destinado pelo commandante do _Barroso_ para uma excursão fluvial,
scientifica, á foz do Mississipe, onde iriamos observar _de visu_ os
importantes trabalhos hydraulicos, que ahi se procediam sob a
intelligente direcção do notavel engenheiro americano Mr. Jas. B. Eads,
um velho respeitavel, encanecido no serviço da engenharia, e cujo nome
está ligado a muitas obras notaveis de seu paiz.
Ás onze horas da noite a barca de passeio _Keokuk_ largou de Nova
Orleans, rio abaixo, conduzindo a turma de guardas-marinha, alguns
officiaes e o commandante, com destino ás _Jetties_.
Uma excellente embarcação a _Keokuk_, especie de pequena cidade
fluctuante, muito larga e espaçosa, avantajando-se em dimensões aos
vapores da Companhia Brazileira. Tres pavimentos: o superior, coberto
por um grande toldo, onde os passageiros podiam fumar á vontade; o do
meio formando um salão-refeitorio, ao lado do qual ficavam os camarotes
e o porão, para mercadorias; rodas á pôpa, systema de locomoção que não
conheciamos; duas chaminés, e machina possante. Em semelhantes condições
eramos capazes de fazer a _volta do mundo em oitenta dias_...
Passámos a noite sobre o rio, navegando á meia força, ao sabor da
correnteza.
Lá iamos outra vez para a região dos mosquitos! Preparámo-nos para dar
quixotesca batalha, apezar da falta impreenchivel do nosso querido
companheiro, o barbeiro de Sevilha, quero dizer o barbeiro de bordo, o
impagavel hespanhol que tanto nos divertira na caça aos mosquitos.
Pela manhã, cedinho, estavamos em Port-Eads, defronte do escriptorio
central do respeitavel engenheiro.
Café, biscoitos..., e desembarcámos.
O bom velho já nos esperava com o seu bello ar de urso domestico, barba
muito branca, de barrete e oculos, entre os seus mappas coloridos e os
seus prospectos representando _steamers_ e as _jetties_.
--Folgo bastante em lhes poder mostrar o plano da empreza ha tantos
annos iniciada sob minha direcção, disse elle com um amavel sorriso de
bonhomia patriarchal.
E começou a desenrolar diante de nossos olhos uma serie infindavel de
cartas hydrographicas, mappas, desenhos...
Vale a pena se admirar essa obra monumental.
Tratava-se de cavar o leito do rio, n'um dos braços de sua foz, por modo
a effectuar-se a navegação livremente, na linha da correnteza, e terem
entrada embarcações de grande calado, desenvolvendo-se assim o já
notavel commercio de Nova-Orleans. Com esses trabalhos o porto irá
melhorando consideravelmente, sendo para notar o grande movimento de
navios que entram e sahem durante o dia.
O rio tem pelo menos 16.000 milhas navegaveis que os americanos dia a
dia tratam de aproveitar dando sahida a innumeros productos do
fertilissimo valle do Mississipe, o qual abrange cerca de 768.000.000
geiras _das mais ricas terras do mundo_, como elles lá dizem. Sua
emboccadura é, portanto, a passagem natural de todos aquelles productos.
Desde 1726 têm sido empregados esforços inauditos a fim de se aprofundar
essa parte do famoso rio; mas, foi em 1875 que o governo dos Estados
Unidos contratou definitivamente esse serviço com Mr. Eads, e é bem
provavel que em futuro não muito remoto esteja o porto franqueado a
todos os navios do mundo, graças á perseverança e aos esforços de habeis
engenheiros.
A visita foi curta, mas proveitosa.
Tomámos novamente a barca, e ás cinco horas da tarde atracavamos no
forte Jackson, velha fortaleza abandonada, á margem direita do rio. Lá
estava ainda, immovel e muda, a descommunal artilharia que Farragut, o
velho almirante, commandara na guerra sanguinolenta dos separatistas,
que terminou com a tomada de Nova-Orleans.
Os velhos canhões dormiam seu somno de bronze, lá dentro, nos corredores
escuros como os de uma Bastilha, e a nós, estudantes de historia naval,
inspiravam não sei que respeito sagrado. Perante elles falavamos baixo,
como para não os acordar...
A fortaleza é grande, mas só tem a importancia archeologica que a
historia lhe empresta; não resistiria, talvez, ás modernas baterias.
