Coney-Island aos domingos é para os americanos o que o Bois é para os

francezes e Hyde Park é para os inglezes--um interessantissimo

microcosmo de incrivel bizarraria, cheio do vago rumor de uma multidão

que passeia, que canta, que ri e que bebe ao ar livre, n'um _pêle-mêle_

vertiginoso, com as suas _toilettes_ claras, com o seu bello ar

despretencioso, com os seus gestos largos de quem respira uma atmosphera

leve e pura.

Essa pequena ilha constitue a principal diversão domingueira dos

habitantes de Nova York.

Familias inteiras, burguezes de todas as castas, _cocottes_, affluem

para ali n'esses dias. Pela manhã, cedo, largam da Fulton Station

grandes barcas embandeiradas conduzindo musicas, cheias de passageiros.

Muita gente prefere ir por terra, em trens que partem de Brooklin.

Não ha logar para todos nos hoteis. Improvisam-se _pic-nics_ defronte do

mar, na beira da praia, formam-se pagodeiras, e muitas pessoas ha que

não se lembram de comer--preferem a cerveja, o _bock_ a qualquer especie

de alimento solido.

Vimos dois grandes hoteis--o _Great Hotel_ e o _Gigantic Elephant_.

Aquelle é um magnifico estabelecimento, todo construido de madeira de

lei sobre enorme plataforma que se move em trilhos proprios. Novo genero

de hoteis até então desconhecido para nós. N'um dado momento podem ser

conduzidos, como qualquer _tramway_ d'um logar para outro.

O _Gigantic Elephant (the monarch of the architectural world_, como lá

dizem...) mede 175 pés inglezes de altura, é dividido em 31

compartimentos, ventilados por 63 janellas, e illuminado, á noite, por

25 fócos de luz electrica. Figura um elephante colossal, de madeira, em

pé, no meio de um jardim. Em cima, no dorso do monstro, existe um

terraço d'onde se descortina uma esplendida paisagem rasa e calma.

Quer n'um, quer n'outro, o _promeneur_ encontra abundante variedade de

petiscos e bebidas.

As creanças, com especialidade, fazem de Coney-Island um céo aberto.

Ellas, sim, não perdem os cavallinhos que andam á roda ao som de um

classico realejo seboso, os passeios aereos, na ponte russa, nas

barquinhas, nos trens elevados...

Por toda a parte musica, realejos, pregoeiros de _cousas maravilhosas_,

gritos, gargalhadas...

Tiram-se retratos instantaneos, apostam-se corridas, sobem-se elevadores

de duzentos metros acima do solo, pesca-se, alugam-se cavallos de

passeio... Emfim, Coney-Island é uma miniatura da vida tumultuosa das

grandes cidades.

O pobre diabo que não fôr esperto e economico arisca-se a voltar com as

algibeiras cheias de vento...

Á noite enchem-se novamente os trens e as barcas. Em uns e outros a

algazarra torna-se insupportavel. Canta-se a _Marselheza_ em vozes

detestaveis, grita-se, bate-se com a ponteira da bengala no chão,

assovia-se, imitam-se animaes de toda a especie... Uma loucura!

Entretanto, abençoado paiz! em todas essas pagoderias não se distingue

siquer um bonné policial. Não ha conflictos, nem desastres.

Tudo corre na maior harmonia, sem intervenção da guarda civica. Os

_policemen_ podem cochilar á vontade: a população americana é

naturalmente pacata e respeitadora da ordem.

Coney-Island é o complemento necessario e indispensavel de Nova-York.

Pelo verão reunem-se ali cerca de 5.000 pessoas, segundo o calculo

approximado do consul brasileiro.

Dias depois da nossa chegada, o _Barroso_ entrou para o dique de

Brooklin, a fim de soffrer alguns reparos no casco.

Emquanto isto se dava, emquanto a guarnição occupava-se da limpeza

externa do cruzador, com o cuidado, com o desvelo e com o carinho mesmo

de amigos dedicados, iamos visitando outras cidades americanas,

ligeiramente, de relance.

Não nos foi dado, porem, diga-se em parenthesis, ver o mais grandioso

espectaculo dos Estados-Unidos--a celebre cascata do Niagara, que

Chateaubriand pinta com as maravilhosas côres de sua palheta de artista

inimitavel.

