Começou de pôr carmins nos labios exageradamente e depois ou

Produced by Vasco Salgado

José de ALMADA-NEGREIROS

+a ENGOMADEIRA+

NOVELA VULGAR LISBOETA

+ENGOMADEIRA+

+De José de ALMADA-NEGREIROS, Pintor:+

+THEATRO+:

_+O MOINHO+_, ao pintor Eduardo Afonso Viana. Tragedia em 1 ato.

_+23, 2.^o ANDAR+_, ao snr. Gualdino Gomes. 3 atos, Drama.

_+PENSÃO DE FAMILIA+_, a João do Amaral. 2 actos, grand-guignol.

_+LENDA D'IGNEZ, a linda que não soube que foi rainha+_, a M.^elle M. G.

C. M. (S. T.). Prologo e 3 atos, Bailado.

_+BAILADO DA FEIRA+_, a Alexandre Rey Colaço. Prologo e 3 atos, Bailado.

_+LE SECRET DES POUPÉES+_, (original francez)--1 ato, Bailado.

NOTA: Nos Bailados, as partituras, liberetos, décors, costumes etc., são

criações de RUY COELHO, JOSÉ PACHEKO e José de ALMADA-NEGREIROS.

_+A CIVILISADA+_, a Amelia Rey Colaço. 4 atos, Drama.

+LITTERATURA+:

_+O MENDES+_, a Christiano Cruz. Novella.

_+A ENGOMADEIRA+_, a José Pacheko. Novella-vulgar lisboeta.

_+A SCENA DO ODIO+_, por José de ALMADA-NEGREIROS poeta sensacionista e

Narciso do Egypto. a Alvaro de Campos. (ORPHEU 3)

_+SALTIMBANCOS+_, a Santa Rita Pintor, Contrastes simultaneos. (PORTUGAL

FUTURISTA 1)

_+MIMA FATAXA, SYMPHONIA COSMOPOLITA E APOLOGIA DO TRIANGULO FEMENINO+_,

a ti pra que não julgues que a dedico a outra. (PORTUGAL FUTURISTA 1)

NOTA: O PORTUGAL FUTURISTA N.^o 1 foi aprehendido pela policia apesar de

respeitadas todas as formalidades legais.

_+10 Poemas Portuguezes+_, por M.^me Sonia Delaunay-Terk e José de

ALMADA-NEGREIROS.

_+K4 O QUADRADO AZUL+_, ao pintor Amadeo de Souza-Cardoso.

_+JOSE+_, a meu pae. Romance.

+ORIGINAES FRANCEZES+:

_+BALLET VERONÈSE ET BLEU+_, à M.^me Sonia Delaunay-Terk, Suite-Style

des métal-couleurs.

+LA FEMME ELECTRIQUE+: Superlatif d'elle ELLE ELLE. 3 poses--Divulgation

Luxe Extra-Luxe.

Invention Europe 1917. Made in Europe. ALMADA, inventeur futuriste de

l'ARTIFITIAL CO, LTD. Catalogue confidentiel 1917 net. Ce catalogue

annule les précédents. 30 planches.

_Meu caro José Pacheko

Ahi vae a minha Engomadeira.

Terminei-a em 7 de janeiro de mil novecentos e quinze e desde esta data

foi agora a primeira vez que a reli.

Reconheço que este meu trabalho que eu muito estimo já não representa

hoje em dia a avaliação do meu esforço, porêm usa muito da minha

intuição por isso que a tutélo.

Reli-a, e se bem que a acceleração das imagens seja por vezes

atropelada, isto é, mais expontaneamente impressionista do que

premeditadamente, não desvia contudo, a minha intensão de expressão

metal-synthetica Engomadeira, em todos os seus 12 capitulos onde

interseccionei evidentes aspectos da desorganização e descaracter

lisboetas.

V. sabe bem quanto eu contradigo a minha obra anterior, mas tambem sabe

que se a contradigo não a renego nunca.

Na Engomadeira não tenho a notar mais que a minha insuficiencia

litteraria até 7 de Janeiro de 1915, pois que, quanto á desorganização e

descaracter lisboetas ainda não tenho as garantias suficientes para

desmentido oficioso.

Mas... em todo o meu trabalho ha um facto importante que eu quero

sublinhar--é a dedicatoria a José Pachêko.

É que muito pouca gente sabe, como eu, bem avaliar aquelles que são uma

selecção dos bons aspectos de Paris.

Emfim, escuso de repetir-me n'este assumpto que o nosso Mario de

Sá-Carneiro sabia tão justamente classificar:

--Nós trez sômos de Paris!

E sômos. Temos esta elegancia, esta devoção, este farol da Fé.

Lisboa 16 de Novembro 1917._

+Em todos os meus trabalhos eu guardo esta pagina para dizer o orgulho

de ter como Mestre M.^me Sonia Delaunay-Terk.+

+I+

Um dia a mãe comprou chapeu pra ir em pessôa pedir à dôna da

engommadoria que não deixásse a filha passar a ferro as ceroulas dos

homens porque parecia mal a uma menina decente. D'aqui a chacota

endiabrada das outras que a não deixavam e até lhe chamavam o Quêlhas. E

eram empuxões e risotas e pisadellas a fingir sem querer e um dia até

lhe descoseram a saia. E tambem não suportavam que os que espreitavam na

rua olhassem mais pra ela quando já estava resolvido entre todas as

engomadeiras que ela era a mais feia. E a parva parece que não via nada,

que estava a dormir! Era o parvo do Mendes, era o estupido do Alves e

até o senhor Anastacio! eram todos, e ela... nada! Então ela não foi

dizer à senhora que o patrão lhe tinha oferecido uma carta?! que

parva!... Aquillo só co'o ferro por aquelles olhos! Ná! não podia

continuar assim! Nem ela nem as mais (e por causa d'ella!) já passa da

medida! Mata-se a idiota!

Ela ouvia, ouvia tudo naquelle esforço de não querer ouvi-las, ás

malcriadas.

Ainda desconfiáram d'algum amante que a sustentasse, algum palerma que

lhe désse as coisas... mas no dia em que descalças a espreitaram da

escada troçaram d'ela e do gato a brincarem juntos em cima da cama.

Concordaram: não póde ter amante--ainda tem o fato do anno passado e as

botas, as botas fôram do pae com certeza. E o lunch é sempre a mesma

laranja com um pedaço de queijo metido num pão tão reles que nem podia

chamar-se sanduwish... portanto, a parva já não dava. A bêsta! A bêsta

sim, a bêsta é que era!

E todos os dias eram queixas e mais queixas por causa da lama d'aquellas

chancas, por causa das cascas da laranja e porque soprou o ferro pra

cima das calças da hespanhola e porque deu pronta uma camisa do senhor

doutor que era uma indecencia de engelhada e até porque cheirava mal,

sempre não, mas de vez em quando.