Opulenta vegetação rasteira cresce-lhe em derredor. O seu aspecto é
sombrio como o de um cemiterio: as grossas paredes denegridas e o
silencio que a cerca dão-lhe um cunho mysterioso de crypta subterranea e
produzem no visitante uma incommoda sensação de abandono e tristeza. Em
cada canto parece surgir a sombra de um confederado clamando vingança.
Retirámo-nos em marcha funebre, calados e supersticiosos...
Dormimos ainda essa noite sobre o rio para amanhecermos em Nova-Orleans.
Já estavamos com saudade do _Barroso_.
Continuaram as manifestações de amisade ao Brazil.
O neto do imperador, jovem e irrequieto, embalde procurava fugir ás
insistencias da aristocracia local e por diversas vezes desejou ter
nascido simples burguezinho, como qualquer de seus collegas.
E digamos aqui, muito a discreção, Sua Alteza podia ser um bello moço,
um digno cavalheiro, um excellente amigo e camarada, mas... Sua Alteza
era um pessimo principe. A sua grande aspiração era a vida livre, sem
peias, essa vida alegre e bohemia que se exgota depressa nos
_cafés-concertos_ e nos _restaurants_.
Não gostava de continencias e despresava o juizo imbecil dos que lhe
apodavam de estroina. O certo é que esse juizo em nada o compromettia
perante o _high-life_ americano que o estimava sufficientemente. Elle
era o representante immediato da familia imperial, era o alvo predilecto
de todas as manifestações ao Brazil na grande festa internacional.
Seria ocioso, senão monotono e fatigante, descrever, uma por uma, em
todos os seus detalhes, com todas as suas côres mirabolantes, essas
manifestações, profundamente fraternaes e democraticas, com que nos
recebeu a distincta sociedade de Nova-Orleans. Bailes, regatas, passeios
improvisados, concertos, brindes,--e não raro a tolda do nosso bello
cruzador converteu-se em esplendido salão de baile, acordando a sons de
orchestra e gritos de alegria o silencio agreste das margens do
Mississipe.
É este o unico consolo d'aquelles que andam no mar em serviço da
patria--o repousar em terra amiga. Vão-se as saudades para dar logar á
franca expansão dos corações: a alma do marinheiro transforma-se, como
por encanto, n'um hostiario de alegrias de uma ingenuidade incomparavel,
e elle ri com os outros, canta e sente-se tão bem como si estivesse em
seu proprio paiz, no meio de seus amigos e de seus parentes. Encantadora
illusão, que só dura emquanto elle não abre as velas mar em fóra nessa
interminavel derrota de argonautas que vão atraz do bezerro de ouro da
felicidade...
Não direi, não, o que nos divertimos, as multiplas sensações por que
passou o nosso espirito n'essa Luiziania que o Mississipe embala com o
rithmo nostalgico de suas aguas côr de barro. Seria desdobrar a natureza
humana tão complexa e mysteriosa.
Vamos adiante, consultemos o caderno de notas.
_25 de Abril_...--Estavamos na Paschoa, a festa risonha e popular da
ressurreição do Christo. Até então nenhum desgosto, nenhuma tristeza,
nenhuma magoa toldara o céo purissimo de nossas alegrias. Vagavamos em
mar de rosa, egoistas de felicidade, sereno o espirito, aberto o coração
a todos os influxos bons. Boa vida, por um lado, essa de quem viaja sem
grandes preoccupações, no bojo de um navio patricio.
Eis que, de repente, uma nota dissonante e sombria chamou-nos á
realidade pungente da vida humana: morrera um nosso companheiro de
bordo, o Leocadio..., que digo eu? um d'esses heróes anonymos que usam
gola ao pescoço, um pobre marinheiro que a fatalidade arrebatou de sua
terra natal para morrer tysico em paiz estranho.
Ninguem imagina a dolorosa impressão que produz a morte de um
companheiro de viagem longe da patria, n'um hospital desconhecido.
Fez-se o enterro com todas as honras devidas ao obscuro soldado e velho
marinheiro, nascido, por assim dizer, sobre o mar e educado na escola
das tempestades. Tinha sessenta annos. Era o «cosinheiro da prôa». Sobre
o seu corpo foi estendido a bandeira nacional brazileira como symbolo da
patria reconhecida.
