QUINTO SERÃO

Interregno.--Regencia de Leonor Telles.--Morte do conde Andeiro.--O

cerco de Lisboa.--Nuno Alvares Pereira e João das Regras.--As côrtes de

Coimbra.--D. João I.--A batalha de Aljubarrota.--Os filhos de D. João

I.--Tomada de Ceuta.--Os descobrimentos.--D. Duarte.--Expedição de

Tanger.--Menoridade de D. Affonso V.--O infante D. Pedro.--Batalha de

Alfarrobeira.--Tomada das praças africanas.--Guerras com

Hespanha.--Batalha de Toro.--Ida de D. Affonso V a França.--Continuação

dos descobrimentos.

--Meus amigos, disse o João da Agualva no outro domingo, o que eu agora

vou contar ha de parecer assim a vocês grande patranha, e a todos

pareceria se não houvesse tantas provas da verdade. É caso de uma pessoa

ficar pasmada ver o que fez este paiz só, ao canto do mundo, pequeno

como é. Oiçam, pois, rapazes, com attenção. Apenas morreu el-rei D.

Fernando, tratou logo D. Leonor Telles de fazer proclamar rainha de

Portugal a sua filha D. Beatriz, que era uma pequenota casada com o rei

de Castella D. João I, e ao mesmo tempo fez-se regente. O povo, que não

queria ser castelhano, ou hespanhol como hoje diriamos, nem que o

matassem, começou a levantar-se por toda a parte. Mas o que faltava

era um chefe. Os filhos de D. Ignez de Castro andavam fugidos por fóra

de Portugal, um por isto, outro por aquillo, mas quem estava em Lisboa

era um rapaz muito sympathico, filho bastardo de el-rei D. Pedro, que

este fizera mestre de Aviz, e a quem D. Leonor Telles sempre tivera

muito odio. A elle se dirigiram. O mestre vio que não havia remedio

senão fazer o que o povo queria. Toma logo a sua resolução, vae ao paço

e mata elle mesmo o conde Andeiro, põe-se á frente do povo de Lisboa,

põe no meio da rua D. Leonor Telles, e proclama-se _defensor do reino_.

O povo toma todo, sem excepção, o seu partido, e por todas as

provincias; mas uma grande parte dos fidalgos foram para o rei de

Castella. Entre os que ficaram figurava um rapaz sympathico tambem,

valente como as armas, leal como a sua espada, amigo intimo e dedicado

do mestre de Aviz, Nuno Alvares Pereira.

Sabedor do que se passava, desce a Portugal o rei de Castella com um

exercito poderoso; mas pára deante de Lisboa já fortificada. Os

lisboetas, commandados pelo mestre de Aviz, defenderam-se como homens, e

o rei de Castella teve de se pôr na pireza; entretanto Nuno Alvares

Pereira, que estava no Alemtejo, ganhava a batalha dos Atoleiros, e

começava a estabelecer um systema de guerra que havia de dar muito de

si. Como os concelhos estavam todos com o mestre de Aviz, a força do

exercito era principalmente infanteria. Pois Nuno Alvares Pereira

aproveitou isso para ensinar os nossos a combaterem a pé. Formava uma

especie de quadrado, ou como é que se chama, com os seus soldados,

quadrado onde a cavallaria fidalga vinha sempre despedaçar-se.

--Ah! se elles calavam bayoneta, observou o Francisco Artilheiro, não

entrava lá para dentro nem um cavallaria só que fosse.

--Não calavam bayoneta, respondeu o João da Agualva, porque era cousa

que então não havia, mas fincavam as lanças no chão, e fossem lá entrar

com elles.

