III

A historia, a cujo conselho Alexandre Herculano pedia o conhecimento dos

homens e a confirmação das aspirações do seu genio, esclarecia-o e

ditava-lhe de continuo regras de vida. Teria por isso de lhe traçar

parallelamente uma politica, que não deve ser outra cousa senão a regra

da vida publica, a expressão do dever civico, ampliando e completando o

systema de obrigações com o proprio individuo e nas suas relações mais

proximas.

Por esta ligação, o principio religioso do amor entre os homens, luz

perpetua do apostolo em toda a contingencia, iria encontrar a definição

concreta mais completa no povo, no ser anonymo, substancia e alma das

sociedades, presente em todos os movimentos de caracter collectivo e

modificando a communidade, imprimindo-lhe tendencias, direcção e forma,

embora o resultado ultimo houvesse dado por longo tempo a illusão de ser

obra do esforço de genios e heroes. Pulsava no povo a bondade do

coração; esse dote tão cobiçado e raro entre os maiores, era vulgar nas

ultimas camadas sociaes, onde o continuo roçar das privações e dores

predispõe os animos para a compaixão»[51]. N'elle se refugiava a

franqueza e a sinceridade, a negação da mentira, principio fundamental

de virtude e expressão primaria da religião; o povo «póde ser injusto,

voluntarioso, insolente, cruel; póde arrastar pelas ruas bispos

traidores, donas prostituidas, alcaides vendidos ao rei estranho; mas

tem uma virtude: é franco e sincero; franco e sincero no seu amor e no

seu odio; usa verdade, e dil-a sem curar se dóe ou não dóe»[52].

O caracter do povo, comendo o pão com o suor do seu rosto, revestiria

uma grandeza austera no labor rude, se o comparava com a dissolução e

dissipação das aristocracias, de todo o tempo occultando sob o manto do

cavalleiro e suas armas fulgurantes, avidez, luxuria e cobiça.

Santificava-se, se o confrontava com os fidalgos do reinado de D. João

I, jogando nas tavolagens «o producto dos terradegos, chavadegos e

maninhadegos, das osas, gayosas e luctuosas, das eiras, angueiras,

perangueiras, carreiras e fossadeiras, e dos mais fôros, direituras e

costumagens em adegos, em osas, em eiras, e em todas as rapinas

possiveis da rapina legal e tradicional»[53]. Clamava justiça e bradava

aos céus, parecendo imploral-a do rei, quando pela bocca dos

procuradores dos concelhos se lhe ia queixar «dos senhores, que,

rodeiados dos seus vassalos e clientes, costumavam residir nas terras a

elles sujeitas, e que, para evitarem os tedios da triste vida

provinciana, consummiam, em lautos banquetes, ás vezes n'um mez, as

subsistencias d'um anno, esquecendo-se de pagal-as, queixa absurda,

visto que elles por serem nobres não eram isentos das debilidades da

retentiva humana; e se por ahi violavam donzellas e viuvas, segundo os

artigos rezavam, menos por fartar paixões más o faziam que por

benevolencia para com essa raça achavascada, meio-mourisca meio-servil,

de labregos desagradecidos»[54].

Aquella mesma burguesia, cuja erupção Alexandre Herculano presenciava

convertendo em desapiedadas usuras descaradas os sonhos da ingenuidade

liberal que lhe facultou o poder, essa mesma, dissimulada em trajos de

modestia e com gestos patrioticos, era aquell'outra, igualmente

abominavel, que no tempo de D. João I se viu representada a primor

em mestre Esteveannes, «uma parcella rudimental d'essa classe media que

se ia organisando no meio das transformações sociaes de edade media,

classe cujos caracteres appareciam já no modo de pensar do honrado

mester--a má vontade para tudo quanto a fortuna ou o berço pôz acima

d'ella, e um orgulho tyrannico para com as camadas inferiores do povo,

d'entre as quaes foi surgindo;--classe egoista e oppressora como a que

substituiu em influencia e riqueza, e peior do que ella na hypocrisia,

tendo na bocca a liberdade, a moral, a justiça, e no coração o despreso

do pobre e humilde, a cobiça insaciavel, a vaidade e a corrupção;

_classe_, emfim, ácerca da qual a historia terá no porvir de lavrar uma

sentença ainda mais severa, do que ess'outra que já pesa sobre a memoria

dos ferozes e dissolutos barões e cavalleiros dos seculos de

barbaria»[55].

