socegada e sem attractivos. A impressão que ella deixa no espirito de
quem a viu exteriormente é de uma velha capital decadente, muito cheia
de sol e poeira.
Mas, para que não fosse de todo ociosa e inutil a nossa visita á Cuba,
aproveitámos o ensejo de ver uma de suas mais pittorescas e curiosas
cidades--Matanzas, onde chegámos depois de algumas horas de viagem
costeira. Ahi nos esperava o vice-consul do Brazil, excellente
cavalheiro, cujo primeiro cuidado foi pôr á nossa disposição vinte e
tantos carros de praça a fim de que não perdessemos opportunidade de
contemplar o magestoso panorama do valle de Yumiri, um dos mais bellos
do mundo, cerca de uma legua distante da cidade.
--Os senhores vão vêr um bellissimo trecho da natureza americana, como
talvez não haja igual no Brazil, preveniu-nos o consul. É uma maravilha!
E lá fomos, subindo e descendo morros, completamente alheios á
topographia do paiz, cheia d'altibaixos, lá fomos caminho de Monserrate,
n'uma disparada unica por montes e valles, aos solavancos.
Era quasi noite quando parou o ultimo carro, e corremos logo á tal
«maravilha» que o diplomata recommendara.
Aqui têm os aguarellistas _motivo sensacional_ para uma téla
rembrannesca:
Crepusculo... Céo pardo com uns tons de azinhavre muito vagos, aqui,
ali, bordando nuvens... Embaixo a longa extensão concava do valle
afundando-se como o leito de um grande mar, que tivesse desapparecido,
verde escuro, indistincto quasi a essa hora do dia.
Defronte, no segundo plano, a sombra opaca de uma cordilheira,--larga
faixa de velludo cinzento--limita o scenario, confundindo-se com as
tintas indecisas da planura sideral. E, sobre tudo isso, uma tristeza
religiosa, um vago silencio de abysmo...
Vê-se muito ao longe, de um lado da paísagem, rasgando o fundo nebuloso
do quadro, uma nodoa escarlate, ao comprido, muito desenhada, muito
escandalosa mesmo em meio de toda essa harmonia de côres esmaecidas...
Ha muito que o sol tombou na sua eterna circumvolução diurna. A sombra
que se alastra, a pleiada phosphorecente dos pyrilampos, o silencio
absoluto que nos cerca--tudo inspira respeito: e a gente esquece
preconceitos e doutrinas para, instinctamente, levantar uma prece á
mysteriosa Força que rege o Universo...
Existe no alto da montanha a modesta capella de N. S. de Monserrate,
sempre aberta aos crentes, muito branca na sua despretenção de nicho
d'aldeia, com a sua torresinha triangular onde vão fazer ninho, no
inverno, as andorinhas do valle.
Cahio de todo a noite, e, no silencio da estrada que descia em broncas
sinuosidades, regressámos para o hotel, cujo salão príncipal tinha agora
o aspecto sumptuoso (dados os devidos descontos...) d'um refeitorio de
convento em dia de festa paschoal: meza lauta, vinte variedades de vinho
excellentes e tudo mais que se faz mister n'um banquete finamente
organisado á moderna.
O resto é facil de imaginar: brindes, hurrahs, charutos finissimos... e
um somno reparador obrigado a pezadelos...
Na manhã seguinte acordámos para outro passeio não menos agradavel. Era
preciso aproveitar o tempo do melhor modo possivel. Cometteriamos
indisculpavel falta si não fossemos ver as _Cuevas de Bella-mar_, essas
caprichosas grutas subterraneas, verdadeiros palacios de crystal
puríssimo, que se abrem terra dentro em toda a opulencia de suas
maravilhosas stalagmites e stalactites. Era mais uma deliciosa surpreza
que nos estava reservada. Ir á Matanzas e não ver as _Cuevas_ equivale a
ir a Roma e não ver o Papa. Cumprimos o nosso dever de viajantes, que
não se contentam com a vaidade infantil de pisar solo extrangeiro.
_Cuevas de Bella-mar_... Entre os numerosos phenomenos que a geologia
registra muitos ha que ainda estão por ser lucidamente explicados, por
sua propria natureza complexa e profundamente scientifica.
