D. João II.--As côrtes de Évora.--Morte do duque de Bragança.--Morte do
duque de Vizeu.--Continuação dos descobrimentos.--O cabo da Boa
Esperança.--Christovão Colombo.--Entrada dos judeus.--Morte do principe
D. Affonso.--D. Manuel.--Descobrimento da India e do Brazil.--Os
conquistadores da India.--Fernão de Magalhães.--D. João III.--A
inquisição e os jesuitas.--Decadencia do nosso dominio na India.--D.
Sebastião.--A batalha de Alcacer-Kibir.--D. Henrique, o cardeal-rei.--A
successão do throno.--D. Antonio, prior do Crato.--Batalha de
Alcantara.--Perda da independencia:--Causas da decadencia de Portugal.
--Estou morto por saber, porque é que chamaram a D. João II o principe
perfeito, principiou o Manuel da Idanha no domingo immediato, quando
estiveram todos sentados á roda da lareira, porque, emfim, vocemecê já
nos fallou n'uns poucos de reis de quem se não póde dizer mal: D. Diniz,
por exemplo, D. João I, etc.
--Eu te digo, rapaz, é porque não houve nenhum que percebesse tão bem o
seu tempo, nem soubesse tão bem como é que se governa. Era homem de
cabellinho na venta, mas só dava cabo de quem lhe fazia transtornar os
seus planos, era valente como os que o são, mas, depois de ser rei,
nunca mais foi á guerra. Calculava tudo, combinava tudo, e, como
quem joga bem a bisca, sabia de cór os trunfos, e o que queria era
marcar bons pontos, désse lá por onde désse. Subiu ao throno, na firme
resolução de acabar com os privilegios da nobreza e do clero. Para isso,
como de costume, serviu-se do povo. Chamou côrtes a Evora, ahi
entendeu-se com os procuradores do povo para elles se queixarem dos
fidalgos. Então o rei põe-se no seu logar, e toca a deitar abaixo
privilegios. Se vocês querem ver o que é berraria! O primeiro que se
levantou foi o duque de Bragança, e esse então metteu-se com os
castelhanos. D. João II não esteve com ceremonias, mandou-lhe cortar a
cabeça. O duque de Vizeu, seu proprio primo e cunhado, fez-se tambem
chefe de conspiração. O mesmo rei deu cabo d'elle com uma boa punhalada,
e depois foi tudo raso com o diabo do homem. Prendia uns, desterrava
outros, mandava matar este, confiscava os bens áquelle... um inferno.
--Então por isso é que era principe perfeito? perguntou a tia Margarida
indignada.
--Ó mulhersinha, espere lá. Diz o proverbio: cada terra com seu uso,
cada roca com seu fuso. Pois eu digo tambem: cada tempo com os seus
costumes. O tempo d'elle não era como o nosso. Hoje matar um homem é,
com rasão, uma cousa por ahi alem. N'aquelle tempo parecia a todos
perfeitamente natural que se castigassem com a morte, mesmo á
punhalada, todas as conspirações. Ora D. João II só escapou por milagre
a muitas que houve contra elle.
Mas D. João II não era homem que se assustasse. Estreiara-se em Arzilla,
ao lado de seu pae, e logo mostrára um grande esforço; na refrega de
Toro, em Hespanha, foi elle quem ganhou a batalha pelo seu lado,
emquanto o pae a perdia pelo outro. Nas conspirações, que se faziam
contra elle, mostrou sempre uma coragem por ahi alem, mas tambem não
perdoava nenhuma. E tanto fez, tanto fez, que a final todas as cabeças
se abaixaram, e quem ficou governando a valer e devéras foi elle.
Eu não lhes digo, rapazes, que approvo todas aquellas crueldades, e que
acho bonito que D. João II matasse sem dó nem piedade até os parentes.
Conheço que era preciso ter cabellos no coração para fazer o que elle
fez, mas que querem vocês? É sina que nunca se fizeram as grandes
mudanças politicas sem correr muito sangue. Dizia aquelle engenheiro
francez, que aqui esteve em Bellas na obra da agua, quando ás vezes se
punha a conversar commigo: «João, não se faz omeleta sem se quebrar
ovos.» E dizia bem. Aquillo entre D. João II e a nobreza era guerra de
morte. Atiravam á cabeça; eu bem sei que era mais bonito perdoar. Mas,
meus amigos, perdoar aos seus inimigos só o fez Nosso Senhor Jesus
Christo, e isso bastava para que todos conhecessem que elle era Deus
e não homem.
Em todo o caso, rapazes, sempre lhes quero confessar que, para gostar
deveras de D. João II, preciso de desviar os olhos d'aquella sangueira
toda, e ver o que elle fez por outro lado. Ah! que rei aquelle, rapazes!
