IV

Seria ainda fructo da applicação ao estudo da historia, nasceria do

conhecimento profundo das origens e vicissitudes das instituições e do

prolongado manusear dos seus codices, a notavel capacidade de

jurisconsulto que Alexandre Herculano revelou e usou com felicissimo

exito em diversas conjuncturas da sua vida de publicista, e sobretudo na

discussão e redacção do projecto do codigo civil? Foram as qualidades de

historiador que crearam as aptidões de legislador?

Evidentemente, o exame da estructura juridica tradicional das sociedades

em geral e, em particular, da constituição da nação portugueza por esse

lado, a comprehensão dos systemas de direitos e obrigações que

cimentaram a formação e desenvolvimento da unidade nacional,

incital-o-iam a confiar na efficacia das leis e, por impulso logico,

passaria da analyse d'aquellas que nos seculos passados nos regeram á

critica das que encontrou vigorando, e á elaboração de outras que, para

fortuna da patria, as modificassem e as substituissem no futuro. Os

meios de governar, cujas virtudes se lhe mostraram claras durante

seculos, manifestando-se identicos áquelles que tinha vindo encontrar

energicos e activos, operando no momento presente e imprimindo-lhe

caracter, convence-lo-iam da permanencia d'uma força com a qual as

sociedades tinham a contar em toda a conjunctura. Verificando-lhe a

constancia e os effeitos no correr dos seculos e no presente, por isso

se esforçava em a corrigir de desvios e erros funestos á prosperidade e

á paz entre os povos, e em convertel-a, quanto possivel, em instrumento

de felicidade e justiça entre os homens.

O alto valor das aptidões de jurisconsulto de Alexandre Herculano, esse

notabilissimo traço do seu genio na capacidade da applicação pratica dos

principios e da sua reducçáo a obrigações e direitos, é abonado pelo

testemunho de contemporaneos auctorisados, ainda mesmo para aquelles

que, por falta de conveniente educação de espirito ou por diversidade de

inclinações, hesitassem em a apreciar ou de todo a julgassem assumpto

interdicto á sua critica. Vicente Ferrer Netto Paiva, jurisconsulto e

publicista eminente, companheiro e intimo de Alexandre Herculano,--para

citarmos apenas um entre muitos dos mais competentes, disse no _Elogio

historico_ do amigo, lido em sessão do Instituto de Coimbra a 23 de

maio de 1878:

«O sr. Alexandre Herculano, que gostava de questionar e discutir, tomava

a palavra em quasi todas as questões que se ventilavam no seio da

commissão (revisora do codigo civil). E, apezar de não ser

jurisconsulto, fallava com tanta proficiencia, que era sempre escutado

com a maior attenção pelos outros membros da commissão, que se tinham

dedicado á sciencia do direito; e conseguiu muitas vezes fazer vencer as

questões pela parte que elle sustentava. Muitas propostas suas

melhoraram o projecto do codigo civil e são hoje leis do paiz. O que

porém admirava aos jurisconsultos da commissão era ver que nunca ia de

encontro a um principio de direito, apezar de as questões serem muitas

vezes complicadas e difficeis. Parecia que tinha estudado a fundo a

sciencia do direito. Se duvidaes do meu testemunho, como de amigo

suspeito, vêde o que escreveu sobre a questão do chamado casamento civil

em os diversos opusculos que publicou a este respeito, batendo-se com o

auctor do projecto do codigo civil, um dos maiores jurisconsultos d'este

reino. Vêde a subtileza, com que analysou as velhas leis do reino, as

leis canonicas e os textos das leis romanas; os immensos recursos que

descobriu na historia e costumes antigos; e os profundos

conhecimentos que mostrou da philosophia do direito. O debate entre

estes dois grandes homens foi digno d'elles».

«Ainda o sr. Alexandre Herculano fez outro serviço importante na

commissão revisora do codigo civil. Esta commissão, por ser de quatorze

membros, julgou-se muito numerosa para poder fazer a redacção final do

projecto, e nomeou uma commissão pequena, composta do sr. Alexandre

Herculano e de quem escreve estas linhas. Ambos concordámos em que o sr.