Não tivemos mesmo a felicidade de ver Washington, a bonita capital

americana, e tão pouco o presidente Cleveland.

Esse previlegio coube quasi que exclusivamente ao ex-principe D.

Augusto, que aliás não revelou grande admiração pela Niagara, nem pelo

presidente Cleveland.

Sua Alteza não era para que digamos muito amigo da natureza, e menos

aínda de personagens illustres.

Quanto a mim continuei a ver a famosa cascata por um oculo, nos livros

do poeta, e o Sr. Cleveland, vi-o casualmente no _Daily News_, no acto

do seu casamento realisado a esse tempo. Pareceu-me um bello typo de

_yankee_: cheio de corpo, cabello penteado p'ra traz, olhar firme,

bigode grosso...

Assim, contentámo-nos com visitar algumas cidades de importancia e tão

depressa que era impossivel apanhar com precisão todos os caracteres por

meio dos quaes se pode apreciar a vida de uma população.

Vejamos:

BALTIMORE--Cídade aristocratica, pequena, mas extremamente bella na

simplicidade, no gosto sobrio de sua edificação, muito asseiada, muito

clara, semelhando toda ella, no seu conjuncto gracioso, uma confortavel

habitação de outomno, fresca e risonha, boa para se gozar o socego de

uma villegiatura sem preoccupaçães mercantis e utilitarias.

A gente de Baltimore parece viver uma vida tranquilla e descuidada no

calmo interior de seu _home_, longe da mentira social, longe de todo o

ruido, beatificamente, n'uma paz invejavel, respirando uma atmosphera

livre do microbio daminho das civilisações tumultuosas.

Baltimore é uma cidade por excellencia aristocratica e hygienica, onde

os temperamentos requintadamente pacificos encontrariam o desejado

repouso trespassado da incomparavel doçura de um clima raro.

Na melhor de suas praças e no mais elevado de seus pontos ergue-se a

estatua em marmore do grande Washington, geralmente considerada «um dos

mais interessantes monumentos da America» e inaugurada em 1809. Mede 60

pés quadrados na base e 15 de altura. Sobre o pedestal foi levantada uma

elegante columna dorica de 20 pés de diametro na base e 15 no cimo, onde

branqueja a estatua do primeiro presidente dos Estados-Unidos,

representando-o no momento de renunciar a sua commissão de general em

chefe dos exercitos de seu paiz.

Para subir até essa galeria fui obrigado a vencer duzentos degráos

(contados) de uma estreita escadaria de pedra, em espiral. De cima

vê-se, a olho nú, todo o panorama, realmente bello, da cidade, que

lembra uma d'essas paisagens hollandezas, muito claras e suggestivas,

taes como descreve Ramalho Ortigão, e onde destacam, n'um fundo de

aguarella, linhas de arvoredo e reverberos d'agua parada...

Ouvi dizer algures que as mulheres mais bonítas dos Estados-Unidos são

as de Baltimore. Durante as poucas horas que ahi nos demorámos vimos

alguns rostos femininos na verdade encantadores. É possivel que vissemos

com olhos protectores de hospedes em terra estranha...

Era nosso consul n'aquella cidade Fontoura Xavier, o conhecido autor das

_Opalas_, bom poeta e pessimo republicano, que se apressou em nos

proporcionar todas as commodidades possiveis, franqueando-nos os quartos

e os salões do melhor hotel do logar. Fez mais: offereceu gentilmente á

officialidade brazileira um delicadissimo almoço ao qual compareceram

diversos estudantes nossos patricios.

Guardamos bellas recordações de Baltimore.

PHILADELPHIA--Grande centro de industria e commercio. Altas chaminés

caracteristicas. Céo encoberto de fumaça, pesado e lugubre a certas

horas do dia. Aqueductos, casas colossaes, ruas largas e atulhadas de

barricas e caixotes. Continuo movimento de carros e tramways. Immensa e

grandiosa, a cidade vista de qualquer ponto elevado. A lembrança que

fica é a de um grande edificio em construcção, cheio de rumor de

machinas e de operarios em actividade permanente.--Jardim

Zoologico.--Universidade importantissima, onde vão estudar moços de

todas as nacionalidades.--City Hall, edificio monumental, vasto e muito

alto, onde funccionam as repartições publicas: dizem ser o maior dos

Estados-Unidos.

