizeram então cousas do arco da

velha, mataram, roubaram, queimaram...

--Ah! pae do céu! exclamou a tia Margarida, eu era bem pequenina então,

havia de ter sete ou oito annos, mas lembra-me do que minha mãe me

contava. Havia um que ella chamava o _Maneta_, que isso parece que era o

diabo em pessoa.

--Era o general Loison, que não tinha um braço. Em Evora fez elle o

demonio, mas, por mais que fizessem, não conseguiam acabar com a

revolta. Era pobre gente do povo, sem armas, sem disciplina, sem chefe,

que assim se levantava contra os francezes, e estes davam-lhe para baixo

facilmente, mas a gente levava aqui em Bellas, levantava-se em Cintra,

íam os francezes a Cintra, levantavam-se os de Bellas. Demais a mais,

cada qual faz a guerra como póde. Lá em batalha não podiam os

nossos medir-se com os soldados de Napoleão. O que faziam? Davam-lhes

caça; em os apanhando separados, carga para cima d'elles. Era facada,

era paulada, era tiro de bacamarte, era o que podia ser, com os diabos!

que um povo é como uma pessoa, quando o querem pisar aos pés, defende-se

com unhas e dentes. Mas n'isto os inglezes, que andavam á tóca de ver se

podiam saír da sua ilha e desembarcar n'algum sitio onde podessem

incommodar Napoleão, assim que viram que Portugal estava revoltado,

desembarcaram aqui um exercito commandado por um sugeito chamado

Wellington, que, se não era tão bom general como Napoleão, pelo menos

parece-me que ainda seria mais feliz do que elle. O Junot, que não

passava de ser um valentão, foi batido pelos inglezes na Roliça e

Vimeiro, onde os nossos, já se vê, tambem combateram ao lado das fardas

vermelhas, que é, como vocês sabem, o uniforme inglez, e, para se safar

de Portugal, teve de capitular. É verdade que o patife apanhou uma

capitulação, que a não podia ter melhor se fosse elle que houvesse dado

a tunda nos inglezes. Levou-nos tudo o que nos tinha roubado, e nem se

fallou nos nossos soldados que lá andaram, contra vontade sua, a servir

no exercito de Napoleão.

--Ó sr. João, acudiu o Manuel da Idanha, vocemecê ha de desculpar

uma pergunta, mas parece-me que ninguem póde vir por terra de França a

Portugal, sem passar pela Hespanha, não é verdade?

--É sim, rapaz; mas que queres tu dizer com isso?

--Quero dizer que não percebo como foi que o Junot cá veio. Então os

hespanhoes deixaram-n'o passar?

--Fizeram mais alguma cousa, vieram com elle, porque n'esse tempo

estavam ainda muito manos com os francezes, tanto que repartiram entre

si Portugal como quem reparte um melão, uma talhada para este, outra

talhada para aquelle, etc. Mas o Napoleão surripiou aos hespanhoes a sua

familia real, e fez rei de Hespanha um seu irmão chamado José, de fórma

que, quando nós nos revoltámos, revoltaram-se elles tambem, e começámos

uns e outros á lambada aos francezes.

Entretanto cá se arranjára um governo; tratou elle de organisar o

exercito, que ainda era á moda de 1640, e que só precisava de um general

como o principe de Lippe para ficar uma joia. Esse general appareceu,

foi um inglez chamado Beresford, que n'um abrir e fechar de olhos poz

tudo a direito. O que é certo, meus amigos, é que na guerra da

Peninsula, que durou seis annos, os nossos soldados, combatendo ao lado

dos soldados inglezes, passavam por ser tão bons como elles e

talvez melhores. Já se vê que tinha sido necessario virem muitos

officiaes inglezes para os nossos regimentos, porque a officialidade

portugueza estava toda dispersa, uns tinham ido para França, outros para

o Brazil, e outros, diga-se a verdade, não prestavam para nada.

--Ó sr. João, dá licença que lhe faça uma pergunta? interrompeu de novo

o Manuel da Idanha.

--Faze, rapaz, podéra! Pois então para que estou eu aqui?

--Porque é que se chamou a essa guerra a guerra da Peninsula?

