N'esse dia de Agosto com toda a gente nas praias, Lisboa tinha o aspecto

nú e vasio de um ascensor parado que já não funcciona. E eu que sentia

isto do agosto de Lisboa, refrescava-me do calor e do tedio que ascendia

por mim acima até á nitidez de ser a expressão exacta de estar

desempregado de mim proprio. E concordava que isto de se existir pra

provar que o tedio existe em Portugal, todos os mezes e todos os dias,

continuava a ser tedio porque já estava provado desde a fundação da

monarchia luzitana.

E quantas vezes sem se saber porquê a gente pensa na batalha de

Alcacer-Kibir quando estamos á espera da resposta e do gallego! E

tambem, como quasi sempre succede, chega sempre primeiro que o gallego

um amigo que esteve na escola comnosco e apesar disto nunca esteve na

escola comnosco.

E pergunta-nos como estamos quando nós apenas nos lembramos de termos

tido bexigas brancas com calções e perna á vela. Todavia se erguemos os

olhos pra elle reconhecemos n'aquella cara estupidamente alemtejana o

primeiro classificado nas mathematicas do nosso curso. Justamente como o

meu amigo Cunha que janta fóra por pandega, este antigo condiscipulo era

a manifesta metamorphose d'aquella imbecilidade. O que é um facto é que

se eu não tivesse resolvido graphicamente esta ligação não teria tambem

explicado o ter pensado ha pouco na funesta batalha de Alcacer-Kibir. E

de tal maneira eu cria n'esta transmissão de pensamento que fôsse pelo

que fôsse o gallego não se poderia chamar senão Sebastião.

Elle, o condiscipulo, ainda estava deante de mim com todas as suas

reminiscencias da escola tão alemtejanas como elle até que abriu muito

os olhos n'uma falta de lembrança que era minha:

--Não te lembras do Sebastião?

--Qual? o gallego?

--Não!

--Ah! sim... o outro. O outro era elle com uma imbecillidade trigueira

que teve o maximo na classificassão das mathematicas do meu curso e

ainda que o gallego já podesse deixar de ser Sebastião, este Sebastião

era gallego com certeza.

--Então o que fazes agora?

--Sou engenheiro. E esta _blague_ deu-me logo as vantagens de poder ter

sido educado na Allemanha ainda que estava já resolvido a não dar

gorgêta ao Sebastião pla demora tão demasiada que me parecia já um

condiscipulo que eu não via desde a escola essa carta que eu esperava

impertinente.

--Pois eu estou no Algarve... (tinha-me enganado, era o Algarve)... nas

herdades de meu pae proximo de Olhão.

--A senhora manda dizer que o não póde attender porque chegou um primo

d'ella do Algarve, que veiu de Olhão, disse o gallego n'um segredo que

mettia x. em todas as palavras.

--Bom, quanto é? que não podia ser menos de dois tostões e se não fôsse

o condiscipulo podia ter a certeza que ninguem lhe pagava o dobro do que

pedia n'um gesto tão millionario.

--Então adeus! Vaes pra cima?... tenho pêna, eu vou pra baixo. Adeus.

+X+

Talvez que o leitor não saiba mas eu tambem sou conhecido como

caricaturista. Outros dizem que eu tenho maus costumes, mas isso é para

me arreliar, Ora tendo-se dado o caso extraordinario de no dia 7 de

Abril de 1800 e tantos ter havido uma trovoada sobre o paquête e o

commandante logo essa manhã ter mais um passageiro a bordo quando todos

eram unanimes que tinha caído uma faisca na sala de jantar, o resto da

viagem fez-se em sobresalto continuo. Todas as noites os phenómenos

phosphoricos se intensificavam perturbantemente apesar do dr. allemão

ter revelado a existencia de animalculos onde predominava essencialmente

o iodo. Os companheiros de viagem conheciam-me lá entre elles por o

recem-nascido. Depois d'esta a maior trovoada a que eu assisti foi em

Campolide quando estava fechado á chave de castigo na retrete dos

professores. Eu era tido como elemento indisciplinavel e perturbador até

ao dia em que um frasco de tinta verde se entornou por cima do livro de

missa quando eu estava a copiar um Christo gravado que eu achava muito

bonito. N'esse mesmo dia fui expulso por causa d'um amigo meu que foi

esconder as bolas de bilhar que ainda se não tinham estreiado dentro das

bolas de bilhar que já estavam muito velhas. P'la noite, infelizmente,

amnistiaram-me.