N'esse dia, conforme já estava assentado, toda a guarnição do _Barroso_
desembarcou a fim de assistir á missa solemne da Paschoa na cathedral de
S. Luiz, o mais importante dos templos catholicos da cidade, situado na
rua Chartres.
Bem que antiga, essa egreja parece resistir ainda por muito tempo. Foi o
primeiro edificio catholico erigido em Nova-Orleans pelos capuchinhos,
em 1718, ao tempo da fundação da cidade. Tomou o nome de S. Luiz em
homenagem ao rei da França.
Mais tarde, em Setembro de 1723, desabou sobre a nascente cidade, cuja
população elevava-se a 200 almas, formidavel cyclone, que arrasou todos
os edificios, causando uma mortandade incalculavel. Narram os chronistas
que foram arrojados á costa trez navios que se achavam fundeados no
porto. Em breve, porem, a cidade foi reedificada, sendo em 1724
reconstruida a egreja, essa mesma que ainda hoje ergue seus torreões
vetustos na rua Chartres.
Naquelle anno o territorio de Nova-Orleans foi dividido em tres grandes
districtos sob a administração dos capuchinhos, dos carmelítas e dos
jesuitas. De então em diante multiplicaram-se os edificios religiosos,
egrejas palacios episcopaes, conventos, etc.
O convento das Ursulinas data egualmente da fundação da cidade e é um
estabelecimento catholico á maneira do de Ruão conhecido por esse mesmo
nome.
É um dos ultimos conventos que ainda existem nos Estados-Unidos. Consta
de trez andares e ergue-se á margem do rio, para onde abre suas
janellinhas atravéz das quaes se vê passar a sombra phantastica das
religiosas.
X
Um bello povo, o de Nova-Orleans--jovial, communicativo, hospitaleiro e
sincero. A elle devemos os melhores dias dessa longa viagem ao paiz
suggestivo e excepcional dos _yankees_, universalmente querido e
respeitado por sua grandeza industrial e por suas bellas tradições de
energia e patriotismo.
E emtanto approximava-se o dia da partida: iamos embora rumo de norte,
levando comnosco a immorredoura lembrança do Meschasebé, «le roi des
fleuves», e das legendarias terras que Chateaubriand poetisara nas suas
inimitaveis _viagens_. Restava-nos, porem, o consolo de que ainda
iriamos á sonhada Nova-York dos trens aereos e das emprezas colossaes.
Corações á larga, rapazes! Um homem é um homem!...
A saudade, porem, não é uma simples figura de rethorica, pelo amor de
Deus! É um estado d'alma como a nostalgia, como o amor, como a tristeza,
como a dôr...
A saudade existe, é um phenomeno perfeitamente real e determinado na
ordem dos factos psychologicos. Não nos venham dizer outra cousa os
senhores neologistas _fin de siècle_. Por ter sido cantada em prosa e
verso, nem por isso a saudade deixa de ser o que é na verdade--uma
commoção nervosa interessando o mais delicado e sensivel do coração
humano, uma dolencia vaga, fluctuante n'alma, intraduzivel como um sonho
nebuloso, tocada de doçura e ungida de tristeza...
Por que uma pessoa tem barba no rosto e já passou dos vinte annos,
segue-se que não deve ter mais saudade, que deve ser um insensivel, uma
massa inabalavel?
Absolutamente não. A lagrima, expliquem-na como quizerem os doutores da
sciencia, hade existir emquanto palpitar em nós esse musculo que se
chama coração, emquanto a humanidade soffrer e houver um motivo
sentimental para commover os seres dotados de intelligencia. É talvez
uma questão de mais ou menos intensidade nervosa. Por que tudo é egoismo
neste seculo essencialmente palavroso e mercantil, deve-se concluir que,
em futuro não muito longe, a raça humana se transforme n'uma como
esphynge, sem affectividade possivel, ou que o systema nervoso passe a
exercer funcções negativas na physiologia do porvir? Não o
acreditamos...
A lagrima hade existir _per omnia secula_, e a saudade terá sempre a sua
lagrima, como sentimento superior ás nossas forças.
Chorar sobre o tumulo de um amigo é tão natural, tão humano como chorar
porque nos separamos de um ente querido. Não desejo agora, por um
velleidade de rabiscador sentimentalista, fazer a psychologia da
lagrima. O que eu quero é confessar, embora d'isso me advenha o
qualificativo de _piégas_, que não podiamos--eu e a maior parte dos meus
collegas--pensar em deixar Nova-Orleans sem um demorado fremito de
palpebras e uma nevoa humida no olhar triste...