No terreno da geologia subterranea, com especialidade, innumeros são os
problemas a destrinçar, e um dos mais curiosos e interessantes é, sem
duvida, a formação das cavernas, as excavações produzidas por agentes
externos, pela infiltração natural da agua no solo calcareo, formando
essas caprichosas pyramides de crystal, que a sciencia denomina
_stalagmites_ e _statactites_.
As _Cuevas de Bella-mar_ formam um dos mais bellos panoramas que se
podem imaginar.
Figure-se um grande tunel aberto no subsolo e de cuja abobada pendem
crystaes multiformes, cada qual o mais surprehendente, alguns de tamanho
admiravel, emquanto do chão constantemente humido sobem outros de egual
estructura, ponteagudos quasi sempre, formando, ás vezes, columnatas
brilhantes, esplendidos capiteis, tão caprichosamente dispostos que
dir-se-iam architectados por mãos humanas. A caverna prolonga-se a
perder de vista, deslumbrante como um palacio encantado, á luz dos
archotes, porque é impossivel percorrel-a sem luz, e a cada passo uma
nova exclamação de surpreza irrompe da bocca do observador, espontanea e
enthusiastica.
É, com effeito, encantador o aspecto das _Cuevas_.
A athmosphera é quasi insupportavel, apezar da humidade que se reflecte
das paredes da gruta: um calor medonho de fornalha acceza!
É expressamente prohibido tocar nos crystaes. Um guarda, empunhando um
archote, acompanha o visitante, recommendando-lhe de espaço a espaço,
todo cuidado, toda cautela para que não dê alguma cabeçada...
Desta vez tinhamos sabido preencher o tempo utilmente, compensando as
horas perdidas em Havana.
N'esse mesmo dia o _Barroso_ fez-se de marcha para o _paiz dos yankees_,
para Nova-York, a bella e maravilhosa cidade que o consenso universal
alcunhou de Londres americana.
E... foi um dia a ilha de Cuba...
XII
...Manhã de inverno, fria e nebulosa, sem uma restea de luz confortavel.
Estava interdicta a nossa curiosidade, pois que amanhecemos defronte da
bahia de Hampton Road, a essa hora coberta de cerração, cheia de
nevoeiro, impenetravel. Não podiamos, que pena! ver Nova-York de fóra,
do mar, abrangel-a toda com um golpe de vista, stereotypal-a na
imaginação para todo o resto da nossa vida. A grande cidade cosmopolita
dos trens elevados e das pontes colossaes dormia o somno beatifico da
madrugada, envolvida n'um largo capuz de neve atravéz do qual apenas se
podia ouvir a sineta de invisiveis embarcações que bordejavam demandando
o porto. Adivinhavamos que muitos vapores transatlanticos aguardavam,
como nós, o momento azado para fazerem sua entrada.
Felizmente não durou muito esse estado quasi afflictivo. Por traz do
nevoeiro compacto e lugubre os primeiros clarões da manhã surgiram como
uma apparição bemdita, rompendo a monotonia branca da atmosphera, e
pouco a pouco, á proporção que a neve ia se rarefazendo, o _Barroso_
tomava chegada muito lento, e Nova-York destoucava-se n'um fundo
luminoso, batida pelas primeiras irradiações do sol, ruidosa e
alviçareira, toda cheia de brilhos, como um quadro de malacacheta.
Onze horas. Céo limpo e mar chão--como se diz nos diarios nauticos. Nem
mais um floco de neve, tudo luz agora, e já podemos ver cheios da mais
intima satisfação, com uma surpreza ingenua no olhar, o aspecto risonho
da bahia cortada de embarcações á vela e á vapor, com os seus longes de
verdura matizando perfis de montanhas indistinctas, muito descoberta,
sem o sombrio magestoso das paisagens americanas do sul, bella na sua
simplicidade natural, e, sobretudo, muito clara áquella hora.
Á direita destacava, á bocca do Hudson, a grande, a enorme, a colossal
ponte que liga Brooklin á Nova-York lembrando-nos que realmente tinhamos
chegado outra vez á terra feliz dos _yankees_, e d'outro lado erguia-se,
_illuminando o mundo_, a estatua da liberdade, bello symbolo de bronze,
cujo pedestal occupa toda a ilha de Bedloe.