Acabado o cerco de Lisboa, reuniram-se os dois amigos, e foram

conquistar todas as terras de Portugal em que os fidalgos tinham

levantado a bandeira de Castella. Ao mesmo tempo reuniram-se côrtes em

Coimbra, para se escolher um rei. Ahi teve D. João I outro amigo,

advogado de mão cheia, fino como um coral, chamado João das Regras, que

foi quem lhe fez ganhar a eleição. Assim, o mestre de Aviz tinha a

felicidade de ter dois amigos particulares que o serviam

excellentemente, e cada um segundo o seu officio. Para cousas de penna e

parlenda João das Regras, para batalhas e mais bordoada correspondente

Nuno Alvares Pereira.

--Mas então as côrtes é que escolheram quem havia de ser rei? perguntou

o Manuel da Idanha.

--Tal e qual.

--E eram côrtes como as de agora? acrescentou o Bartholomeu.

--Não, senhor, havia os tres braços, como então se dizia, clero, nobreza

e povo. Os bispos e os conventos mandavam os seus escolhidos, os

fidalgos mandavam os seus e o povo tambem, quer dizer cada concelho

mandava o seu procurador. Antes de D. Affonso III, íam só os padres e os

fidalgos, depois é que o povo tambem começou a figurar n'essas festas;

mas n'estas côrtes, que se reuniram em Coimbra, como muitos fidalgos

estavam mettidos com o rei de Castella, póde-se dizer que foi o povo

quem escolheu, e que o mestre de Aviz, isto é, D. João I, foi

verdadeiramente o eleito do povo.

--E ahi lhe valeu o João das Regras? acudiu o Manoel da Idanha.

--Isso mesmo, porque lá para fallar não havia outro como elle. Mas d'ahi

a pouco tornou-se necessario fallar outra lingua, a lingua das espadas,

e n'essa, quem lia de cadeira era Nuno Alvares, que o novo rei fez logo

condestavel. Os castelhanos, que tinham ido de cara á banda, voltaram á

carga, e d'essa vez com um exercito immenso, porque o D. João I de lá

tinha resolvido acabar de todo com o D. João I de cá. Antes de vir o rei

com toda a sua fidalguia, já um corpo hespanhol tinha entrado pela Beira

dentro, mas em Trancoso levou uma tareia de primeira ordem. Não se

emendaram e disseram comsigo: Agora é que vão ser ellas. A fallar a

verdade tinham rasão. D. João I de Portugal teria, quando muito, uns

oito ou nove mil homens, D. João I de Castella não tinha menos de trinta

mil, e alem d'isso trazia comsigo peças de artilheria que era a primeira

vez que se viam em Portugal. Encontraram-se os dois exercitos em

Aljubarrota, que fica entre Alcobaça e Leiria, a 14 de agosto de 1385,

grande dia, rapazes! Eu não sei que diabo tinham os nossos, mas parece

que os animava um esforço sobrenatural. E elles não eram nenhuns

fracalhões, os castelhanos, era tudo gente valente e destemida, mas os

nossos estavam todos resolvidos a morrer ali mesmo. Depois tinham cabos

de guerra que sabiam da poda, emquanto os de lá eram valentes, e mais

nada. De lá, eram tudo fidalgos muito bem montados, com as suas espadas

a luzir ao sol; de cá, gente do povo, soldados de pé, mas que todos

queriam ser portuguezes com o seu rei que elles tinham feito, e que

tambem com elles queria vencer ou morrer. E por isso Nuno Alvares dizia:

Rapaziada, pé terra! e zás! lanças no chão, e venha para cá a fidalguia

castelhana, mais os traidores portuguezes que se uniram ao estrangeiro.