Nos descobrimentos foi um segundo infante D. Henrique, porque não foi só
dizer aos pilotos: «Vão vocês andando por ahi abaixo, e quando toparem a
India mandem cá um recado.» Não, senhores! Agarrou em dois judeus que
eram homens de sabença, e mandou-os por terra ao Egypto, para que fossem
do Egypto ver se topavam a India e se sabiam como é que se podia lá ir
ter por mar. Foram estes Pedro da Covilhã e Affonso de Paiva. Ao mesmo
tempo não deixára de mandar navios pela Africa abaixo. Um sujeito,
chamado Bartholomeu Dias, tanto andou, tanto andou sempre com a terra á
esquerda, até que um bello dia, por mais que tocasse á esquerda, não via
senão agua: «Mau, disse elle comsigo, o diabo da costa virou de rumo.»
Vira elle tambem e dá com a terra que ía para cima em vez de ir para
baixo como até ahi. «Eu cheguei ao fim da Africa, disse comsigo o
Bartholomeu Dias, eu passei algum cabo sem dar por isso.» E, já todo
contente, queria ir seguindo para diante a ver onde iria dar comsigo.
Mas a marinhagem estava cançada e quiz por força voltar para traz.
Não houve remedio, e á volta effectivamente deram com o tal cabo que
vinha a ser a ponta da Africa, e apanharam tantos temporaes que
Bartholomeu Dias chamou a esse cabo, cabo Tormentorio; mas, quando
chegou a Lisboa e contou a D. João II o que succedera, este, que logo
percebeu que estava dado o grande passo na descoberta da India, não quiz
para tamanha descoberta um nome de mau agouro, e mudou ao cabo
Tormentorio o nome em cabo da Boa Esperança, como quem diz: Agora sim,
agora é que me parece que vamos por estrada direita.
Ora hão de vocês saber, rapazes, que por esta occasião vivia em Portugal
um sujeito genovez chamado Christovão Colombo, que era homem entendido
em cousas de mar, e que se occupava tambem muito de descobrimentos de
terras e tal etc. Foi até por isso que elle veio para Portugal, porque
isto aqui era a forja, onde, para assim dizer, se fabricavam terras
novas, e todos os que se enthusiasmavam com essas cousas vinham para cá
assoprar aos folles. Christovão Colombo estivera na Madeira, ouvira
fallar em signaes de terra para os lados do pôr do sol, e começára a
embirrar que, indo atraz do sol, havia de esbarrar com a India. Fallou
n'isso a D. João II, este consultou os sabios, e os sabios desataram a
rir. Colombo então foi-se embora e começou a offerecer os seus serviços
a quem lhe désse uma casca de noz; acceitou-os a Hespanha, depois de
massar muito o pobre do homem. Christovão Colombo partiu seguindo sempre
para o occidente, e a final deu com uma terra povoada de selvagens, que
vinha a ser nem mais nem menos do que a America, emfim um mundo inteiro
muito maior que a Europa toda. Ora, tudo isso podia ter vindo para nós,
e não nos fazia mal nenhum, se D. João II não cáe na asneira de não
acreditar no Colombo, que todos sabiam que era um homem esperto, e de
lhe não querer dar dois ou tres navios para tentar a sua descoberta,
elle que tinha navios a rodo por esses portos todos!
--Sim! lá isso! acudiu o Manuel da Idanha coçando na cabeça. Vocemecê
diz que o homem era tão espertalhão, mas essa parece-me de cabo de
esquadra!
--Achas, meu palerma? Diz um proverbio: Quem adivinha vae para a
casinha. E eu já te mostro que outro qualquer, no caso de D. João II,
fazia o mesmo. Tu imaginas que Christovão Colombo chegou ao pé de D.
João II e lhe disse: Saiba Vossa Alteza (que então ainda se não dava
magestade aos reis) saiba Vossa Alteza que ali defronte dos Açores está
um paiz muito rico, onde ha muito ouro, e muita prata e muitos
diamantes, e, se Vossa Alteza quizer, eu chego ali n'um instante e cá
lh'o trago? Estás tu muito enganado. O proprio Colombo nem sabia que
havia ali similhante paiz. Toda a sua mania era que, sendo a terra
redonda, e n'isso tinha elle rasão, indo uma pessoa para o occidente,
havia de dar volta e chegar ao oriente. Mas o que elle não sabia é que a
terra era tão grande como lhe saíu; e, se não lhe apparece a America, o
homem via-se grego, e ainda tinha de comer muito pão antes de arribar,
onde elle queria ir, tanto que provavelmente não levava no porão farinha
que lhe chegasse. Ora agora, pensem vocês tambem, rapazes, no seguinte:
Havia um bom par de annos que Portugal andava a teimar em seguir pela
Africa abaixo á procura da India. Teimou, teimou, até que a final chegou
ao fim da Africa, e percebeu que a terra seguia para cima, e ía com toda
a certeza parar á India. E é exactamente quando se consegue o que se
procurava havia tanto tempo, quando se descobre o cabo da Boa Esperança,
quando se tem a certeza de que se encontrou o caminho da India, que vem
um sujeito ter com o rei de Portugal, que está todo alegre com a
descoberta, e dizer-lhe: Faça favor de apagar tudo isso, e de começar
outra vez a procurar a India por outro lado. O rei, é claro, mandou-o
pentear macacos. Ora agora confesso tambem que se não põe assim no meio
da rua um homem como Christovão Colombo. Procurar a India pelo occidente
não impedia que se continuasse a procurar pelo caminho que até ahi se
seguira, e nós já tinhamos topado tanta terra que não esperavamos,
que não era cousa do outro mundo que fossem mais duas caravellas a Deus
e á ventura ver o que o mar dava de si.
