OITAVO SERÃO

Unanimidade da revolução.--Preparativos de resistencia.--Organisação

militar do paiz.--As allianças.--Relações de Portugal com

a Hollanda.--Restauração de Pernambuco e de Angola, e perda

de Ceylão.--Conspirações contra D. João IV.--Guerra da

Restauração.--Batalhas de Montijo e de Telena.--D. Affonso VI.--A sua

educação e a sua indole.--Regencia da rainha D. Luiza.--Antonio

Conti.--O conde de Castello Melhor.--Continuação da guerra.--Cerco de

Badajoz.--Batalha das Linhas de Elvas.--Paz entre a Hespanha e a

França.--Campanhas de D. João de Austria.--Schomberg.--Victorias do

Ameixial, Castello Rodrigo e Montes Claros.--Planos do conde de Castello

Melhor.--Intrigas do Paço.--Casamento, desthronamento e divorcio

vergonhoso de D. Affonso VI.--Regencia do infante D. Pedro.--Casamento

com a cunhada.--Tratado de Methwen.--Guerra da successão de

Hespanha.--D. João V.--As minas do Brazil.--Desperdicios, beaterio e

immoralidades.

--Meus amigos, principiou no outro domingo o João da Agualva, e já

ninguem o interrompia, tal era o interesse com que todos seguiam a sua

narrativa; o que succedeu na capital, succedeu no reino todo. Aquillo

foi chegar a noticia do que se passava em Lisboa, e de um momento para o

outro desappareciam os hespanhoes, e tornava tudo a ser Portugal.

Poupámos-lhes muita despeza em correios, porque logo souberam pelo

primeiro que Lisboa se tinha revoltado, que tinha vencido, que reinava

em Portugal D. João IV, e que a Hespanha, do Minho para baixo e do

Caya para o occidente, já não possuia nem um palmo de terra. Querem

vocês saber como o conde-duque de Olivares deu a noticia ao patrão? Foi

d'esta maneira:--Dou os parabens a Vossa Magestade; acabam de lhe entrar

uns poucos de milhões no bolso.--Como assim? perguntou o rei que estava

a jogar, e que não desgostaria de que lhe saisse d'essa maneira a sorte

grande de Hespanha.--Porque o duque de Bragança, tornou o ministro,

acaba de se revoltar, e de se fazer rei de Portugal, e, como temos de

lhe tirar os bens e de lhe cortar a cabeça, fica Vossa Magestade mais

rico. O rei não gostou muito d'esse modo de enriquecer, e ainda olhou

para os parceiros a ver se algum lhe dava quatro vintens pela herança.

Nenhum caíu n'essa.

Isso era muito bom, mas Portugal é que não vivia de cantigas. A Hespanha

era então ainda maior do que hoje é, e, se ella nos caísse em cima,

estavamos promptos. De que precisavamos nós? De dinheiro, de soldados e

de allianças. Tratou-se logo de tudo. Dinheiro votaram as côrtes quanto

se quiz; para arranjar soldados fez-se uma obra fina que nunca ninguem

até ahi tinha feito, e que foi pôr toda a gente em armas. E como?

dividiu-se o reino em tres linhas; a primeira de soldados, que se

chamavam pagos, a segunda de milicianos, e a terceira, que era a dos

velhotes, de ordenanças. Uns íam á guerra, os outros ajudavam-nos

em sendo preciso, saíndo, o menos que podesse ser, dos seus sitios, e

finalmente os ultimos defendiam as suas terras, porque isso, atraz de um

muro, todos fazem figura. Digo-lhes, rapazes, que aquillo é que foi uma

idéa, e olhem que não nos serviu só então, tambem na guerra da peninsula

foi o que nos valeu, e, aqui para nós, não me parece que fizessem muito

bem em deitar abaixo aquella historia. Estava já tudo costumado, e

quando vinha uma guerra, saltava toda a gente para o meio da rua; e

olhem que isto de estar um homem dentro de casa, de espingarda na mão,

dá que fazer aos mais pintados. E logo se viu.