Não perdoou Alexandre Herculano á classe media a impostura e astucia que

a tornou algoz quando jactanciosa apregoava a sua misericordia, como não

perdoou nem podia perdoar o crime de lesa-sociedade e traição do seu

mandato á monarchia absoluta, que desrespeitou o povo e as instituições

populares, «mostrando-se parenta proxima do liberalismo moderno no

desprezo estupido e brutal dos mais venerados monumentos d'essas epocas

de liberdade incompleta mas sincera, em que o monarca era o alliado dos

povos, o braço que estes estendiam para annular a tyrannia da casta

privilegiada, se ella ousava quebrar-lhes os seus foros, avexal-os ou

opprimil-os»[56]; degradando em comedia «qualquer cousa grande e forte»,

a vida municipal, que essa mesma monarchia absoluta legou «transformada

em farça de titeres, ás hexarchias ministeriaes, que acceitamos

benevolamente como governo representativo»[57].

Todas as formas do poder politico, todo o systema de direito publico em

qualquer gráo que o presentisse, todo o dominio de senhores e classes

Alexandre Herculano desamava, se opprimiam o povo e não eram filhos do

seu genio. «A mais bella, mais energica e mais vivaz» instituição,

derivada do principio da associação, a mais perfeita consubstanciação da

aspiração commum no seu modo de ser politico, para elle «era e seria

sempre o municipio»[58].

Ouçamol-o. Necessario se torna ouvil-o com mais pausa do que até aqui o

temos feito. Tocamos no amago da sua politica, no coração da cidade que

elle sonhou. Meditemos as suas palavras. Comparemos a sua concepção da

sociedade politica com todas aquellas muito captivantes que

architectaram os mais profundos pensadores do nosso tempo e os mais

zelosos apostolos da democracia, ao fim de innumeraveis annos de estudo

e de experiencias cruciantes que devoraram milhares de martyres. Talvez

depois possamos entrever como o poeta, o crente e o historiador geraram

o propheta, que clarão elle accendeu nos amortecidos fachos do passado

para nos illuminar uma rutila estrada no futuro:

«Na essencia de todas as associações humanas, em todas as epocas e por

toda a parte actuam dois principios: um da ordem moral, intimo,

subjectivo; outro da ordem material, visivel, objectivo. É o primeiro o

sentimento innato da dignidade e da liberdade pessoal; é o segundo o

facto constante e indestructivel da desigualdade entre os homens. As

revoluções interiores das sociedades, as suas luctas externas, as mesmas

mudanças lentas e pacificas da sua indole e organisação constituem

phases mais ou menos perceptiveis do ascendente que toma um ou outro

d'esses principios em lucta perpetua entre si. Cavando até o amago de

qualquer grande facto historico, lá vamos encontrar esse perpetuo

combate. As conquistas, o despotismo, as oligarchias, seja qual for o

seu nome, são manifestações diversas do predominio do mesmo principio de

desigualdade, quer este se estribe na força bruta, quer na destreza e

intelligencia, quer na propriedade: as resistencias, felizes ou

infelizes, das nacionalidades ou das democracias, emquanto não degeneram

na exclusão e na tyrannia do maior numero, são manifestações do

sentimento da dignidade e liberdade humanas, do principio subjectivo ou

de consciencia. Factos ambos innegaveis e indestructiveis, a grande

questão social é equilibral-os, e não tentar o impossivel, pretendendo

annular um ou outro: porque foi Deus quem estampou um na face da terra,

ao passo que escrevia o outro no coração do homem. A inutilidade dos

esforços d'este seculo para assentar a sociedade em novas bases, a

frequencia dos terriveis abalos que agitam a Europa tentando

regenerar-se não procedem, porventura, senão do exclusivo dos partidos

que representam as duas ideias, da negação de legitimidade com que

mutuamente se tratam. Sobranceiras ao immenso campo de batalha onde se

disputa o futuro, duas tyrannias esperam que se resolva a contenda para

vêr qual d'ellas se assentará no throno do mundo, a democracia absoluta,

que desmente a lei natural das desigualdades humanas, ou a oligarchia

oppressora e materialista que se ri das aspirações do coração, que não

crê na consciencia das multidões, que confunde o facto da superioridade

com o direito de opprimir as classes populares, cujos membros são para

ella simples machinas de producção destinadas a proporcionar-lhe os

commodos e gosos da vida. Seja, porém, qual fôr o desfecho do combate, a

paz que resultar do triumpho exclusivo dum dos principios nunca será

duradoura; porque esse triumpho importa a condemnação de uma lei eterna,

que não é licito offender impunemente: nunca a liberdade e a paz poderão

subsistir emquanto concessões mutuas não tornarem possivel a

coexistencia e a simultaneidade dos dous principios.

«A historia dos successos politicos que não é senão o resumo das

experiencias do genero humano, quer se refira á vida interna, quer á

vida externa das nações, cifra-se em descrever phenomenos mais ou menos

notaveis dessa lucta interminavel. A conquista emprehendida ou realisada

pelo mais forte corresponde a resistencia ou a reacção do mais

fraco, ao despotismo de um as conjurações de muitos; á opposição

oligarchica a revolução democratica. Nenhum, porém, d'esses factos traz

uma situação definitiva. Na conclusão da peleja em que um dos principios

triumpha absolutamente começa a preparar-se a victoria do principio

adverso. D'este modo a historia encerra um protesto perenne da liberdade

contra a desigualdade, digamos assim, activa, e ao mesmo tempo

attesta-nos que todos os esforços para a substituir por uma igualdade

absoluta teem sido inuteis e que esses esforços ou degeneram na tyrannia

popular, no abuso da desigualdade numerica, ou fortificam ainda mais o

despotismo de um só, ou o predominio tyrannico das oligarchias da

intelligencia, da audacia e da riqueza.

«Allumiada pelo clarão do evangelho triumphante, a edade media, epocha

da fundação das modernas sociedades da Europa, offerece no complexo das

suas instituições e tendencias um começo de solução ao problema que o

mundo antigo não soubera resolver. Causas diversas preparam, durante os

seculos XIV e XV, o estabelecimento das monarchias absolutas, que

impediram o desenvolvimento logico d'aquellas instituições, na verdade

barbaras e incompletas mas que, apezar da sua imperfeição e rudeza,

continham os elementos do equilibrio entre a desigualdade e a

liberdade. Longe de negar ou condemnar com colera infantil as

differenças de intelligencia, de força material e de riqueza entre os

homens, ou de tentar inutilmente destruil-as, a democracia da edade

média, representante do principio de liberdade, confessava-as,

acceitava-as plenamente, acceitava-as até em demasia; mas, por isso

mesmo, mostrava instinctos admiraveis em organisar-se e premunir-se

contra as tendencias anti-liberaes d'essas superioridades. Foram

semelhantes instinctos que produziram os concelhos ou communas; esses

refugios dos foros populares, essas fortes associações do homem de

trabalho contra os poderosos, contra a manifestação violenta e absoluta

do principio de desigualdade, contra a annulação da liberdade das

maiorias. Em nosso entender, a historia dos concelhos é em Portugal, bem

como no resto da Hespanha, um estudo importante; uma lição altamente

proficua para o futuro; porque estamos intimamente persuadidos de que,

depois de longo combater e de dolorosas experiencias politicas, a Europa

ha-de chegar a reconhecer que o unico meio de destruir as difficuldades

de situação que a affligem, de remover a oppressão do capital sobre o

trabalho, questão suprema a que todas as outras nos parecem

actualmente subordinadas, é o restaurar, em harmonia com a illustração

do seculo, as instituições municipaes, aperfeiçoadas sim, mas accordes

na sua indole, nos seus elementos com as da edade media. Sem ellas, o

predominio do despotismo unitario, o do patriciado do capital e da força

intelligente, que sob o manto da monarchia mixta domina hoje a maior

parte da Europa, ou o da democracia exclusiva e odienta, expressão

absoluta do sentimento exaggerado da liberdade, que ameaça devorar

momentaneamente tudo, não são a nossos olhos senão formulas diversas de

tyrannia, mais ou menos toleraveis, mais ou menos duradouras, mas

incapazes de conciliar definitivamente as legitimas aspirações da

liberdade e dignidade do homem em geral com a superioridade indubitavel

e indestructivel d'aquelles, que, pela riqueza, pela actividade, pela

intelligencia, pela força, emfim, são os representantes da lei perpetua

da desigualdade social.