No dia da revolução fôram dizer a um marujo que ela era thalassa, que

até usava bentinhos e Senhoras da Conceição e ela, coitada, teve que

pedir de joelhos. Verdadeiramente ela sentia uma sympathia muito grande

pela causa monarchica desde que um dia as outras todas se confessaram

democraticas ao policia de serviço quando lá foi pedir um copo d'agua do

contador. Mas agora, não! Agora não tinha politica; tinha era mêdo de

morrer.

Um serão tinha guardado o lunch prá noite, foi abri-lo era um rato pôdre

e as outras dançaram um vira expontaneo. Comprehende-se: a senhora tinha

ido ao cinematografo co'o patrão. Quando voltaram extranharam aquelle

silencio e a luz do gaz muito sumida co'o abat-jour todo prá esquerda.

--Foi ela! gritaram todas de braços estendidos na mesma direcção, e um

gallo que tinha na testa tambem tinha sido ela mas de proposito. Ela não

disse nada, levantou a saia tirou do bôlso da saia de baixo um rato

pôdre muito bem embrulhado e pegando-lhe p'lo rabo até muito perto da

luz gritou indignada co'aquela evidencia prá senhora é pró patrão: era o

meu lunch! e voltando-se para elas atirou-o violentamente à cara d'uma,

que todas eram a mesma, e rematou vingativamente... agora é que fui eu!

E se não fôsse o patrão não tinha sido apenas aquella mancheia de

cabellos... era mas era a cabeça toda, minha... e foi uma enfiada de

nômes baixos, que nem se dizem a uma mulher das mais ordinarias. E pra

que ela visse bem que não era pra brincadeiras fez um pequeno silencio e

disse, mas muito a serio: sua thalassa!

--E com muita honra! e fez-lhe frente. As outras deram uma gargalhada

descommunal e a que riu mais observou: E 'inda o confessa! Ah! Ah!

Ah!... mas ela vingou-se em chamar-lhes republicanas.

Entretanto a senhora tinha já endireitado o abat-jour emquanto o patrão

fazia de fronteira entre as inimigas, mas isto é que de maneira nenhuma

podia ficar assim!

Acabou de arranjar as ultimas calças da hespanhola pra concluir o seu

serão, pediu ao patrão pra fazer contas com ela, pôz a mantilha

despreocupadamente e quando já estava pronta e na rua virou-se pra

dentro e acompanhou de um gesto indisciplinado um sincerissimo viva à

Monarchia!

+II+

Ir ao barbeiro é um dever tão penoso como assistir aos Sinos de

Corneville representado pelos velhinhos do Asylo de Mendicidade. Apesar

disto o senhor Barbosa pedia a barba bem escanhoada porque depois do

jantar ia ao Asylo de Mendicidade ouvir os velhinhos cantar os Sinos de

Corneville e que o Presidente da Republica tambem ia. E depois de ter

esboçado ao barbeiro o argumento da peça disse-lhe que gostava imenso da

musica mas pó d'arroz na cara, não!... que não era d'esses!

--Bem me queria parecer, disse com grande contentamento um velhote com

oculos de aros de tartaruga, depois de ter consultado por muito um

envelope todo escrevinhado, e chegando-se perto do senhor Barbosa com

uma palmadinha no hombro: tambem temos os Sinos de Corneville e mandou o

oficial dar à manivela do gramofone que ele é que lá sabia d'esses

engenhos.

Quando o disco se gastou o senhor Barbosa disse com um A! ao oficial que

Wagner foi um grande musico mas que ele tinha-o escanhoado pouco por

debaixo do queixo.

N'esta altura a porta entreabriu-se e uma cabeça de senhora de chapeu

pedia licença, se podia entrar. É porque estava muito farta de andar a

pé, os electricos não andavam, e porque gostava muito dos Sinos de

Corneville e que até daria qualquer gratificação mas propunha como

condição que deixassem entrar tambem a filha que estava lá fóra,

coitadinha. Foram todos lá fóra buscar a filha. O senhor Barbosa é que

foi dar á manivela depois de a ter visto e não se poude conter sem

accender um charuto com cinta d'oiro que queria guardar prá saída do

espectaculo. Só quando estava quasi a acabar de o fumar é que se lembrou

de preguntar se as incommodava o fumo. Que não, mas visto isso era

altura de preguntar à filha se tambem gostava dos Sinos de Corneville

porém ela ficou toda encarnada, abaixou os olhos e a cabeça e começou a

contar segundos com o pé direito. A mãe é que disse que ela tambem

gostava e que tambem estava cançada por causa dos electricos não

andarem. E como nem a mãe nem a filha tivessem assim grandes desejos de

conversar o senhor Barbosa já se estava arrependendo de ter accendido o

charuto.

--Ai que lindo, filha! disse a mãe quando acabou o disco. O senhor

Barbosa voltou-se e aconselhou-a, então pra que não perdêsse a soirée no

Asylo de Mendicidade, porque merece a pena e não é assim uma coisa que

se possa ver todos os dias... só de quando em quando. A ultima vez,

dizia o senhôr Barbosa, que tinha sido ha mais de um anno e por acaso no

mesmo Asylo de Mendicidade, e continuava crescente:

--É onde se vê a educação de uma pessôa é na musica. Eu adoro a musica!

É por excellencía a arte sublime! Mas espera... eu conheço esta cara não

sei d'onde?! e ficou-se a fitar a filha franzidamente... Não ha duvida!

Não me engano. A rapariguita ergueu os olhos pra elle e outra vez muito

ruborizada fez com cabeça que sim. Bem lhe queria parecer ao senhor

Barbosa que não lhe era extranha aquella cara. Era justamente ahi, na

engomadoria.

--Mas não é porque ela precise, dizia a mãe com um felizmente, é pra se

aperfeiçoar na arte a que ela se dedica.

--A que arte se dedica sua filha, minha senhora?

--Arte de engomadeira.

--Ah! sim, fez o senhor Barbosa e poz-se a meditar a complexidade de

passar a ferro.

Comtudo a mãe fez-lhe ver que a grande vocação d'ella era a musica, que

aquillo era só ir ao theatro e cantar tudo, tudo, no dia seguinte desde

manhã até à noite. Visto isto o senhor Barbosa não poderia permitir que

ela esmurecêsse da sua grande vocação e como o primo d'êle era ministro

do fomento e tinha muitas relações no meio theatral podiam, contar com o

primo que era o coração mais bem feito de todo o mundo. Portanto que

apparecessem lá no escritorio a qualquer hora e quando quizessem porque

lhe davam imenso prazer mas que não fôssem lá de quínta-feira que vem

até á outra quinta-feira seguinte porque se esperavam barulhos para

esses dias.

