O anão já não era o mesmo--morrera o bôbo das tabernas, o poeta mendigo

da Torre. Pobre anão corcunda dobrando as pernas curtas cançadas de um

ventre enorme. Os largos pés sem abrigos calejavam as sollas a

arrastarem-se em desiquilibrios que até pareciam de proposito. Os braços

inteiros fingiam metades e ajudavam-lhe os passos a dar-a-dar. Os dedos

curtos e cabelludos em cima não eram os dedos das mãos eram os dedos dos

pulsos. A cabeça tinha a expressão de não estar bem cheia, mal-ageitada

sobre os hombros subidos a susterem-lhe as faces inchadas com uma barba

rala de ferrugem de prego torto no meio da estrada depois da chuva. O

nariz soprado mettia mais pra dentro uns olhos escondidos como toupeiras

nos buracos á espera da noite. O rithmo do deslocamento total era o

maximo de intensidade theatral n'um drama socialista e o casaco negro,

verde de velho, vestia-o todo e ainda se espojava por detraz d'elle n'um

movimento de andar menos depressa e não ter rodas. Ás vezes com o sol em

chapa chegava a ter a imponencia do manto arrogante de um rei. E o povo

todo ao vêl-o esgueirar-se timido plas vielas já não ria os gestos

cortados do bôbo das tabernas, todos recordavam as graças mortas do

outro anão do mesmo casaco comprido. Dantes pedia esmola ou vendia

cautelas, ou estropiava n'um fandango de ir cahir, as coplas mais

indecentes das revistas; agora fugia dos outros e não mendigava, tinha

mesmo um orgulho de saber uma coisa que os outros não sabiam. Ás vezes

quando encontrava os mendigos punha-se a chorar e convidava-os pra ir

prás terras e dava-lhes uma moeda de prata. Porém, continuava a morar

n'aquella torre já quasi sem base e no ultimo quarto mais perto de onde

cahia a chuva, uma cela immunda sem postigos onde o sol de medo e de

nojo nunca fôra. E todas as noites, todas ia subindo de gatas a contar

com o ventre a chocalhar os degraus comidos que o cançavam até ao ultimo

quarto da torre. Então gemia a cancella na monotonia do grito do seu

viver corcunda e tombava-se sempre vestido nas palhas apodrecidas

sentindo-se rei no halito fedorento da enxovia que arruinava as pedras

interiores n'um halito viscoso de urina de sapos.

Passa da meia-noite. A torre em cuidados tinha-se sentado embrulhada no

chaile á espera do seu anão á porta da propria torre.

Quasi manhã viu-o a torre nos fins do caminho a cambalear. Cantava

indecencias aos _zig-zags_ de dissonantes no luar cançado da manhã. Com

chapeladas e gargalhadas saudava com exageros desconjuntados as arvores

medrosas que guardam os caminhos. Por vezes julgava-se elegante e andava

dois passos sem _zig-zags_ e se esbarrasse em alguma arvore comentava

logo sem premeditação: Croia! Ás vezes abraçava-se a um tronco pra

precisar um pensamento obscêno e demorava-se n'aquella sua opinião de

osgas em que todas as mulheres eram uma só e descalça e desgrenhada cujo

sexo fôsse uma sangue-suga côr de rosa. Depois seguiu com os olhos uma

setta da côr da estrada e que seguia p'la estrada fóra e que depois

chegava a uma torre e que subia até lá cima e acabava em palhas ás

escuras. Trazia tambem saudades da Torre. E como sempre lá ia subindo a

contar com o ventre a chocalhar os degraus cançados da escada magra e

cega sentina dos gatos vadios.

Na cancella mais anã do que elle alliviou-lhe as trancas em fatigantes

demoras e aprumou-se dono e rei ao ouvir tlintar os ferros nas lagens

humidas. Contente ia rindo aquella felicidade de ter encontrado o seu

solar de sombra. Sentiu um peso no bolso do casaco que ficou preso n'um

prego espetado ao contrario, e com um vomito de champagne tirou do bolso

um frasco elegante de Chevalier d'Orsay. Esbofeteou-lhe o gargalo e teve

um gesto de o atirar plas escadas abaixo. A torre, porém, vomitou na rua

um anão corcunda emmaranhado nas vestes e que foi parar defronte n'um

marco geodesico sobre o precipicio. No peito cavádo e nú sujo de

cabellos negros a branquear repousava obscêno o verde esmeralda postiço

dos labios de uma mulher.

Lisbôa, 7 de Janeiro de 1915.

+FIM+

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EDITOR:

O AUTOR

1917

TIPOGRAFIA MONTEIRO & CARDOSO

End of Project Gutenberg's A Engomadeira, by José Sobral de Almada Negreiros

A Engomadeira: Novela Vulgar Lisboeta · 第 3 / 3 段