Embora

«Sob as azas do amor abrigue o Eterno

Homens, nações e o mundo; o amor por elle

Nasce, cresce, avigora-se enredado

Com os beijos da mãe, com sorrir amigo

De nossos paes e irmãos, ensina-o a tarde,

O por do sol da nossa terra, o choupo

Da nossa fonte, o mar que manso geme,

Nosso amigo da infancia, em praia amiga.»[4]

Soffreu o supplicio da revolta impotente, algemada em prisões

inexpugnaveis, e entenebreceu-lhe o espirito a turbação negra da

impiedade e da duvida, a derrota da fortaleza do proprio coração, mais

cruel para o crente do que a ruptura de todos os laços d'affecto imposta

pela violencia estranha. Para o proscripto, quando tudo o que amava se

converteu em sombra, a cada passo evocada pela lembrança desperta em

mágoas,

«Quando em confuso passado apenas surge

Qual fumo tenuissinio ou phantasma

Á meia noite visto, á luz da lua,

Ao longe, entre arvoredo, quando o sopro

Da tempestade assobiou nas trevas

Pela antena da náu do vagabundo;

Quando a dôr sua em olhos d'ente vivo

Não achou uma lagrima piedosa,

E nos seus proprios são vergonha as lagrimas,

Quando, se 'inda as derrama, ellas gotejam

Não sobre seio que as esconda e enxugue,

Mas sobre a vaga que se arqueia, e passa

Sem as sentir; então o soffrimento,

Filho de longo padecer, converte

O coração do desditoso em marmore,

Onde nunca penetra um puro affecto,

Onde o nome de Deus sossobra e morre

Entre o bramir de maldições e pragas.»[5]

Ao rigor da desventura juntou-se a agonia do desfallecimento. Não a

morte! Porque de toda a oppressão o sonho renascia. Para os loucos

d'amor que por amor combatem, os golpes da fatalidade ateiam a exaltação

em vez de a suffocarem, e nem o nome de Deus jámais «sossobra e morre»,

nem as pragas e maldições respondem aos flagellos da desgraça, sem que

logo as condemne e cale uma outra voz intima e soberana. Fortificam-se

nas provações. Amarguras da alma e mortificações do corpo, pobreza

extrema, abandonno sem lenitivo, o opprobrio da derrota, o insulto dos

vencedores, torturas dos inimigos e a altivez dos ricos, em vão passaram

pelo vencido. Perdido na solidão de ilhas inhospitas para o seu coração

a trasbordar de tristeza, não houve adversidade que lhe vergasse o

animo, inflexivel na firmeza de combater e na confiança da victoria.

E cantava, o peregrino! As tribulações incendiavam-lhe o genio. Esse

mesmo sangue denegrido pelas pedras contundentes d'asperos caminhos

creava e alimentava flores altas e resplendentes de celeste pureza. O

peso das armas não partiu as cordas da lyra. Ia occulta e guardada no

seio, murmurando de continuo seus gemidos e preces. Nem o fragor das

batalhas e as blasphemias atrozes de luctas inhumanas lhe

perturbariam a harmonia religiosa. No soldado habitava o poeta, e não

foi necessario que o soldado pousasse o fusil, para que o poeta

deferisse apaixonadamente a voz grandiloqua.

Advinhava o «dia de ventura» que o destino lhe reservava.

O tempo justificou-lhe a aprehensão. Pela audacia heroica de guerreiros

destemidos, a que o sonhador foi juntar-se, pelejando as suas duras

pelejas, os desterrados voltaram «ás plagas da saudade e á terra dos

seus sonhos», e de novo avistaram «os gestos tão lembrados, os campos

tão risonhos, o tecto amigo da infancia, a fonte que murmura, o céu puro

da patria», que no exilio haviam chorado, consumidos de saudade.

Alexandre Herculano(#30699) · 第 8 / 27 题