E, dizendo isto, está dito o que nos merecia a hospitaleira população
d'aquella cidade.
Entretanto, ainda não estavam satisfeitos os luizianenses. Como ultima
prova de verdadeira estima o _Luiziania Jockey-Club_ deu-nos um
magnifico baile na vespera da partida.
Tenho ainda na memoria essa derradeira impressão que me ficou de
Nova-Orleans. Fazia um luar soberbo, um luar tropical, um luar de
legenda, tão limpido e tão claro que se não viam as estrellas... O
_Jockey-Club_, em baixo, fazia um effeito surprehendente com a sua
illuminação de mil côres rodeando a grande raia das corridas, com o seu
aspecto phantastico de kermesse nocturna, salpicado de pontos luminosos
e galhardetes em miniatura, immoveis na calmaria da noite.
Em derredor a mudez solemne da floresta acordada de instante a instante
pelo echo da musica cortando o ar calmo.
Perto do _Club_ tinha-se armado um grande estrado para a dansa ao ar
livre, sem tecto, sem toldo, sob o luar.
Cruzavam-se os pares, n'um turbilhão impetuoso, ao som das walsas
americanas e dos galopes á brazileira.
N'essa noite, e pela primeira vez, conversei longamente com uma
_créole_, Mlle... já me não lembra o nome, um typo ideal de Walkyria de
olhos negros com um extraordinario brilho nas pupillas,--microscopica,
delgada, flexivel, cintura extremamente fina, certo geito adoravel de
pender a cabeça para os lados, n'um abandono irresistivel... Toda de
preto.
Dansámos uma quadrilha e ella convidou-me a passeiar no Prado.
Lá fomos, braço dado, eu muito circumspecto, teso dentro da minha farda
de guarda-marinha, levado quasi que machinalmente por essa formosa dama
d'olhos negos e seductores, arranjando a custo umas phrases de effeito,
que eu não teria coragem de reproduzir; ella, desenvolta e pequenina,
muito leve na sua _toilette_ escura, conduzindo-me n'aquella esplendida
_promenade au clair de la lune_, para onde... não sei eu...
Perguntou-me si as brazileiras eram bonitas e ricas, si no Brazil
dansava-se muito, e que tal nós tinhamos achado as americanas.
Explicou-me então a differença entre _créoles_ e americanas propriamente
ditas.
Respondi-lhe como pude, exaltando as nossas patricias, «bellas e ricas,
como não ha eguaes no mundo...»
Parámos. Tinhamos andado seguramente dois kilometros e não viamos agora
senão a parte superior do _Club_, por traz do arvoredo, toda illuminada
ao longe, como uma cousa phantastica.
Á proporção que nos afastavamos dos nossos companheiros a conversa
tornava-se menos animada, e, por fim, já seguiamos calados, como dois
somnanbulos, no silencio da noite enluarada...
Depois é que vimos a distancia que nos separava do centro da festa.
Na volta encontrámos outros pares em doce confabulação, como nós, longe
do ruido.
Despedi-me para tomar o trem, e ella, a dama dos olhos negros, disse-me
um _Good bye_ tão sentido e tão suggestivo que eu não tive geito senão
perder o trem.
_Good bye!_ Nada mais doce e expressivo que estas simples palavras em
bocca de americana. Uma ingleza talvez que as não pronuncie com tanta
suavidade, com tão sonora flexão, com tanto sentimento. _Good bye_... Ha
qualquer cousa de avelludado no timbre cantante com que ellas, as _miss_
da Nova-Inglaterra dizem a sua phrase sacramental de despedida. O nosso
_adeus_, aliás tão laconico e singelo não exprime tanto, não caracterisa
tão bem esse estado d'alma que se denomina--saudade.
E, a proposito de--_Good bye_, vem-me a memoria um episodio de uma
simplicidade primitiva e commovente que a minha indiscrição de
observador tagarella não deixa calar.
Esqueçamos a rapariga d'olhos negros e narremol-o em toda a sua verdade.