Era um dia de domingo, um desses dias de expansão popular, em que, no
mar como em terra, ha quasi sempre uma alegria nova entre os que
passaram a semana a trabalhar, a lutar pela vida incansavelmente com a
consciencia tranquilla de quem vive honestamente á custa do proprio
esforço. A bahia de Nova-York tinha o festivo aspecto de um dia de
regatas. Esquadrilhas de hiates, com suas velas quadrangulares, muito
elegantes e asseiados, cruzavam na barra, aproveitando a fresca do mar.
Passavam barcas de recreio, embandeiradas, conduzindo bandas de musica,
que tocavam alegremente o _Yankee doodle_. Á cerração matinal succedera
um sol frio d'inverno, que dava vontade a gente improvisar pic-nics á
beira-mar, fóra da cidade, longe dos botequins e das _brasseries_,
nalgum verde recanto onde houvesse bastante quietação e muita agua, n'um
logarejo calmo de suburbio d'onde se podesse ver ao longe, mas muito ao
longe, a miniatura da cidade soturna e cansada...
O _Barroso_ tinha fundeado em frente á Battery Square e com pouco
recebia a visita official do Consul brazileiro e d'outras autoridades do
paiz, sendo para notar que uma das primeiras pessoas que pizaram a bordo
foi o reporter do _New-York Herald_, a importante folha americana
tradicionalmente conhecida no mundo jornalistico. Um cavalheiro
_irreprochable_, de cartola e sobrecasaca de panno, bem apessoado,
bigode louro e olhos azues, verdadeiro typo de _yankee_, amavel e
expansivo. É escusado dizer, n'um parenthesis, que no dia seguinte a
kilometrica folha descrevia, com uma precisão photographica, o cruzador
brazileiro, sem esquecer mesmo um carneiro de estima que traziamos e que
o espirituoso noticiarista incluia na lotação do navio, emprestando-lhe
qualidades invejaveis. Creio até que o pobre lanigero figurou na folha
_yankee_ entre os heróes de Humaytá!
Satisfeitas as formalidades officiaes da chegada, trocadas as salvas do
estylo, nada mais nos restava senão ver de perto a bella cidade.
Nova-York estava quieta, muitissimo quieta, com as suas praças dezertas,
com os seus parques silenciosos, fechado o commercio a ponto de não se
encontrar aberta uma só tabacaria, siquer um botequim. Isso, porém, não
nos causou estranheza. Sabiamos que o domingo nos Estados-Unidos é um
dia completamente inutil, um dia triste para os centros populosos. Toda
a gente dezerta para os arrabaldes em seus trajes domingueiros. As ruas,
muito largas e compridas, permanecem ermas e cheias de silencio,
entregues á vigilancia dos _policimen_. Todas as casas commerciaes,
todos os armazens, todas as fabricas, todos os estabelecimentos publicos
conservam-se fechados e taciturnos, como n'uma cidade abandonada.
Nova-York, a opulenta e alegre cidade cosmopolíta, tinha esguichado para
New-Jersey, para Brooklin e para Conney-Island. Toda aquella multidão
laboriosa e ourisedenta, que nos dias de trabalho se atropella na
Broadway, bebia e cantava nos arrabaldes, expandia-se largamente nos
hoteis ambulantes e nas cervejarias suburbanas, folgava e ria com
desespero, sem pensar na segunda-feira, sem se inquietar com o futuro.
Por isso é que não se deparava ninguem nas ruas, por isso não se ouvia o
barulho infernal das carroças e das carruagens.
O domingo no paiz dos _yankees_ é para se divertir, para se descansar,
para se jogar o _criket_, para se passeiar a cavallo, para se apostar
regatas, de modo que o protestantismo americano nada tem de commum com o
protestantismo britannico.
Emquanto nos domingos (a dar credito na chronica) o inglez reza a Biblia
no interior de seu _home_, em companhia de sua mulher e de seus filhos,
o americano, ou melhor o _yankee_ exercita os musculos e bebe cerveja
fóra da cidade.
Não admira semelhante discordancia, quando é sabido que a religião
protestante subdivide-se em milhares de seitas. A este respeito leiam-se
os bellos capitulos em que Mr. Laboulaye (Ed. Lefèvre), estuda, com uma
graça especial e encantadora, cheia de humorismo e de senso critico, as
instituições religiosas na America do Norte. _Paris en Amérique_ é um
dos livros mais curiosos e originaes que eu tenho lido sobre os
Estados-Unidos.
Em taes condições, extrangeiros no meio de uma cidade dezerta,
imagine-se o nosso embaraço, a triste situação em que nos collocava a
curiosidade.
