O nosso tempo tem, e com muita razão, um verdadeiro enthusiasmo, pelo
genero especial de litteratura constituido pelas _correspondencias_,
pelas _memorias_, pelas notas e observações colhidas dia a dia, por
estas confissões involuntarias, sem fito feito, que mais que nenhum
outro trabalho intellectual nos desnudam o segredo da psychologia
humana.
Muitas _correspondencias_, que n'estes ultimos tempos teem visto a luz,
mais serviriam para _diminuir_ os seus auctores de que para os
engrandecer no espirito da posteridade. Em compensação outras ha, que
vieram mostrar a uma luz bem mais favoravel, bem mais doce, aquelles que
o mundo julgava com a sua proverbial e incuravel injustiça.
A este numero pertence a Correspondencia de Georges Sand.
Quando eu, sugeita como todas as mulheres aos desfallecimentos da alma,
ás subitas e inexplicaveis tristezas, succumbo ao peso da Vida, tão
hostil aos que pensam, tão dura e cruel aos que sentem muito, e pego em
um d'esses volumes em que uma alma enorme de mulher conta dia a dia a
historia do seu pensamento, sinto-me como que milagrosamente
reconfortada.
A leitora n'este ponto pára um pouco surpreza e um pouco triste, não é
verdade? E pergunta-me espantada:--Pois quê?!... Tem esta opinião a
respeito de Georges Sand?
Seria longo e seria melindroso entrar a este respeito em minuciosas
explicações.
Diante d'esse genio assombroso que para o mundo se chama Georges Sand,
eu não indago as fraquezas que macularam tristemente uma parte da vida
intima da mulher que tinha por nome de familia Aurora Dudevant.
Na sua Correspondencia, escolhida por mãos piedosas, expurgada de todas
as recordações impuras d'um passado, que a grande mulher expiou
nobremente e longamente, não ha um reflexo, senão muito longiquo e
apagado, das luctas tremendas, das tragicas luctas que se deram n'esse
espirito revoltado e extraordinario.
Porei portanto de parte considerações de uma ordem extranha ao assumpto
que trato, ao vir transplantar para aqui as notas que a leitura da
Correspondencia de Georges Sand me arrancou irresistivelmente.
E de resto, que pode haver de mais interessante para um espirito de
mulher, obscuro e humilde embora, do que as confidencias d'uma mulher de
genio? E se pensarmos que o _genio_ não é mais que o maravilhoso poder
da condensação concedido a um cerebro humano, a faculdade de synthetisar
em si as impressões e as sensações de muitos, e de formular com
eloquencia e verdade, para todos comprehensiveis, as paixões e os
sentimentos da multidão anonyma,--comprehenderemos, ao penetrar na vida
interior d'esses seres privilegiados, que nada do que os faz sentir,
palpitar e soffrer, nos é extranho a nós.
Sentimos, talvez em gráu menos intenso, tudo que elles sentiram; o que
nos falta é a palavra inspirada e verdadeira com que o possamos
exprimir.
É sob este ponto de vista, particular, que as cartas de Georges Sand nos
interessam tão vivamente.
Lacrimosas e repassadas de angustia, palpitantes de indignação e de
revolta, resignadas e entristecidas depois, como que envoltas na
pacificação melancolica do crepusculo da vida, e tendo a serena
magestade e as linhas ondulantes e suaves das paizagens outoniças,
respira-se n'ellas a verdade, a espontaneidade mais sincera, a mais
natural despretenção.
Ser sublime, sem nunca deixar de ser simples; aspirar continuamente aos
mais altos pincaros do pensamento, attingil-os muita e muita vez, e não
ter nunca a consciencia da propria grandeza, a vertigem da propria
elevação, antes conservar-se, atravez de tudo, humilde, ignorante do seu
valor e como que impregnada de um vago aroma de _bonhomia_ rural--eis o
encanto mais singular d'esta mulher singularissima.
Nenhuma, entre as que deixaram na historia do espirito humano um rastro
luminoso, lhe é superior; emquanto que ella, na complexidade da sua
opulenta organisação, tem de todas um traço caracteristico.
Ha n'ella, como em _Madame Rolland_, o amor enthusiastico da liberdade,
a paixão robusta da justiça, o sentimento ardente e viril da democracia;
no emtanto, mais feminil que _Madame Rolland_, ella teria lagrimas e
gritos de piedade, e accentos de enternecida eloquencia, para salvar das
garras do algoz a bella cabeça patricia de Maria Antonietta.
Tem, como a Sevigné, a ternura maternal senão absorvente e exclusiva,
pelo menos penetrante de carinho, e cheia de engenhosas e subtis
delicadezas.
Como a Stael, adora as letras, devora-a a curiosidade de todos os
segredos da intelligencia, professa a altivez intransigente e
desdenhosa, em face das tyrannias brutaes.
Advoga continuamente, como Madame de Recamier, a causa dos vencidos,
concilia os odios, pacifica as divergencias, implora com incansavel
constancia a favor de todas as victimas e embebe-se na doce utopia de um
mundo, onde todos se amassem e se abraçassem, e tivessem, como premio
supremo da lucta de tantas gerações de martyres, a fraternidade, a paz
universal.
Como Georges Elliott, a grande romancista ingleza, tão _humana_ e tão
natural, ella estuda de preferencia os simples, os humildes, os
obscuros, e encontra n'essas organisações rudes e inconscientes os mais
reconditos thesouros de bondade e de amor.
Porem o que a especialisa e distingue d'entre todas, o que lhe dá o
cunho d'uma superioridade incontestavel, o que a faz do nosso tempo, e
lhe conquista as sympathias da nossa geração,--é a sua viva e fecunda
comprehensão da Natureza em todos os seus aspectos, e o seu tão sincero
e tão moderno naturalismo em face das paixões irreprimiveis da
humanidade ou das bellezas santas e pacificadoras da terra.