Alexandre Herculano fizesse a redacção, que eu leria depois, para vêr se

n'ella ia alguma palavra de uso vulgar, que devesse ser substituida por

outra propria da sciencia do direito. E não me lembro de substituir

senão uma ou duas palavras. Todo este serviço deve-o a nação ao sr.

Alexandre Herculano».

Todavia, este homem que tanto confiava nas determinações juridicas da

sociedade e tanto se inflamava na sua discussão, que tinha fé na lei

como portadora da ordem e de grandes beneficios, e a temia e lhe queria

como fautora de destinos varios e distribuidora de bens magnificos, esse

homem dizia-se individualista ferrenho e proclamava-se inimigo do

confuso e impetuoso socialismo do seu tempo, de esse que poderiamos

chamar do periodo religioso e apostolico, mal esboçando ainda a sua

phase organica. Antevendo na victoria de semelhantes principios a

restituição das armas e a consagração dos direitos que conduziam ao

resurgimento de tyrannias nefandas, não podia conformar-se com a

reconstrucção do edificio tenebroso, derrubado ha pouco á custa de

campanhas heroicas e prolongadas, das quaes fôra soldado. «Que a

tyrannia de dez milhões se exercesse sobre um individuo, que a de um

individuo se exercesse sobre dez milhões d'elles, era sempre a tyrannia,

era sempre uma cousa abominavel». «Passado um seculo, era muito possivel

que o liberalismo tivesse desapparecido. As gerações precisam ás vezes

retemperar-se nas luctas da anarchia ou nas dores da servidão:

concentram-se para a explosão calcadas sob o pé ferreo da força brutal.

Deixassem-no levar, para se entreter a ruminal-a pelo caminho, a

convicção de que, entalada entre duas betas negras,--a tyrannia em nome

do céu e a tyrannia em nome do algarismo,--surgiria como um fóco de luz,

nas paginas da historia, a epoca em que se proclamavam os direitos

individuaes absolutos e imprescriptiveis, embora as paixões humanas nem

sempre os respeitassem». «As ideias democraticas tendiam pela sua indole

a apoucar o individuo e a engrandecer a sociedade, se é que elle as

comprehendia. Era por isso que, nas trevas do seu pensar, a democracia

estendia constantemente os braços para o phantasma irrealisavel da

igualdade social entre os homens, blasphemando da natureza, que,

impassivel, os ia eternamente gerando physica e intellectualmente

desiguaes. Era por isso que ella acreditava ter feito uma religião seria

d'esse phantasma, quando o que realmente fez foi inventar a idolatria do

algarismo... A sua intelligencia amotinava-se contra a conversão do

homem em molecula. Repugnava-lhe vel-o apoucado, quasi annulado, deante

da sociedade, e esta, pessoa moral, individuo collectivo, artificial,

subrogando-se ao individuo[64]».

O individualista intransigente, tomando porém responsabilidades de

governo, abrandou do rigor do philosopho e cedeu á evidencia e

instancias das necessidades publicas e das indicações da justiça. Eleito

presidente da camara municipal de Belem, estadista por um rapido momento

em uma espera acanhadissima mas na sua extrema exiguidade sufficiente

para demonstração das tendencias de quem n'ella exercia magistratura,

Alexandre Herculano depressa se conciliou com um radicalissimo

inicio de tyrannia em nome da sociedade, fazendo que a camara da sua

presidencia sollicitasse do parlamento auctorisação para crear uma

«Caixa de Soccorros Agricolas», cujas bases expunha.