Os rarissimos transeuntes que porventura encontravamos, marinheiros ou
vagabundos que desciam para o caes da Battery, olhavam-nos com um ar de
surpreza, embasbacados, medindo-nos d'alto a baixo, com si fossemos uns
verdadeiros botocudos de tanga e cocar.
Entretanto, não perdemos a precisa calma, e, sem mais tirte nem guarte,
saltámos dentro do primeiro vehiculo que passava, uma velha carruagem de
aluguel, cujo boleeiro custou devéras a comprehender que desejavamos
fazer um passeio ao redor da cidade.
--Oh! yess! Yess!...
E disparou a trote largo por aquellas ruas fóra.
De modo que n'esse dia vimos Nova-York _à vol d'oiseau_ e por um prisma
de tristeza e monotonia.
Em compensação a nossa demora n'aquella cidade ia ser mais longa que em
qualquer dos outros portos do intinerario.
No dia immediato, uma segunda-feira, recomeçámos, sem perda de tempo, a
nossa tarefa de extrangeiros em paiz desconhecido.
Eu, por mim, confesso que Nova-York produzia-me vertigens. O desejo
immoderado de tudo vêr, de tudo observar, de tudo saber, trazia-me n'uma
inquietação continua, tirava-me o somno, arrebatava-me á todas as
commodidades, torturava-me o espirito de analyse. Uma cousa, porem, devo
dizer: raro é o official de marinha, mormente da marinha brazileira, que
sabe aproveitar o tempo n'essas viagens ao extrangeiro. Aproveitar o
tempo, entendamo-nos, as horas de folga. Preferiamos a convivencia dos
cafés-cantantes aos passeios uteis e ao mesmo tempo agradaveis. Um
extrangeiro já teve a coragem de dizer que os officiaes de marinha
brazíleiros levavam o tempo, na Europa, a frequentar os _conventilhos_ e
os cafés-cantantes. Até certo ponto isso é verdade.
Em geral elles pouco conhecem dos paizes que têm visitado, a não ser em
assumptos de sua profissão, e as suas narrativas entre amigos limitam-se
quasi sempre a recordações de aventuras amorosas.
Tambem são tão curtas e tão raras essas viagens...
Quando se tem a felicidade relativa de viajar sob o commando de um
official illustrado e curioso como o Sr. Saldanha da Gama, cujos
conhecimentos não se restringem á navegação e á artilharia, o
aproveitamento é certo. Elle não é sómente um superior
hierarchico--faz-se mestre e sabe proporcionar aos seus subalternos a
maior somma possivel de excursões uteis e proveitosas.
Uma das nossas primeiras visitas foi á estatua da Liberdade, na ilha de
Bedloe.
O importante monumento ainda não estava completamente prompto, mas já se
podia fazer uma idéa do que seria elle depois de concluido. O pedestal,
de granito, occupa quasi toda a ilhota e mede, approximadamente, 15 a 20
metros de altura, 154 pés, desde o nivel do mar, formando uma especie de
casamata cuja utilidade não souberam nos dizer. Sobre o pedestal
ergue-se a estatua, em bronze, armada por meio de vigamentos de ferro,
pois que não é inteiriça.
Conta-se que dentro d'ella realisara-se, em Pariz, um magnifico banquete
de 12 talheres, presidido por V. Hugo.
Como se sabe, a estatua foi offerecida aos Estados-Unidos pela França em
agradecimento dos serviços prestados por esta nação á sua amiga na
guerra franco-prussiana.
O pedestal foi mandado construir á custa de subscripções populares, que
em pouco tempo attingiram a uma somma elevadissima.
Não ha por ahi quem não tenha ouvido falar na famosa ponte de Brooklin
(_Brooklin Bridge_), uma das maravilhas da engenharia moderna, que liga
a ilha de Brooklin á Nova York.
Esta cidade, incontestavelmente o primeiro emporio commercial da America
e uma das mais populosas do mundo, fica situada n'uma grande ilha
formada por dois braços do rio Hudson. De um lado, á direita de quem
olha para o mar, um dos deltas, o North River, separa-a de New-Jersey, e
á esquerda o East River separa-a de Brooklin. A travessia para qualquer
desses pontos faz-se rapidamente, em barcas que a todo instante largam
de Nova-York, e por preço assaz diminuto.
