O dia 14 de Abril (deixem passar a precisão chronologica) estava

destinado pelo commandante do _Barroso_ para uma excursão fluvial,

scientifica, á foz do Mississipe, onde iriamos observar _de visu_ os

importantes trabalhos hydraulicos, que ahi se procediam sob a

intelligente direcção do notavel engenheiro americano Mr. Jas. B. Eads,

um velho respeitavel, encanecido no serviço da engenharia, e cujo nome

está ligado a muitas obras notaveis de seu paiz.

Ás onze horas da noite a barca de passeio _Keokuk_ largou de Nova

Orleans, rio abaixo, conduzindo a turma de guardas-marinha, alguns

officiaes e o commandante, com destino ás _Jetties_.

Uma excellente embarcação a _Keokuk_, especie de pequena cidade

fluctuante, muito larga e espaçosa, avantajando-se em dimensões aos

vapores da Companhia Brazileira. Tres pavimentos: o superior, coberto

por um grande toldo, onde os passageiros podiam fumar á vontade; o do

meio formando um salão-refeitorio, ao lado do qual ficavam os camarotes

e o porão, para mercadorias; rodas á pôpa, systema de locomoção que não

conheciamos; duas chaminés, e machina possante. Em semelhantes condições

eramos capazes de fazer a _volta do mundo em oitenta dias_...

Passámos a noite sobre o rio, navegando á meia força, ao sabor da

correnteza.

Lá iamos outra vez para a região dos mosquitos! Preparámo-nos para dar

quixotesca batalha, apezar da falta impreenchivel do nosso querido

companheiro, o barbeiro de Sevilha, quero dizer o barbeiro de bordo, o

impagavel hespanhol que tanto nos divertira na caça aos mosquitos.

Pela manhã, cedinho, estavamos em Port-Eads, defronte do escriptorio

central do respeitavel engenheiro.

Café, biscoitos..., e desembarcámos.

O bom velho já nos esperava com o seu bello ar de urso domestico, barba

muito branca, de barrete e oculos, entre os seus mappas coloridos e os

seus prospectos representando _steamers_ e as _jetties_.

--Folgo bastante em lhes poder mostrar o plano da empreza ha tantos

annos iniciada sob minha direcção, disse elle com um amavel sorriso de

bonhomia patriarchal.

E começou a desenrolar diante de nossos olhos uma serie infindavel de

cartas hydrographicas, mappas, desenhos...

Vale a pena se admirar essa obra monumental.

Tratava-se de cavar o leito do rio, n'um dos braços de sua foz, por modo

a effectuar-se a navegação livremente, na linha da correnteza, e terem

entrada embarcações de grande calado, desenvolvendo-se assim o já

notavel commercio de Nova-Orleans. Com esses trabalhos o porto irá

melhorando consideravelmente, sendo para notar o grande movimento de

navios que entram e sahem durante o dia.

O rio tem pelo menos 16.000 milhas navegaveis que os americanos dia a

dia tratam de aproveitar dando sahida a innumeros productos do

fertilissimo valle do Mississipe, o qual abrange cerca de 768.000.000

geiras _das mais ricas terras do mundo_, como elles lá dizem. Sua

emboccadura é, portanto, a passagem natural de todos aquelles productos.

Desde 1726 têm sido empregados esforços inauditos a fim de se aprofundar

essa parte do famoso rio; mas, foi em 1875 que o governo dos Estados

Unidos contratou definitivamente esse serviço com Mr. Eads, e é bem

provavel que em futuro não muito remoto esteja o porto franqueado a

todos os navios do mundo, graças á perseverança e aos esforços de habeis

engenheiros.

A visita foi curta, mas proveitosa.

Tomámos novamente a barca, e ás cinco horas da tarde atracavamos no

forte Jackson, velha fortaleza abandonada, á margem direita do rio. Lá

estava ainda, immovel e muda, a descommunal artilharia que Farragut, o

velho almirante, commandara na guerra sanguinolenta dos separatistas,

que terminou com a tomada de Nova-Orleans.

Os velhos canhões dormiam seu somno de bronze, lá dentro, nos corredores

escuros como os de uma Bastilha, e a nós, estudantes de historia naval,

inspiravam não sei que respeito sagrado. Perante elles falavamos baixo,

como para não os acordar...

A fortaleza é grande, mas só tem a importancia archeologica que a

historia lhe empresta; não resistiria, talvez, ás modernas baterias.