Emquanto a allianças tambem não faltaram; é verdade que não serviram de

muito, porque cada um cuidava de si. A França, prompta, o que ella

queria era abaixar a prôa á Hespanha, mas, como tambem lá andava em

guerra com os hespanhoes, o mais que fez foi consentir que arranjassemos

officiaes francezes pelo nosso dinheiro; a Inglaterra, a mesma cousa,

muita festa para a festa, mas andava embrulhada em guerras civís, não

mandou para cá nem um navio. Então a Hollanda ainda foi peor, isso...

recebeu o nosso embaixador de braços abertos, poz luminarias, achou que

tinhamos feito muito bem, mas, quando o embaixador lhe disse: «Então

agora que estamos amigos, venham para cá as nossas colonias, que

são nossas e não dos hespanhoes», a Hollanda exclamou: «As colonias! ah!

sim! nós somos tão amigos d'ellas! Estão já acostumadas comnosco! até

tinhamos pena de as deixar». E acrescentava o embaixador: «Mas então,

c'os diabos, ao menos não nos tomem mais nenhuma».--«Não tomamos, dizia

a Hollanda, isso nunca. Ora agora sabem vocês? as colonias são como as

cerejas. O caso é apanhar uma». Ah! elle é isso! disseram os portuguezes

comsigo, pois então vamos a ellas. E, zás, rebenta uma revolta em

Pernambuco, e os brazileiros a berrarem: Viva D. João IV! A Hollanda

chamou o nosso embaixador: «Então que diabo é isso? nós somos amigos e

fazem-nos uma partida d'estas!»--«Patifes! dizia o embaixador. Aquillo é

do sol! esquenta-lhes a cabeça, e dão por paus e por pedras. Mas, aqui

para nós, se elles dizem: Viva D. João IV, não havemos de lhes ir dizer:

Morra D. João IV! Não nos ficava bem.»--«Pois sim, mas digam-lhes que

estejam quietos.»--«Pois isso dizemos nós.» E D. João IV mandava para lá

armas e officiaes, e dizia-lhes: «Ahi vae isso, que é para vocês estarem

quietos.» E em poucos annos estavamos senhores de Pernambuco, e os

hollandezes na rua.

D'ahi a tempos, Salvador Correia de Sá ía a Angola e punha fóra os

hollandezes que nos tinham tomado esse reino.--«Então isto que vem a

ser? bradaram os hollandezes, então os senhores vão de proposito do

Brazil a Angola para nos sacudir!»--«Quem é que fez isso?» perguntava o

embaixador.--«Salvador Correia de Sá.»--«Sim! pois estejam vocês

descançados, que lhe vamos já perguntar pelo correio, que diabo de

lembrança foi essa. Em vindo resposta cá lh'a mandamos. E a proposito,

sr.ª Hollanda, vocês tomaram-nos Ceylão?»--«Tomámos Ceylão, mas que

defeza! Antonio de Sousa Coutinho defendeu-se maravilhosamente. Os

nossos generaes são todos accordes que nunca encontraram resistencia tão

desesperada! Quando escreverem para lá, mandem os nossos parabens ao sr.

Antonio de Sousa Coutinho e recommendações aos amigos.»

E era assim que nós estávamos com a Hollanda: abraços na Europa e

lambada lá por fóra.

Houve só duas côrtes que não quizeram nunca reconhecer a independencia

de Portugal; uma foi a côrte de Roma que estava toda nas mãos dos

hespanhoes, e a outra a da Allemanha, cujo imperador era da mesma

familia que a do rei Filippe. E fizeram-nos transtorno: a primeira

porque estávamos assim a modo excommungados, a segunda por uma patifaria

que praticou o imperador, mandando prender sem mais nem menos o principe

D. Duarte de Bragança, irmão de D. João IV, que andava por lá na guerra

contra os turcos, e que tanta conta nos faria em Portugal. Morreu

na cadeia o pobre rapaz por causa de nós e da traição do tal imperador.

Em Portugal, ao principio, tinha ido tudo bem, mas, assim que passou

aquelle primeiro fogo, houve muitos que começaram a pensar no caso e que

disseram comsigo: «Isto foi uma grande asneira. Vem ahi os hespanhoes e

dão cabo de todos nós. O melhor é pormos as costas no seguro, e, antes

que elles venham ter comnosco, vamos nós ao encontro d'elles, que sempre

apanharemos alguma cousa.» E n'isto desatam a conspirar contra D. João

IV. Foram castigados cruelmente. Morreram muitos com a cabeça cortada, e

mais nem todos eram culpados. Mas que querem vocês? A mania de D. João

IV era que o não tomariam a sério como rei em Madrid, emquanto não

mandasse cortar a cabeça a alguem.

Pois em primeiro logar visse bem a quem matava, e em segundo logar eu

sempre ouvi que os reis, quando são mais reis, é quando perdôam. E, alem

d'isso, os hespanhoes quando tomaram a sério D. João IV não foi quando

elle mandou cortar a cabeça a fidalgos portuguezes, mas quando os

soldados portuguezes lhes começaram a esfregar as costas a elles.