Paizagista adoravel, nunca nos dá em termos technicos, e de uma precisão
de botanico ou de geologo, a descripção minuciosa do que vê.
É incontestavelmente melhor o seu processo artistico, em que peze aos
sectarios fanaticos da escola descriptiva.
O que ella nos dá, com uma riqueza de linguagem em que nenhum mestre a
excede, com uma poesia penetrante e evocadora que só póde comparar-se á
de Michelet, é a robusta, a sádia, a profunda, a deliciosa impressão que
recebe dos mil variados aspectos da natureza physica.
Nos seus livros respira-se o aroma resinoso dos pinheiraes alpestres; a
frescura dos regatos sombrios onde a pervinca humedece o azul dos seus
olhos pequeninos, e avelluda o verde escuro da sua folhagem lustrosa; a
melancolica doçura das florestas gorgeiadas de rouxinoes; o idyllio
suave das campinas humildes; o cheiro do feno e dos trigaes floridos; a
acre respiração que sahe dos flancos da terra humida, dilacerados pelo
ferro da charrua...
Ha nas paginas d'ella a estridula alegria victoriosa das auroras
escarlates; a languidez voluptuosa e electrica do meio dia abrasado,
quando uma sêde infinita contorce em espasmos de febre tudo que respira
e vive; a tristeza, dilacerante e intensa como um adeus, da hora do
crepusculo; a immensa paz cariciosa, protectora e calmante, das
silenciosas noites!...
Quem melhor de que este coração tão eminentemente feminino sentiu e
communicou aos que a leram, as delicias de que a terra, a nossa eterna
Amiga, é tão prodiga, para os que entendem as harmonias ora vibrantes
ora enlanguecidamente morbidas, ora de uma intensidade perturbadora, da
sua orchestra colossal?
Se mais nada lhe devessemos alem d'esta iniciação sagrada, era enorme
ainda assim a divida contrahida por todos nós com a nossa grande e
gloriosa irmã.
Mas devemos-lhe mais alguma cousa, e ha n'esse _alguma cousa_ um vasto
alcance moral. Devemos-lhe a alta licção que ella nos deu, trabalhando
sempre, trabalhando sem um dia de afrouxamento ou de cançasso, perdoando
aos que a encheram de injurias e de insultos, sem uma só tentativa de
retaliação ou de vingança, sem um grito de raiva, sem uma interjeição de
furor. A qualidade predominante d'este caracter, fraco ás vezes,
vacillante no seu caminho, e de uma indecisão devida ás influencias que
actuaram na sua juventude desamparada de toda a luz moral, é apezar de
tudo, é atravez de todos os erros que lhe sombrearam para sempre a
memoria, a mais completa bondade, desartificiosa e simples. Bondade
immensa, bondade inextinguivel, que mais d'uma vez a transviou, mas que
teve a força triumphante de a rehabilitar; bondade a que se devem as
suas culpas, gravissimas é certo, mas tambem as suas raras virtudes, e
entre ellas os thesouros, os mananciaes inexgotaveis da sua evangelica,
ardente e apaixonada caridade.
Oh! a caridade! a doce virtude que a todas sobreleva, e cuja limpida
corrente, nascida no humilde presepe de Bethlem, o mundo tem tentado em
vão enlodar e corromper!... Flôr, que desabrocha luminosa e perfumada na
alma dos que são bons, que os consola de tudo, até da ignominia a que os
homens ás vezes os condemnam, e que tem,--como certos seixos côr de
purpura que se apanham á beira do oceano, e que o oceano tem polido no
eterno fluxo e refluxo das suas ondas tumultuosas,--o dom mysterioso de
extinguir e apagar todas as maculas...
É possivel que a leitora condemne agora como um crime de lesa-moral,
como uma contradicção inexplicavel e extranha, o meu enthusiasmo
_confessado_ por essa mulher, que foi um genio, mas que foi tambem uma
enorme peccadora.
Eu peço-lhe porem que, antes de pronunciar a implacavel sentença que
condemna a escriptora inimitavel, leia algumas das cartas adoraveis que
ella escreveu, e com as quaes remiu, litterariamente, muitos dos
peccados que não tracto aqui de conhecer nem de indagar.
O nosso tempo, grande em tudo, é grande principalmente pela tolerancia,
pela equidade, pela bondosa indulgencia que o homem lhe merece.
Longe de vêr n'elle o criminoso irremissivel dos tempos da sombria
escholastica, a victima fatalmente condemnada pelo peccado original ás
chammas do inferno, ou ás chammas da fogueira, o monstro que se havia de
deixar mutilar ou se havia de deixar perder, para quem a natureza e as
suas forças indomadas eram outras tentações demoniacas, e que só podia
ter perdão sob a condição barbara de ser anti-humano,--o nosso seculo,
conhecedor de todos os segredos defezos aos seculos que o antecederam,
só vê no homem o criminoso, quando lhe é de todo impossivel vêr n'elle o
doente ou o vencido pela fatalidade das cousas.
Os seus grandes pensadores, herdeiros n'este ponto, de antepassados
gloriosos que foram como que os prophetas da nova era, e que se chamaram
Voltaire e Diderot, ensinam-lhe a não condemnar o reu, sem primeiramente
o terem ouvido. Exigem mais ainda, para depois sentenciarem.
Exigem que se conheçam as influencias atavicas a que elle obedeceu, o
meio em que se formou o seu caracter e se desenvolveu a sua educação, as
circumstancias especiaes que na vida o rodearam, o conflicto que o
destino estabeleceu entre as fatalidades que o arrastaram e o dever que
se lhe impunha.