Não ha tempo a perder. Temos apenas trez horas a nossa disposição, pois

que o trem deve partir para Annapolis ás cinco da tarde e já são duas...

Leio na taboleta de um bond: _Zoological Garden_... Oh! sim, vamos ao

Jardim Zoologico, a mais completa collecção de animaes, que já se

conseguiu formar. O meu companheiro, que conhece o Jardim Zoologico de

Londres e o de Philadelphia, opta por este. Vejo, de passagem ruas

bellissimas, esplendidas filas de casas luxuosas, magnificos jardins

particulares, templos em estylo gothico; descampados...

Mas, a viagem é longa, o tempo escorre sem a gente perceber, e é preciso

contar com a volta, a fim de apanhar o trem.

Trabalho perdido! Voltámos no mesmo bonde, sem ter visto o appetecido

Jardim... Zoologico.

Mal tivemos tempo de chegar, embarafustar por entre os passageiros que

se accumulavam na _gare_, e saltar para dentro do vagon.

E eu fiz o resto da viagem pensando no assombroso progresso d'aquella

cidade enorme, que ainda em 1791 não era mais que uma simples colonia a

respeito da qual Chateaubriand exprimia-se d'este modo:--_L'aspect de

Philadelphie est froid et monotone_...

Não foi preciso mais de um seculo para que os americanos fizessem d'ella

uma das principaes cidades industriaes do mundo.

Em Philadelphia tive occasião de ver, pela primeira vez, bondes

electricos funccionando com a maxima regularidade.

O que será a grande cidade americana d'aqui a cem annos?

XIV

Abramos capitulo especial para Annapolis, não que esta cidade, a mais

antiga dos Estados-Unidos, mereça-nos mais que qualquer das outras,

absolutamente não, mas por uma deferencia bem entendida, por um

recolhido sentimento de gratidão para com a joven officialidade da

marinha norte-americana, que ali recebeu as primeiras lições de

disciplina militar e dever civico, e que soube nos acolher em seu seio

como verdadeiros irmãos de armas que eramos.

A nossa visita coincidía com a festa de formatura dos guardas-marinha,

uma das bellas solemnidades annuaes dos Estados-Unidos á qual concorrem

centenas de pessoas da mais elevada sociedade--a fina flor da

aristocracia d'aquelle paiz--movidas pelo nobre enthusiasmo de apertar a

mão á mocidade que se despede da escola para entregar-se ás duras lidas

do mar.

Antes, porem, de dizer o que foi essa festa descrevamos, rapidamente, a

cidade.

Annapolis é como uma nota dissonante na civilisação americana.

Imagine-se um quilombo africano, uma grande aldeia cortada de ruas

desiguaes, estreitas e desalinhadas, com um aspecto sombrio e detestavel

de velho burgo colonial, onde se move uma população na maior parte negra

e atrazadissima--e ter-se-ha essa antithese da cidade moderna.

Bridgetown, a capital de Barbados, avantaja-se-lhe mil vezes com toda

sua poeira, com toda a imprudencia e mizeria de sua baixa população.

Vê-se que os americanos têm-lhe certo respeito e conservam-na esquecida

e retrograda por uma especie de devoção archeologica, sacrificando por

esse modo o seu bom gosto caracteristico e o seu tradicional amor ao

progresso.

Insipida, monotona e triste como um cemiterio de pagãos--Annapolis é um

protesto, um anathema contra a evolução natural das cousas, uma nodoa

antipathica em pleno mappa da Confederação americana. Nada ha ali que

interesse e desperte a curiosidade senão a Escola Naval (_Naval

Academy_) situada n'uma das extremidades da cidade, á beira-mar.

De anno em anno enche-se de povo; seu unico hotel, um pardieiro,

extravasa, e então sente-se um fremito de vida nova percorrer aquellas

ruas habitualmente socegadas e tristes. Passeiam bandas de musica,

fluctuam bandeiras na frontaria das casas, por toda a parte ouve-se uma

vozeria estranha de gente que bebe e canta nos cafés (arremedo de cafés)

e todas as janellas abrem-se como para receber o desinfectante da

alegria, importado das grandes cidades circumvisinhas.

Annapolis accorda, então, de seu pesado somno tumbal para saudar os

estudantes que saem da academia para a vida publica.