«A historia da instituição e multiplicação dos concelhos é a historia da

influencia da democracia na sociedade, da acção do povo na significação

vulgar d'esta palavra, como elemento politico»[59].

Porque esse elemento politico era na vida social das nações o elemento

vital, Alexandre Herculano teria de applaudir, e eloquentemente o fez, a

obra revolucionaria de Mousinho da Silveira. Que fôra ella senão um

resgate de servidões do povo?!...

Aboliu os dizimos ecclesiasticos e os direitos de senhorio, e por esse

modo libertou a propriedade e o trabalho agricola, a pequena industria e

o pequeno commercio de dois terços dos impostos que sobre elles pesavam,

dos quaes o fisco recebia apenas uma parte minima. Separou as funcções

judiciaes das administrativas. Organisou os tribunaes de justiça.

Deixaram de ser pessoaes e hereditarios os empregos publicos. Decretou a

liberdade do ensino. Deu o primeiro golpe nos morgados, supprimindo os

de rendimento inferior a duzentos mil reis. Secularisou um certo numero

de conventos e lançou as bases para a suppressão gradual e total dos

estabelecimentos d'este genero e das outras corporações ecclesiasticas

não comprehendidas na verdadeira hierarchia da egreja, suppressão «mais

tarde realisada com uma imprevidencia e uma brutalidade inauditas, e, o

que foi peior, inuteis». Limitou as sisas ás transacções sobre bens de

raiz, e reduziu-lhes a importancia a metade, a até a menos de metade

em certas hypotheses. Aboliu monopolios como o do sabão, da venda do

vinho do Porto, e outros. Á liberdade politica, que os concelhos

traduziam, era necessario que correspondesse a liberdade moral e

principalmente economica, que as leis de Mousinho decretavam. «Era

necessario arrancar o povo das garras do absolutismo que o

estrangulavam; e para o conseguir o meio mais seguro e certo era

cortar-lh'as». Foi isso o que o duque de Bragança fez; e o povo

comprehendia-o. Não «a populaça, que não reflectia; que quasi não tinha

interesses materiaes ou moraes dependentes das medidas do gabinete

Mousinho: que todos os dias era prégada, excitada, fanatisada por padres

e frades. Essa parte da nação era então o que é hoje, o que será amanhã.

Gostava de mendigar ás portas dos conventos e das abbadias, e alistar-se

entre a creadagem dos donatarios da corôa, dos commendadores, dos

capitães móres, de todos aquelles que viviam do producto dos velhos

impostos, que as instituições e as leis tornavam legaes, mas que a

justiça, a razão e a humanidade tornavam illegitimos»; essa não podia

apreciar os decretos de Mousinho. Mas ess'outro povo que é «alguma cousa

de grave, de intelligente, de laborioso; os que possuem e trabalham,

desde o simples rendeiro ou o trabalhador do seu proprio campo até

ao grande proprietario; desde o bofarinheiro e o tendeiro até ao

mercador por grosso; desde o official até ao fabricante»; estes

espalhavam, liam e comentavam as leis de Mousinho; «comparavam os seus

resultados necessarios com os pesados cargos que esmagavam as classes

laboriosas e impediam todo o progresso»; e debalde o partido realista

tentava obstar ao effeito moral d'aquelles decretos sobre o espirito dos

que elles favoreciam.