Emfim não se fez isso; os hespanhoes ficaram com a America, e
principiaram ao desafio comnosco n'isso de descobrimentos, tanto que foi
necessario que o papa dividisse entre elles os novos mundos ao meio,
dizendo: Para aqui descobrem os hespanhoes, e para aqui descobrem os
portuguezes, o que fazia com que um rei de França dissesse depois: Ora
sempre eu queria ver o artigo do testamento do pai Adão que deixou a
terra aos hespanhoes e aos portuguezes!
Todos se riram, e o João da Agualva continuou:
--Muito mais provas de juizo deu el-rei D. João II, e felizes seriamos
nós se os reis que se seguiram fossem como elle. Na Africa, tratou de
chamar a si os pretos, de os mandar baptisar, mas ás boas, e de fazer
por ali fortalezas para se assenhorear do commercio. Na Europa então
houve uma cousa que mostra que elle sabia ser rei. Os soberanos de
Hespanha, todos devotos, mandaram pôr fóra do seu paiz os judeus, que
eram, como foram sempre, uma raça trabalhadeira e esperta, que se
enriquecia e ía enriquecendo a terra onde vivia. Mas a rainha de
Hespanha, lá por beaterios tolos, não os quiz consentir no seu reino, e
intimou-lhes mandado de despejo. Sempre quero que vocês me digam
porque? Porque tinham crucificado Jesus Christo? Mas isso foram uns
malandrins de Jerusalem, e nem os filhos tinham culpa do que os paes
fizeram, e até os paes de muitos d'elles talvez nem em Jerusalem
estivessem n'esse tempo. Porque não acreditavam na religião christã? O
peor era para elles. Pois se não se póde salvar quem não for christão,
no outro mundo torceriam a orelha, e não era necessario já n'este mundo
ir-lhes torcendo pescoço. Porque não comiam toucinho? Tanto melhor para
os bons christãos, que sempre ficava mais barata a carne de porco. Mas
fossem lá dizer estas cousas n'aquelle tempo aos reis catholicos! Corria
uma pessoa risco de ir parar a uma fogueira. D. João II riu-se da
devoção dos visinhos, recebeu os judeus na sua terra, e tirou proveito
do caso, obrigando-os, em troca do asylo que lhes dava, a pagar-lhe um
bom tributo. Elles estavam com a corda na garganta, pagaram com lingua
de palmo, ainda que isso lhes havia de custar, porque sempre foram
sovinas. Mas, como diz o outro, para judeu, judeu e meio.
--Olhe lá, ó sr. João de Agualva, e então quem diz que a inquisição cá
em Portugal queimava os judeus? perguntou o Manuel da Idanha.
--Lá chegaremos, sr. Manuel da Idanha, lá chegaremos. Não ha só muitas
Marias na terra, ha tambem muitos Joões, e nós então tivemos seis,
cada um do seu feitio.
Tudo se paga, meus amigos, e um homem póde ser principe perfeito; quando
ultraja a lei de Deus, derramando o sangue de seus irmãos, ha de o pagar
com lagrimas que tambem são sangue ás vezes. Tinha D. João II um filho
chamado Affonso, a quem queria como ás meninas dos seus olhos. Casára
com a filha dos reis de Hespanha, e as festas com que se celebrou o
casamento tinham sido das mais pomposas. Morreu, e morreu de um
desastre. Quem pôde imaginar a dôr d'aquelle pae! Chorou esse homem de
ferro, que tantas lagrimas tambem fizera derramar, chorou lagrimas de
sangue, do sangue do seu coração, e, lá nas horas mortas da noite,
quando estivesse sósinho a pensar no filho, havia de ver muitas vezes os
espectros d'aquelles que matára sem ter piedade da orphandade de seus
filhos, como Deus não tivera tambem compaixão da orphandade da sua alma.