Pretendia a camara crear um fundo permanente destinado a subministrar

capitaes baratos aos cultivadores, para os amanhos ruraes. Para isso

reservaria annualmente tres quartos do producto do imposto da farinha

fabricada, até completar a somma de 35:000$000 réis, podendo todavia

substituir aquelle imposto por qualquer outro, uma vez que o seu

producto fosse pelo menos equivalente aos mesmos tres quartos

designados. A caixa emprestaria aos cultivadores do concelho, por prazo

nunca excedente a um anno, e a juro de 1/4 por cento ao mez, o capital

necessario para o movimento da cultura annual dos predios respectivos, e

desde logo ficavam determinadas minuciosas condições regulamentares dos

emprestimos, incluindo a hypotheca especial dos fructos do anno corrente

ao contracto, e, se esses não chegassem, dos dois annos immediatos, até

integral reembolso; a preferencia de direito e acção da caixa sobre

qualquer outra acção e direito particular em relação aos fructos do anno

corrente; e muitas mais exigencias das quaes resultava uma

fiscalisação assidua da caixa sobre a economia individual do lavrador.

Se esse projecto houvesse sido convertido em lei, deixaria ampla a

admissão do mais rematado socialismo. Não haveria motivo para recusar a

todas as demais forças da economia nacional o beneficio que para uma

d'ellas se tinha mostrado legitimo; não haveria razão para que o estado,

arvorando-se capitalista por meio do imposto, descontasse aos lavradores

e não procedesse de modo igual com o commercio, com a industria, e com

todos os outros elementos da riqueza do paiz. O communismo era perfeito;

a socialisação da riqueza completa. O estado reclamava da economia

individual os capitaes necessarios á communidade, pelos meios

obrigatorios e coercitivos de que dispunha, e iria depois entregal-os á

classe que carecia de auxilio; aprehendia por imposto e repartia por

justiça. Mas, porque seria banqueiro a municipalidade e não o seria

igualmente a administração geral de toda a fazenda publica?

O jurisconsulto, quem reconheceu o valor das instituições juridicas como

Alexandre Herculano, não podia declinar as consequencias de tal condição

de espirito e havia de as levar até onde ellas se impõem por virtude

da logica e pressão do bem publico. Mas não houvesse legado exemplo

pratico do seu systema e processos de estadista, ainda em campo

puramente doutrinario nos facultaria elementos para julgar que o seu

individualismo andava sujeito a quebras e restricções, apezar da

robustez formidavel. Não nos mostrou Alexandre Herculano como no seculo

XII a lei, fortalecendo os costumes, conciliava as religiões mais

discordantes e as punha lado a lado vivendo em harmonia? E, se a lei

conciliava os deuses e continha as paixões religiosas, como nos disse,

se convertia a tolerancia em regra de governo, porque não conciliaria os

homens e as necessidades terrenas elementares? Não nos fallou elle da

«propriedade, filha sacrosanta do trabalho» e, se essa lhe mereceu tão

sagrado respeito e absoluta defeza, que designação e sentimentos lhe

provocaria ess'outra propriedade que, em vez de ser filha do trabalho,

se funda na espoliação do trabalho,--a elle que do coração abominava

todas as tyrannias?

A vulnerabilidade do individualismo de Alexandre Herculano,

descobrindo-se em mais de um ponto e por diversos lados, como acabamos

de notar, não viria porém da deficiencia do principio de liberdade, que

proclamava com uma fé indomita, mas unicamente do atrazo das

concepções politicas da sua epoca e da impossibilidade de se definirem

de um modo positivo e pratico, n'essa altura incapazes de traçar uma

construcção da sociedade, nos seus aspectos economicos, solida e bem

ponderada sem prejuizo da inteira garantia das liberdades essenciaes.