Opulenta vegetação rasteira cresce-lhe em derredor. O seu aspecto é

sombrio como o de um cemiterio: as grossas paredes denegridas e o

silencio que a cerca dão-lhe um cunho mysterioso de crypta subterranea e

produzem no visitante uma incommoda sensação de abandono e tristeza. Em

cada canto parece surgir a sombra de um confederado clamando vingança.

Retirámo-nos em marcha funebre, calados e supersticiosos...

Dormimos ainda essa noite sobre o rio para amanhecermos em Nova-Orleans.

Já estavamos com saudade do _Barroso_.

Continuaram as manifestações de amisade ao Brazil.

O neto do imperador, jovem e irrequieto, embalde procurava fugir ás

insistencias da aristocracia local e por diversas vezes desejou ter

nascido simples burguezinho, como qualquer de seus collegas.

E digamos aqui, muito a discreção, Sua Alteza podia ser um bello moço,

um digno cavalheiro, um excellente amigo e camarada, mas... Sua Alteza

era um pessimo principe. A sua grande aspiração era a vida livre, sem

peias, essa vida alegre e bohemia que se exgota depressa nos

_cafés-concertos_ e nos _restaurants_.

Não gostava de continencias e despresava o juizo imbecil dos que lhe

apodavam de estroina. O certo é que esse juizo em nada o compromettia

perante o _high-life_ americano que o estimava sufficientemente. Elle

era o representante immediato da familia imperial, era o alvo predilecto

de todas as manifestações ao Brazil na grande festa internacional.

Seria ocioso, senão monotono e fatigante, descrever, uma por uma, em

todos os seus detalhes, com todas as suas côres mirabolantes, essas

manifestações, profundamente fraternaes e democraticas, com que nos

recebeu a distincta sociedade de Nova-Orleans. Bailes, regatas, passeios

improvisados, concertos, brindes,--e não raro a tolda do nosso bello

cruzador converteu-se em esplendido salão de baile, acordando a sons de

orchestra e gritos de alegria o silencio agreste das margens do

Mississipe.

É este o unico consolo d'aquelles que andam no mar em serviço da

patria--o repousar em terra amiga. Vão-se as saudades para dar logar á

franca expansão dos corações: a alma do marinheiro transforma-se, como

por encanto, n'um hostiario de alegrias de uma ingenuidade incomparavel,

e elle ri com os outros, canta e sente-se tão bem como si estivesse em

seu proprio paiz, no meio de seus amigos e de seus parentes. Encantadora

illusão, que só dura emquanto elle não abre as velas mar em fóra nessa

interminavel derrota de argonautas que vão atraz do bezerro de ouro da

felicidade...

Não direi, não, o que nos divertimos, as multiplas sensações por que

passou o nosso espirito n'essa Luiziania que o Mississipe embala com o

rithmo nostalgico de suas aguas côr de barro. Seria desdobrar a natureza

humana tão complexa e mysteriosa.

Vamos adiante, consultemos o caderno de notas.

_25 de Abril_...--Estavamos na Paschoa, a festa risonha e popular da

ressurreição do Christo. Até então nenhum desgosto, nenhuma tristeza,

nenhuma magoa toldara o céo purissimo de nossas alegrias. Vagavamos em

mar de rosa, egoistas de felicidade, sereno o espirito, aberto o coração

a todos os influxos bons. Boa vida, por um lado, essa de quem viaja sem

grandes preoccupações, no bojo de um navio patricio.

Eis que, de repente, uma nota dissonante e sombria chamou-nos á

realidade pungente da vida humana: morrera um nosso companheiro de

bordo, o Leocadio..., que digo eu? um d'esses heróes anonymos que usam

gola ao pescoço, um pobre marinheiro que a fatalidade arrebatou de sua

terra natal para morrer tysico em paiz estranho.

Ninguem imagina a dolorosa impressão que produz a morte de um

companheiro de viagem longe da patria, n'um hospital desconhecido.

Fez-se o enterro com todas as honras devidas ao obscuro soldado e velho

marinheiro, nascido, por assim dizer, sobre o mar e educado na escola

das tempestades. Tinha sessenta annos. Era o «cosinheiro da prôa». Sobre

o seu corpo foi estendido a bandeira nacional brazileira como symbolo da

patria reconhecida.