Entre os nossos companheiros de viagem havia um, cuja vida estava cheia
das mais interessantes aventuras amorosas. Chamava-se Manoel..., o
apellido de familia não nos interessa. O joven official de marinha, moço
de bella apparencia e excellente coração, apaixonara-se por uma Eva
Smith muito conhecida nos cafés-concertos de Nova-Orleans. Até aqui nada
mais natural. Ella vira-o uma vez diante de um _bock_, seus olhos se
encontraram, e, desde logo, Manoel ficou sendo a menina dos olhos de
Eva. Amaram-se por muitos dias, gosaram todas as delicias imaginaveis,
elle prohibiu-a de andar nos cafés, ella prohibiu-o de olhar para outras
raparigas, e assim corresponderam-se de commum accordo, sem que nunca
houvesse entre elles a menor desavença.
--Leva-me para o Brazil, Manoel... (ella só o tratava por Manoel).
--Sim, filha, depois havemos de ver isso...
--I love you very much...
--Oh! yess... I think so...
Viviam felizes como um casal de noivos, longe da cidade, n'um quarto
d'hotel, onde havia do melhor vinho e da melhor sôpa.
Um bello dia:
_Elle_--Olha, sabes? O _Barroso_ suspende ferro amanhã.?.
_Ella_ (surprehendida)--What do you say?!
_Elle_ (trincando um rabanete)--É o que estou lhe dizendo. Amanhã, por
estas horas, o Manoel vai sulcando o golfo do Mexico.
_Ella_ (cruzando o talher)--Impossivel! Por que já não me disseste?
--Para te poupar o desgosto...
--Oh! não, meu querido Manoel, é historia, tu não vás amanhã...
--Assim é preciso. São cousas da vida...
--Não, não, meu amor (_my love_) tu não vás, porque eu não quero, do
contrario faço escandalo, estás ouvindo?
E, ao dizer estas palavras, a pobre Eva deixou cahir uma lagrima...
Silencio. Manoel continuou a jantar sem interrupção, muito calmo, com
uma fleugma verdadeiramente britannica. Eva, coitada, abriu a soluçar
baixinho, fungando a mais não poder, sem se aperceber de que estava
fazendo de um guardanapo um lenço.
...........................................................................
Ultimo acto, e aqui é que está o aproposito.
Scenario: O Mississipe pardo e murmurejante sob a luz moribunda do
crepusculo.
O _Almirante Barroso_, immovel sobre o rio, com a sua mastreação muito
alta, fuméga. Ouve-se barulho de cabrestante e de amarras cahindo no
convéz. Tremúla a bandeira brazileira na carangueija da mezena...
Ultimos preparos.
No cáes agita-se uma multidão compacta.
De repente surge á tona d'agua o cepo da ancora enlameada, pingando um
lodo cinzento, e o navio começa a andar vagarosamente.
A guarnição sóbe ás vergas, alastrando-se de um bordo e d'outro, e acena
para terra ao som de--vivas!
Agitam-se lenços na praia, correspondendo ás saudações de bordo. Um
fremito percorre os que estão no cruzador...
É o momento decisivo.
Um grande rebocador, _Theo Warriar_, vistoso e arquejante, acompanha as
manobras do _Barroso_, á distancia de uma amarra, solitario e sombrio,
envolto n'uma nuvem de fumaça, e em cuja tolda assoma a figura
desgrenhada de uma mulher.
O cruzador segue á vante, magestoso e lento, descrevendo uma bella curva
no espelho da agua, e torna a passar defronte da cidade, apressando a
marcha.
As religiosas das Ursulinas lá cima, nas janellinhas do convento, acenam
tambem com os seus lenços brancos.
E, no silencio da tarde que a nevoa melancolisa, repercutem estas
palavras tocadas de saudade:
--_Good bye!_
--_Good bye!_ repete a mesma voz avelludada como um carinho...
Olhámos uns para os outros commovidos.
Quem seria que se lembrara de levar tão perto sua despedida aos
brazileiros?
A voz era de mulher, não restava duvida...
Com effeito, reconhecemos na figura desgrenhada que viamos a bordo do
rebocador Eva Smith, a amante de Manoel..., a apaixonada rapariga muito
conhecida nos cafés cantantes de Nova-Orleans, cujo enthusiasmo pelo
nosso companheiro tinha chegado a seu auge.
E quando o _Barroso_ desappareceu na primeira curva do rio, ainda
ouviamos, tomados de uma tristeza infinita, a mesma voz cheia de
desespero, agora abafada pela distancia, soluçada e plangente:
--_Good bye_, Manoel! _Good bye!_...
E dizer que a _Dama das Camelias_ é uma excepção na vida sentimental das
filhas de Eva!...