+III+

Dos domingos não gostava--sentia uma coisa que era amarello pra dentro e

pra fóra que era sujo. E as portas das Egrejas fechadas depois do meio

dia tinham a tristeza do que já não ha mais. Reparava que esta coisa das

mercearias abertas com gente lá dentro a aviar-se, e creadas de pantufas

d'ourêlo co'a garrafa do petroleo e um senhor de côco que comprou

phosphoros de cêra, tudo lhe era preciso na alma e não sabia porquê mas

sentia-o. E hoje, se não fôsse a estreia das botas de cano alto, teria

ficado na cama com certeza.

A Avenida já tinha immensa gente, d'esta que só se vê na Avenida. E ella

sentada na primeira fila de cadeiras a desenfiar um a um os pinhões

descascados da mulher do capilé pôz-se a rir pra si de si propria por

ter pensado que a musica talvez fôsse mais bonita se os musicos da

guarda republicana não tivessem o chapeu na cabeça. Dois rapazes bem

vestidos pararam defronte d'ella voltados pró corêto e um d'elles

enthusiasmado esticou um dêdo e o braço em direcção á musica: Ouviste a

tal nota que eu te dizia?... Não achas bestial de boa? e como o outro

tivesse dito _effectivamente_ fazendo co'a cabeça muitas vezes que sim,

ella ficou muito espantada a destrinçar aquella celebridade musical

apesar dos tacões comidos; e quando elles já iam mais abaixo poz-se a

procurar na musica uma outra nota que ella tambem achasse que fôsse

bestial de boa. N'esta altura uma mão foi buscar a mão d'ella que estava

em cima d'um joelho e voltando-se p'rá direita ouviu a musica acabar nos

olhos contentes do senhor Barbosa que estava admirado de a vêr por alli.

Ella ficou um nada compromettida com a impressão de que estava a ouvir

os _Sinos de Corneville_ tocados por um barbeiro cuja flauta fôsse a

navalha de barba e o senhor Barbosa julgando-a ruborizada por causa dos

pinhões que ficaram na mão d'elle depois de a cumprimentar sorriu-se e

metteu-os á uma na bôcca o que queria dizer mais alguma coisa.

--A sua mamã? Ella ia pra responder mas felizmente...: Quantos logares

deseja V. Ex.^a? o senhor Barbosa disse um, mas voltou-se para ella e

como já tivesse, disse outra vez um e que guardasse o resto para elle.

Pouco depois levantaram-se e desceram juntos a Avenida e foi então que o

velhinho dos bilhetes começou a comprehender a marósca da gorgêta.

Quanto mais desciam a Avenida mais ella se ia sentindo mal com aquella

mão impertinente do senhor Barbosa a apertar-lhe o braço e a fallar-lhe

tão convictamente do tal primo ministro do fomento que se via

perfeitamente que era historia. Era porque tinha tido muito que fazer

por causa da declaração de guerra não era por se ter esquecido com

certeza, que elle era muito attencioso coitado!

--A sua mamã? perguntou de novo o senhor Barbosa. Ella ia pra responder

quando se ouviram immensos vivas mêsmo alli d'aquelle lado. Escutaram,

só se ouviam vivas; os morras eram impares. Escutaram melhor e então

todos queriam que a França vivêsse e atiravam os bonets ao ar. Outros

davam cambalhotas e quando passavam ao pé dos policias faziam achata o

béque! Depois houve um viva á guerra e toda a gente deu palmas, de cima

das arvores, empoleirados nos electricos, nos apertões e calçados e

descalços e policias e mulheres. O senhor Barbosa subiu acima de um

banco ao lado dos canteiros e gritou com o côco a cair: Viva a Gállia! e

a multidão assim lisongeiada ergueu em triumpho aos hombros o senhor

Barbosa, que ia pedindo encarecidamente pra que lhe apanhassem o côco.

Por fim n'aquella falta de luz, ella apenas viu distante d'ella um

policia que tinha um côco na mão.

Contente por a multidão lhe ter roubado o senhor Barbosa ia rindo pra si

num entrecortado de arrôtos de pinhões da mulher do capilé. Mas depois

veiu-lhe a tristeza, aquelle aborrecimento que não se explica que só se

sente, que dá vontade de ir dormir pra casa e ficar sempre, sempre a

dormir e nunca mais fallar a ninguem. Meditava no mau passo que a mãe

dera co'o grumête do _S. Raphael_ e recordava os tempos impossiveis da

engommadoria. E sentia-se uma eleita na infelicidade, n'esta coisa de

não querer viver e ter mêdo de se matar e ainda por cima o rapaz que a

enganou tinha embarcado pra Lourenço Marques e tinha mandado dinheiro a

uma d'essas pra se lhe ir juntar a elle. Não que ella sentisse saudades

d'elle ou de qualquer outro porque ella sabia muito bem que nascêra

assim sem poder gostar de ninguem; pra ella tudo era o que não lhe

importava. Admirava-se até de se ter deixado levar por aquelle maldito

caixeiro que nem sequer tinha bigode. Mas tambem, pensava, se não fôsse

elle seria outro e elle foi exactamente um qualquer. Não ha theoria mais

comoda do que o fatalismo, porèm, ella usava-o não por comodidade mas

por temperamento indiferente. As trovoadas se eram de dia achava ella

que deveria ser á noite por causa dos relampagos mas se eram de noite

achava estupidez tanto barulho com tanta vontade de dormir. Pra ella não

havia differenças de especie alguma--nunca quiz mais aos garôtos por

andarem descalços nem lhe invejavam as que tinham automovel. Mesmo esta

coisa de almoçar e jantar era só se tivesse fóme, de resto dormir é que

era bom. A vida não lhe era muito difficil nem tão pouco muito facil era

justamente aquillo--como um carro do Dafundo que vem á Rotunda e volta

depois pró Dafundo. E diga-se de passagem o caixeiro tinha-lhe feito um

grande favor. E como era assim uma meúda que entra facilmente no gôsto

de toda a gente e só lá de vez em quando é que precisava de umas

_brise-brise_ mais modernas ou umas fitas de setim pra enfeites de

camisas não teria que se esfalfar muito e bem pelo contrario era rara a

noite em que não rezava sósinha o seu Padre-Nosso no quarto independente

com porta pra escada.

+IV+

Eu tinha-a encontrado quando passava e tinha-lhe dito boas-tardes porque

me pareceu que ella precisava de que alguem que ella não conhecêsse lhe

desse as boas-tardes. E assim foi. Ella teve um sorriso que eu não

gostei mas que era precisamente o que ella devia ter depois de eu lhe

dar as boas-tardes. Nada me encantava n'ella, nem aquelle arremêdo da

moda tão ingenuo e inconsciente que lembrava os quartos andares na

Estephania ou os proprios figurinos desenhados que veem de Paris, nem o

seu quê de jovem que brilhava na saliva por entre os dentes, nem mesmo o

seu incognito que não iria álem de um par de meias de sêda estreiadas a

semana passada.