Lá que os taes conspiradores tinham rasão em estar com medo, isso

tinham, porque parecia mesmo impossivel que Portugal resistisse.

Tambem o que nos valeu foi a asneira dos hespanhoes, que nos primeiros

dois annos não fizeram senão dar um rebate falso a uma praça, atacar

outra, escaramuçar aqui, disparar uns tiros alem. Parecia que estavam

incumbidos por D. João IV de fazer andar os nossos soldados na recruta.

Em 1644 é que, pela primeira vez, fizeram assim movimento mais serio,

mas já tinhamos então soldados velhos, commandados por um bom general,

Mathias de Albuquerque, e os amigos hespanhoes levaram a primeira sova

mesmo lá na sua terra, em Montijo; em 1646 nova batalha em Telena, mas

n'essa perdemos nós mais do que lucrámos, ainda que os hespanhoes com

isso nada ganharam tambem, porque voltaram á costumeira antiga. Emfim,

para encurtar rasões, quando D. João IV morreu, em 1656, estavamos havia

dezeseis annos n'aquella brincadeira, hoje íamos nós á Hespanha e

apanhavamos gado, ámanhã vinham elles cá e levavam-nos o nosso. Mas quem

lucrava com isso? Éramos nós, porque os nossos milicianos, e as nossas

ordenanças íam-se costumando á guerra, e cada vez este bocadinho de

Portugal se ía tornando para a Hespanha mais duro de roer.

Em 1656 morreu pois D. João IV, como eu lhes disse, e succedeu-lhe seu

filho D. Affonso VI, a quem chamaram o _Victorioso_, como chamaram a

D. João IV o _Restaurador_, mas emfim a este com mais um bocadinho

de rasão.

D. Affonso VI não era o filho mais velho, mas o mais velho, um rapazito

que dava esperanças, Theodosio, morrera em 1653. D. Affonso VI fôra

desde creança muito doente, nunca podéra aprender cousa nenhuma e tivera

uma educação muito descuidada. O seu gosto era brincar com os garotos

que íam para debaixo das janellas do paço, e, quando foi homem, andava

em pandigas pela cidade, com uma roda de facinoras que faziam tudo o que

queriam á sombra d'elle, a ponto que até havia mortes nas ruas de

Lisboa! Como ainda era pequeno quando seu pae morreu, ficou regendo o

reino sua mãe D. Luiza de Gusmão, uma hespanhola muito decidida, que

diziam até que fôra quem mais concorrera para o marido acceitar a corôa.

A regente lá foi governando com acerto, emquanto o rapazote andava ao

laré com um tal Antonio Conti, que lhe soubera conquistar a amisade. A

rainha um dia pegou n'esse Antonio Conti, e ferrou com elle desterrado

no Brazil. Ó diabo que tal fizeste! o pequeno zanga-se, e, quando o

conde de Castello Melhor lhe disse que era bom que começasse a governar

por si, porque tinha já chegado á maioridade, D. Affonso, para pregar

pirraça á mãe, acceitou; eu não louvo o conde de Castello Melhor por ter

aconselhado esta acção, mas a verdade é que D. Affonso VI já estava

em idade de governar, e que, se não podia dirigir os negocios, sempre

era melhor que por elle os dirigisse um homem como o conde de Castello

Melhor, que tinha uma excellente cachimonia, do que a rainha, que,

apezar de ser esperta, sempre era senhora, e por isso menos capaz de

governar o reino em tempo de guerra.

Bem conheço que D. Affonso VI era um mau rei, que não tinha juizo, que

se entregava a divertimentos indecentes e até criminosos, mas uma

qualidade tinha elle, percebia perfeitamente que não sabia cuidar do

reino, e deixava o Castello Melhor fazer tudo quanto queria. Ora o

Castello Melhor era uma das melhores cabeças que têem governado o nosso

paiz, como vocês vão ver, porque é bom que saibam o que se passára na

guerra.