Morreu quatro annos depois, em 1495, sem poder deixar a corôa a um filho
seu, porque debalde quizera legitimar um bastardo que tinha, e assim,
altos juizos de Deus! quem lhe havia de succeder, e não é só isso, quem
havia de colher para si a gloria de realisar a conquista da India, que
D. João II tão cuidadosamente preparava? Um irmão d'aquelle duque de
Vizeu, que elle assassinára, D. Manuel, o _Afortunado_.
Afortunado ou Venturoso lhe chamou a historia, e com rasão, porque não
teve senão bamburrice, o que não quer dizer que fosse um palerma, e que
não tivesse mesmo bastante tino, mas fazia tanta differença de D. João
II como uma larangeira de um carvalho. Encontrou a papinha feita.
Estavam preparados os navios para a descoberta da India, poz á frente
d'elles Vasco da Gama, e em 1497 chegava Vasco da Gama á India, que era
o paiz mais rico d'esse tempo. Mandou atraz d'elle Pedro Alvares Cabral,
este chega-se mais para o occidente do que devia ser, e esbarra com o
Brazil em 1500; bom! Põe ambos de parte, que lá ingrato como aquelle não
havia nenhum, e manda para a India uma esquadra, onde ía Duarte Pacheco,
homem que parece mesmo um d'aquelles sujeitos da antiguidade, que eram
meios homens, meios deuses, e de quem se contam muitas patranhas, que
foram excedidas pelas verdades d'este nosso patricio. Querem vocês
saber? Na India havia muitos reis, como ainda hoje ha, apesar que estão
agora todos sujeitos aos inglezes. Vasco da Gama tinha chegado a uma
terra chamada Calicut, onde residiam muitos mouros, que eram quem fazia
n'esse tempo o negocio todo da India. Viram a bolsa em perigo, e não
descançaram emquanto não pozeram ao rei de Calicut de mal com os
portuguezes. Palavra puxa palavra, elle matou-nos um homem, apanhou uma
lição mestra, e de vingança em vingança ficámos inimigos para
sempre. Mas havia outro rei, o rei de Cochim, que era e foi sempre nosso
amigo. D'ahi, barulho entre os dois. Como o rei de Calicut era muito
mais poderoso, esperou que não estivessem lá navios nossos, e, sabendo
que tinha ficado apenas Duarte Pacheco e mais uns cincoenta portuguezes,
disse comsigo: «Agora é que tu m'as pagas.» E arranjou um exercito
forte, e marchou contra o pobre rei, nosso amigo. Os soldados de Cochim
tinham medo que se pellavam, e fugiam que era um louvar a Deus; mas
Duarte Pacheco, mais os seus cincoenta homens, com a sua habilidade e a
sua valentia, conseguiu tomar o passo ao de Calicut, e dar-lhe tareias
monumentaes. Ó rapazes, pois uma pessoa não se hade ás vezes ufanar de
ser portuguez? Quando é que se viu uma cousa assim? Meia duzia de gatos
bastaram para dar cabo de exercitos immensos! Eu bem sei que era a
disciplina, que eram as armas, que era tambem a fraqueza d'aquelles
bananas, que o sol da India faz uns mollengas, mas era necessario que
fossem de aço e de ferro, em vez de ser de carne e osso, esses valentes
que assim viam, sem descorar, marchar contra elles um exercito
formidavel! Era necessario que se tivessem disposto a morrer para não
deixarem que fosse pisada aos pés a bandeira de Portugal! E, a final de
contas, por muito molles que os outros fossem, sempre eram mil
contra um, e, com certeza, nenhum dos nossos pensava que saíria com
vida de similhante combate. Depois acções d'essas eram mais faceis, não
só porque os nossos já tinham tomado confiança em si, e sentiam-se
capazes de levar aos pontapés quantos indios houvesse na India, mas
tambem porque elles tinham-nos tomado medo; mas isso tudo a quem o
devemos senão a Duarte Pacheco? Pois, meus amigos, imaginam vocês que
Duarte Pacheco foi feito governador da India, ou teve algum titulo, ou
alguma recompensa grande? Qual carapuça! D. Manuel nem mais pensou
n'elle, e era tão feliz que logo encontrou para ser primeiro vice-rei da
India um homem como D. Francisco de Almeida, que em toda a parte do
mundo seria digno de exercer os primeiros logares.
Com effeito, D. Manuel, que primeiro quizera apenas que os seus seus
navios viessem carregados de mercadorias da India, que depois cá se
vendiam na Europa, entendeu que devia tomar raizes, e encarregou D.