O nosso Armando, que aliás nunca pretendeu regenerar ninguem, deixou se
cahir n'uma saudade profunda, n'um longo adormecimento d'alma, de que só
accordou no alto mar, quando já não se avistava um ponto siquer da costa
americana.
XI
Abençoada ilha de Cuba, direi muito pouco de teus aspectos, de teus
costumes, de tua gente, de tua civilisação, mesmo porque a nossa demora
em tua bizarra capital, foi curta como um sonho bom. Um epicurista diria
que apenas tivemos tempo de mastigar um _havana_, d'esses que fabrícas
aos milheiros e que fazem a delicia dos consumidores do bom tabaco.
Bellas cubanas d'olhos rasgados e sensuaes, acreditamos piamente nas
coloridas descripções em que viajantes de todas as nacionalidades gabam
as vossas preciosas qualidades physicas, os vossos olhos ardentes, os
vossos cabellos negros, a vossa graça incomparavel e seductora... Nos
oito curtos dias que passámos em vossa patria não tivemos a felicidade,
a gostosa satisfação de vos contemplar senão de relance, por um acaso
verdadeiramente providencial.
Dizem outros que sois bellas e irresistiveis, que dansais divinamente o
_salero_, que possuís todos os encantos possiveis, e isto é quanto basta
para que dispenseis o desmaiado elogio dos que não tiveram a fortuna de
confabular comvosco.
E o leitor, por sua vez, contente-se em saber que Havana, com suas
_calles_ irregulares, estreitas e pacatas, é uma pequena capital sem
_capitaes_, sobriissima de diversões populares, quasi monotona, mas
relativamente adiantada.
Não se lhe póde negar certo progresso material e mesmo uma ponta de
civilisação européa.
Encontram-se nella importantes estabelecimentos commerciaes, grandes
tabacarias que fornecem fumo e seus preparados a quasi todos os mercados
do globo; excellentes botequins, poucos hoteis.
O celebre professor Agassiz, no roteiro de uma de suas excursões á
America, disse que toda a architectura brazileira é _pesada e sombria_;
eu accrescentarei que no mesmo genero são as edificações de Havana, o
que não é para surprehender n'uma cidade antiga, onde se observa ainda o
cunho tradicional da velha metropole hespanhola.
Entre os monumentos archeologicos notámos a secular cathedral onde
(refere a chronica) estão sepultados os ossos de Christovão Colombo.
Vimos uma estatua--a de Izabel a Catholica, n'um grande largo que tem o
nome da santa rainha.
Particularidade interessante: a população dá a vida por gelados, em
consequencia do calor excessivo e constante a que vive sujeita.
Visitámos tambem (ia-me esquecendo) os aqueductos que fornecem agua á
população da cidade. Todos elles vão despejar n'um immenso reservatorio
de pedra inteiriça (como os nossos diques da ilha das Cobras), cavado no
sólo, formando uma especie de tanque de grande capacidade para comportar
muitos e muitos metros cubicos d'agua crystalina. O sitio onde se acha
essa importante obra de engenharia, lembra, de relance, a Tijuca com as
suas cascatas despejadas do alto de rochedos inaccessiveis, com a
extrema frescura de suas montanhas verde-escuras, debaixo de um céo
límpido e azul. É um dos melhores passeios de Havana. A viagem até ahi
se faz em diligencias puxadas á mulas, arriscando-se o _touriste_ a
chegar sem bofes ao fim da jornada longa e sem o attractivo das bellas
paisagens claras do Brazil.
O sol é ardentissimo em Cuba, e, entretanto, as diligencias partem da
cidade pela manhã e chegam ás onze horas ao reservatorio, onde não se
encontram hoteis nem botequins. Sua-se por todos os póros e, no fim de
contas, volta-se fatigado, com a curiosidade satisfeita, mas o corpo
moido.
O Passeio Publico... Oh! não falemos de cousas tristes. Quem já viu o
Passeio Publico da Bahia pode imaginar o de Havana: o mesmissimo
cemiterio dezerto e sombrio, o mesmissimo abandono criminoso; arvores
colossaes, meia duzia de castanheiros decrepitos, e um silencio, um
silencio absoluto de arripiar cabellos. Aos domingos costuma ir chorar
p'r'ali uma banda militar. Só então é que a gente se lembra que existe
um Passeio Publico em Havana.