N'esse dia, conforme já estava assentado, toda a guarnição do _Barroso_

desembarcou a fim de assistir á missa solemne da Paschoa na cathedral de

S. Luiz, o mais importante dos templos catholicos da cidade, situado na

rua Chartres.

Bem que antiga, essa egreja parece resistir ainda por muito tempo. Foi o

primeiro edificio catholico erigido em Nova-Orleans pelos capuchinhos,

em 1718, ao tempo da fundação da cidade. Tomou o nome de S. Luiz em

homenagem ao rei da França.

Mais tarde, em Setembro de 1723, desabou sobre a nascente cidade, cuja

população elevava-se a 200 almas, formidavel cyclone, que arrasou todos

os edificios, causando uma mortandade incalculavel. Narram os chronistas

que foram arrojados á costa trez navios que se achavam fundeados no

porto. Em breve, porem, a cidade foi reedificada, sendo em 1724

reconstruida a egreja, essa mesma que ainda hoje ergue seus torreões

vetustos na rua Chartres.

Naquelle anno o territorio de Nova-Orleans foi dividido em tres grandes

districtos sob a administração dos capuchinhos, dos carmelítas e dos

jesuitas. De então em diante multiplicaram-se os edificios religiosos,

egrejas palacios episcopaes, conventos, etc.

O convento das Ursulinas data egualmente da fundação da cidade e é um

estabelecimento catholico á maneira do de Ruão conhecido por esse mesmo

nome.

É um dos ultimos conventos que ainda existem nos Estados-Unidos. Consta

de trez andares e ergue-se á margem do rio, para onde abre suas

janellinhas atravéz das quaes se vê passar a sombra phantastica das

religiosas.

X

Um bello povo, o de Nova-Orleans--jovial, communicativo, hospitaleiro e

sincero. A elle devemos os melhores dias dessa longa viagem ao paiz

suggestivo e excepcional dos _yankees_, universalmente querido e

respeitado por sua grandeza industrial e por suas bellas tradições de

energia e patriotismo.

E emtanto approximava-se o dia da partida: iamos embora rumo de norte,

levando comnosco a immorredoura lembrança do Meschasebé, «le roi des

fleuves», e das legendarias terras que Chateaubriand poetisara nas suas

inimitaveis _viagens_. Restava-nos, porem, o consolo de que ainda

iriamos á sonhada Nova-York dos trens aereos e das emprezas colossaes.

Corações á larga, rapazes! Um homem é um homem!...

A saudade, porem, não é uma simples figura de rethorica, pelo amor de

Deus! É um estado d'alma como a nostalgia, como o amor, como a tristeza,

como a dôr...

A saudade existe, é um phenomeno perfeitamente real e determinado na

ordem dos factos psychologicos. Não nos venham dizer outra cousa os

senhores neologistas _fin de siècle_. Por ter sido cantada em prosa e

verso, nem por isso a saudade deixa de ser o que é na verdade--uma

commoção nervosa interessando o mais delicado e sensivel do coração

humano, uma dolencia vaga, fluctuante n'alma, intraduzivel como um sonho

nebuloso, tocada de doçura e ungida de tristeza...

Por que uma pessoa tem barba no rosto e já passou dos vinte annos,

segue-se que não deve ter mais saudade, que deve ser um insensivel, uma

massa inabalavel?

Absolutamente não. A lagrima, expliquem-na como quizerem os doutores da

sciencia, hade existir emquanto palpitar em nós esse musculo que se

chama coração, emquanto a humanidade soffrer e houver um motivo

sentimental para commover os seres dotados de intelligencia. É talvez

uma questão de mais ou menos intensidade nervosa. Por que tudo é egoismo

neste seculo essencialmente palavroso e mercantil, deve-se concluir que,

em futuro não muito longe, a raça humana se transforme n'uma como

esphynge, sem affectividade possivel, ou que o systema nervoso passe a

exercer funcções negativas na physiologia do porvir? Não o

acreditamos...

A lagrima hade existir _per omnia secula_, e a saudade terá sempre a sua

lagrima, como sentimento superior ás nossas forças.

Chorar sobre o tumulo de um amigo é tão natural, tão humano como chorar

porque nos separamos de um ente querido. Não desejo agora, por um

velleidade de rabiscador sentimentalista, fazer a psychologia da

lagrima. O que eu quero é confessar, embora d'isso me advenha o

qualificativo de _piégas_, que não podiamos--eu e a maior parte dos meus

collegas--pensar em deixar Nova-Orleans sem um demorado fremito de

palpebras e uma nevoa humida no olhar triste...