Francisco de Almeida de governar os portuguezes que por lá estivessem,
fundando ao mesmo tempo fortalezas. D. Francisco de Almeida entendia,
porém, e não deixava de ter rasão, que Portugal era um paiz muito
pequeno para estar assim a mandar soldados para a India, e o que elle
queria era ser senhor do mar para que ninguem mais ali podesse fazer
negocio. Emquanto só teve os indios pela prôa íam as cousas bem,
mas os turcos, que viam diminuir os seus rendimentos com o novo caminho
das Indias, começaram a metter-se na dança, e os turcos não eram tropa
fandanga, eram gente de quem tremia a Europa. Tambem, quando se
encontraram primeiro com os portuguezes, levaram a melhor e até mataram
um filho de D. Francisco de Almeida, que o vice-rei adorava. Foi a sua
perdição, porque D. Francisco de Almeida não descançou emquanto não
vingou a morte do seu estremecido Lourenço. Os turcos levaram uma sova
de primeira qualidade, e na India ficou-se sabendo de uma vez para
sempre que casta de homens eram os portuguezes.
Pois, rapazes, parecia que d'esta vez D. Manuel se daria por muito feliz
em ter no Oriente um homem como D. Francisco de Almeida, que tinha posto
os indios a pão e laranja, e dado uma esfrega tal nos turcos que se não
atreveram por muito tempo a tornar á India. Enganam-se. Apenas acabou o
seu tempo, foi chamado a Portugal, e naturalmente el-rei nem pensaria
mais n'elle, ainda que não tivesse morrido no caminho. Mas continuava a
ser tão feliz que encontrou, para substituir D. Francisco de Almeida, um
homem que ainda valia mais do que elle, porque era o grande Affonso de
Albuquerque. Ah! meus amigos, apparecem de vez em quando no mundo uns
homens, que são capazes de revolver a terra, como os Napoleões e
outros assim, Affonso de Albuquerque foi um d'esses.
A respeito das cousas da India não pensava como D. Francisco de Almeida,
mas não era porque visse as cousas de outro modo, era porque achára
maneira de as concertar. Sim, elle bem sabia que Portugal não podia
estar a encher a India de soldados, mas o que elle queria era que os
Indios se misturassem com os portuguezes, e, para o conseguir, ao passo
que era cruel com os mouros, com os indios era tão bom e tão justo que,
depois da sua morte, íam elles resar ao seu tumulo, como quem vae resar
ao tumulo de um santo. Escolheu elle tres pontos, em que estabeleceu,
para assim dizer, os seus quarteis generaes, e todos muito bem
escolhidos: Ormuz, ao pé da Persia; Goa, no meio da India; Malaca, para
os lados da China e das ilhas a que se chamava das Especiarias ou das
Molucas. Primeiro tomou Goa, depois Malaca que tinha dente de coelho,
porque os malaios são levadinhos da bréca, depois Ormuz, e, quando
acabou de fazer tudo isto, estava já demittido, e sabendo que ía ser
nomeado para o seu logar o seu peor inimigo! Morreu com esse desgosto.
Tambem d'essa vez tinha-se acabado o fornecimento de grandes homens, e
os dois ultimos governadores da India, no tempo de D. Manuel, não foram
lá grande cousa, mas tambem não estragaram nada. Aquillo então ía
n'um sino. Os portuguezes espalhavam-se por toda a parte, de um lado
chegavam á China, do outro á Persia, do outro ás Molucas, do outro a
Cambaya. Tinham fortalezas por toda a parte; elles recebiam a boa
canella de Ceylão, o bom cravo das Molucas, a boa pimenta da India, os
bons cavallos da Persia, as sedas da China, o incenso da Arabia, os
diamantes de Golconda, e traziam estas riquezas todas para a Europa e
vinham aqui a Lisboa, que estava sempre cheia de navios, os hollandezes
e os inglezes comprar tudo isto para o vender por esse mundo. Do Brazil
não se fazia caso porque nem valia a pena; na Africa sempre se íam
tomando praças, que era para n'aquellas constantes guerras com os mouros
se exercitar a fidalguia, que depois fazia o diabo a quatro na India.
Emfim, quando D. Manuel mandou ao papa uma embaixada com presentes
vindos de todas as suas conquistas, Roma ficou embasbacada, e não se
fallava em todo esse mundo senão na grandeza de Portugal. Bons tempos,
meus amigos, mas que duraram pouco!
No reino, D. Manuel logo mostrou que, se não era tolo, tambem não tinha
o entendimento de D. João II. Poz fóra os judeus; é verdade que depois,
quando em Lisboa o povo fez uma matança nos que tinham ficado a titulo
de se terem convertido, mostrou-se muito zangado e castigou a cidade.