Tudo n'ella tinha um limite de grande saldo ou de abatimentmos por

motivo d'obras. A não ser os olhos que tinham uma sentillação meridional

de beiramar com dramas de marujos d'aqui a alguns annos, a sua bocca e o

seu nariz e toda a sua proporção tinham uma bitola resumida que nem dá

direito a reforma. E d'ahi, poderia ser! mas nem foi a curiosidade que

me deteve foi aquillo de eu lhe dar as boas-tardes e seguir. Mais

adeante tive vontade de voltar atraz, mas nem me lembrava d'ella, e

voltei. Foi ella quem me deu as boas-tardes e com um sorriso que lhe

mudára completamente toda a figura. Chegou-se perto e disse que me

conhecia da Figueira da Foz e se eu ainda namorava aquella menina que

era tão loira e tão galante. N'aquelle momento eu tive a impressão de

que a Figueira era o unico sitio do mundo inteiro onde eu nunca tinha

estado mas quando ella me perguntou pelo Marquez o senhor meu papá não

tive outro remedio senão dizer-lhe que estava muito bem e que se

recommendava. Disse-me com as mãos nas ancas que não desfazendo achava o

Marquez senhor meu papá um personagem illustre e tirou as mãos das

ancas. O que era pênna era elle ser tão jogador mas tambem isso não era

o que lhe iria fazer moça nas rendas. Perguntou-me se elle ainda usava

monóculo e quiz certificar-se se era no esquerdo se no direito que elle

costumava usar e apesar de eu lhe ter dito resolutamente que isso era

conforme o seu estado de espirito ella disse que pois a ella lhe queria

parecer que era no esquerdo.

Quando depois de varios _qui-proquós_ de comedias em tres actos eu lhe

respondi sobre as grandes fortunas e várias do Marquez senhor meu papá

ella metteu pelintramente o pedido de trinta réis pró electrico. Devia

ter sido um bello ponto final mas os taes trinta réis não eram pró

electrico d'ella eram pró electrico onde eu fôsse com ella porque só

tinha trinta réis.

--Então vamos já!

A meio do Alecrim apeiamo-nos. Ella mexeu em chaves que riram uma

satisfação que era d'ella; por emquanto eu era apenas o filho do Marquez

senhor meu papá. No segundo andar era uma cancella, depois uma porta,

outra porta e ainda a porta do quarto d'ella. Havia chaves pra tudo e a

mezinha de cabeceira tinha seis gavêtas com chaves differentes. Depois

uma senhora com avental de dona de casa vem trazer um grande molho de

chaves pequenas e que muito obrigado, mas que nenhuma serviu, que eram

todas pequenas. A minha primeira impressão é que era um quarto de cama

vulgar excepto um retrato de senhor e careca com uma dedicatoria a tinta

rôxa e assignada--Amigo e Senhor Barbosa. Em cada um dos quatro cantos

do retrato estava um prego e em cada prego uma chave com fitas de sêda

co'as côres nacionaes. Ella veiu fechar a janella e a senhora com

avental de dona de casa voltou com outro molho de chaves ainda mais

pequenas e que tambem agradecia e que tambem não serviram e que tambem

paciencia. Sentei-me cautelosamente n'uma _chaise-longue_ mas ella veiu

a correr e pedindo-me desculpa levantou a capa da _chaise-longue_ e

metteu pra dentro de uma gavêta onde havia mais molhos de chaves de

todos os tamanhos todos os molhos de chaves e chaves soltas que estavam

espalhadas p'la _chaise-longue_. Sentei-me n'uma poltrona ao lado mas

fiquei fortemente magoado nas costas e nos quadris; ella veiu a correr

pediu-me mais desculpas e levantando a capa da poltrona tirou varios

molhos de chaves de differentes feitios, mais ou menos ferrugentas, mais

ou menos polidas. Em cima da meza de pé de gallo havia uma carta

registada de Lourenço Marques e plo pedaço do enveloppe que estava

rasgado li quasi sem querer por este paquete só te poderei mandar

setecentas e trinta e oito chaves... De repente ouvi rumôr debaixo da

cama e ella disse com um tocão no sobrado: "saia d'ahi, Romeu!" e logo

saiu um gato côr de chave com um molho de chaves á guisa de colleira.

Depois deu-me a curiosidade pra lhe ir espreitar as _toilletes_ no

guarda­vestidos mas o guarda-vestidos era uma série de prateleiras com

chaves numeradas e já devidamente classificadas e postas cardinalmente

plas alturas desde a minha chave do estojo da rabecca até ás chaves de

São Pedro. A certa altura ella tinha saido do quarto, dei co'os olhos

n'uma caixa de lata relativamente pequena e relativamente pintada de

verde-escuro com lettras brancas escrevendo chaves. Abri a caixa e qual

é o meu espanto quando a vejo a ella, sentada lá dentro a gritar

envergonhada pra que eu lhe fechasse a porta! Bom, fechei.

Chego-me junto da cama levanto as roupas e záz, uma chave da altura de

um mancebo apurado pra cavallaria. A propria cama se a gente reparasse

bem era um pedaço de uma chave de que eu tambem fazia parte. Cançado já

d'este ambiente e até com medo de tudo isto fui abrir de novo a caixa de

lata pra lhe pedir que se aviasse mas, longe do que eu queria, começaram

a transbordar chaves e mais chaves d'esta vez todas eguaes. E já estava

o oleado todo coberto de chaves e ia crescendo o monte cada vez mais e

até já nem podia mexer-me com chaves até ao pescoço quando ella entrou e

tão serenamente por cima de todas aquellas chaves como se não fosse nada

com ella até que lhe perguntei quasi louco a razão de tantas chaves.

Afinal era para brincar aos soldadinhos, mas disse-me muito apoquentada

que não lhe fizesse mais perguntas porque ultimamente andava muito

desgostosa da sua vida.

+V+

Ella accordou com a passagem do primeiro electrico. Foi ao espêlho

esfregar os olhos e abri-los muito. Arranjou um carrapito desmanchado e

descerrou as janellas co'os operarios da obra defronte ao sol. A outra

banda tinha um aspecto saudavel de outra coisa qualquer onde se póde

estar e foi beber um góle de cognac na mezinha de cabeceira toda semeada

de pontas de cigarros. Havia n'ella uns remorsos distingidos de não ter

sido elegante e tinha uma quebradella plos joelhos que lhe fazia

apetecer outro góle de cognac pra fortalecer.