O grande acto, a que assistimos, da distribuição de titulos, realisou-se

n'um dos vastos salões da Escola, presente numerosissimo auditorio:

familias em grandes trajos de luxo, altos funccionarios, estudantes...

Ao receberem seus diplomas os noveis officiaes de marinha foram

vivamente applaudidos pelos seus companheiros, cahindo sobre elles uma

chuva imprevista de flores, no meio de palmas e gritos de enthusiasmo.

E, começaram os abraços, as felicitações, os conselhos e as lagrimas de

commoção...

Abrem-se de par em par as portas do estabelecimento e a multidão de

espectadores precipita-se por todos os lados, feliz, alegre, desafogada

como si acabasse de assistir a uma festa de amor e justiça.

Ainda não estava concluido o programma.

Em seguida á solemnidade official,--a festa intima, a festa de despedida

que os _naval cadets_ (aspirantes) offereciam aos seus companheiros.

Noite clara e constellada. O largo edificio da Escola de Marinha

regorgita de convidados que se cruzam em todos os sentidos no salão do

baile, nos corredores, nos _bouffets_, nas ante-salas...

Nota-se em todas as caras certo ar de intimidade, certo bem estar

flagrante, um quer que é communicativo e bom.

Uma ou outra casaca solitaria, destoando da linha geral das _toilettes_

largas e frescas. Observo curiosamente o apuro de um official japonez

que franze as sobrancelhas n'um gesto de enfado.--Por que será?... Julgo

de mim para mim que o pobre camarada não se sente á vontade dentro de

suas calças de panno com largos galões dourados. A casaca o incommóda

visivelmente. O chapéo armado, elle já não sabe como o tenha--si na mão,

si debaixo do braço ou mesmo si na cabeça...

Desabotoam-se risos gentis em boccas purpurinas. Derramam-se essencias

preciosas no ambiente luminoso. Conversa-se alto. Bellas _miss_ de face

escarlate abanam-se com os leques de ricas plumas de edredon. Os leques

e as joias são as unicas riquezas que conduzem n'um contraste frizante

com os vestidos leves e claros.

Em um dos lados do enorme quadrilatero, onde reluziam panoplias

arranjadas á capricho, estava levantado um pavilhão de aspecto risonho,

em cujo frontespicio destacavam em letras de luz

1887 TO 1886

FARWELL

Era o logar do director da escola.

Começou a dança...

...E á meia noite a musica fazia signal para a ultima valsa.

Ficamos sabendo que todas as festas nocturnas terminam invariavelmente á

meia noite, nos Estados-Unidos. É uma velha praxe que os americanos

poucas vezes transgridem.

Annapolis, _blak city_--como te chamam teus proprios patricios, tu não

poderás saber nunca a saudade que levámos de tí n'essa esplendida noite

clara e constellada!...

XV

O _Barroso_ continuava no dique, em Brooklin.

Logo ao regressarmos de nossa viagem á Annapolis tivemos aviso para uma

outra excursão não menos interessante e agradavel.

West Point era agora o principal objecto de nossa curiosidade,--West

Point, a bella povoação á margem do Hudson, onde funcciona a Escola

Militar. Estavamos convidados para assistir a outra festividade

academica--um combate simulado entre os alumnos do

estabelecimento,--manejos d'armas, exercicios de esgrima, assaltos.

Comprehende-se a grande utilidade que necessariamente nos adveria

d'essas visitas aos estabelecimentos militares no extrangeiro. Sem nos

aperceber, iamos conhecendo, _de visu_, os diversos processos de ensino

pratico, os methodos mais modernos de educação physica, e, quando mais

não fosse, lucravamos com a vista de objectos novos e de novas

paisagens.

O viajar é uma necessidade quasi imprescindivel para o espirito e para o

organismo. A alma como que se dilata em presença de estranhas

combinações de côr e de luz. A monotonia da vida urbana cansa o

espirito, fatiga-o, consome-o lentamente: é preciso o grande ar, o ar

livre e temperado dos campos, a natureza em toda sua belleza original,

para que não se morra de tédio e desanimo. O tempo é limitadissimo e

inapreciavel para quem viaja com desejo de ver e saber.

Muitos ha que preferem morar eternamente em Paris ou em Londres, no

centro da cidade, asphyxíado pela poeira dos _boulevards_, a gastar

economicamente o seu rico dinheirinho vendo a natureza de perto, gosando

as inaffaveis delicias do campo e das praias, saboreando o clima das

montanhas, deliciando a vista com o espectaculo das fontes mumurejantes,

dos frescos arvoredos trespassados de luz...