Grande não foi elle, mas viu-se cercado de gente que o fez grande,
e teve a esperteza de os saber conhecer. Depois, punha-os de parte com a
maior facilidade, mas atinava com elles; só não percebeu o que podia
esperar de Fernão de Magalhães, que, zangando-se com uma picardia que
lhe fez, passou para Hespanha, e assim nos deixou ficar sem a gloria de
termos sido nós os primeiros que deram volta ao mundo, como fizeram os
hespanhoes commandados pelo tal Fernão de Magalhães, porque isso,
n'aquelle tempo, não havia por esses mares uma onda que não marulhasse
em portuguez...
--Em portuguez porque? perguntou o Francisco Artilheiro. Eu nunca
percebi o que ellas diziam.
--Então é que têem a cabeça tão dura como tu, porque foi sempre o
portuguez a primeira lingua que ouviram, e até lá para a terra dos
bacalhaus, para o norte, onde faz um frio de rachar, lá mesmo foi Gaspar
Cortereal que primeiro descobriu a Terra Nova. Emfim, meus amigos,
depois de ter casado tres vezes, e sempre com princezas hespanholas,
morreu em 1521 el-rei D. Manuel, e, verdade verdade, com elle se póde
dizer que morreu a grandeza de Portugal.
Succedeu-lhe o filho D. João III, que era o beato mais beato que tem
vindo a este mundo. D. Manuel já lá tinha as suas manias, mas, como eu
lhes contei, quando os de Lisboa desataram a matar os judeus, ou
antes os christaos novos, deu-lhes com o _basta_. D. João III, esse, não
descançou emquanto não metteu em Portugal a inquisição. O papa não
queria, fazia-se rogado, e D. João III é que insistiu com elle para
apanhar essa prenda. Chegou a gastar rios de dinheiro para o conseguir!!
Ora, realmente, metter cá um tribunal que, apenas um sujeito se esquecia
de ir á missa, ferrava com elle na cadeia, quando não era na fogueira,
só lembrava a D. João III. Até os estrangeiros fugiam, e então o resto
dos judeus, que ainda por cá havia, e que por amor á nossa terra se
tinham feito christãos, com medo da inquisição, se foram safando logo
que poderam. E, não contente com isso, introduziu tambem a companhia de
Jesus, que era uma ordem nova de frades mais disciplinados que um
regimento, e que tinham jurado ser elles que haviam de governar o mundo.
Ora, lá para prégar aos herejes, e aos gentios da India, e aos selvagens
do Brazil, eram muito bons, porque não recuavam nem diante da morte, e
houve jesuitas, como S. Francisco Xavier, que não ficaram a dever nada
aos doze apostolos; mas em Portugal mettiam-se em toda a parte: elles
ensinavam, elles confessavam, e estou em dizer que não podia ser bom. Eu
não sou contra os padres, nem contra a religião, pelo contrario, mas
tambem não se hão de metter em tudo. Ora vejam vocês como havia de
viver um dos nossos avós d'esses tempos! Os jesuitas a apertarem-lhe o
freio, e ao mais pequeno desmando, zás, fogueira da inquisição com elle.
Até se fizeram macambuzios os pobres homens, que eram até ahi gente
alegre. Não se podia escrever cousa nenhuma, que não viessem logo os
jesuitas: Corte-se isto porque parece contra a religião, não se
represente aquillo porque se faz troça a um frade, e porque torna e
porque deixa. O que é certo, meu amigos, é que, emquanto lá por fóra se
andava para diante, e se faziam invenções, e se estudava, nós não
passavamos da cepa torta, e o mal que isso fez vão vocês vêl-o.
Na India parecia que ía tudo muito bem, mas via-se que não podia durar
muito. Valentes eram os nossos, mas, em vez de fazerem o que Albuquerque
queria, em vez de accommodarem os Indios, e de se porem ás boas com
elles, não senhor, faziam crueldades que era uma cousa por demais, e o
que queriam era apanhar dinheiro. Passavam o tempo, ora em guerra com o
rei de Calicut, ora com o rei de Cambaya, ora com o rei de Achem, ora
com o rei de Bintam, ora com o rei de Kandy, ora com todos ao mesmo
tempo. Isto não era vida. Obravam prodigios de valor, isso é verdade,
como por exemplo nos dois cercos de Diu, em que Antonio da Silveira e D.
João de Mascarenhas se defenderam de um modo maravilhoso, mas, á força
de dar cutiladas, o braço ía cançando, e o paiz estava esfalfado.
Não havia nem um instante de socego. Se apparecia um governador como D.
João de Castro, o da Penha Verde de Cintra, que era honradissimo e
justiceiro, os outros não pensavam senão em roubar. Já se pegavam uns
com os outros, como fez Lopo Vaz de Sampaio com Pedro Mascarenhas, e
quando D. João III, o Piedoso, como lhe chamaram os frades, morreu em
1557, todos previam que isto ía para baixo. O filho mais velho de D.