E porque o povo as apreciava e applaudia, por isso Alexandre Herculano,

que via no dominio do povo a victoria da liberdade, applaudiu as medidas

de Mousinho, «vassoura immensa de instituições carunchosas», a que

embaraçavam a seiva da vida social e formavam os contrafortes do

absolutismo». Tinha presentes, porque a historia lh'os havia pintado, os

quadros da oppressão do antigo regimen. Vira «no pateo de cada granja,

na eira de cada campo, no limiar de cada adega os agentes do commendador

ou do bispo, do capitulo ou do abbade, do donatario e do alcaide-mór a

pedirem, um a dizima, o outro o quarto, um outro o oitavo do rendimento

total dos cereaes, do vinho, do linho, do azeite, de quasi todos os

productos». Sabia que a miseria do paiz havia de perpetuar-se «emquanto

se encontrassem aquelles agentes, computando aqui quantos carros de

milho o lavrador devia, em virtude de um foral de Affonso I, a um gordo

senhor bochechudo, companheiro divertido, illustre vadio, vindo de

nobres avós, mas que por certo não havia herdado a corôa do dito Affonso

I; enumerando acolá uma ladainha de rendas, com nomes heteroclitos e

barbaros, exigiveis da choupana e da granja; emquanto se visse ainda por

cima, quando o pobre cultivador cahia exausto, o coração rasgado de dôr,

sobre os restos do fructo do seu trabalho, chegar o exactor fiscal e

pedir, em nome do rei vivo, novos dizimos e outros impostos que não se

lhe havia tirado em nome dos reis mortos»[60]. A injustiça contra o

povo, filho dilecto de Deus porque consagra o amor pelo trabalho,

clamava indignada na alma do poeta, e por isso elle abençoava a obra do

dictador revolucionario.

Esse povo, porém, que ella amava e queria enthronisado e defendido nos

baluartes do municipalismo, não seria um rebanho de animaes possantes,

bem mantido no seu vigor bestial, selvaticamente alheio á grandeza moral

da humanidade. Seria livre e forte, mas para «ser livre, era

necessario que fosse religioso e honesto; e para que fosse religioso e

honesto era necessario que conhecesse as doutrinas do Evangelho, que não

são mais do que a confirmação divina da moral universal. Em vez de

inculcar crendices ao povo, cumpria inculcar-lhe os principios do

christianismo, e as consequencias d'aquelles principios: cumpria

illustral-o em vez de o conservar na ignorancia: fazer-lhe sentir que a

força de praticar grandes e nobres sacrificios, tão recommendados por

Jesus, é o caracter que distingue o espirito immortal do homem do

instincto que anima as alimarias. Era preciso convencel-o de que o

patriotismo, de que esse puro e santo affecto que nos faz abandonar os

commodos domesticos, as affeições do coração, e arrostar com a fome, com

a sede, com a nudez, com a intemperie das estações, para irmos morrer

n'um campo de batalha, salvando a terra em que dormem nossos maiores,

defendendo a cruz do nosso adro, a vida de nossos paes, a honra de

nossas irmãs e mulheres, é a manifestação mais solemne da energia do

espirito humano, e da abnegação christã»[61].

Quereria o povo glorioso, mas a gloria que lhe appetecia era a do

trabalho e a do amor. E definia-a. Era indispensavel definil-a

porque, precursores de uma reacção do despotismo que em nossos dias teve

suas horas de favor e de triumpho com o nome de imperialismo, já em

tempo de Alexandre Herculano havia «homens de novas ideias, que se

diziam cheios de illustração e philosophia», para os quaes «onde quer

que perecessem milhares de homens, combatendo por interesses que não

comprehendiam, ou por torpe cobiça; onde quer que o ferro e o fogo

arrasassem as cidades, despovoassem os campos, embora d'essas cidades e

campos nenhum mal tivesse vindo aos seus destruidores, havia uma gloria

sem mancha, immensa, immarcessivel. Herdeiros pequeninos e pacificos dos

gigantes da assolação, dos Tainerlans, dos Attilas e dos Gengiskans,

avaliavam pela estimativa d'aquelles illustres selvagens as façanhas dos

proprios avós. Se a historia pergunta:--Acaso esses combates em que, sem

duvida, se praticaram grandes feitos, foram uteis ao progresso material

e moral do povo em cujo nome se pelejaram, ou trouxeram a sua

decadencia? Está ou não essa gloria militar, aliás indisputavel,

assombrada por grandes crimes? Foi a intenção, a qual só determina o

valor moral das acções, nobre, grandiosa, pura, ou teve motivos menos

elevados? Foi um arrojo, um impeto nacional, ou um impulso dado pela

ambição, ou pelo capricho de algum principe?--A historia que faz estas

perguntas ou outras analogas, porque esse é o seu dever, commettia aos

olhos dos taes um crime de leso-patriotismo... O povo, affirmam elles,

ha de moralisar-se pelas tradições da sua grandeza e gloria. O povo!