Eu preferirei sempre a paz absoluta e invejavel dos suburbios.

E é por isso que, a cada nova excursão fóra da cidade, eu sentia-me bem

commigo e bem com o resto da humanidade. Voltava sempre mais consolado e

mais leve, como si sahisse de um quarto muito escuro e abafado para a

claridade larga e bella do dia...

Foi assim que recebi a noticia do passeio a West-Point.

Como devia ser magnifico o Hudson lá para as bandas de sua nascente, a

qualquer hora do dia, iluminado pelo sol, calmo e radiante, ou coberto

de nevoa, pela manhãsinha, ou no silencio da noite, vago e sombrio como

um pantano dormente!...

Era o que iamos vêr.

Seis horas da manhã...

Cahia uma neve friissima, transparente, e aggressiva como alfinetadas.

O _Express_, pequeno e elegante cruzador americano, especie de

transporte de guerra, esperava-nos de «fogos accezas», deitando fumo

pela chaminé.

Remos n'agua e toca p'r'adiante! Pontualidade no caso.

Estamos á bordo.

O _Express_ offerece o bello aspecto de uma galeota imperial que vai

suspender ferro...

Fazia gosto ver a ordem e o asseio que apresentavam o convéz e a camara.

Tinha-se acabado de fazer a baldeação matinal. Marinheiros,

perfeitamente uniformisados, occupavam-se em limpar as chapas de metal;

outros colhiam cabos á prôa; outros lá cima, nas vergas, atavam ou

desatavam andarivelos, muíto rubros, com os seus bonnés de panno azul

marinho onde se lia o nome do navio, em letras cor de ouro:--_Express_.

A camara--uma sala espaçosa e clara, elegantemente adornada--occupava um

terço do pontal, a ré, na primeira coberta. Em baixo, na segunda

coberta, ficavam os camarotes e a praça de armas.

Servido o _fine cognac_, que os americanos de bom tratamento não

dispensam nos dias invernosos, o _captain_ subio ao passadiço e deu a

voz de suspender. A machina tocou adiante e o _Express_ começou a

singrar o Hudson.

Variadissimo o aspecto da paisagem. Ora o rio se estreita em curvas

caprichosas, ora vai-se alargando, sempre manso, banhando cidades e

aldeias, limpido ás vezes, outras vezes toldado e sombrio.

West Point fica á duzentas milhas de Brooklin.

Passámos o dia inteiro e a noite em viagem para amanhecermos em nosso

destino.

Novas manifestações de sympathia. Officiaes e alumnos da Escola Militar

esperavam-nos com aquelle sorriso affavel de gente hospitaleira, que

logo se traduz em franca e sincera camaradagem.

A Escola estava acampada perto do estabelecimento, em exercicios

praticos.

Innumeras barraquinhas de lona, alinhadas em symetria, alvejavam, como

um acampamento de beduinos, guardadas por sentinellas que rondavam de

arma ao hombro, perfilando-se de vez em quando em continencia a um

official que passava.

Cada barraca abrigava cinco a seis alumnos que se rendiam pontualmente

na sentinella.

Emquanto um rondava, grave e silencioso, de mochila ás costas e

espingarda ao hombro, os outros divertiam-se a trocar sôcos, a jogar o

dominó, a apostar corridas, até que o tambor ou a corneta os chamasse á

fórma. Então, com uma rapidez extraordinaria, lestos, vivos e fortes,

corriam todos a seus postos, e, em menos de um minuto, estava formada a

companhia.

Cada alumno era um verdadeiro soldado.

Alegres, o sangue a pular-lhes no rosto, cheios de saúde, tesos,

empinados, quadris largos, espaduas amplas, todos se pareciam em

robustez physica.

Uns rapagões sadios!

Notei mesmo certa propensão dos americanos para o militarismo. Parece

que a educação militar, a adapção de principios rigorosos na disciplina

do corpo, é o unico meio de obterem-se homens robustos e cumpridores do

dever. A Escola de West Point é, sem exagero, um exemplo raro de

estabelecimentos d'esse genero. E não era sem uma ponta de tristeza que

nós, brazileiros,--raça degenerada e lymphatica--viamos crear-se assim

uma raça forte e alegre com todos os caracteres de virilidade e

independencia.

