Historia contemporanea.--D. Pedro IV.--A Carta Constitucional.--Regencia
da infanta D. Izabel Maria.--D. Miguel, rei absoluto.--Sublevação do
Porto.--Emigração.--A ilha Terceira.--O conde de Villa
Flor.--Perseguição aos liberaes.--A esquadra franceza no Tejo.--D. Pedro
IV põe-se á frente dos liberaes.--Desembarque no Mindello.--Cêrco do
Porto.--Expedição do Algarve.--Batalha do Cabo de S. Vicente.--Entrada
das tropas do duque da Terceira em Lisboa, a 24 de julho.--Cêrco de
Lisboa.--Batalhas de Asseiceira e Almoster.--Convenção de Evora
Monte.--Reinado de D. Maria II.--Revolução de Setembro.--Constituição de
1838.--Restauração da Carta.--A Maria da Fonte.--A Junta do Porto.--A
intervenção estrangeira.--A Regeneração.--Reinado de D. Pedro V.--A
febre amarella.--Reinado de D. Luiz.--Conclusão.
--Vocês percebem, meus amigos, principiou o João da Agualva, que, tendo
de lhes contar agora acontecimentos em que tomou parte muita gente que
ainda está viva e sã, e não querendo offender ninguem, não posso estar
com muitas reflexões. Quem succedeu a D. João VI foi D. Pedro IV, já
então imperador do Brazil. Este, que era um principe que percebia as
cousas, vio bem que o nosso tempo já não era tempo para
absolutismos, e antes quiz dar elle uma constituição do que ir o povo
arrancar-lh'a. Mandou portanto para Portugal a Carta, dizendo ao mesmo
tempo que abdicava em sua filha D. Maria, a qual havia de casar com seu
tio o infante D. Miguel, e, emquanto D. Miguel não voltava para
Portugal, nomeou regente a infanta D. Izabel Maria, que vocês haviam de
conhecer muito bem.
--Ora se conhecemos! morava ali em Bemfica!
--Tal qual! morreu ha cousa de tres ou quatro annos. A Carta
Constitucional ficou sendo lei do reino, apezar de algumas revoltas, mas
o infante D. Miguel, apenas chegou a Lisboa em 1828, fecha as côrtes,
atira com a Carta de pernas ao ar e faz-se proclamar rei absoluto. A
guarnição do Porto não está pelos ajustes, e revolta-se, mas tem de
fugir para Hespanha. Tudo o que eram liberaes, e que poderam safar-se,
emigraram uns para França, outros para Inglaterra. Mas o que é certo é
que o povo todo estava com D. Miguel. Porque? Como póde haver um povo
que não goste de liberdade? Vão lá explical-o! Os padres e os frades
estavam quasi todos ao lado de D. Miguel, e levavam comsigo muita gente.
Mas a ilha Terceira não esteve pelos autos, e não acceitou o
absolutismo. Apenas isso constou, correram os emigrados para essa ilha,
o conde de Villa Flor tomou conta do governo, e ali resistio ás
esquadras de D. Miguel. Este, entretanto, com o devido respeito,
fazia tolices graúdas, e a maior era perseguir os liberaes a ferro e
fogo. A forca estava sempre armada, as prisões sempre atulhadas, e os
caceteiros não deixavam ninguem socegado. Isto de fazer martyres é o
diabo. Para a arvore da liberdade não ha rega como o sangue dos seus
filhos.
Ora, além d'isso, emquanto o governo francez se mostrava pouco amigo da
liberdade, tinha D. Miguel as sympathias da França, mas depois da
revolução de 1830 aconteceu o contrario. O governo de D. Miguel caíu na
asneira de perseguir uns francezes. D'ahi resultou vir uma esquadra
franceza ao Tejo e levar os navios que ahi estavam. Ao mesmo tempo D.
Pedro, que tivera os seus dares e tomares com os brazileiros, abdicou a
corôa imperial do Brazil, e veio tomar o commando dos defensores de sua
filha. Põe-se á frente d'elles, que não eram muitos, eram 7:500,
desembarca no Mindello a 8 de julho de 1832, mette-se no Porto, e ahi
resiste mais de um anno aos soldados de D. Miguel, que eram muito
valentes, mas mal commandados. Envia ao Algarve em 1833 meia duzia de
gatos, debaixo das ordens do conde de Villa Flor, já então duque da
Terceira, n'uma pequena esquadra, que primeiro fôra commandada por um
inglez chamado Sertorius, que ainda vive, e que o estava sendo por outro
inglez chamado Napier. Este desembarca o duque da Terceira no
Algarve; depois vae-se á esquadra miguelista e derrota-a no cabo de S.