Para um devoto da tradição, que viu todo o organismo social enraizado no

passado e o estudou nas suas mais delicadas e profundas ramificações e

origens, para quem soube prender por laços estreitos a existencia das

gerações presentes ás instituições, aos sentimentos, á sabedoria

acummulada das gerações extinctas, aos seus erros e desvarios e ás suas

virtudes, a sociedade não podia pulverisar-se em um aggregado de

liberdades desconnexas, no concurso fortuito dos seus atomos, em simples

associação mecanica ou mera juxtaposição. Não; uma constituição juridica

a ligaria, traduzindo as relações moraes e a dependencia religiosa e

suas derivações--tudo o que elle sentia instantemente. Se, por amor da

intangibilidade dos principios, contestou a legitimidade da nova ordem

que lhes offendia a coherencia, não foi porque ella afinal deixasse de

se conter nas suas crenças, mas tão sómente porque ainda não tinha

conseguido definir-se na lucidez perfeita que o correr dos tempos, a

meditacão dos apostolos e o clamor de experiencias dolorosas vieram

a attingir em epocas posteriores. Não era possivel vêr-se ainda, como

claramente hoje se demonstra, que a divisão e concorrencia anarchica das

classes, importando victorias relativas e tyrannias consequentes,

significam em resultado ultimo a annulação de toda a garantia de

liberdade; não era ainda possivel vêr-se não só como a condição

economica se tornava a base da liberdade politica, moral e religiosa,

mas tambem em que termos e com que segurança a independencia economica

se alcançaria sem privação da liberdade, antes fortalecendo-a. Não

haviamos chegado a comprehender de uma maneira precisa--grandes

correntes do pensamento nos offuscavam! até que ponto importava moderar

as asperezas da lucta pela vida, onde não podessemos supprimil-as

totalmente, para que a liberdade, nas suas formas politicas e sociaes

concretas se penetre de todo o amor, para que ella, principio religioso

e de dever na esphera do sentimento e da moral, se consubstanciasse em

simples regras de justiça e de cooperação na esphera juridica.

A conciliação de duas phases de um estado de espirito, identico na

essencia embora diverso nas modalidades, de prolongada gestação na

qual se consumiram o scismar e o trabalho de inumeraveis e altissimas

capacidades e as paixões de exercitos de combatentes e martyres, essa

duplicação de vida mental que permittiu respirar com igual facilidade o

alento de duas epocas, atmospheras de uma mesma substancia mas

differentes todavia na proporção e logar dos elementos constituivos,

foram phenomenos absolutamente excepcionaes, tão fóra das normas

vulgares que mal os comprehenderam os que os presenceiaram. A

ductilidade de pensamento que a tão variada extensão pôde amoldar-se, de

tal modo se destacava do commum, provavel e logico, que a muitos se

tornou impossivel deslindar a surpreza e lançaram-na á conta das

apostasias de crença, debilidades de animo e collapsos de entendimento.

A propria tenacidade dos principios, levada a ponto de exaltação

religiosa, tornava-se impedimento de progresso, reagindo contra tudo o

que se lhe afigurava morder a integridade rigida na qual elles se haviam

fundido.

De resto, mais poeta e historiador do que pensador, mais moralista do

que philosopho, mais prompto em contemplar as cousas creadas e as

renascer do que propenso a martelar systemas novos e apural-os,

Alexandre Herculano não se sentiria talvez muito inclinado á

correcção e revisão amiudada, senão continuada, dos principios cuja

influencia de inspiração e fortaleza usufruira por largos annos.

O caso de Stuart Mill é uma excepção surprehendente na historia das

doutrinas politicas no seculo XIX; não seria facil repetir-se, mesmo

entre os da sua força e edade[65]. Da liberdade comprehendida no sentido

de uma larga emancipação não só da lei mas da influencia da opinião e do

costume, por uma rarissima agilidade de pensamento, verdadeira

prolongação de juventude que lhe facultou deducções imprevistas dos seus

principios, Stuart Mill veio até á acceitação d'aquellas concepções que

no seu tempo o individualismo encorporava na vaga designação de

socialismo, temendo-as e proscrevendo-as, como resurreição de

despotismo, reacção calamitosa e sem nome. «Por um lado», escreveu[66],

a repudiavamos com a maior energia esta tyrannia da sociedade sobre o

individuo que se suppõe contida na maior parte dos systemas socialistas;