E não é dizer que não houvesse fidalgos tambem de cá. Oh! se os havia, e

dos bons e dos melhores, porque eram todos os que tinham preferido

morrer com um rei portuguez a receber do estrangeiro honras e

castellos, gente briosa e valente, e aventurosa, que combatia pelo seu

rei, e pela sua dama, e pela sua honra e pela sua patria. Tambem, não

lhes digo nada, nunca levaram os hespanhoes tão formidavel refrega. Por

muito tempo lhes ficou lembrada, e o rei, que fugio a toda a brida para

Santarem e de Santarem para a sua terra, não se podia consolar de

similhante desastre. D. João I mandou fazer, no sitio da batalha, uma

igreja e um convento maravilhoso, a igreja e o convento da Batalha, para

agradecer a Deus a sua victoria,--e rasão tinha para isso, porque foi

Deus decerto quem deu aos portuguezes o esforço e a galhardia que então

mostraram, que, eu, meus amigos, não sou dos que acreditam que Deus se

mette n'estes barulhos dos homens, mas quando um povo combate pela sua

terra, que é como quem diz quando um filho combate pela sua mãe, então,

meus amigos, ha uma cousa cá dentro em nós, que vem a ser a consciencia

a bradar-nos que Deus, que é a justiça e a bondade, ha de querer a

victoria do que é justo e do que é bom.

--E a padeira de Aljubarrota, sr. João da Agualva? perguntou o Francisco

Artilheiro.

--Deixemo-nos lá de padeiras. Eu não sou muito amigo de mulheres que se

mettem n'estas danças. A padeira era melhor que amassasse pão. Se é

verdade o que se diz, quando os castelhanos já íam de rota batida, a

padeira foi-lhes no encalço e deu cabo de sete com a pá do forno. Olhem

que grande façanha: matar quem vae fugindo! Aquillo era mulher de faca e

calhau, e eu torço sempre o nariz a essa gentinha. Vamos adiante. A

batalha de Aljubarrota decidio a sorte de Portugal. Ainda durou a guerra

muito tempo, ainda o condestavel deu nova tareia nos hespanhoes em

Valverde, mas a verdade é que estava tudo acabado. D. João I governou

então com socego, casou com uma senhora ingleza muito virtuosa e muito

boa, D. Philippa de Lencastre, teve muitos filhos que educou muito bem,

e que foram todos homens de saber e alguns d'elles grandes homens,

chamou muitas vezes as côrtes para ouvir o que ellas tinham que lhe

dizer ácerca dos negocios do Estado, e governou tão bem, que se lhe

chama, com toda a justiça, o rei da _Boa Memoria_. Já em idade

adiantada, trinta annos depois da batalha de Aljubarrota, sentiu D. João

I um appetite de tentar alguma empreza grande. Quem o metteu n'isso

foram os filhos, tudo rapazes decididos que andavam mortos por se metter

n'alguma cousa que lhes désse gloria. O que haviam de fazer? Foram-se

aos mouros. Passaram o estreito, e tomaram Ceuta que fica ali mesmo

defronte de Gibraltar. Vêem vocês? Aquillo era uma raça que não podia

estar quieta. Emquanto jogavam as cristas com os visinhos, ía tudo

bem, mas depois? Os aragonezes viravam-se para Italia, os castelhanos lá

tinham os mouros granadís, nós o que tinhamos? Os mouros de Marrocos e

as ondas do Oceano. Pois foram as ondas e os mouros que pagaram as

favas. D. João I tomou Ceuta, e D. Henrique, seu filho, deliberou tomar

o desconhecido.

--Ó sr. João, exclamou o Francisco Artilheiro, devo confessar que lá

isso é que eu não percebo muito bem.

--Pois eu te explico, rapaz. Julgava-se d'antes que do outro lado do mar

não havia cousa nenhuma, ou antes que as ondas lá para longe eram um

verdadeiro inferno ou um paraizo tambem, porque uns diziam que tudo para

alem eram ilhas de santos e jardins do céu, e outros que eram ilhas do

diabo e terras de maldição; que havia umas estatuas encantadas que não

deixavam passar ninguem, e um mar de pez que engolia os navios. Ora

vocês hão de saber que póde uma pessoa ser muito valente, e ter medo de

almas do outro mundo, e de feitiços e do diabo. Ali está o Francisco

Artilheiro, que, quando foi na expedição á Africa, se atirou ao Bonga

como gato a bofes, que é capaz de varrer uma feira, e que, se lhe

disserem que vá de noite ao palacio do marquez, lá ao corredor onde

dizem que falla a voz do Roque...