Começou de pôr carmins nos labios exageradamente e depois ouvindo a voz

da peixeira que era a d'ella veiu debruçar-se no parapeito a gritar pra

baixo a como era a sardinha. Como estava toda núa puxou um lençol da

cama embrulhou-se descuidadamente e foi ella propria abrir-lhe a porta e

que entrasse que não estava mais ninguem. Que até podia vir pró quarto

d'ella e que talvez fosse melhor. A principio achou muito caro a sete

vintens a duzia e como reparasse no retrata do senhor Barbosa caréca e

com tinta rôxa despregou-o dos pregos e deitou-o pra debaixo do sofá.

Continuou a achar muito caro a sete vintens a duzia e olhando fixamente

os olhos da varina deixou cair o lençol que até parecia sem querer e

offereceu-lhe a dois tostões a duzia com a condição de comprar o peixe

todo e ainda a de almoçar com ella. A varina mexeu as ancas n'uma

arrelia de que já não era a primeira vez que lhe succedia aquella

chatice mas ella correu prá varina e beijou-a na bôcca que até lh'a

deixou magoada. N'um ápice correu a fechar a porta á chave por dentro e

a cerrar de nôvo as janellas sobre as obras ao sol. Quando o sol d'ahi a

pouco bateu do lado de cá e entrou plo quarto até á cama já se não sabia

bem qual das duas era a varina--eram só pernas núas e seios a reluzir na

saliva. Só se ouviam gemidos de cançadas até que o gato entrou

fortemente convulsionado nas agonias de uma indigestão de sardinha.

Quando o senhor Barbosa metteu a chave á porta e achou o silencio

abafado d'aquelle quarto meio-illuminado teve a impressão que ella tinha

posto um espêlho muito grande ao comprido sobre a cama e que depois se

tinha deitado toda núa com o ventre pra baixo. Achou estroinice mas não

quiz bulir o silencio; sentou-se junto da porta a observar. Esteve assim

perto de meia-hora a gosar aquelle _Paris-salon_ mas não se poude conter

e foi pé-ante-pé e de chapeu na cabeça depositar-lhe um beijo mesmo no

meio da espinha vertebral. Depois o senhor Barbosa teve um estremeção

que sentiu em todo o envolucro do coração como se fosse um murro atirado

de dentro pra fóra; começou a chorar visivelmente e tirando o chapeu

sahiu violentamente desgostoso tendo tropeçado na canastra vasia.

Como já fossem duas horas da tarde e álem d'isso houvesse já muita gente

no Rocio pra uma imponente manifestação ás nações alliadas, não quiz

perder o _rendez-vous_ quotidiano e decidi-me a ir ter com ella. A porta

estava encostada e estava escuro lá dentro. Olhei. Tive a impressão que

ella tinha posto um espêlho grande ao comprido sobre a cama e que depois

se tinha deitado toda núa com o ventre pra baixo. Achei estroinice mas

não quiz bulir o silencio; sentei-me junto da porta a observar. Havia

assim disperso pela meia-luz como que um cheiro a porto de mar e que

fazia frio no peito lá em cima no tombadilho; desci de novo os olhos

sobre a cama e senti-me melhor confortado na cabine mas tive um

sobresalto como se eu me tivesse enganado e tivesse entrado na cabine da

sueca que eu namorava. Foi um escandalo a bordo e o proprio marido da

sueca chegou a partir o cachimbo no hombro do commandante. Depois nunca

mais vieram jantar com a sinêta, era sempre antes ou depois. Um dia o

sueco estava mesmo á borda a vêr os golfinhos a saltarem dentro do

binoculo veiu a mulher d'elle e deu-lhe um empurrãosinho que foi logo

uma tragedia por afogamento. Passados tempos voltou o senhor Barbosa de

chapeu na mão, e os seus olhos tristes tambem tinham o chapeu na mão.

Havia n'elle uma tragedia submarina que dava a perceber alli qualquer

empurrãosinho fatal. Havia mesmo até um descorajamento que poderia (quem

sabe) ter analogias com o incendio do Deposito de fardamentos.

Advinhava-se-lhe na gravata negra e despreoccupada uma indifferença pla

gloria de vir a fallar nas camaras, um despeito p'la sorte de ser

presidente da Propaganda de Portugal e socio das commissões de

vigilancia.

A Patria mesmo, n'este instante, era lhe desinteresse quaternario.

Quanto mais se vive mais se aprende, pensava, e tambem pensava que

felizmente estava armado porque sentia a _browning_ no bolso de traz

entre a hombreira da porta e a nadega direita. Só tinha penna de deixar

o seu logar de alferes miliciano talvez a algum incompetente. Sentia que

afinal a sua vida tinha ficado caréca ao mesmo tempo que elle-proprio

mas morreria com o orgulho de ter sido um dos maiores apologistas dos

_Sinos de Corneville_. Na cama houve um minusculo movimento e ella disse

pra mim e prá varina n'um contamento de sorte-grande: Ainda bem que o

estupido do Barbosa não se lembrou de vir. Depois uma senhora de avental

de dona de casa veiu trazer um molho de chaves e que muito obrigada mas

que tambem não serviram. Immediatamente se ouviu um berreiro na escada

que dizia que dois ainda se admittia, agora, tres que era demais. E a

senhora de avental de dona de casa fechou a porta.

+VI+

Estar em Sintra é agradavel não pelo facto de se estar em Sintra mas

pelo facto de se poder dizer que se está em Sintra. E tambem porque é um

incidente tão provisorio como a propria vida; o definitivo é que

desconsola ainda que é surprehendente saber-se que o definitivismo

absoluto não existe ou que é dispensavel como o artigo de fundo do

jornal que se compra porque se não lêem os jornaes ha muito tempo. E

verdade tinha Santo Agostinho em affirmar que tudo se paga n'este

mundo--um jornal de vintem tem p'lo menos uma torre de marfim e os de

dez réis depois da quarta pagina ainda teem mais duas de annuncios.

--O senhor tem bilhête? voltei­me e percebi uma figura de fato escuro

que por um signal que trazia perto do bigode era com certeza o revisor;

e eu que já ia nas ultimas linhas das ultimas noticias com canhoneio em

Verdun, desloquei-me de repente pra muito mais perto de mim--na unica

linha pra Sintra com uma folha solta de diccionario onde o revisor

queria dizer individuo que revê os bilhetes dos comboios e que usa fumos

no bonet de pala e um signal de cabêllos no queixo.

Ao lado fallavam inglez-sem-mestre e eu pra escutar melhor fingia lêr a

"chronica do bem" quando de repente li no jornal não sei onde o meu nome

inteiro justamente quando o comboio parava na Amadora. Outra vez o meu

nome mas d'esta vez era uma senhora chic e loira que ia deante de mim e

que lia em voz alta o nome de uma cautella de prego que tinha encontrado

no chão.

