Portugal durante o dominio hespanhol.--Filippe I.--Os falsos D.
Sebastião.--Ultimos esforços do prior do Crato.--Os inglezes e
hollandezes no ultramar.--A invencivel armada.--D. Filippe II.--Perda e
restauração da Bahia.--Filippe III.--O conde-duque de Olivares e os
privilegios das provincias.--Perda de Pernambuco.--Tumultos de Evora.--O
duque de Bragança.--A conspiração dos fidalgos.--Revolução de 1 de
dezembro de 1640.
--Meus amigos, disse o João da Agualva no domingo immediato, demorei-me
e o resultado foi apanhar uma constipação, que ainda mal me deixa
fallar. Não quiz comtudo deixar de vir para se não perder este bom
costume dos domingos, mas pouco tempo me demoro, e não farei mais do que
contar-lhes a historia do que passou Portugal com o dominio dos hespanhoes.
Se nós ao menos tivessemos passado para uma nação forte, com vida e com
sangue, alguma cousa lucrariamos, mas a Hespanha estava peor do que nós.
Parecia muito poderosa por fóra, mas só havia podridão lá dentro. Depois
andava em guerra com a Europa toda, e n'essa guerra nos embrulhou
para nossa desgraça.
Apesar dos pesares, não cuidem vocês que tudo foram rosas para o nosso
rei Filippe I, que era em Hespanha Filippe II. Elle veio com pésinhos de
lã, prometteu respeitar as liberdades portuguezas, nunca nos dar por
governadores senão portuguezes ou principes da familia real, jurou
quanto quizeram, mas o povo não andava satisfeito, e, como não tinha a
quem se encostar, pensava em D. Sebastião, o _Desejado_, como lhe
chamam. Assim que apparecia um homem que tinha alguma parecença com o
rei fallecido, diziam logo que era elle, de fórma que os hespanhoes
estavam sempre em sobresalto. Por isso o rei de Penamacor e o rei da
Ericeira, uns pobres homens que o povo embirrou em querer que fosse cada
um d'elles D. Sebastião, e que tomaram o caso a serio, provocaram os
seus tumultos, sendo os da Ericeira um poucochinho graves. Passados
tempos, ainda appareceram lá fora, em Hespanha e em Italia, dois homens
que diziam ser D. Sebastião, e que lograram muita gente, mas esses eram
verdadeiros intrujões que nem mesmo pensavam senão em comer á
barba-longa, á custa dos freguezes. O tal amor ao D. Sebastião foi-se
pegando a ponto que começou a formar-se uma seita que ainda ha pouco
tempo durava, a seita dos sebastianistas, que acreditavam que D.
Sebastião havia de apparecer n'um dia de nevoeiro para governar em
Portugal. Eu ainda conheci um sebastianista.
--E eu tambem, acudiu o Bartholomeu.
--Já vêem que não minto. Mas d'esse D. Sebastião não ha de vir mal ao
mundo, nem bem que é o peor. D. Antonio tambem trabalhava pela sua
banda, e, como a ilha Terceira o acclamára rei, foi-se lá metter e
arranjou soccorro de França, mas os hespanhoes bateram a esquadra
franceza, e tomaram a ilha. Depois arranjou soccorros da rainha de
Inglaterra, que mandou uma esquadra a Lisboa, mas os inglezes foram
repellidos, e D. Antonio, descoroçoado de todo, foi morrer a Paris em 1595.
Mas querem vocês ver o que nós ganhámos com o estar juntos á Hespanha?