--Não te disse eu, rapaz, no principio d'esta conversa, que Portugal e a

Hespanha juntos formavam uma peninsula, quer dizer quasi uma ilha,

porque a cérca o mar por toda a parte menos por um lado, que é onde pega

com a França pelos Pyrenéus?

--Disse, sim senhor.

--E não te acabei de dizer que, quando nos revoltámos contra Napoleão,

revoltaram-se tambem os hespanhoes, e que desatámos uns e outros á

pancada aos francezes?

--Tambem é verdade.

--Pois então ahi tens tu: a guerra era de Hespanha e de Portugal, por

conseguinte era a guerra da Peninsula.

--Ora tambem quero fazer uma pergunta, disse a tia Margarida.

--Pois então, tia Margarida! Era o que faltava era que as mulheres não

tivessem a palavra.

--O que você precisava era de um puxão de orelhas, mas emfim lá vae a

pergunta. Eu, sempre que minha mãe fallava n'essas cousas, ouvia-lhe

dizer que os francezes eram muito maus, mas que os inglezes talvez ainda

fossem peores. Ora você diz que os inglezes vieram ajudar-nos...

--Dizia muito bem a sua mãe, tia Margarida, mas eu tambem não digo mal.

Soldados inglezes sempre foram abrutados, principalmente em estando com

o vinho. Nunca vieram a Portugal senão ajudar-nos, e nunca tambem cá

vieram que não ficasse tudo a berrar contra elles. Olhem no tempo de D.

Fernando. Parece-me que lhes contei que, vindo elles combater ao nosso

lado contra os hespanhoes, fizeram o que o demonio não fez. E, agora que

já respondi ás suas perguntas, vou continuar a minha historia.

O Junot foi posto fóra em 1808, os inglezes então viraram-se contra os

francezes que estavam na Hespanha, e metteram-se pela Galliza dentro,

mas o Soult, apanhando-os lá, deu-lhes uma tareia formidavel, e depois

veio sobre Portugal e entrou no Porto. A gente do Porto, a fugir dos

francezes, metteu-se na ponte de barcas que então havia sobre o

Douro, para passar para o outro lado; a ponte abateu e morreram milhares

de pessoas.

--Ah! bem sei! interrompeu a tia Margarida, diz que foi o dia de juizo.

--Ora se foi! os francezes pararam no Porto, mas nós e os inglezes

fomo-nos a elles d'ahi a tempo e pozemol-os fóra. O Napoleão, embirrando

com o caso, mandou um exercito commandado pelo marechal Masséna, um dos

seus melhores generaes, com ordem de atirar o Wellington ao mar; mas o

Wellington, que era homem avisado, e que não gostava de tomar banhos de

choque, aproveitára o tempo a arranjar as linhas de Torres Vedras, de

traz das quaes se metteu. O Masséna bateu com as ventas nas linhas, vio

que não podia fazer nada, foi-se embora, e nós logo atraz d'elle.

Para encurtar rasões, em quatro annos de campanha, fomos a pouco e pouco

empurrando os francezes pela Hespanha fóra, em 1814 entrámos em França

de embrulhada, e, como os russos, os austriacos e os prussianos tambem

entraram por outro lado, levando o Napoleão adiante de si, caíu aquella

caranguejola toda, o Napoleão teve de dar a sua demissão de imperador, e

nós ficámos livres dos francezes.

Dois annos depois, em 1816, morreu a rainha D. Maria I no Brazil, sem

que ninguem, por assim dizer, désse por isso. O principe regente tomou

o nome de D. João VI e continuou tudo como até ahi.

Entretanto em Portugal estava tudo descontente. O povo levantára-se

contra os francezes por sua conta e risco, e parecia-lhe historia que o

rei, que fugira, continuasse a não fazer caso nenhum d'elle.