E, dizendo isto, está dito o que nos merecia a hospitaleira população

d'aquella cidade.

Entretanto, ainda não estavam satisfeitos os luizianenses. Como ultima

prova de verdadeira estima o _Luiziania Jockey-Club_ deu-nos um

magnifico baile na vespera da partida.

Tenho ainda na memoria essa derradeira impressão que me ficou de

Nova-Orleans. Fazia um luar soberbo, um luar tropical, um luar de

legenda, tão limpido e tão claro que se não viam as estrellas... O

_Jockey-Club_, em baixo, fazia um effeito surprehendente com a sua

illuminação de mil côres rodeando a grande raia das corridas, com o seu

aspecto phantastico de kermesse nocturna, salpicado de pontos luminosos

e galhardetes em miniatura, immoveis na calmaria da noite.

Em derredor a mudez solemne da floresta acordada de instante a instante

pelo echo da musica cortando o ar calmo.

Perto do _Club_ tinha-se armado um grande estrado para a dansa ao ar

livre, sem tecto, sem toldo, sob o luar.

Cruzavam-se os pares, n'um turbilhão impetuoso, ao som das walsas

americanas e dos galopes á brazileira.

N'essa noite, e pela primeira vez, conversei longamente com uma

_créole_, Mlle... já me não lembra o nome, um typo ideal de Walkyria de

olhos negros com um extraordinario brilho nas pupillas,--microscopica,

delgada, flexivel, cintura extremamente fina, certo geito adoravel de

pender a cabeça para os lados, n'um abandono irresistivel... Toda de

preto.

Dansámos uma quadrilha e ella convidou-me a passeiar no Prado.

Lá fomos, braço dado, eu muito circumspecto, teso dentro da minha farda

de guarda-marinha, levado quasi que machinalmente por essa formosa dama

d'olhos negos e seductores, arranjando a custo umas phrases de effeito,

que eu não teria coragem de reproduzir; ella, desenvolta e pequenina,

muito leve na sua _toilette_ escura, conduzindo-me n'aquella esplendida

_promenade au clair de la lune_, para onde... não sei eu...

Perguntou-me si as brazileiras eram bonitas e ricas, si no Brazil

dansava-se muito, e que tal nós tinhamos achado as americanas.

Explicou-me então a differença entre _créoles_ e americanas propriamente

ditas.

Respondi-lhe como pude, exaltando as nossas patricias, «bellas e ricas,

como não ha eguaes no mundo...»

Parámos. Tinhamos andado seguramente dois kilometros e não viamos agora

senão a parte superior do _Club_, por traz do arvoredo, toda illuminada

ao longe, como uma cousa phantastica.

Á proporção que nos afastavamos dos nossos companheiros a conversa

tornava-se menos animada, e, por fim, já seguiamos calados, como dois

somnanbulos, no silencio da noite enluarada...

Depois é que vimos a distancia que nos separava do centro da festa.

Na volta encontrámos outros pares em doce confabulação, como nós, longe

do ruido.

Despedi-me para tomar o trem, e ella, a dama dos olhos negros, disse-me

um _Good bye_ tão sentido e tão suggestivo que eu não tive geito senão

perder o trem.

_Good bye!_ Nada mais doce e expressivo que estas simples palavras em

bocca de americana. Uma ingleza talvez que as não pronuncie com tanta

suavidade, com tão sonora flexão, com tanto sentimento. _Good bye_... Ha

qualquer cousa de avelludado no timbre cantante com que ellas, as _miss_

da Nova-Inglaterra dizem a sua phrase sacramental de despedida. O nosso

_adeus_, aliás tão laconico e singelo não exprime tanto, não caracterisa

tão bem esse estado d'alma que se denomina--saudade.

E, a proposito de--_Good bye_, vem-me a memoria um episodio de uma

simplicidade primitiva e commovente que a minha indiscrição de

observador tagarella não deixa calar.

Esqueçamos a rapariga d'olhos negros e narremol-o em toda a sua verdade.