Recentemente, tendo-me encontrado em Barcelona com o doutor allemão que

tinha umas barbas encaracoladas em iodo cortámos as relações por causa

de uma acirrada discussão sobre Niewtch apesar de elle ter ficado

encantado co'o meu bello jôgo de combinação no desafio de "foot-ball"

contra o Racing de Madrid. Hoje, porém, tive uma alegria que eu não

tinha desde a ultima trovoada--a engommadeira, que se tem ido

civilisando pouco a pouco com o estar comigo, ao almoço veiu lindamente

arranjada e beijei-lhe a bocca deante dos outros hospedes só por ella

ter trazido os labios pintados de verde esmeralda!

Que bello! Achei-lhe mesmo um ar casto de Samaritana que apertou bem a

cinta sobre o ventre--Ah! e que lindos são os limos do poço de

Jerusalem!

A velhota que era dona da pensão veiu dizer-me com o chocolate esta

manhã que estava cá um hospede que era muito meu amigo e que tambem lhe

tinha dito que eu era o poeta de mais valor que andava por ahi. Jantámos

juntos e entre coisas que recordámos foi um passeio que demos ao sitio

do Calvario n'uma tarde de verão justamente á hora do raio-verde. Elle

tambem se lembrava de umas tourinhas que houve nas eiras dos Serrões e

que até o Virgilio quando ia a marrar no Cunha tinha ido, coitado,

contra a trincheira e tinha escangalhado a cara toda que nem se lhe viam

olhos, nem bocca, nem nariz, nem nada... um horror! Fazia soffrer.

Preguntou se eu ainda tinha boa voz e se não tinha penna d'aquellas

serenatas ao luar p'lo rio todos muito apertados com as primas da Eira

de Pedra no bóte do tio d'elle. Elle achava que se calhar eu já tinha

esquecido todos aquelles fadinhos tão catitas e ficou com um O maiusculo

na cara toda quando eu lhe disse que já não namorava a Alice. Tambem

queria saber o que eu tinha feito do cavallo que era tão airoso que um

domingo até deixára de ouvir missa por ter ficado a vêr-me a dar

gallopes no adro e a saltar uma oliveira que tinham tirado por causa da

barraca da "kermesse". A proposito perguntou-me se eu tambem não achava

que a Alice se parecia immenso com a minha amante e ai que os olhos

então eram tal e qual. Pra elle era um exercicio que elle tinha que

fazer pra ámanhã de manhã o eu ter deixado a Alice e com tanta cortiça!

Teve immensa curiosidade em saber se eu ainda era muito distincto em

mathematica mas além d'isso todos nós os tres achámos boa ideia irmos

tomar o café fóra, á Brazileira. Pouco depois ouvimos grosso tiroteio no

Largo do Directorio e elle nem sequer ainda tinha deitado assucar na

chavena e já estavamos outra vez na pensão com apparencias pallidas de

cardiacos com uma escada bestial até a um quarto andar. Eram umas duas

horas da madrugada ainda elle estava a dizer que eu, quando foi a festa

da Senhora da Saudade, talvez que eu me não lembrasse mas elle ainda

estava a vêr uma Nossa Senhora que eu tinha pintado com anilina em dois

metros de patente e que tinha ficado mais bonita que uma estampa e que

até o prior me tinha feito um elogio rasgado no sermão da Paixão dizendo

que era uma pena se eu não continuasse os estudos; mas o que elle achava

mais extraordinario é que tendo sido expulso de Campolide a unica

medalha que eu tivesse ganha fôsse justamente de catecismo. A dizer a

verdade eu já tinha saudades de ter sido caricaturista mas como ella se

tivesse ido deitar porque já não podia mais com somno elle disse-me que

ainda bem porque trazia uma carta da Alice que era pra mim com a

condição de eu dar resposta. A carta em questão affirmava sem preambulos

que quando chegasse até elle já a tua Alice nem comia, nem bebia, nem

via, nem cheirava, o que queria dizer que estava morta.