João III morrera ainda em vida do pae, e quem lhe succedeu foi um neto,
creança de cinco annos, que tinha o nome de D. Sebastião. Ficou regente
a avó, senhora de bastante juizo, que governou bem, mas que em 1562 teve
de ceder a regencia ao cunhado, o cardeal D. Henrique, todo dominado
pelos jesuitas, e que cercou de padres o principe. O que resultou d'ahi?
Resultou que D. Sebastião, que gostava de guerras e batalhas, fez-se ao
mesmo tempo beato. Parecia um d'aquelles antigos frades militares, que
tinham concorrido tanto para expulsar os mouros de Portugal. Não quiz
casar, e até fugia das mulheres. Não pensava senão em dar cabo dos
mouros. Ora, se nós que já tinhamos tanto trabalho para nos sustentarmos
na India, que fôramos obrigados a largar umas poucas de praças na
Africa, que tinhamos precisado de um grande esforço para salvar Mazagão,
cercada pelos mouros, nos mettiamos em grandes guerras com elles,
aonde iria isto parar! Pois foi o que succedeu. Na India o trabalho era
cada vez maior; um governador, chamado D. Constantino de Bragança,
parente da casa real, fizera por lá grandes cousas, mas pouco tempo
depois juntavam-se quasi todos os reis da India e vinham sobre nós. O
que nos valeu foi termos um novo Affonso de Albuquerque, um general de
mão cheia, D. Luiz de Athayde, que a tudo acudiu e tudo salvou; mas
vocês bem vêem que isto não podia continuar assim. Quando as cousas
estavam n'este bonito estado, quando nós tinhamos ás costas a India, o
Brazil para que D. João III principiára a olhar, onde precisávamos de
nos defender contra os aventureiros francezes que achavam a terra a seu
gosto, de que se ha de lembrar el-rei D. Sebastião? De ir conquistar
Marrocos! Eu já tenho ouvido dizer que mais valia termos conquistado
Marrocos, que nos ficava á porta, do que irmos á India que ficava tão
longe. Pois sim, mas o que era necessario era escolher. Ou uma cousa ou
outra. Mas D. Sebastião, com aquella embrulhada, que elle tinha na
cabeça, de idéas religiosas e de idéas guerreiras, não attendia a cousa
nenhuma, nem fazia calculos nenhuns. O que elle queria era dar lambada
nos mouros, e, apesar dos conselhos de toda a gente, levanta um pequeno
exercito, e para o levantar custou-lhe, porque já não havia braços
no paiz... co'a breca, que elles não chegavam para tudo! e abala-se
para a Africa a pretexto de ir soccorrer um principe mouro que tinha
sido expulso do throno por seu tio!
Ah! meus amigos, aquillo era mesmo um doido que ali ía. A gente gosta de
ver um rapaz que tem o sangue na guelra, e que se atira para diante,
embora faça asneira, mas é que D. Sebastião estava perfeitamente maluco.
Era maluquice a empreza, foi maluquice o modo como a preparou, foi
maluquice o modo como a dirigiu. Parecia que Deus, por umas poucas de
vezes, o quizera salvar, e elle sempre a atirar comsigo de cabeça para
baixo. Emfim, no dia 4 de agosto de 1578, deu-se a batalha á moda de
seiscentos diabos, porque nem houve commando, nem houve nada. D.
Sebastião atirou-se aos mouros e não quiz saber de exercito, nem de
cousa nenhuma. Emquanto poude dar cutilada, deu. A flor da fidalguia
portugueza ali morreu, a que não morreu ficou prisioneira. Os soldados
fugiram, uns por aqui outros por ali, e, quando a noticia chegou ao
reino, imaginem que afflicção! Não se perdera só um rei, perdera-se a
corôa, porque não havia herdeiros, e quem subiu ao throno foi o velho
cardeal D. Henrique, tio avô do fallecido, que nunca fôra esperto e que
estava então meio apatetado. Ainda houve quem dissesse que D. Sebastião
não morrera, porque ninguem o vira caír morto, e o cadaver que
appareceu, e que se disse que era d'elle, estava tão desfigurado que se
não podia conhecer. Assim lá ficou D. Henrique a governar, mas para que?
Todos sabiam que a corôa era herança que não tardava. Quem a havia de
apanhar? Quem tinha direito verdadeiro era a duqueza de Bragança, por
ser filha de um irmão de D. João III, D. Duarte; quem era mais
sympathico ao povo era D. Antonio, filho bastardo de outro irmão de D.