A principio, quando se projectou levantar a grande ponte, surgiram mil
difficuldades.
Parecia impossivel que se podesse levar a effeito obra tão arriscada e
dispendiosa. Como assentar as bases do colosso n'uma profundidade de mil
e seiscentos pés, que é esta a altura do rio na sua parte mais estreita?
Demais era preciso não prejudicar a navegação, construindo a ponte muito
acima do nivel do mar de modo a dar passagem livre ás embarcações de
commercio.
Com tudo isso os americanos metteram mãos á obra e dentro de alguns
annos de trabalho assiduo os Estados-Unidos contavam mais uma gloria.
O comprimento total d'essa magnifica ponte é de uma milha pouco mais ou
menos. As torres onde ella está suspensa erguem-se a 268 pés acima da
prêa-mar, de forma que as maiores embarcações de commercio têm passagem
facil por baixo.
O _Barroso_, cuja guinda era uma das mais altas que se tem visto em
navio de guerra, apenas foi obrigado a «acachapar» os mastaréos de
joanetes.
Atravessa-se a ponte em vagons movidos á electricidade, em carros de
praça ou mesmo a pé. Paga-se um centimo para atravessal-a a pé!
O movimento é espantoso. Cruzam-se diariamente as duas populações de
Nova-York e de Brooklin, em carros em wagons e a pé, sem risco de se
atropellar, por que a cada especie de vehiculos corresponde uma passagem
independente e adequada. Os que transitam á pé têm tambem o seu caminho
livre e, por consequencia, não correm o perigo de ser pisados pelos
carros.
Á noite o aspecto da ponte é feerico. Logo ás seis horas da tarde começa
a illuminação em toda ella, de um lado e d'outro, destacando-se em
alguns pontos fócos de luz electrica, enormes botões de brilhante que
encandeiam a vista.
Vista do mar, então, o effeito é deslumbrante! Lembra as lendarias
pontes de Veneza cortando canaes, projectando n'agua seus reflexos
luminosos.
Um dos meus divertimentos predilectos era contemplar Nova-York do alto.
Muitas vezes punha-me lá de cima da ponte de Brooklin, braços cruzados,
n'um extase de fetiche, a olhar para um e outro lado, acompanhado com a
vista a vela das embarcações que singravam no rio, pequeninos,
microscopicas.
E punha-me, nessa embriaguez do grandioso a pensar no progresso dos
Estados-Unidos, d'esse paiz modelo, onde tudo move-se por meio de
electricidade e vapor, onde tudo é feito ás carreiras, n'um abrir e
fechar d'olhos, sem a menor perda de tempo; vinham-me a imaginação
escandecida as descobertas de Franklin, de Fulton e de Edison, as
maravilhosas experiencias sobre o telegrapho, sobre o telephone e sobre
o phonographo, e eu repetia com os meus botões, mergulhando o olhar na
distancia, abarcando a cidade inteira:--Grande paiz! Grande povo, gente
feliz, que sabe comprehender a vida e amar a patria!
Como era pequeno o meu paiz, com toda a grandeza de suas montanhas e de
seus rios, diante do colosso americano do norte!
Cahia-me n'alma uma tristeza de desterrado, uma profunda e
incomprehensivel melancolia, feita ao mesmo tempo de saudade e
descrença...
Incansaveis os americanos! Nenhum povo os excede em temeridade e
perseverança. Sequiosos de glorias para o seu paiz, ávidos de
emprehendimentos que causem assombro ao mundo, elles tem uma grande
qualidade--o amor á sua terra, o nativismo instinctivo, o _chauvinismo_
(deixem passar o termo) incondicional, absoluto, e é força confessar
que, sem essa qualidade, sem esse egoismo patriotico, as nações vivem,
mas não progridem.
Ainda ultimamente a camara do Estado de Nova-York approvou, por
unanimidade, o _bill_ que propoz a construcção de uma nova ponte de
ferro sobre o East River, passando sobre a ilha de Blackorel, que ligue
Nova-York á Long-Island, e que terá seis mil metros de comprimento e 46
de altura, com uma resistencia de 65 kilometros de velocidade para os
trens que a devem atravessar.
É o caso de dizer, parodiando o outro: si eu não fosse brazileiro,
desejaria ser americano do norte...