Tive occasião de assistir a uma lucta corporal entre dois alumnos,

competentemente armados de luvas de camurça, rosto a descoberto.

Pegaram-se a sôcos, um defronte do outro, calmos e convictos, como si

estivessem commettendo uma nobre acção.

No fim de alguns minutos, o aggressor estava com o rosto inchado,

escorrendo sangue, os olhos vermelhos, injectados, e a lucta acabava com

um abraço entre os dois contendores. O mais forte foi acclamado pelos

companheiros, teve o prémio de sua robustez.

É talvez um duro systhema de educação esse, mas incontestavelmente o

mais acertado e efficaz.

Simples questão de raça...

XVI

Estava terminada a nossa estação de quasi dois mezes em Nova-York.

No dia 30 de Julho o _Barroso_ deixou aquelle porto em direcção a

New-Port, outra cidade dos Estados-Unidos, refugio da população

aristocratica nos quentes días de verão. Uma perfeita cidade balnearia,

muito fresca e saudavel, á beira-mar, olhando para o largo oceano e

recebendo-lhe as emanações salinas, com um Cassino e um Passeio Publico.

Os banqueiros e a gente rica de Nova-York costumam fazer ahi o seu ninho

de verão, e, de vez em vez, para amenisar a vida monotona que se leva

n'esse pequeno mundo de simplicidade e conforto, promovem regatas na

esplendida enseada que orla a cidade e que n'esses dias de festa

maritima toma uma feição ridente e caracteristica de aguarella ingleza,

com os seus _cutters_ á vela, com os seus hiates de recreio bordejando

ao largo como um bando de gaivotas pousadas n'agua...

Apostam-se milhões de libras. De França e de Inglaterra principes e

lords vêm assistir e tomar parte no jogo.

A regata é um dos divertimentos predilectos dos americanos. Todas as

cidades maritimas e fluviaes dos Estados-Unidos têm pelo menos um club

de regatas.

Nota curiosa: em New-Port não se bebe alcool. É prohibida a importação

de bebidas que contenham espirito, ou qualquer outra substancia nociva.

Não se encontra um só botequim na cidade. Para tomarmos um refrigerante,

uma simples limonada, fomos bater a uma pharmacia! Garantiram-nos que

esse preceito contra o alcool é escrupulosamente observado n'aquella

cidade. Custavamos a acreditar, mas, emfim, não havia geito senão ser

delicados...

De resto, uma cidadesinha elegante e socegada, New-Port. O commercio ahi

é quasi nullo.

No fim de oito dias o _Barroso_ deixava de uma vez o paiz dos _yankees_,

fazendo-se de vela para os Açores.

Já agora não nos doía muito a saudade desse bello e prodigioso paiz. O

regresso á patria, depois de uma ausencia de quasi um anno, enchia-nos o

coração de alegria.

Não fôra a perda de um companheiro em Nova-Orleans e voltariamos todos,

sem faltar ninguem, sadios e fortes, cheios de impressões novas e cheios

de esperança.

Voltavamos, sim, mas tinhamos deixado atraz, em terra extrangeira, n'um

cemiterio de Nova-Orleans, um dos nossos camaradas.

Traziamos uma convicção, e é que nenhum povo sabe comprehender tão bem o

problema da vida humana como os americanos dos Estados-Unidos. A idéa da

morte não os preoccupa: um _yankee_ triste é cousa rara e toma

proporções de phenomeno.

Elles, os americanos, são geralmente alegres, bem dispostos, amigos do

trabalho, compenetrados de seus deveres, e, acima de tudo, amam a sua

patria mais do que qualquer outro povo.

A patria e a familia são os seus principaes objectivos. Menos egoistas

que os inglezes, energicos e resolutos, sobra-lhes tempo e dinheiro para

se divertirem.

Esse povo verdadeiramente democratico não pede licções a paiz nenhum:

engrandeceu a custa de seus proprios esforços e dia a dia prospéra,

assombrando o mundo com as suas emprezas colossaes.

Si a Allemanha representa no seculo XIX a patria das sciencias moraes,

aos Estados-Unidos compete o primeiro logar na ordem dos paizes que tem

concorrido grandemente para o aperfeiçoamento e bem estar humanos.

No Paiz dos Yankees · 第 5 / 6 段