Logo depois da morte de D. João IV, um general portuguez, João Mendes de

Vasconcellos, fizera grande asneira. Vendo que os hespanhoes andavam só

a fazer fosquinhas, disse comsigo: Não nos hão de conquistar, e havemos

de ser nós que os conquistaremos a elles. Junta um exercito magnifico, e

vae cercar Badajoz. Ainda ali ganhámos uma batalha, que foi a do Forte

de S. Miguel, mas a final tivemos de levantar o cerco, depois de

havermos perdido inutilmente a flor dos nossos soldados. Ora o que

succedeu? Foi que, no anno seguinte, quer dizer em 1659, os hespanhoes,

picados com o nosso atrevimento, saíram da sua pachorra, juntaram

um exercito formidavel commandado pelo proprio ministro do rei, D. Luiz

de Haro, vieram sobre Portugal e cercaram Elvas. A cousa esteve

phosphorica, porque os nossos melhores soldados tinham ficado estendidos

diante de Badajoz, e andava isto por cá muito desarranjado. Mas para

alguma cousa haviam de servir os dezenove annos de guerra. Em primeiro

logar Elvas, governada por D. Sancho Manuel que foi depois conde de

Villa Flor, defendeu-se admiravelmente, em segundo logar o conde de

Cantanhede, depois marquez de Marialva, como não tinha outra gente,

reuniu um exercito quasi todo de milicianos e saltou nos hespanhoes que

cercavam Elvas. Foi no dia 14 de janeiro de 1659 que se deu a batalha,

conhecida pelo nome de batalha das linhas de Elvas, e nunca os

hespanhoes apanharam tamanha pilota. Os prisioneiros foram aos milhares,

artilheria, bagagens, tudo nos caío nas mãos, e o proprio D. Luiz de

Haro escapou-se por um fio. Tambem nunca mais nos perdoou aquella sova,

e, quando n'esse mesmo anno foi fazer a paz com a França, deu aos

francezes tudo quanto elles quizeram, só com uma condição--a de se não

fallar em Portugal. Era patifaria graúda do ministro francez, um padre,

um tal cardeal Mazarino, porque as tareias que davamos nos hespanhoes

tinham feito muita conta aos francezes. Mas o Mazarino foi

apanhando o que poude, e pouco lhe importou mandar-nos á fava.

Vêem vocês a situação em que ficámos. Quando começámos a guerra com a

Hespanha, estava ella em guerra tambem com quasi toda a Europa, o que

não era mau para nós. Em 1648 fez a paz com muitas nações, e isso não

foi lá muito bom, porém, como a França continuava em guerra, e essa só

por si dava mais que fazer á Hespanha do que todas as outras juntas,

ainda a cousa não ía mal; mas agora? A França fazia a paz, quasi que se

alliava com os hespanhoes, porque o rei de França, Luiz XIV, casava com

uma princeza hespanhola, e nós é que ficavamos em campo, com a Hespanha

ás costas. Ella ainda esteve dois annos a apalpar-nos, mas em 1662

rompeu o fogo com alma. Poz um dos seus melhores generaes, D. João de

Austria, filho bastardo do rei, á frente dos seus exercitos, e caíu em

cima de nós com todo o seu peso.

Ora foi exactamente em 1662 que entrou no poder o conde de Castello

Melhor, e foi sobre elle que desabou esse temporal desfeito. Nunca

Portugal se vira em tão maus lençoes. D. João de Austria tomava praças

sobre praças, e na campanha do anno immediato, 1663, quasi que chegava

ás portas de Lisboa. Mas o ministro fizera o diabo, parece que até das

pedras tinha feito soldados. Depois, como Mazarino era um finorio, que

não desgostava de jogar com pau de dois bicos, ao passo que

contentava a Hespanha, mandava-nos para cá os officiaes que podia, entre

elles o conde de Schomberg, que era um general de mão cheia. Não

commandou nunca em chefe, porque os nossos não gostavam, e tinham rasão,

que elles já haviam dado provas de que não precisavam de tutores; mas

foi um excellente conselheiro. O que é certo, meus amigos, é que, em

tres annos successivos, em que os hespanhoes fizeram todos os esforços

para dar cabo de nós, levaram tres sovas mestras; a primeira deu-lh'a em

1663 o conde de Villa Flor na batalha do Ameixial, a segunda em 1664

Pedro Jacques de Magalhães na batalha de Castello Rodrigo, a terceira em

1665 na batalha de Montes Claros o marquez de Marialva. D'ahi por diante

nunca os hespanhoes levantaram cabeça, e não pensaram mais em tomar

conta outra vez de Portugal.