--Perdão, minha senhora! fiz eu com certos acanhamentos de sangue frio

propositado, esse nome é de meu irmão; e foi elle quem pagou os

extraordinarios juros d'aquelle emprestimo. Desde então a senhora chic e

loira começou de olhar pra mim como eu queria que ella me olhasse antes

de me ter notado a cautella de prego e deixou cair o lenço e a malinha,

e o leque e a sombrinha, e não deixou cair mais nada porque em Bellas

apeou-se o magote do inglez-sem-mestre. Infelizmente d'ahi a Sintra foi

um instante e nem houve tempo pra vêr a paysagem bonita ao pé do Cacem;

apenas posso garantir que quasi me chegaram as lagrimas á raiva por o

tunel do Rocio illuminado e grande não ser no tunel de Sintra pequeno

mas ás escuras Que em Sintra não lhe fallasse porque era casada na

Estephania todos os verões com um titular de dinheiro mas que fôsse plos

Pisões todas as noites ou aos Seteaes se fossem de luar.

Quando cheguei á villa tive a triste noticia de que tinham assassinado o

barbeiro por questões de altas finanças do estado em que elle como

revolucionario civil estava envolvido com destaque; porém, a noticia não

foi tão desoladôra que eu não soubesse quasi immediatamente e sem

perguntar nada a ninguem que o infeliz barbeiro era nem mais nem menos

que o titular de dinheiro casado na Estephania com uma senhora chic e

loira. Até adeantei os meus pezames ao jantar e fui pessoalmente

garanti-los á desolada viuva que andava p'las diagonaes da sala de

visitas a fazer figas e a dar vivas á republica com lagrimas e

sapateados de irremediavel. A minha presença deu-lhe duas coisas bem

nitidas e proporcionaes n'estas occasiões afflictas--alento e alarido. E

avançando pra mim toda erguida prá frente co'os braços rigidos no ar

veiu repousar a cabeça sobre o meu peito que até me desbotou a gravata

azul pró collête branco. Todos os seus solavancos de desesperada iam

desfallecendo lentamente n'uma alegria intima que data de antes de

Affonso Henriques: rei morto, rei posto. Se fôssemos tão independentes

como o nosso estomago não teria eu tido a necessidade de me despedir com

tanto apetite de me vêr livre d'aquelle sentimentalismo (áliás tão

humano) pra ir jantar sósinho á meza extrangeira do Laurence's Hotel;

mas a verdade é que quanto mais não fôsse isto já era uma razão de ter

vindo pra Sintra.

O creado disse-me o _menu_ com muita pena do barbeiro e que considerava

o assassinato um vandalismo mas que se eu não quizesse _potage à la

valencienne_ tambem tinha _puré de legumes à la mexicaine_. Pobre

barbeiro!

E eu já tinha remorsos de que talvez o tivessem assassinado no momento

preciso em que ella lia o meu nome na cautella de prego que me caira do

bolso. Mas fôsse pelo que fôsse a sôpa vinha a escaldar e não se sabia

ainda quem foram os assassinos e agora vá se lá saber... E verdade é que

seria tão difficil dar com o paradeiro dos malfeitores que a elle já se

lhe affigurava um facies tão criminoso como o do revisor da linha de

Sintra de quem eu seria testemunha da sua innocencia tão evidente como

os fumos no bonet de pala ou o signal de cabêllos no queixo. E até ao

arroz tive tempo de meditar na fallibilidade da justiça atravez dos

tempos até ao assassinato do barbeiro em Sintra no Castello dos Mouros

cá em baixo ao lado da cisterna. A prova que tudo tem razão de ser

n'este mundo é que eu já estava observando que effectivamente o Castello

dos Mouros este verão tinha a barba por fazer.

Depois veiu galantine de perdiz e um enveloppe fechado na outra mão e

era pra mim. Era a senhora chic e loira que me mandava dizer que

n'aquelle lance fatal tinha mêdo de ficar sosinha de noite na cama e

portanto que me demorasse a jantar que ella viria ainda prós dôces.

Estas coisas pra uma sensibilidade como a minha que só sabe resolver as

coisas depois de resolvidas fizeram-me pensar profundamente emquanto

pasmava os olhos n'uma reproducção lythographica do Imperador da

Allemanha tão embaraçado como eu n'este assumpto diplomatico.

Immediatamente tive uma boa ideia que nunca mais me lembrou por ter

entornado sobre a toalha branca meia garrafa de vinho verde que ficou a

alastrar-se como o azar a denunciar-me de estar pensando em dormir com

uma viuva sem saber se sim ou se não. Ainda não eram os dôces e ella

entrou com a salada. Trajava rigorosamente de luto mas o apetite do seu

sorriso e o cinzento das olheiras pintadas trajavam rigorosamente de

adultera. Não quiz café--o seu estado de espirito apoquentado e triste

preferia uma garrafa de champagne. Começou a declarar-se-me

absolutamente desilludida sobre a morte do marido e de tal maneira que

as lagrimas rebentaram-lhe espontaneamente por eu ainda não ter acabado

de jantar.

Contou por alto a historia do seu infeliz marido que era estabelecido

com loja de barbeiro na Praça da Alegria, loja muito conhecida e

estimada de todos por servir de sala de espera quando os electricos não

andavam e que ainda por cima tocava no gramophone os _Sinos de

Corneville_ e de graça. Disse-me tambem uma historia de uma filha que

tinha em Lisboa e que um malandrão qualquer tinha tirado da engommadoria

onde trabalhava pra viver á custa d'ella e ainda por cima obriga-la a

fazer indecencias com as mulheres do peixe. E demais, seguia, tendo tido

um bom conselheiro como era um sujeito careca que eu havia de conhecer

de vista com toda a certeza e por signal até se chamava senhor Barbosa e

ainda por cima era primo do primo d'ella que era ministro do fomento do

Terreiro do Paço. O creado fez estalar a rôlha do champagne n'um arrepio

meu que parecia o ultimo suspiro do barbeiro ou o estalo da corda

partida do gramophone dos _Sinos de Corneville_. A historia era muito

triste e ainda mais extensa que a garrafa de champagne mas emquanto o

creado me aconselhava o puding de cosinha que estava delicioso, que até

tinha sido feito pelo Augusto, ella prometteu beber outra garrafa de

champagne não só para acompanhar com o puding como para esquecer aquella

infelicidade que lhe cortava o coração ás tiras de salame com uma

navalha de barba com trinta annos de serviço.