João III, D. Luiz; quem tinha mais força era D. Filippe II, rei de
Hespanha, filho de uma irmã de D. João III, D. Isabel. Ainda havia
outros que se diziam herdeiros, mas entre aquelles tres é que a lucta
era séria. Ferviam as intrigas. D. Filippe tinha em Portugal um
embaixador, e até por signal era portuguez, D. Christovão de Moura, que
comprava todos quantos se queriam vender, e bem parvos eram os que não
íam ao mercado. As côrtes, chamadas por D. Henrique para decidir a
questão, estavam já tão pouco costumadas a metter o seu bedelho n'essas
questões, que disseram ao rei que decidisse como quizesse, apesar de
berrar muito contra isso um portuguez ás direitas, procurador de Lisboa,
e que se chamava Phebo Moniz. O rei não decidiu cousa alguma. Morreu em
1580, e deixou o quartel general em Abrantes, tudo como d'antes. Nomeou
governadores do reino uns sujeitos que se tinham já vendido aos
hespanhoes, e que de certo íam escolher D. Filippe II. Mas, como se
demorassem, este não esteve para os aturar, e mandou-nos cá um exercito
commandado pelo duque de Alba. Vendo os hespanhoes, o povo virou-se para
D. Antonio, prior do Crato e bastardo do infante D. Luiz, e acclamou-o
rei. Valente era elle, mas não era mais nada. Quiz resistir aos
hespanhoes com um punhado de gente que nunca pegára em armas. Batido em
Alcantara, ás portas de Lisboa, depois de algumas horas de combate,
fugiu para o Minho, por onde andou escondido, até que poude safar-se
para o estrangeiro. Filippe II entrou socegadamente em Lisboa, e era uma
vez a independencia de Portugal.
--O que! estavamos hespanhoes? perguntou furioso o Bartholomeu.
--Estavamos hespanhoes, sim, meu amigo, e eu te vou explicar como é que
tinhamos chegado a isso em tão pouco tempo. Em primeiro logar, creio que
já sabem que D. João II abaixára a prôa de todo á nobreza, e d'ahi por
diante os fidalgos ficaram sendo simplesmente criados do paço. O povo
ajudára o rei a fazer essa obra necessaria, mas o rei, apenas se viu
servido, deu-lhe para baixo, e el-rei D. Manuel começou a dizer que os
foraes, que eram as leis por que se governavam os concelhos, não estavam
muito claros, e para os aclarar, reformou-os, quer dizer, deu cabo
d'elles. Em côrtes já se não fallava senão de longe a longe. D'antes,
pelo menos, para se lançarem tributos novos, sempre se reuniam as
côrtes. D. Manuel não quiz que ellas se incommodassem por tão pouco, e,
para lhes poupar trabalho, começou elle a deitar os tributos por sua
conta. Ora isto é muito bom, emquanto as cousas vão correndo bem. O rei
tem ali o seu povo manso como um leão domesticado, com as unhas cortadas
e os dentes limados, mas, quando vem as occasiões, o povo mette o
rabinho nas pernas e não tuge nem muge. Para mais ajuda, a inquisição
concorria para terem todos pouca vontade de se mexer. Os jesuitas, que
tanto podiam fazer pela influencia que possuiam, não se importaram para
nada com isso. Frades como elles eram, muito ligados entre si, e muito
escravos do seu geral que estava em Roma, não tinham patria, a sua
patria era a Companhia. Depois, vocês bem vêem que o reino não podia
deixar de estar sem forças. Era um saír de gente todos os annos para a
Africa, para a India, para o Brazil, que era uma cousa por demais. No
meio de tantas riquezas o paiz achava-se pobre. Havia muita gente rica e
vadia, mas não havia lavoura, não havia fabricas, não havia nada, o
dinheiro entrava por um lado para saír pelo outro. Demais a mais tudo
era pandiga rasgada. Os portuguezes vinham do Oriente descançar das suas
fadigas. Tinham escravos para o serviço, passavam os dias na amante
vadiagem. Não ha cousa que mais deite a perder os homens. Por isso
D. Filippe e o seu embaixador Christovão de Moura encontraram tudo podre.
Hão de vocês dizer: Pois então, só porque um rei morreu, e só porque se
perdeu um exercito, que não era grande cousa, perdeu-se Portugal? É
assim mesmo. Faltou o rei, faltou tudo, porque o povo nem já sabia de
si, e as côrtes, quando não havia quem mandasse alguma cousa, nem sabiam
o que haviam de fazer. Soldados portuguezes, os bons, estavam na India,
e não bastavam; os que tinham voltado não pensavam senão na pandiga.
Tudo estava alluido na nação portugueza, veio o empurrão de
Alcacer-Kibir, foi tudo abaixo, e eu, meus amigos, não vou para baixo,
vou para cima que são horas de me ir chegando ao pouso. Domingo
continuaremos, porque já agora havemos de acabar, que lá dizer que eu
tenho muita vontade de lhes contar a historia do que se passou no tempo
dos Filippes, isso não tenho. Então é que Portugal perdeu a esperança de
se levantar.