Ora o conde de Castello Melhor tinha uma grande idéa; dizia elle

comsigo: os hespanhoes levaram tanta pancadaria, que, se fazemos a paz

com elles, ficando nós simplesmente com o que tinhamos ao principio,

póde-se dizer que fomos logrados. Demais a mais Portugal é pequeno, a

Hespanha é grande; em qualquer bulha que tivermos estamos de mau

partido. É necessario fazer Portugal maior e a Hespanha mais pequena. E

toda a sua tineta era obrigar os hespanhoes a dar-nos a Galliza. E

o que fazia elle então? Encostava-se a Luiz XIV, rei de França, que

andava namorando umas provincias hespanholas lá de Flandres. Casava D.

Affonso VI com uma princeza franceza, e dizia comsigo: Mais dia menos

dia, Luiz XIV pega-se com a Hespanha. Nós vamos com elle. A Hespanha

leva para o seu tabaco a valer. Elle fica com as provincias que quizer,

até com a Flandres toda, se isso lhe fizer conta, e nós com a Galliza, e

com mais alguma cousa se podér ser.

--E era bem pensado, sr. João da Agualva, observou o Bartholomeu, porque

é que não havia de ser nossa a Galliza?

--Tens rasão, e já vês que, se nós tivessemos a Galliza tambem, não

estavamos sempre com medo de ser engulidos pelos visinhos. Mas que

queres tu? Entretanto íam grandes intrigas no paço. A rainha, que era

uma princeza toda _liró_ e toda costumada ás janotices da côrte de Luiz

XIV, achando-se casada com um homem que só se dava bem com moços de

cavallariça, e que de mais a mais era tão doente que nem marido podia

ser, principiou a desgostar-se, e ao mesmo tempo a agradar-se do infante

D. Pedro, rapaz desempennado, que tambem não desgostava da francezita.

Pensaram em se juntar e governar o paiz. Principiaram as intrigas. Tanto

fizeram que conseguiram pôr fóra o conde de Castello Melhor.

Desamparado, o pobre D. Affonso VI não tardou a ser expulso do

throno, e até o descasaram, coitado! Foi necessario para isso um

processo que é uma vergonha, e realmente não posso perceber como foi que

uma rainha se deixou assim andar nas bôcas do mundo!... Emfim, o que é

certo é que desterraram o pobre D. Affonso VI, mandando-o para a ilha

Terceira; prenderam-n'o depois em Cintra, onde morreu, e a rainha casou

com o cunhado, e este ficou a governar o reino. Eu já lhes disse,

rapazes, que bem conheço os defeitos de D. Affonso VI; mas o pobre

homem, que era mesmo uma creança, que se não importava para nada com a

politica, que tivera a fortuna de acertar com um bom ministro que

governava por elle e governava bem, não merecia que lhe fizessem

similhante entrega! Mette dó, porque elle nem sabia defender-se, andava

ali como o menino nas mãos das bruxas.

E o irmão, que lhe tirára a corôa, e que lhe tirára a mulher, nem ao

menos lhe dava a sua liberdade, nem lhe consentia que espairecesse.

Tinha-o preso n'um quarto em Cintra, e ali o deixou morrer de

aborrecimento e de desgosto, a elle que nunca fizera mal a ninguem senão

com as suas tolas rapaziadas!

Emfim, passemos adiante! O que é certo é que isto succedeu em 1667, e

logo no anno seguinte de 1668 fazia-se a paz com a Hespanha, sem lucro

nenhum para nós, porque nem ao menos apanhavamos a praça africana

de Ceuta, que era tão nossa, por causa da qual morreu no captiveiro o

infante santo, e que em 1640 não conseguira livrar-se dos hespanhoes.

Tanto se empenhára em governar o reino o sr. D. Pedro II, que desde 1667

até 1683, anno em que morreu D. Affonso VI, só tomou o titulo de

regente, e a final de contas não fez senão tolices. Demais a mais

algumas cousas boas que deixou fazer, logo as desmanchou. Um ministro

que elle teve, o conde da Ericeira, quiz ver se fundava fabricas em

Portugal, mas em 1703 um tratado com a Inglaterra, conhecido pelo nome

de tratado de Methwen, que este era o nome do embaixador que o assignou,

deu cabo da nossa industria. Conservou-se em paz, tanto que lhe deram o

nome de _Pacifico_, e vae no fim do seu reinado mette-se sem mais nem

menos na guerra da successão de Hespanha, favorecendo D. Carlos da casa

de Austria contra D. Filippe da casa de Bourbon. Como tinhamos então um

excellente general, que era o marquez das Minas, deu-nos este o gostinho

de entrar victorioso em Madrid, e de proclamar ali D. Carlos rei de

Hespanha; mas esse gostinho não tardámos a amargal-o, porque, morrendo

D. Pedro II no dia 1 de dezembro de 1706, logo no dia 25 de abril de

1707 era o marquez das Minas batido na batalha de Almanza com graves

perdas para nós, tanto que até ao fim da guerra póde-se dizer que

nunca mais levantámos cabeça.