Comtudo a resposta era pra ella porque em _post-scriptum_ affiançava que

estava disposta a esquecer aquella infame caricatura que eu tinha dito

que era o retrato d'ella pra reatarmos outra vez aquella paixão intensa

com passeios aos pinheiros e merendas no bosque e pescas ao candeio e,

emfim, aquella pouca vergonha toda que é inevitavel p'las ferias com a

barraca dos banhos mesmo ao lado da d'ella. No mesmo _post-scriptum_

pedia-me o obsequio de lhe ir comprar um chapeu da moda que não fôsse

além de dois mil réis que era pra estreiar na feira por causa das

Delgados que faziam troça d'ella por eu a ter deixado e que quando eu

fôsse pra lá em Agosto que iria pedir ao tio Pedro dois mil réis

emprestados. O mesmo _post-scriptum_ ainda dizia e com c cedilhado que

não pensasse mais n'ella caso eu não lhe quizesse responder; porém,

incitava-me á indisciplina com mais passeios aos pinheiros e merendas no

bosque e pescas ao candeio, emfim aquella pouca vergonha toda que tinha

custado um tiro de arma caçadeira no ouvido do primo d'ella que recitava

monólogos de João de Deus e glosava todos os pensamentos com a condição

do faroleiro o acompanhar á guitarra. No fim do _post-scriptum_ dizia-me

que não tivesse duvidas absolutamente nenhumas que ella ainda era a

mesma Alice que eu tinha deixado no club sem par pra dançar e que tambem

não tinha duvidas absolutamente nenhumas que o tio Pedro lhe emprestaria

p'la certa os dois mil réis. Cá no canto do papel dizia muito baixinho

em hypothenusa de triangulo rectangulo--volte. Eu voltei e ella

perguntou-me lá em cima do outro lado se eu achava que ella devia tomar

as pilulas pink ou comprar um vigesimo da loteria do Natal com esse

dinheiro e que gostava da minha opinião. Depois contava laconicamente

uma excursão que um tio d'ella tinha feito á Torre do Pombal que tem

vinte e cinco metros a pino e que, coitado, caira e logo por

infelicidade quebrara uma perna que tinha ficado ao contrario. Pedia

tambem desculpa de me não escrever em papel de luto mas que por desgraça

das desgraças o pae d'ella tinha desapparecido quando n'um passeio p'la

estrada vinha a correr pra cá uma manada de bois bravos. Emfim, a

infelicidade era tanta, tanta que a propria mãe até já tinha abandonado

a sua carreira de prostituta em Beja e até já lhe propuzera pra se

amancebar com um senhor Barbosa que era de Lisboa e que me conhecia

muito bem e que já não tinha muito cabello. Comtudo tinha preferido

montar uma engommadoria com o dinheiro que um grumête do "S. Raphael"

que era o unico amante que felizmente a mãe d'ella tinha agora e podia

ir pagando aos poucochinhos. Mas não! preferia continuar aquella vida

com elle. Aquella vida séria que não se póde voltar atraz, é ir... é não

lhe dizer nada e deixar. E o relogio deu horas que eu contei mas não

eram quatro nem cinco era um algarismo que eu nunca vi escripto e que só

agora é que eu reparei que existe realmente entre o quatro e o cinco.

Mais ninguem tinha ouvido senão eu. Felizmente que o relogio era de

repetição e eu pedi a attenção de todos e estavam todos attentos e só eu

é que ouvi. De repente partiu-se a fita e lá adeante começaram a dar

pateada. Depois comecei a sentir muito frio só no hombro direito,

tinham-se esquecido de fechar a janella. Vinha muita gente a fugir p'lo

Chiado a baixo e o Chiado parecia n'aquella noite sem arcos voltaicos

uma ponte levadiça sobre uma barbacã descommunal. Do outro lado a Alice

tinha chegado tarde. O _post-scriptum_ tinha na ultima pagina escripto

em lettra romana 33. Depois ia a andar, a andar pela margem fóra e

começou a vêr uma bola muita sumida que ía crescendo, crescendo em

tamanho mas que ficava sempre sumida; tornava a começar cá debaixo e já

não crescia, subia toda deitada prá esquerda a diminuir a velocidade, a

diminuir pra azul, pra azul até começar a ser devagarinho um boneco mal

desenhado a dançar uma imitação do fantoche. Depois a cabeça do fantoche

começou a inchar mollemente sem firmeza nenhuma e quando já era um balão

muito grande que vinha cair ao pé de mim tocou n'um bico de alfinete que

estava no tecto e entornou-se um balde de sangue que nunca acabava de se

entornar mesmo no meio das merendas no bosque. De repente os andaimes

começaram a desabar sobre mim. Os garôtos apregoavam nas ruas _A

Capital_... muito longe, sem chão, alargava-se apressadamente uma cova

de luz com as arvores nas nuvens de pernas pró ar, e a cova furou tudo

pró lado de lá e ía-se abrindo mais depressa, muito mais depressa do que

eu lhe fugia. D'esta vez bati mesmo com a cabeça na esquina da meza e o

meu amigo deante de mim dizia-me que eu devia por todas as razões fazer

as pazes com a Alice.