--Tarrenego! exclamou o Francisco Artilheiro, um homem é para um

homem, mas lá uma alma do outro mundo!...

--Ora ahi está! era o que acontecia aos soldados de D. João I. Com

mouros e castelhanos tudo o que quizessem, mas com as aventesmas do

mar... arreda! Pois imaginem vocês se D. Henrique não fez um milagre

conseguindo que os marinheiros do Algarve, porque elle, desde que poz o

fito em querer saber o que o mar escondia, foi-se estabelecer em Sagres,

mesmo na ponta do cabo de S. Vicente, conseguindo que os marinheiros do

Algarve se mettessem ás ondas, sem medo de phantasmas, nem de avejões. E

foram aquelles valentes, que fizeram tão grande no mundo este paiz tão

pequeno, e partiram por esses mares fóra, sem saber o que por lá havia,

e sempre a tremer da perdição da vida e da perdição da alma, e foram, e

encontraram a Madeira e encontraram os Açores, e Gil Eanes dobrou o cabo

Bojador, que era onde diziam que estavam as taes estatuas encantadas, e,

como não encontrou estatuas nenhumas, lá foi tudo atraz d'elle, e, de

repente, Portugal poude desenrolar diante do mundo um outro mundo

ignorado, a costa da Africa toda, com os seus grandes rios, os seus

bosques verdes, o seu povo de pretos, como eu vi, n'um theatro de

Lisboa, desenrolar-se diante da platéa pasmada um panno pintado com

cidades e quintas e ilhas e rios, que era de uma pessoa ficar de boca

aberta. Ah! meus amigos, podem agora não fazer caso de nós, e

podemos nós tambem dizer mal de nós mesmos, mas um povo que assim se

atreve a arcar com o que mette medo aos mais valentes, e abre aos outros

as portas de um mundo maravilhoso, é um grande povo, digam lá o que

disserem.

--E D. João I é que fez tudo isso? perguntou o Manuel da Idanha.

--Não foi elle, mas foi o filho, D. Henrique, que era um sabio, e que a

seu pae deveu a educação que recebera; e o grande rei, que salvára

Portugal do estrangeiro, teve a gloria, antes de morrer em 1433, de ver

começada essa obra que havia de tornar para sempre grande no mundo o seu

nome e o nome de Portugal.

Succedeu-lhe seu filho, D. Duarte, a quem chamaram o _Eloquente_, pelo

bem que fallava e que escrevia, porque tambem fazia livros como o rei D.

Diniz, e livros muito bem feitos. Coitado! não merecia a sorte que teve.

Os irmãos, D. Henrique e D. Fernando, quizeram continuar a obra do pae,

e foram tomar Tanger. Não o conseguiram, perderam muita gente, e para se

salvar o exercito das garras dos mouros, teve de ficar preso na Moirama

o infante D. Fernando. Para o livrar era necessario entregar Ceuta, mas

o infante D. Fernando, que bem mereceu o nome de _Santo_ que lhe

pozeram, não quiz nunca ouvir fallar em similhante cousa, e preferiu

morrer atormentado nas masmorras de Fez a consentir que dessem por elle

aos mouros uma terra, que tanto sangue nos custára. Tudo isto foram

desgostos grandes para o pobre D. Duarte, que morreu, depois de cinco

annos de reinado, em 1438, da peste que então assolou o reino, porque

não houve desgraça que n'esse tempo não acontecesse.