Entre os nossos companheiros de viagem havia um, cuja vida estava cheia

das mais interessantes aventuras amorosas. Chamava-se Manoel..., o

apellido de familia não nos interessa. O joven official de marinha, moço

de bella apparencia e excellente coração, apaixonara-se por uma Eva

Smith muito conhecida nos cafés-concertos de Nova-Orleans. Até aqui nada

mais natural. Ella vira-o uma vez diante de um _bock_, seus olhos se

encontraram, e, desde logo, Manoel ficou sendo a menina dos olhos de

Eva. Amaram-se por muitos dias, gosaram todas as delicias imaginaveis,

elle prohibiu-a de andar nos cafés, ella prohibiu-o de olhar para outras

raparigas, e assim corresponderam-se de commum accordo, sem que nunca

houvesse entre elles a menor desavença.

--Leva-me para o Brazil, Manoel... (ella só o tratava por Manoel).

--Sim, filha, depois havemos de ver isso...

--I love you very much...

--Oh! yess... I think so...

Viviam felizes como um casal de noivos, longe da cidade, n'um quarto

d'hotel, onde havia do melhor vinho e da melhor sôpa.

Um bello dia:

_Elle_--Olha, sabes? O _Barroso_ suspende ferro amanhã.?.

_Ella_ (surprehendida)--What do you say?!

_Elle_ (trincando um rabanete)--É o que estou lhe dizendo. Amanhã, por

estas horas, o Manoel vai sulcando o golfo do Mexico.

_Ella_ (cruzando o talher)--Impossivel! Por que já não me disseste?

--Para te poupar o desgosto...

--Oh! não, meu querido Manoel, é historia, tu não vás amanhã...

--Assim é preciso. São cousas da vida...

--Não, não, meu amor (_my love_) tu não vás, porque eu não quero, do

contrario faço escandalo, estás ouvindo?

E, ao dizer estas palavras, a pobre Eva deixou cahir uma lagrima...

Silencio. Manoel continuou a jantar sem interrupção, muito calmo, com

uma fleugma verdadeiramente britannica. Eva, coitada, abriu a soluçar

baixinho, fungando a mais não poder, sem se aperceber de que estava

fazendo de um guardanapo um lenço.

...........................................................................

Ultimo acto, e aqui é que está o aproposito.

Scenario: O Mississipe pardo e murmurejante sob a luz moribunda do

crepusculo.

O _Almirante Barroso_, immovel sobre o rio, com a sua mastreação muito

alta, fuméga. Ouve-se barulho de cabrestante e de amarras cahindo no

convéz. Tremúla a bandeira brazileira na carangueija da mezena...

Ultimos preparos.

No cáes agita-se uma multidão compacta.

De repente surge á tona d'agua o cepo da ancora enlameada, pingando um

lodo cinzento, e o navio começa a andar vagarosamente.

A guarnição sóbe ás vergas, alastrando-se de um bordo e d'outro, e acena

para terra ao som de--vivas!

Agitam-se lenços na praia, correspondendo ás saudações de bordo. Um

fremito percorre os que estão no cruzador...

É o momento decisivo.

Um grande rebocador, _Theo Warriar_, vistoso e arquejante, acompanha as

manobras do _Barroso_, á distancia de uma amarra, solitario e sombrio,

envolto n'uma nuvem de fumaça, e em cuja tolda assoma a figura

desgrenhada de uma mulher.

O cruzador segue á vante, magestoso e lento, descrevendo uma bella curva

no espelho da agua, e torna a passar defronte da cidade, apressando a

marcha.

As religiosas das Ursulinas lá cima, nas janellinhas do convento, acenam

tambem com os seus lenços brancos.

E, no silencio da tarde que a nevoa melancolisa, repercutem estas

palavras tocadas de saudade:

--_Good bye!_

--_Good bye!_ repete a mesma voz avelludada como um carinho...

Olhámos uns para os outros commovidos.

Quem seria que se lembrara de levar tão perto sua despedida aos

brazileiros?

A voz era de mulher, não restava duvida...

Com effeito, reconhecemos na figura desgrenhada que viamos a bordo do

rebocador Eva Smith, a amante de Manoel..., a apaixonada rapariga muito

conhecida nos cafés cantantes de Nova-Orleans, cujo enthusiasmo pelo

nosso companheiro tinha chegado a seu auge.

E quando o _Barroso_ desappareceu na primeira curva do rio, ainda

ouviamos, tomados de uma tristeza infinita, a mesma voz cheia de

desespero, agora abafada pela distancia, soluçada e plangente:

--_Good bye_, Manoel! _Good bye!_...

E dizer que a _Dama das Camelias_ é uma excepção na vida sentimental das

filhas de Eva!...