XIII
Nunca fui a Londres, apezar do grande e impaciente desejo que tenho de
visitar a sombria capital britannica, mas estou bem certo de que
Nova-York em muitos respeitos pode ser denominada a Londres americana.
Toda nova, toda alegre e pittoresca, sem os bairros immundos que o
Tamisa lambe com as suas aguas putridas, onde boiam cadaveres em
decomposição, illuminada por um sol que dá vida e confórta, a nova
Londres tem um cunho especial de cidade latina. Como em Londres, tudo
n'ella é grandioso e opulento, desde a edificação igual, solida e
elegante, até ás festividades publicas e ás instituições nacionaes.
As ruas, longas e direitas, cruzam-se geometricamente e distinguem-se
pela numeração (_Fourteen street_, _Fifteen street_ etc).
A Broadway é o centro commercial, a rua de maior movimento
quotidiano,--equivale á City de Londres.
Ahi é que os carros se atropellam, que os transeuntes se abalroam n'uma
confusão burlesca e indescriptivel de que a nossa rua do Ouvidor não dá
siquer a menor idéa. Negociantes, capitalistas, banqueiros, correctores,
operarios e vagabundos, acotovelam-se, empurram-se, pisam-se os callos e
vão seguindo adiante, sem olhar p'ra traz, carregados de embrulhos,
suando no verão, que costuma ser muito forte em Nova-York. A gente vê-se
abarbada para romper aquella multidão cerrada, compacta e egoista.
Um cosmopolitismo sem igual em parte alguma.
Americanos, inglezes, hespanhoes, francezes, italianos, allemães, gente
de todas as nacionalidades, até turcos com os seus costumes exquisitos,
confundem-se nas ruas de Nova York, enchendo-as em ondas successivas e
tumultuosas, como em dias de carnaval no Rio. Parece mesmo, á primeira
vista, que o elemento extrangeiro absorve o nacional, tão numeroso é
aquelle. Custa, porém, a encontrar-se um portuguez ou um brazileiro. Em
compensação a raça latina é abundantemente representada por hespanhoes
da Europa e da America. Os mexicanos, apezar da natural e occulta
ogerisa que têm aos americanos dos Estados-Unidos, encontram-se a cada
passo e distinguem-se logo pelo seu typo original: estatura média, rosto
anguloso e abolachado, moreno, cabello duro, olhos pequenos; amaveis.
Não perdem occasião de dizer mal dos americanos, que, entretanto,
dedicam-lhes uma affeição especial.
Uma das cousas mais curiosas de Nova-York são os trens elevados
(_elevated rail road_), a complicada rêde de linhas ferreas que rodeia a
cidade passando em muitos pontos por cima da casaria, atravessando ruas
inteiras sobre grandes columnas resistentes de ferro. Partem todas da
Battrey Square, ponto mais meridional da ilha de Manhattan (onde fica a
cidade) e vão terminar na sua extremidade septentrional, em Barlem
River. Segundo o relatorio apresentado pela _New-York Elevated_, o
numero de viajantes transportados em 1878 por essa linha foi de
107.079.625. (Sempre a estatistica como base fundamental do progresso
entre os americanos!). A linha inteira, que tem seguramente trinta
milhas, estava concluida até Harlem. Os moradores das margens d'essas
estradas de ferro aereas queixavam-se continuamente da visinhança.
Podéra! Ruido, fumo e fagulhas a toda hora sobre a cabeça, não são
cousas que agradem a ninguem. A pobre gente fica em risco de perder o
juizo, pois não!
Felizmente, o que aliás é muito admiravel, os desastres reproduzem-se
rarissimas vezes. É que o serviço faz-se com inexcedivel perfeição e as
posturas municipaes verificam-se enexoravelmente.
As estações são numeradas, como as ruas: _Primeira Estação_, _Segunda
Estação_, etc.
Os passageiros desembarcam em plataformas de ferro gradeadas, que
communicam com as estações.
O espirito inventivo dos americanos revela-se a cada passo nas grandes
cidades dos Estados-Unidos. Em todos os estabelecimentos, em todos os
ramos da actividade publica se encontra uma applicação nova de mecanica
industrial, um artificio de utilidade pratica, economico e curioso, uma
invenção engenhosa...
Aproveitar o tempo e economisar os _dollars_--tal é o principio
fundamental da sabedoria _yankee_.
Um domingo em Coney-Island: nada mais pittoresco e hilariante, nada mais
suggestivo...