Succedeu-lhe um filho pequeno que tinha, e que foi D. Affonso V, e, como

D. Duarte era muito amigo da mulher, foi a ella que nomeou regente. Ora,

na verdade, tendo o pequeno uns poucos de tios que seriam todos grandes

reis, como D. Pedro, D. Henrique e mesmo D. João, dar a regencia a uma

mulher, e de mais a mais hespanhola, era tolice graúda, por isso o povo

não gostou, e as côrtes convidaram D. Pedro a tomar conta da regencia. A

rainha, que era levada da bréca, e que nunca podéra ver os cunhados, deu

pulo de corça com esta resolução, a que foi obrigada a ceder, e, com o

partido que tinha, agitou o reino de tal maneira, que D. Pedro não teve

remedio senão tomar providencias, e uma d'ellas foi tirar o filho á

rainha, porque o pequeno estava sendo nas mãos d'ella um instrumento de

revolta. A final, a rainha foi para Hespanha, mas eu estou convencido,

rapazes, que o odio que D. Affonso V sempre teve ao tio veio d'ahi. Ora

imaginem vocês! D. Affonso era uma creança n'esse tempo, agarrado á mãe

como são todas as creanças; não percebia cousa nenhuma de politica

nem de meia politica, viu-se arrancado dos braços da sua mamãsinha, que

se agarrava a elle a chorar, e arrancado por quem? Por seu tio. Depois,

quando fosse maior, podia reconhecer que o tio era o que se podia chamar

um grande homem, que lhe tinha governado o reino como ninguem seria

capaz de o governar, que era tão pouco amigo de vaidades, que nem

quizera que lhe fizessem uma estatua, mas o rancor da creança nunca se

foi embora. Pois o tio, apenas elle chegou á maioridade, logo lhe

entregou o governo, sem a mais pequena demora, e foi viver para Coimbra

com o maior socego. Apesar de tudo isso, e apesar de ser muito amigo da

mulher que era filha de D. Pedro, o rei tal odio tinha ao tio e ao sogro

que deu ouvidos a todas as intrigas dos inimigos d'elle, e

principalmente ás do primeiro duque de Bragança, seu tio tambem, filho

bastardo de D. João I; chegou o duque a levantar tropas para ir contra o

pobre D. Pedro, que, espicaçado e ralado por todas as fórmas, teve de

tratar da sua defeza. Emquanto o duque de Bragança levantava tropas por

sua conta e risco, achava o rei isso muito bem feito; apenas o infante

D. Pedro juntou alguns soldados para não atravessar esse reino ao

desamparo, logo D. Affonso V entendeu que era caso de rebeldia e

traição, e marchou contra elle. Na Alfarrobeira, ali ao pé de Alverca,

se encontraram as tropas de um e as tropas do outro. Não houve

batalha, mas travaram-se de rasões os soldados, e, quando mal se

precatavam, achou-se tudo embrulhado na bulha, e lá morreu o pobre do

infante D. Pedro, tão sabio, tão bom, tão justiceiro.

Quem ouvir isto, ha de dizer que D. Affonso V era um malvado, pois não

era; cabeça de vento sim, nunca houve outra igual! Sympathico e bondoso,

um mãos-rotas, principalmente para os fidalgos que apanhavam d'elle

quanto queriam, enthusiasmava-se todo por cousas que já não importavam a

ninguem, e quiz até fazer uma cruzada contra os turcos. Os outros

principes christãos não estiveram pelos autos, e vae elle então

voltou-se contra os mouros da Africa, e é certo que juntou a Ceuta as

praças de Tanger, Arzilla e Alcacer Ceguer. Por isso lhe chamaram o

_Africano_. Emfim, bom seria que nunca tivesse pensado n'outra cousa,

mas deu-lhe na veneta querer tambem ser rei de Hespanha, e, quando lá

houve grande bulha para se saber quem havia de succeder ao rei que

morrera, se havia de ser D. Isabel que era irmã, se D. Joanna que era

filha, o nosso D. Affonso, apezar de já não ser novo, casou com esta,

que vinha a ser tambem sua sobrinha, ao passo que D. Fernando de Aragão

casava com a outra. D'ahi veio uma guerra levada dos demonios; mas, a

final, D. Affonso deu a batalha de Toro, que ficou indecisa, mas foi o

mesmo que se a perdesse, porque não poude continuar a guerra. De que

se ha de lembrar então o nosso D. Affonso V? De ir em pessoa pedir

soccorro ao rei Luiz XI de França, que era o mais manhoso de todos os

principes, e que não fazia nada sem interesse. Luiz XI andou a cassoar

com elle, até que D. Affonso V mandou dizer ao filho, que ficára a

governar o reino, que subisse ao throno, porque elle abdicava, e ía para

a Terra Santa; mas depois muda de tenções, e, quando já ninguem o

esperava, apparece em Portugal. O filho é que não quiz saber de mais

nada; entregou-lhe logo a corôa, que D. Affonso acceitou, morrendo

quatro annos depois, em 1431.