Eu é que já não podia mais; pedi-lhe immensas desculpas mas que estava

era com um d'estes somnos de subir a escada ás escuras com o sol a

nascer nos mercados. Quando cheguei ao quarto estavam todas as lampadas

accesas e a engommadeira dormia a respirações baloiçadas tendo aberto

entre os dedos na gravura do Christo um livro de missa todo ensopado em

tinta verde e que era a unica recordação que eu trouxera de Campolide.

Os labios d'ella estavam fortemente pintados de vêrde­esmeralda!

+XI+

Era muito pra lá do cemiterio mesmo na volta das furnas. Os carros da

estrada quando passavam por ali iam mais depressa e de noite não

passavam. De noite a volta das furnas ficava sósinha. Um dia appareceu

uma cruz negra muito mal-feita e ainda ha muita gente no logar que diz

que viu com os proprios olhos a cruz negra do moinho velho toda accesa

de noite. Uma noite foi tão grande o clarão que até houve sinos a rebate

julgando ser fogo. D'outras vezes é tão grande a gritaria que vem de lá

do moinho que as mulheres, coitadas, pôem-se a chorar baixinho com medo

de fazer barulho. Até o senhor prior que não acreditava foi lá sósinho

pra desencantar o bruxedo com agua-benta porque as mulheres gritavam pra

não deixar ir os maridos... e fizeram bem porque o senhor prior, não se

sabe d'elle! Uma velhinha que voltou tarde da feira e não se lembrou e

passou por lá prendeu-se-lhe uma rã nas voltas das saias e appareceu

morta na estrada só sobre um pé. Depois é que nasceu o castanheiro que

lá está no sitio. A gritaria que vem de lá do moinho é como o coaxar das

rãs com o regato a correr filtrado. E cabra que paste por alli só dá

peçônha. Um dia uma escola de repetição quiz-se fazer teza e os canhões

foram fumados pelo commandante que se tinha esquecido de comprar

charutos. Quando rompeu a manhã os batalhões já eram rãs que se tinham

calado. Por isto mesmo, e é bastante, já não ha aldeia nenhuma n'este

sitio de que estou fallando. Apenas existe um poço de cimento armado com

balde e agua salôbra onde eu e a minha desditosa amante iamos gastar as

tardes longe da cidade consoante a recommendação do meu medico que por

deferencia que nunca esquecerei foi n'este caso o medico d'ella.

Não sei positivamente a razão d'aquella mudança tão repentina no

espirito irrequieto da minha amante que quasi já nem sabia fallar e

quando fallava era pra me pedir amendoas sentadas ou prá levar a pessear

onde caem os balões. A saude physica antes de a perder, pelo contrario,

desenvolvera-se-lhe extraordinariamente sem uma constipação apesar de

preferir andar por toda a parte sempre núa. Uma manhã quando accordei no

chalet que eu alugara sósinho n'aquelle monte longe de toda a gente

reparei que ella não estava na minha cama!