Em Hespanha tinham-se reunido côrtes e arranjára-se uma constituição

pela qual se acabava com o poder absoluto dos reis. Em Portugal, se não

se fizera o mesmo, não fôra por falta de vontade, mas os inglezes não

deixavam. Todos percebiam, porém, que se não podia voltar á antiga, como

se não se tivesse passado cousa nenhuma no intervallo. Por outro lado a

teima do rei em ficar no Brazil já nos ía fazendo chegar a mostarda ao

nariz, tanto mais que, ao passo que havia por cá muita miseria, estava

sempre a ir dinheiro para o Brazil, e não só dinheiro mas tropa tambem,

porque D. João VI, em 1817, lembrára-se de juntar Montevideu ao Brazil,

como se o Brazil ainda fosse pequeno, aproveitando para isso a revolta

das colonias hespanholas. Emfim, a conservação de Beresford e dos

coroneis inglezes no quadro do exercito portuguez incommodava os nossos

officiaes, e descontentava a nação.

Em 1817, descobre-se ainda por cima uma conspiração liberal, dão como

implicado n'ella, com provas de cá cá rá cá, um general muito

estimado, Gomes Freire de Andrade, de quem diziam que Beresford tinha

ciumes, e enforcam-n'o. Tudo isto ía fazendo ferver o sangue aos

portuguezes, e, quando em 1820 começou a haver revoluções liberaes por

toda a parte, rebenta tambem uma revolução liberal no Porto, espalha-se

logo por todo o reino, chega a Lisboa, e pega-se ao Brazil. D. João VI é

obrigado a acceital-a, e a vir para Portugal, a mandar embora os

officiaes inglezes, e a assignar uma constituição que as côrtes fizeram;

mas os governos lá de fóra, e logo os mais poderosos, acharam perigoso

que se tornasse a fallar em liberdade e constituições, e decidiram que

viesse um exercito francez pôr a mordaça na boca aos liberaes da

Hespanha, emquanto um exercito austriaco ía fazer o mesmo aos da Italia.

Apenas cá chegou a noticia, os amigos do absolutismo, que tinham por

chefe o infante D. Miguel, segundo filho do rei, levam este para Villa

Franca, e deitam abaixo a constituição. Mas o que a fez caír não foram

elles, foram os passos dos soldados francezes que já a essas horas

andavam por Hespanha.

Entretanto o Brazil, onde ficára governando o principe D. Pedro, que era

o filho mais velho do rei, fazia-se independente. Antes d'elle tinham

feito o mesmo as colonias visinhas que pertenciam á Hespanha, e

cincoenta annos antes as que pertenciam á Inglaterra. No Brazil já

houvera duas tentativas de revolta, e ambas tinham sido afogadas em

sangue, uma em 1789, outra em 1817. A final venceram. Accusam muito D.

Pedro de se ter feito imperador do Brazil, e de se haver revoltado

contra seu pae. Elle não se revoltou, mas só podia fazer uma de duas

cousas, ou ir com os brazileiros, ou pôr-se no andar da rua. Então esses

figurões imaginavam que um paiz rico, grande e forte, está agora para

receber ordens de outro mais pequeno, ou maior que elle seja, e que fica

de mais a mais do outro lado do mar? Ora, historias da vida! e não se

queixem d'isso. É ordem das cousas. As colonias são como os filhos. A

gente educa-os, trata-os, deixa-os ir crescendo. Quando são maiores

emancipam-se. E ninguem tem que estranhar. Foi o que aconteceu com o

Brazil. Estava maior, emancipou-se. Perdemos o Brazil em 1825, em 1826

morreu D. João VI. Os seus ultimos dias foram amargurados. Tivera guerra

com o filho mais velho que se revoltára com o Brazil; estivera para ser

desthronado pelo filho mais novo, D. Miguel, que o chegára a prender na

Bemposta, e que elle depois tivera que mandar para fóra do reino; a

mulher, D. Carlota Joaquina, que estava sempre ás turras com elle, nunca

lhe déra senão desgostos. Falleceu ralado o pobre do rei, que era uma

excellente pessoa, amigo de tomar o seu rapé com socego, e que para sua

desgraça governára no tempo da revolução franceza, no tempo de

Napoleão, e no tempo da revolução de 1820. E ha de a gente acreditar no

rifão: Dá Deus o frio conforme a roupa.

E, como eu tambem estou com frio, rapazes, vou até casa á procura de

roupa, e no proximo domingo acabaremos com isto.

Historia alegre de Portugal: leitura para o povo e para as escolas · 第 22 / 24 题