Pois o povo que tantas vezes trata de perto a fome e a nudez; cuja vida,

desde o berço de farrapos até á enxerga rota em que fenece, vae travada

de receios, de sobresaltos, de desalentos e de agonias, pensa lá nas

cutiladas que se deram, nas bombardadas que se despediram, ha tres ou

quatro seculos, por mãos d'uns homens, cujos nomes e cujas façanhas se

memoram n'uns livros que elle nunca leu, porque não sabe lêr, nem tem

dinheiro para pão, quanto mais para livros? Que são essas palavras

retumbantes de regeneração pelas tradições, senão sons ocos, que não

correspondem a nenhuma ideia? Supponhamos, porém, que todas essas

recordações chegavam ao povo. Podem ellas servir-lhe de exemplo, de

lição para as suas necessidades actuaes? N'um paiz onde a riqueza

passageira destruiu os habitos do trabalho e da economia, entorpeceu

pela miseria, resultado infallivel da prosperidade ficticia, a energia

do coração, que faz luctar o homem com a adversidade e vencel-a, de

que serve estar de continuo a pregar ao povo:--«Teus avós levaram o

terror do seu nome aos confins do mundo, saqueiaram e queimaram emporios

opulentos em plagas remotas, metteram a pique poderosas armadas,

derribaram os templos alheios, violaram as mulheres estranhas, passaram

á espada os que eram menos valorosos que elles, abriram caminho ao

engrandecimento dos outros povos da Europa, e affeitos a gosos faceis,

deposeram aos pés do absolutismo as suas velhas franquias, beijaram os

grilhões que lhes deitavam aos pulsos porque eram dourados, e

tornaram-se ludibrio do mundo».--Estas lições é que hão de ensinar a

actividade no trabalho, a severidade nos costumes, o amor da liberdade

moderada, mas verdadeira, o direito de cultivar as artes de paz, no meio

de um paiz decadente, cuja unica esperança de salvação está em se

desenvolverem n'elle essas e outras tendencias analogas? Não! O povo,

que tem mais logica do que os prégadores de vãos apophtegmas, ha de

concluir outra cousa d'ahi; ha de concluir que é assaz fidalgo para não

contrahir habitos villãos e ruins. De historias d'aggressões e de

conquistas brilhantes não se deduz a necessidade de morrer obscuramente

em defeza da terra da patria; não se deduz a moderação revestida de

firmeza, que faz respeitar pelas grandes as nações pequenas; não se

deduzem nem o amor do trabalho nem o amor da virtude»[62].

«Morigeração, trabalho, sciencia, eram as armas em que a philosophia

politica d'aquelle seculo ensinaria as nações civilisadas a combaterem

n'uma lucta generosa. Os espiritos mais altos, fosse qual fosse a sua

crença religiosa e politica, proclamavam a paz e a fraternidade entre os

homens. E não só as proclamavam mas até empregavam a poderosa alavanca

da associação para promoverem uma cruzada santa contra as tendencias

guerreiras. Os esforços collectivos d'esses homens summos seriam

baldados? Não o cria. Tinham um alliado irresistivel. Quando os

exercitos permanentes e as grandes marinhas militares tivessem devorado

todo o peculio de cada povo, e exhaurido a melhor e a mais pura seiva da

sua vida economica, era então que a philosophia politica havia de

alcançar um triumpho decisivo. Mas esse triumpho que outra cousa seria

senão o ultimo termo de uma sorites immensa, composta dos factos de

dezenove seculos, de uma demonstração pratica e invencivel, de que a lei

moralmente necessaria das sociedades modernas é o christianismo, é o

verbo do amor e da paz revelado no Evangelho?

«N'esses dias, que porventura tardavam menos do que muitos pensavam, que

destino dariam os sacerdotes da bombarda, da lança e da espada aos seus

deuses fulminados? As palavras «façanhas, gloria guerreira, conquistas»

como seriam definidas nos diccionarios das linguas vivas, dentro de um

ou dois seculos?»[63].

Era para esses seculos futuros que Alexandre Herculano queria educar o

povo na sua crença, e outra mais nobre e pura, é certo, até ao presente

se não encontrou ainda. Justificaram-na os tempos, e as esperanças de

hoje n'ella nos exaltam, glorificando em nossos corações o apostolo e a

sua fé.

Alexandre Herculano(#30699) · 第 19 / 27 题