A prêta, a cosinheira, tambem não sabia nada. De todas as janellas que

eu espreitasse ella só poderia estar das que eu não espreitasse. Se

descia ao rez-do-chão ouvia passos no outro andar mas se estivesse no

outro andar ouvia passos no rez-do-chão. Tambem, se por acaso, eu dava

uma volta pela quinta prá procurar quando voltasse era certo que ella

ainda não tinha accordado. Ás vezes a luz tambem faltava de repente com

o frio de uma janella que se abria mas quando a luz voltava as portas de

dentro das janellas tambem estavam fechadas. Uma noite eu estava a

escrever um conto realista e o aparo da canêta era uma vêspa. Pensei

toda a noite na vêspa e na manhã seguinte o meu conto realista estava

acabado com lettra da minha amante que, mais extraordinario é, nunca

aprendeu a lêr. A cosinheira prêta chegou-se um dia junto de mim a

chorar como doze cosinheiras prêtas e disse-me que tinha medo de dormir

no sotão porque as têlhas de noite punham-se todas em braza e que depois

quando se derretiam cahiam em picadellas de alfinetes. Tambem contou que

uma madrugada tendo-se sentido mal que se tinha ido vêr ao espêlho e que

vira com os dois olhos da cara a agua do contador a cahir pra cima. No

dia seguinte o carteiro trouxe uma carta registada que quando eu a abri

foi logo um estôjo de barba com sabonete e tudo, e quando eu fui pra

mostrar este presente á minha amante encontrei-a sentada sobre uma vela

accesa a cortar reflexos com uma thesoura das unhas que já faltava no

meu estojo da barba quando eu o abri. Quando a vela ardeu toda começaram

a apparecer pelas parede ás escuras immensos t t que vinham uns depois

dos outros e cortados por estrellas cadentes que eram uma nota de musica

quando acabavam. Immediatamente entrou a cosinheira e vinha com um

castiçal de cobre acceso mas trazia a cabeça ás avessas; vinha

preguntar-me se eu sabia, por acaso, onde é que eu tinha lido aquella

frase que ella já se não lembrava se era i ou de chumbo. Mas peor do que

nunca, foi quando n'aquella manhã de Maio eu accordei no meio de um

sônho em que vira a minha amante como sendo cosinheira preta da cintura

pra cima e sendo apenas a minha amante da cintura pra baixo. Quiz

certificar-me. Sentei-me na cama e tive um grande prazer em verificar

que tinha sido apenas um sonho aquelle horror. Porém, quando ella se

ergueu era effectivamente, ainda que ao contrario do meu sonho, a minha

amante da cintura pra cima e a cosinheira preta da cintura pra baixo.

Desci preoccupado as escadas, tive a noção exacta da profundidade até

onde estavam pregados os pregos dos degraus; comprehendi como um degrau

póde ser um mundo se nós quizermos e é um mundo real mesmo que nós o não

queiramos. Achei mesmo dois mundos differentes dentro de um mesmo

prego--um era a cabeça do prego, o resto era o outro. O que me

interessou mais foi justamente o que era apenas a cabeça do prego. E

logo havia outro mundo n'outra cabeça de prego... e outro n'uma cabeça

de prego maior... e outro n'outra cabeça de prego ainda maior, e outro

n'uma cabeça de prego da altura da Torre Eiffel e um prego cuja cabeça

fôsse a Terra e apesar d'isso ainda houvesse outros pregos muitissimo

maiores.

Tive mesmo dentro do meu cerebro as dimensões de um prego em que a Terra

fôsse o atomo minimo do ferro que pezasse em toneladas a capacidade do

mundo astral com todas as suas distancias.

E mais ainda: eu sentia que cada póro do meu corpo, cada molécula

isolada, era uma série de mundos diferentes onde cada mundo mesmo os das

ultimas subdivisões tivessem um mappa e leis e onde cada sêr fôsse tão

complicado como o homem e mais ainda do que o homem, como eu. Não era

sómente este segrêdo que já fazia parte da minha riqueza, havia outro.