Subio ao throno D. João V, e eu, para lhes dizer a verdade, o que não

posso perceber é como ha historiadores que gabam aquelle rei. Cá para

mim foi um dos peores que nós tivemos. Possuia algumas qualidades que

não eram de todo más, era porém o mesmo que se as não tivesse, porque

não pensava senão no beaterio, e em obras grandes e magnificas, que a

maior parte das vezes para nada serviam. Logo por desgraça foi n'esse

reinado que começaram a render rios e rios de dinheiro as minas do

Brazil, e tudo era pouco para o rei que não cuidava senão de si e nada

do reino. Por exemplo, achou-se embrulhado com a Hespanha e com a França

n'uma guerra que no seu tempo não foi senão desastrosa. Uns corsarios

francezes deram-nos cabo do Rio de Janeiro e levaram-nos umas riquezas

espantosas. Pois não encontrou aquelle homem uns poucos de navios para

saltarem tambem nas colonias francezas, ou para protegerem as nossas!

Emfim! se os não tinhamos, paciencia! Mas d'ahi a pouco saíu de Lisboa

uma excellente esquadra em soccorro do papa, commandada pelo conde do

Rio Grande, esquadra que foi bater os turcos no cabo Matapan! Ora vejam

se ha um patarata assim! Annos depois, por causa de uns insultos feitos

em Madrid ao nosso embaixador, está para rebentar a guerra com a

Hespanha. Fazem-se preparativos, e vê-se que não temos nem exercito, nem

marinha. De que tratou logo D. João V? De comprar armamento? Qual

historia! De mandar fazer em Paris, para si, uma barraca de campanha

muito rica, e tão luxuosa que toda a gente a ía ver!!

Não tinhamos estradas, não tinhamos rios canalisados, não tinhamos

desentulhados os portos, não tinhamos nada do que nos era necessario,

mas tinhamos aquella monstruosidade do convento de Mafra que custou 120

milhões de cruzados, que não serve para cousa nenhuma, e que nem ao

menos é bonito. Dizem que gostava muito de imitar Luiz XIV, mas o que me

dizia o engenheiro francez que esteve aqui em Bellas, é que Luiz XIV

mandava ir sabios para França, dava pensões aos sabios estrangeiros, e

este o que dava era dinheiro para igrejas, e o que mandava vir era de

Roma bullas e capellas. Dizem que nunca deixou ás nações estrangeiras

pôr pé em ramo verde comnosco. Quem lhe valeu para isso foram os

diplomatas que teve, que nunca em Portugal os houve tão bons, e tambem o

ser tão orgulhoso que ía aos ares só com a idéa de que mangavam com elle.

Mas no mais não me fallem em D. João V, que até me sobe o sangue á

cabeça. Pois vocês conhecem cousa que mais indigne do que ir um homem

ali para Lisboa, no campo da Lã, ver os inquisidores queimarem

gente de bem, ou porque não gostavam de toucinho, ou porque nem sempre

íam á missa, e depois montar a cavallo, para se metter em Odivellas na

cella de uma freira e passar ali a noite? Eu digo que me chega a parecer

nem sei o que uma malvadez assim.

Morreu em 1750 esse rei que não fez nada bom em Portugal, a não ser as

Aguas-Livres. Pouco mais dinheiro gastou que se podesse dizer que fosse

bem gasto. E digo-lhes que, se vocês olharem para o paiz, até lhes ha de

fazer pena. A nobreza já não se compunha senão simplesmente de criados

do paço, o clero immenso e corrompido enchia o reino com os seus padres

e os seus conventos, e conservava o povo n'uma ignorancia completa, o

povo, miseravel, vadio, ou emigrava para o Brazil, ou pedia esmola ás

portarias dos conventos, ou sentava-se ao sol. Tinhamos chegado ao mais

baixo a que podiamos chegar. Felizmente, quando uma nação desce a tal

ponto, sempre apparece alguem que a levante e esse, eu, para o outro

domingo, lhes direi quem foi. Por hoje basta. Quando fallo no sr. D.

João V, o _Magnifico_, e penso no mal que elle fez ao paiz, fico sempre

macambusio, e então o melhor é ir-me deitar.

Historia alegre de Portugal: leitura para o povo e para as escolas · 第 21 / 24 题