O nosso Armando, que aliás nunca pretendeu regenerar ninguem, deixou se

cahir n'uma saudade profunda, n'um longo adormecimento d'alma, de que só

accordou no alto mar, quando já não se avistava um ponto siquer da costa

americana.

XI

Abençoada ilha de Cuba, direi muito pouco de teus aspectos, de teus

costumes, de tua gente, de tua civilisação, mesmo porque a nossa demora

em tua bizarra capital, foi curta como um sonho bom. Um epicurista diria

que apenas tivemos tempo de mastigar um _havana_, d'esses que fabrícas

aos milheiros e que fazem a delicia dos consumidores do bom tabaco.

Bellas cubanas d'olhos rasgados e sensuaes, acreditamos piamente nas

coloridas descripções em que viajantes de todas as nacionalidades gabam

as vossas preciosas qualidades physicas, os vossos olhos ardentes, os

vossos cabellos negros, a vossa graça incomparavel e seductora... Nos

oito curtos dias que passámos em vossa patria não tivemos a felicidade,

a gostosa satisfação de vos contemplar senão de relance, por um acaso

verdadeiramente providencial.

Dizem outros que sois bellas e irresistiveis, que dansais divinamente o

_salero_, que possuís todos os encantos possiveis, e isto é quanto basta

para que dispenseis o desmaiado elogio dos que não tiveram a fortuna de

confabular comvosco.

E o leitor, por sua vez, contente-se em saber que Havana, com suas

_calles_ irregulares, estreitas e pacatas, é uma pequena capital sem

_capitaes_, sobriissima de diversões populares, quasi monotona, mas

relativamente adiantada.

Não se lhe póde negar certo progresso material e mesmo uma ponta de

civilisação européa.

Encontram-se nella importantes estabelecimentos commerciaes, grandes

tabacarias que fornecem fumo e seus preparados a quasi todos os mercados

do globo; excellentes botequins, poucos hoteis.

O celebre professor Agassiz, no roteiro de uma de suas excursões á

America, disse que toda a architectura brazileira é _pesada e sombria_;

eu accrescentarei que no mesmo genero são as edificações de Havana, o

que não é para surprehender n'uma cidade antiga, onde se observa ainda o

cunho tradicional da velha metropole hespanhola.

Entre os monumentos archeologicos notámos a secular cathedral onde

(refere a chronica) estão sepultados os ossos de Christovão Colombo.

Vimos uma estatua--a de Izabel a Catholica, n'um grande largo que tem o

nome da santa rainha.

Particularidade interessante: a população dá a vida por gelados, em

consequencia do calor excessivo e constante a que vive sujeita.

Visitámos tambem (ia-me esquecendo) os aqueductos que fornecem agua á

população da cidade. Todos elles vão despejar n'um immenso reservatorio

de pedra inteiriça (como os nossos diques da ilha das Cobras), cavado no

sólo, formando uma especie de tanque de grande capacidade para comportar

muitos e muitos metros cubicos d'agua crystalina. O sitio onde se acha

essa importante obra de engenharia, lembra, de relance, a Tijuca com as

suas cascatas despejadas do alto de rochedos inaccessiveis, com a

extrema frescura de suas montanhas verde-escuras, debaixo de um céo

límpido e azul. É um dos melhores passeios de Havana. A viagem até ahi

se faz em diligencias puxadas á mulas, arriscando-se o _touriste_ a

chegar sem bofes ao fim da jornada longa e sem o attractivo das bellas

paisagens claras do Brazil.

O sol é ardentissimo em Cuba, e, entretanto, as diligencias partem da

cidade pela manhã e chegam ás onze horas ao reservatorio, onde não se

encontram hoteis nem botequins. Sua-se por todos os póros e, no fim de

contas, volta-se fatigado, com a curiosidade satisfeita, mas o corpo

moido.

O Passeio Publico... Oh! não falemos de cousas tristes. Quem já viu o

Passeio Publico da Bahia pode imaginar o de Havana: o mesmissimo

cemiterio dezerto e sombrio, o mesmissimo abandono criminoso; arvores

colossaes, meia duzia de castanheiros decrepitos, e um silencio, um

silencio absoluto de arripiar cabellos. Aos domingos costuma ir chorar

p'r'ali uma banda militar. Só então é que a gente se lembra que existe

um Passeio Publico em Havana.

No Paiz dos Yankees · 第 3 / 6 段