Era eu ter conduzido a minha sensibilidade (educada exclusivamente pelos

que me educaram na psicologia humana) pelos timbres dos metaes... Ah! os

mundos interessantissimos que são aos milhares nos timbres dos metaes, e

nas côres dos metaes e na ferrugem e na duracidade e em todas as partes

do corpo mineral e em todas as sensações da alma mineral muito mais

independente que a psycologia humana pela unica razão de aquella ser

independente. E que exercitos tão mais gloriosos e que Alexandres e

Napoleões bem mais deuses desfilam n'esta historia immensa, muito mais

antiga que a nossa, e com historiadores que sendo poetas vivem n'um

mundo inteiramente mais perfeito, apesar de existirem talvez apenas no

bico do alfinete que o senhor Barbosa traz espetado na gravata encarnada

e verde. Isto vem a proposito do senhor Barbosa ter communicado n'um

bilhete postal á minha amante que ia escrever um livro sobre... sobre

quê!? O senhor Barbosa que por ser senhor Barbosa é toda a gente, quer

seja senhor Barbosa na Arte, quer o seja na Politica ou na

Individualidade ou em tudo é n'este mundo o mesmo que um remedio que

nunca haverá de livrar as pessoas da morte. Digo nunca haverá porque não

creio em absoluto na intelligencia humana por isto que o homem só vive

exclusivamente a vida nitidamente animal ou a mysteriosamente espiritual

porque nem esta mesmo na sua metaphysica soube definir quanto mais a

vida mineral, a vegetal, a fluida, a do orvalho, a da phosphorescencia,

todas as infinitas vidas synthetisadas na côr verde e em todas as outras

côres e em todos os tons provaveis e impossiveis de todas essas côres e

de todos os seus contrastes simultaneos... etc., etc. Ora como quer o

senhor Barbosa escrever um livro se nem mesmo como transeunte o senhor

Barbosa é completo ou competente. Ou como póde o Papa ser infallivel em

materia de Deus se o meu Deus é differente do d'elle e do de todos os

seus catholicos e até differente do Deus de todos os atheus. Deus ha

tantos quantos os instantes de todas as vidas de todos os mundos e esse

ninguem póde adora-lo porque o não póde conceber. Só esse proprio Deus é

que o póde conceber, e mesmo Este não admitte a sua propria concepção

porque se a Terra por destino tiver fim os outros mundos subsistem e se

o fim fôr uma logica das determinantes d'aqui a um milhão de annos os

mundos serão todos outros com as metamorphoses de outros mundos ainda.

Mas nem é preciso ir tão longe, vamos á vida, restrinjamo-nos. Eu se dou

a minha opinião republicana a um republicano acha elle que sou talassa.

Se é um monarchico que me ouve as theorias conservadoras desliga-se de

mim por causa de eu ser revolucionario. Se é um artista que discute

apressa-se em dizer-me que a arte d'elle é differente da minha como se

houvesse duas artes, como se Deus fôsse dois como as approximações da

loteria. O que esse artista não sabe é que essa tal arte d'elle é tão

pouca coisa como o mercurio fechado dentro de um thermometro centigrado

e que só póde subir até cem assim como se cem fôsse o limite do vacuo e

onde começa justamente uma formação de mundos onde a atmosphera é rigida

com relação á nossa impenetrabilidade.

Ora o senhor Barbosa vae escrever um livro sobre quê?! O senhor Barbosa

aprendeu no catecismo ou na educação civica que o homem tem cinco

sentidos e foi no bote como qualquer ministro quer seja de Deus ou da

Republica. Ora foi justamente o senhor Barbosa um dos primeiros que me

veiu dar os parabens por causa de um Christo por mim publicado n'uma

revista de rapazes a _Ideia Nacional_ cuja unica particularidade para os

outros foi ser verde e não ter cabeça.

Justamente como se eu tivesse tido a ideia de fazer uma cabeça de

Christo e não um Christo inteiro. Não me dirá o senhbr Barbosa o que

terá percebido do meu Christo? Julgou que fôsse partida aos catholicos?

Julgou que era a minha adhesão á Republica? Julgarão tambem os

catholicos que me merece alguma consideração essa sua archaica

restricção religiosa? Julgarão acaso os catholicos que eu pretendi

cantar-lhes a devoção? Julgarão os monarchicos tambem alguma coisa em

seu favor?

Christo, cuja unica nodoa consiste em andar recentemente a dar extensão

a appelidos de pessôas que não são muito extensas, tem outras grandezas

das quaes não são os catholicos nem os christãos que partilham d'ellas,

A Lenda de Christo é a unica profecia exacta de toda a Historia

Universal. É simultaneamente a historia da Humanidade desde o primeiro

homem até ao ultimo de todos os homens e a vida interior, consciente e

inconsciente, de cada um dos homens separadamente. A Lenda de Christo

edificada talvez sobre a vida de um homem cujo descriptivo symbolisava

essa propria Lenda, canta a Personalidade, as luctas pela victoria da

Intelligencia, os sacrificios pelo Bem dos outros admittindo entre estes

todos os que a esthetica comparou. Teria mesmo muito mais que dizer a

este respeito mas como a minha amante, coitada, já se está a affligir

demais, porque embirra immenso que esteja a discutir politica, eu paro

hoje por aqui porque além d'isso ainda tenciono ir ao _Chiado Terrasse_

com ella, coitadita!

+XII+

A Engomadeira: Novela Vulgar Lisboeta · 第 2 / 3 段