Depois do café fômos distrahir prá kermesse. A mim a kermesse pareceu-me

uma kermesse e a ella pareceu-lhe um pião. Confessou-me que aquella

boneca de vestidinho azul tinha um ar muito engraçado; um ar que era

muito peculiar ao marido todos os sabbados á meia-noite quando fechava

mais tarde. Depois affastámo-nos da kermesse, sem dar por isso e ella

ia-se-me confessando sugestionada pela ideia da morte; que sempre tivera

uma enorme sympathia pela obra do Dumas pae e a do filho e perguntou-me

se o Dumas gravador era da mesma familia. Gabriel Dannunzio não conhecia

mas havia outro poeta que a fazia chorar e por quem daria a propria

honestidade de viuva desolada talvez condemnada a ter que procurar outro

barbeiro mas que não tivesse politica partidaria. Esse outro poeta,

dizia ella n'uma contorsão de tragica cinematographica ao mesmo tempo

que me pisava um callo, era eu, era eu e mais ninguem. Só eu--o

preferido das viuvas dos barbeiros! O poeta maior que os Dumas todos,

mesmo superior ao Dantas e ao Noivado do Sepulcro. Mas por fim

estreitando-me n'um abraço declarou que realmente o que ella estava era

bebeda e sem mais nada começou a correr pela escuridão e pum... um tiro!

Fui vêr. A tresloucada creatura n'uma dôr cruciante e fatal tinha

acertado no umbigo, n'um instante de revolta, uma bala que a puzera

repentinamente horizontal com a cabeça sobre uma bosta de boi.

+VII+

Ultimamente inquietava-me por vêr que o porteiro fazia má cara quando

sahiam da quarto d'ella magótes de varinas que vinham afogueadas.

Apoquentei-me mais quando uma tarde em que eu entrava no quarto d'ella

esbarrei com um anão sebento que ia a sahir. De feito, ella já nem se

queria levantar da cama--gostava de almoçar, jantar e fazer tudo alli

sem ter que se vestir. As contas da pharmacia só tinham ampôlas de

morphina. Um dia o senhorio mandou-me chamar e tendo-me dito que tinha

immensa consideração por mim estava, porém, absolutamente disposto a não

consentir n'aquella indecencia de varinas e senhoras casadas e meninas

de labios pintados é até pra cumulo ás vezes casais de garôtos de pés

descalços. Effectivamente ella transformara em absoluto o quarto

independente com porta prá escada: Bons tapêtes de côres escuras,

lampadas electricas de todas as côres, gravuras de nymphas perseguidas

por faunos, apologias da inversão a côres e em todas as posições, e as

gavêtas da _toilette_ em vez de vestidos e roupas só tinham batons de

_maquillage_ e frascos de todos os tamanhos com apparencias de mais de

cinco mil réis. Uma vez riu-se muito e como grande novidade levantou a

camisa e mostrou-me no ventre um contorno de sexo masculino que ella,

propria tinha desenhado a encarnado e enchido de verde esmeralda. Quando

eu voltei de Sintra a senhora de avental de dona de casa veiu contar-me

que isso tinha sido um grande desgosto para ella que nem sequer nunca

mais recebera varinas nem mesmo até o guarda-portão. E dizia-me que

ella, coitada, via-se bem que era minha amiga porque era vêr que apenas

eu chegasse era certo ella receber outra vez as varinas, os pinocas e a

filha da senhora Baroneza. Um dia fiz-lhe vêr que ella já estava na cama

havia perto de anno e meio e que portanto tomasse cautella. Ella foi até

á janella e logo a primeira impressão foi de que o Alecrim que d'antes

subia prá quelle lado agora era ao contrario subia pró outro lado. E

depois n'uma festa gentil pediu-me encarecidamente pra eu lhe ir

arranjar aquella pretinha das cautellas que tinha mulêtas, e foi de tal

maneira gentil o seu pedido que eu não tive outro remedio que o de ir

ajudar a pretinha a subir a escada pra descançar um pouco no quarto

independente com porta prá escada.

+VIII+

Cada vez creio mais que a vida obedece a um principio quadrado que se

resolve dentro d'esse proprio quadrado e fóra d'elle em xadrez. Por isto

que o quadrado é sempre o mesmo e inconstante de posição as

transparencias lucidam-se em diagonaes galgando. Theoricamente é

irrealizavel de planos que apenas praticamente existem moveis na

phantasia. O quê d'isto é a incomprehensão em todos. Eu quero explicar:

Todos os sentimentos são conscientes e inconscientes e simultaneamente!

Assim, eu posso ter immediatamente a consciencia de um sentimento que

accordou na minha inconsciencia e logo essa consciencia póde vir a

definir-se tão nitidamente que se resolva em absoluta inconsciencia.

Nada, absolutamente nada, em todos os tempos é commum ainda que se

restringa a uma unica sociedade e definida. Esta coisa de haver uma lei

que tenha a vaidade de se impôr a todos é tão irritantemente estupida

como a de haver uma só medida pra todos os chapeus.

Tudo o que eu estou dizendo é de tal maneira a expressão da verdade que

o proprio leitor ha-de ter certamente reparado que não percebe nada do

que eu venho expondo.

Pois foi hontem mesmo que o senhor Barbosa me deu a honra de me

apresentar sua Ex.^ma esposa. E de tal maneira eu não quiz crêr que foi

esta a primeira vez que tive consideração p'lo meu amigo senhor Barbosa.

Começámos p'la rebellião da Irlanda depois derrotámos os turcos da

Asia-Menor mas quanto aos destinos das nossas baterias Canet, a Ex.^ma

esposa do meu amigo apenas sabia que o sol de Lisbôa fazia-lhe apetecer

um duche de sorvêtes. Entretanto como a conversa do senhor Barbosa não

tivesse geitos de recuar em Verdun coube-me a sorte de convidar sua

Ex.^ma esposa pró que quizesse tomar cá mais perto de nós, no

"Martinho". A gréve dos carroceiros era pró senhor Barbosa tão infame

como a violação da Belgica e sempre que por azar havia de fechar um

periodo dava um viva á França sem pestanejar. A Hespanha tambem se tinha

portado mal, não sei como, com o meu amigo senhor Barbosa e, em verdade,

já era com uma certa razão que apetecia outra salsa com syphão á sua

Ex.^ma esposa. E talvez porque em Hespanha haja muitos germanophilos (a

maioria!), coube-me ainda á minha pessôa o convite prá segunda salsa.