--Ó sr. João, interrompeu o Bartholomeu, e essa historia de descobrir

terras novas tinha parado?

--Qual tinha parado, homem! Emquanto D. Henrique viveu, e só expirou em

1460, quando já D. Affonso V era homem, não pensou n'outra cousa; todos

os annos se ía descobrindo mais alguma porção da Africa, e já não havia

quem acreditasse em carapetões de estatuas. Os portuguezes, o que faziam

era sempre seguir para baixo, até ver se topavam com a India, ou então

se davam com um rei que diziam que era christão, e a quem chamavam o

Prestes João das Indias.

--E quem era esse rei? perguntou o Manuel.

--Eu depois lhes digo, rapazes, agora não me fallem á mão. O que é certo

é que estava já descoberta uma boa porção da Africa, e já por lá se

fazia muito bom negocio, tanto que D. Affonso V, que andava embrulhado

com outras cousas, e que não podia cuidar dos descobrimentos como o tio,

arrendou o commercio da costa da Mina a um tal Fernão Gomes, com a

condição d'elle continuar a descobrir terras. Felizmente, quem ía subir

ao throno era um rei de outra laia, que tinha lume no olho, e que havia

de levar as cousas pelo rumo que devia de ser, para gloria do nosso paiz.

Foi D. João II esse rei, e com rasão lhe chamaram o principe perfeito,

porque não houve nenhum que entendesse tão bem do seu officio; mas,

antes de fallar n'elle, meus amigos, deixem-me vocês explicar-lhes o que

é que se tinha passado no tempo d'esses tres primeiros reis da dynastia

que se chamou de Aviz.

Viram vocês como os reis se encostaram ao povo para dar cabo da nobreza

e do clero, e como lhe deram força para que os fidalgos e padres se não

fizessem finos. Por isso tambem se póde dizer que foi o povo quem fez

rei D. João I, e este nunca se esqueceu d'isso. Comtudo, padres e

fidalgos, continuavam a ser muito poderosos, e, se D. Duarte, com a lei

chamada mental, e o infante D. Pedro lhes tinham dado para baixo, D.

Affonso V quasi que desfizera tudo, porque com elle não havia parente

pobre, dava aos fidalgos o que elles queriam, e com rasão dizia o

filho que seu pae o deixára rei das estradas de Portugal, o que, valha a

verdade, não devia ser um grande reino. Ora agora acontecia tambem o

seguinte: é que o povo, nas côrtes, estava sendo mais um servo do rei do

que outra cousa. Já não podia dizer aos reis: «Toma lá, dá cá.» Já não

era cada concelho que mandava um procurador, juntavam-se uns poucos de

procuradores para mandar um deputado a que chamavam definidor, e o rei

sempre os podia ter mais na sua mão do que á turbamulta dos antigos

procuradores. Alem d'isso, os doutores, o que aprendiam nas escolas eram

as leis de Roma, o direito romano, e ahi o que se dizia era que o rei

podia fazer o que quizesse. O que resultava? Resultava que o clero e a

nobreza haviam de levar para baixo, mas que o povo depois... esperasse

pela pancada. É o que vocês saberão para o domingo que vem, porque a tia

Margarida está a caír com somno, e eu não quero que digam de mim, como

de alguns prégadores, que sou bom para quem anda com falta de dormir.

Historia alegre de Portugal: leitura para o povo e para as escolas · 第 18 / 24 题