por outro olhavamos para um tempo em que a sociedade não mais se

encontrará dividida em duas classes, uma de ociosos, outra de

trabalhadores; na qual a regra de que os que não trabalham tambem não

devem comer será applicada, não só aos pobres, mas a todos

imparcialmente; em que a divisão do producto do trabalho, em vez de

depender, como em alto grau agora acontece, dos accidentes de

nascimento, será feita d'accordo, sobre um principio de justiça: em que

emfim não mais será impossivel, ou se julgará impossivel, que os seres

humanos se esforcem energicamente procurando bens, destinados não para

elles exclusivamente mas para serem partilhados com a sociedade á qual

pertencem. Consideravamos que o problema social do futuro consistiria em

unir a maior liberdade individual de acção com a communidade de

propriedade das materias brutas do globo e com uma igual participação de

todos nos beneficios do trabalho combinado». Sem a presumpção de julgar

que se podia prever immediatamente a forma exacta das instituições

conduzindo com segurança áquelle fim, nem em que epoca, remota ou

proxima, seria possivel applical-as, criam todavia que «a educação, o

habito e a cultura dos sentimentos fariam que um homem cavasse ou

tecesse pelo seu paiz tão bem como por elle combatia».

Assim pensava já e o escrevia, vagamente, Stuart Mill em 1848, e quatro

annos depois, em 1852, aberta e firmemente o advogava; e isto se póde

considerar ainda hoje a mais bella e a mais cathegorica aspiração

socialista, a mais accessivel a todo o entendimento e a mais pratica na

execução. É maravilha que tão longe alcançasse quem partira de ponto tão

distante e diverso. Viver duas vidas, duas epocas, em uma só existencia,

fazendo succeder em um unico cerebro, aliás igualmente poderoso em ambas

as modalidades, o espirito duma geração ao espirito da geração

precedente, é, na verdade, um acontecimento de incomparavel estranheza.

Por certo o conheceu Alexandre Herculano no seu vastissimo saber. Mas

não se convenceu. Convém verificar o facto para inteira comprehensão do

seu caracter e disposição de espirito. Não lhe amesquinhou, todavia, a

grandeza; reconheçamol-o. Em taes alicerces se fundava que podia bem

affrontar rebeldias caracteristicas da propria fortaleza, compensadas

por uma solidez de estructura, sem embargo alguma vez impenetravel á

irradiação de novos astros mas sempre protecção e defeza de magnificos

thesouros, ideaes elevadissimos, que serão a eterna medida do valor

dum ser humano.

Quando hoje lemos a discussão do socialismo e do individualismo entre

Oliveira Martins e Alexandre Herculano, posta n'aquella altura de

sinceridade affectuosa e vitalidade mental de que esses dois

extraordinarios espiritos foram dotados, sorrimos sem desrespeito, antes

com uma carinhosa gratidão pelo sagrado esforço de quem assim procurava

trazer ao mundo felicidade, e por alcançal-a se consumia e atormentava

em cogitações e em duvidas. O que então era obscuro e incerto para

homens realmente grandes, é hoje evidente e incontestavel para o vulgo.

«O decurso de trinta a quarenta annos, no turbilhão, cada vez mais

rapido, em que hoje as ideias passam, modificando-se, transformando-se,

é um periodo que corresponde a seculos nos tempos em que o progresso

humano era sem comparação mais lento. As doutrinas, as apreciações

criticas, os systemas, os livros quasi que envelhecem tão depressa como

o homem. O pensamento que ha vinte annos parecia uma verdade nova póde

hoje parecer apenas um problema não resolvido, e até um erro condemnado;

a observação profunda de então ser hoje trivialidade; a critica subtil,

que levou um raio de luz a certos recessos obscuros dos factos,

achar-se incorporada e transfigurada em apreciação mais complexa que

illumine dilatados horisontes»[67]. Sómente não envelhecem,

antes vivem e se prolongam em perenne frescor e mocidade, o consolo e

orgulho de verificarmos quanto o pensamento humano tem caminhado, quanto

valeu para a fortuna dos homens e das sociedades a exaltada coragem dos

seus obreiros, que bençãos devemos e tributamos aos apostolos, como

Alexandre Herculano e Oliveira Martins. Como é fertilisante e bella a

irradiação dos seus sonhos! Os tempos e as ideias mudam incessantemente;

mas não muda nem póde mudar o espirito que pesa e julga e ordena as

realidades. Para sempre sejam louvados aquelles de muita bondade que

nol-o inspiram elevado, puro e grande!

Alexandre Herculano(#30699) · 第 20 / 27 题