--E depois, dizia-me o senhor Barbosa, não sei se sabe que os allemães

não são nada decentes. Ora esta phrase que a principio me pareceu

descabida tinha afinal razão de sêr porque sua Ex.^ma esposa retirou

suavemente o pé de cima da minha bota. Como exemplo de mulheres honestas

apontava co'os braços erguidos o meu amigo as russas, as de Vizeu e as

alliadas.--Estas, sim, fanatizava-se o meu amigo, estas sabem sêr mães

quando mandam os filhos prás fronteiras pra defender a Patria! e dizia

esta ultima palavra com um A tão sonoro que pareceu-me terem os

carroceiros grévistas apedrejado as vitrines do café. Os allemães,

segundo o senhor Barbosa, tinham de fugir ás mães pra irem pra debaixo

das patas do Kaiser, e entornou meia salsa com syphão co'uma palmada bem

aberta sobre o marmore cheio de cinza.

--Veja o meu amigo as francezas que mesmo quando são _cócóttes_ sabem de

cór a Marselheza! O senhor Barbosa fallava tão gesticuladamente que um

senhor da Baixa que tem tabacaria e chapeu de palha e uma apparencia

melhor que elle-proprio chegou-se á meza e disse baixinho ao ouvido do

meu amigo:

--O gajo é germanophilo?

Então o senhor Barbosa entezou-se n'um d'estes nãos que querem

dizer--'tás doido! e eu juro que nunca mais esquecerei este meu amigo

que me salvou da morte. Entretanto sua Ex.^ma esposa retirava p'la

segunda vez e mais suavemente ainda o seu pé pequenino de cima da minha

bota.

Depois houve um silencio extactico co'o creado a perguntar se o tinham

chamado e o meu amigo senhor Barbosa virando-se repentinamente prá porta

chamou muito alto: ó Marcos! e preveniu como quem não quer ter remorsos

e com o braço o mais alto que podia: não penses n'isto, hein!? Era a

minha innocencia. Ainda houve um segundo silencio extactico, sem o

creado a perguntar se o tinham chamado, mas não contente o meu amigo foi

a correr e ainda agarrou á esquina do Rugeroni o tal senhor da Baixa que

tem tabacaria e chapeu de palha e uma apparencia melhor que

elle-proprio. Eu queria seguir todos os seus gestos pra perceber d'ali

de dentro do café aquella segunda confissão do meu dedicado amigo senhor

Barbosa mas sua Ex.^ma esposa começou a observar mexendo o meu relogio

de pulseira e sem olhar pra mim disse que eu tinha uns olhos muito

bonitos. Ainda julguei que fôsse outra salsa que ella quizesse mas não,

d'esta vez era café com leite. Perguntou quem me tinha dado aquella

pulseira tão gentil e quando eu lhe disse que foi uma allemã ella

escondeu um lacinho preto, amarello e vermelho que tinha pregado no lado

direito com uma andorinha azul de esmalte.

--Então o senhor é germanophilo?

--Tambem tenho um pijama de sêda que me deu uma senhora franceza.

De repente o senhor Barbosa entrava no café e sua Ex.^ma esposa

virando-se pra mim disse-me apressadamente como se fôsse o final de uma

conversa que tivesse forçosamente de ser acabada: Então appareça hoje á

meia noite em ponto que o Barbosa está nas commissões de vigilancia. E o

senhor Barbosa com ares de ter tido uma lucta movimentada mais do que

permittia a força humana sentou-se limpando o suor da testa n'um

allivio: Felizmente está tudo resolvido! e voltando-se pra mim

declarou-me que á meia-noite ia jurar a um sitio secreto que eu não era

germanophilo.

As avenidas alli n'aquelles sitios mal iliuminados faziam-me, não sei

porquê, lembrar dos apaches de Paris. As linhas dos electricos brilhavam

vasias e o guarda-nocturno co'as mãos nas costas, pensando talvez no

almoço de depois de amanhã, fitava vagamente o zimborio mais perto da

praça de touros que lhe parecia uma cabaça de dois litros e meio de

tinto. Eu só tinha frio na cara onde acabava o côco e começava a gola

levantada do casaco e pensando se por acaso teria as meias rôtas, cada

esquina que eu dobrava me parecia que eu ía do escuro pra um quarto

illuminado onde estivesse uma mulher em camisa a pôr o despertador prás

horas em que acabassem os serões das commissões de vigilancia. Como

sentisse mais frio em cheio nas faces lembrei-me com mais frio ainda que

aquelle muro cinzento com as ameias quadradas já tinha sido jardim

zoologico com leões que comem carne sem ser cosida. Afinal nem era da

Nordisk, era da Cines aquella fita da domadora que era assassinada plo

proprio marido dentro da jaula dos tigres. Do lado das tabernas veiu uma

brisa sumida e morna de fadinho de melênas com questões revolucionarias;

o proprio ramo de loureiro pregado na porta tinha um movimento indeciso

de se querer raspar. Mais adeante é que eram as lettras F. G. H. tão

enigmaticas como mane, tessel e fare... tão atarracadas e luzidias como

o meu amigo e careca senhor Barbosa. Um patamar, dois degraus, mais

outros dois degraus, tres lanços pra traz e pra deante sempre a subir, a

porta da rua encostada... um candieiro de petroleo em cima de um môxo de

cosinha lá onde acabava a passadeira verde do corredor e muitos cheiros

a pó de arroz, á esquerda, depois de uma canelada n'um caixote lacrado

com Vizeu em cima e cautela em baixo. Depois muita luz, muitos biombos,

muitos retratos a carvão assignados Fonseca, muitos espêlhos, muitos

lacinhos frisados e ella na cama quadrada a fingir que dormitava n'uma

gracinha travêssa de camisa curta pelas vrilhas e peugas de rapaz muito

justas no côr de rosa duro. Antes de chegar á cama havia um papel no

meio do chão e escripto a lapis--era a conta da engommadeira... sete

collarinhos 37, dois 39 e um 40, marca Wagner. No fim da conta em ar

confidencial dizia sublinhado: conta particular de madame Barbosa.

Apaguei de repente a luz e comecei a atirar pró lado o casaco, o

collarinho, a camisa e talvez porque tivesse atirado um pouco mais alto

as calças tive o desprazer de ouvir um acorde de piano em dó maior e

fuga do gato assustado.

Accordei com um tiro dentro do quarto. O senhor Barbosa tendo aberto a

janella dava tiros á queima roupa no bello ar da manhã emquanto gritava

para a cama os maiores insultos premeditadamente hostis. Emfim, nem tive

tempo de me vestir descançadamente nem sequer de fazer a _toillette_ e

até perdi um maço por encetar de "La Deliciosa" com uma caixa de

phosphoros de cêra de luxo com senha e tudo. Quando cheguei á rua tinham

comparecido alli um sem numero de revolucionarios civis que em nome da

lei me intimavam a entregar-me á prisão por ter incorrido no crime de

ser germanophilo na pessôa de um funccionario do Estado e casado.

+IX+

A Engomadeira: Novela Vulgar Lisboeta · 第 1 / 3 段