Foi termos á perna os inglezes e os hollandezes, que principiaram a
sacudir-nos da India, e que então aos nossos navios faziam guerra
mortal. Ia tudo pela agua abaixo, e, para mais desventura, Filippe
lembra-se de mandar contra a Inglaterra uma esquadra immensa, a que
chamou «a invencivel armada», e que saíu do porto de Lisboa. A armada
perdeu-se e lá se foram os nossos melhores navios. Filippe morria em
1598, e succedia-lhe Filippe II aqui e III em Hespanha. Se as cousas
tinham ido mal até ahi, então foram peor. A Hespanha ía a Deus e á
ventura, e nós atraz d'ella. O governo hespanhol, que mal cuidava de si,
não cuidava nada de nós. Os inglezes e os hollandezes tomavam-nos
quasi tudo o que tinhamos na India, e estes ultimos tambem se mettiam no
Brazil comnosco. Grandes façanhas ainda se faziam, é verdade, e da
Bahia, por exemplo, foram os hollandezes expulsos, mas, quando Filippe
II morreu em 1621, já o nosso poder não era nem a sombra do que tinha sido.
Succedeu-lhe Filippe III, e esse tinha um primeiro ministro chamado
conde-duque de Olivares, que imaginou que havia de acabar com os
privilegios das provincias, principalmente com os de Portugal. Não
pensava n'outra cousa, de fórma que deixava ir as colonias, e no Brazil
já os hollandezes tinham tomado raizes, e estavam senhores de
Pernambuco. Mas os portuguezes começaram a achar a brincadeira pesada e
a refilar ao Olivares. Em 1637 rebentou uma revolta em Evora, foi logo
apagada, mas com muito sangue. Peor para o caso. Os fidalgos, que
andavam tambem damnados, principiavam a conversar com o duque de
Bragança, D. João, e a apalpal-o para ver se elle quereria a corôa. O
duque não dizia nem que sim, nem que não. Mas n'isto a Catalunha, que
tambem não perdoava ao Olivares a sem-ceremonia com que elle lhe queria
tirar os seus antigos privilegios, revolta-se. Boa occasião! Os
fidalgos, em Lisboa, sentiam-se cada vez mais dispostos a mandar os
hespanhoes para o diabo. O Olivares não fazia senão desesperal-os e
atiçal-os. Tinha-lhes dado por governador a duqueza de Mantua, e para
secretario do governo um portuguez, Miguel de Vasconcellos, que era mais
damnado contra os seus patricios do que se fosse hespanhol. Emquanto
deixava perder as colonias portuguezas, Olivares levava os nossos
fidalgos e os nossos soldados para as guerras de Flandres e da
Catalunha. Lembra-se emfim de dar ordem ao duque de Bragança para que vá
para Madrid. Então é que já se não podia estar com pannos quentes. Os
fidalgos dizem ao duque de Bragança: Ou acceita a corôa, ou nós pomo-nos
em republica. O duque, a final, disse que sim. Com a bréca! aquillo foi
um momento. Era um punhado de homens, os que andavam assim a conspirar;
elles não sabiam se podiam contar com o povo, nem se não podiam,
conspiravam ás claras, que parece que em Lisboa todos sabiam da
conspiração menos os hespanhoes; reuniam-se umas vezes em casa de João
Pinto Ribeiro, outras vezes em casa de D. Antão de Almada, no jardim. No
dia 1 de dezembro de 1640 saem todos para o meio da rua. Eram quarenta,
pouco mais ou menos. Chegam ao paço, matam o Miguel de Vasconcellos,
agarram na duqueza de Mantua e fecham-n'a á chave, desarmam a guarda,
abrem as janellas, e dizem a quem ía passando: Viva o duque de Bragança,
rei de Portugal! viva o sr. D. João IV! O povo diz-lhes cá de baixo:
Viva! e viva, e viva! e eram uma vez os hespanhoes, e d'ahi a
pedaço estava tudo tão socegado como se não tivesse havido cousa
nenhuma, e os hespanhoes tinham desapparecido; e aqui têem vocês como se
faz uma revolução quando ella está na vontade de todos. Digo-lhes,
rapazes, que este dia 1 de dezembro consola uma pessoa. Parecia que o
paiz não tinha feito senão acordar de um pesadello. Aquillo foi só
saltar da cama abaixo, e elle ahi estava de pé, todo pimpão como em
outros tempos. E sabem vocês porque isto foi? É porque as nações são
como as espadas, onde enrijam é na bigorna.