Vicente. O duque da Terceira marcha sobre Lisboa, bate na cova da
Piedade os miguelistas, commandados pelo Telles Jordão, que tinha sido
um tyranno para os presos liberaes, e que ali morreu, e entrou em Lisboa
no dia 24 de julho de 1833. D. Pedro vem para Lisboa que os miguelistas
cercam. Elle e os seus dois marechaes, duques da Terceira e de Saldanha,
obrigam os miguelistas a retirar para Santarem. Depois o duque de
Saldanha por um lado bate os miguelistas em Almoster, o duque da
Terceira por outro bate-os na Asseiceira, e D. Miguel assigna a 25 de
maio de 1834 a convenção de Evora Monte, pela qual o seu exercito
depunha as armas, e elle abandonava Portugal. Como se esperasse
unicamente o fim da sua empreza para terminar tambem a sua vida, D.
Pedro IV veiu aqui morrer a Queluz no dia 24 de setembro de 1834. Podem
para ahi pensar d'elle o que quizerem, meus amigos, mas o homem que,
tendo nascido no throno, passou a sua vida a regeitar corôas, e a
combater, como um soldado valente, pela liberdade dos povos, merece bem
as tres estatuas que no Porto, em Lisboa e no Rio de Janeiro, mostram
que, ao menos depois da sua morte, não foram ingratos com elle os
portuguezes e os brazileiros.
Succedia-lhe a senhora D. Maria II, que viveu bem pouco tempo, e
teve uma vida bem atormentada. Logo em 1836 um partido, que queria mais
liberdades que as da Carta fez a revolução de setembro, e em 1838 veiu
uma nova constituição. Contra ella se fazem muitas revoltas, até que em
janeiro de 1842 Costa Cabral, depois conde de Thomar, deita abaixo a
constituição de 1838, e põe outra vez a Carta de pé. Governou elle muito
tempo, mas, diga-se a verdade, um poucochinho á bruta. D'ahi vieram mais
revoluções, e a maior de todas que foi a da Maria da Fonte, em 1846, em
que metade do reino obedecia á Junta do Porto, e a outra metade ao
governo nomeado pela rainha. Batidos em Val-Passos, em Torres Vedras, e
no Alto do Viso, os _patuléas_, como se chamava aos partidarios da
junta, são obrigados a depor as armas pelos inglezes e pelos hespanhoes
que mandaram uns uma esquadra, os outros um exercito para restabelecerem
aqui o socego. Mas no fundo estava tudo em braza, e quando em 1851 o
duque de Saldanha se levantou contra o conde, hoje marquez de Thomar,
foi tudo atraz d'elle. Reuniram-se côrtes que introduziram umas mudanças
na Carta, e d'ahi por diante nunca mais houve revoltas de consideração.
Pegaram os governos a fazer estradas e caminhos de ferro, e lá de
partidos é que eu não entendo. Em 1853 morria a senhora D. Maria II,
considerada por todos como uma santa senhora, e uma santa mãe, e
succedeu-lhe seu filho, o senhor D. Pedro V, sendo regente nos
primeiros dois annos o senhor D. Fernando que vocês todos conhecem. O
sr. D. Pedro V era uma joia, como sabem. Quando em 1857 veio a febre
amarella a Lisboa, andou elle pelos hospitaes, a consolar os doentes, e
a dar coragem e exemplo a todos. Tambem quando em 1859 morreu a boa
rainha Estephania, sua mulher não houve portuguez que a não chorasse com
elle, e quando em 1861 morreu elle tambem quasi de repente, com os seus
dois irmãos, o senhor D. Fernando e o senhor D. João, a dôr do povo foi
tamanha que chegou a haver tumultos, porque até se desconfiava que
aquillo não fosse natural. Subio ao throno o senhor D. Luiz que hoje
reina, e aqui portanto acaba a historia. Sempre direi, com tudo, que não
são muitos os paizes por esse mundo onde os povos ainda hoje chorem
pelos reis, e que isso vem de serem os nossos tão amigos da liberdade
como são e tem sido, graças a Deus. E aqui, meus amigos, acabo a minha
tarefa; o que eu desejo, rapazes, é que vocês achem que não os massou
muito o pobre do João da Agualva, e que entendam que empregaram melhor o
seu tempo a ouvir as minhas historias, do que a beber decilitros na
taverna do Funileiro.