Depois de Balzac, ou antes d'elle, talvez, o espirito que maior
influencia exerceu no destino dos dois irmãos, foi Gavarni, o insigne
caricaturista, o desenhador admiravel, a quem mais tarde elles erigiram,
n'um livro de grande arte, um monumento de admiração reconhecida e terna
e de critica verdadeiramente magistral.
Ainda os dois escriptores estavam como que encerrados na perfumada
guarda-roupa d'esse seculo dezoito, que amaram tanto, resurgindo, com o
seu poder de evocadores, as interessantes figuras d'aquelle mundo
extincto, d'onde nós vimos todos, e que, tão diverso e tão distante é de
nós, quando um acontecimento fortuito os fez travar relações com o
artista, que mais profundamente _sentiu_ e amou o tempo em que viveu.
Gavarni não comprehendia nem amava o passado. Como Balsac, cujas obras
illustrou, o que elle amava, o que lhe prendia a attenção, o que lhe
embebia amorosamente o olhar investigador, eram os typos que a cada
instante acotovellava pelas ruas.
Os Goncourt fallando em Coriolis, o pintor da _Manette Salomon_,
descrevem d'este modo _saisissant_ o artista que se compenetra
apaixonadamente dos espectaculos do seu tempo. Este pintor sente o que
sentia Gavarni; o que os dois escriptores sentiram tambem mais tarde; e
é d'este modo especial de encararem a arte que toda a obra d'elles
deriva naturalmente.
«Vagueiava de um lado a outro de Paris, estudando os typos salientes;
tentando apanhar na passagem, n'essa multidão enorme de transeuntes, a
physionomia moderna; observando os novos signaes da belleza d'um tempo,
d'uma epoca, d'uma humanidade; o caracter que se imprime como uma dedada
de artista n'esses rostos agitados, febris, o caracter que marca e
designa para a Arte; o aspecto exterior dos pensamentos, das paixões,
dos interesses, dos vicios, das doenças, das energias d'uma grande
capital. A sua curiosidade penetrava essas physionomias de civilisados,
que levam o pensamento para tão longe do vago sorrir dormente dos
Egyneos, da divina placidez grega; esses rostos devastados pelas idéas,
pelas sensações, por todas as acquisicões da actividade moral do homem,
extenuados pela complexidade das preoccupações, atormentados pela
aspereza das carreiras, pelo trabalho insano, pela difficuldade e agrura
do viver.
«E interrogava a expressão das pessoas atarefadas, que passam a correr
pelo meio da rua, lembrando formigas n'um formigueiro, com um pacote
debaixo do braço, ou um embrulho na algibeira, homens de miseria, que
passeiam a sua fóme, em frente do balcão dos cambistas; physicos de
larapio, escondendo a maldade do instincto, sob a femenilidade d'uma
cabeça de imperatriz romana; figuras estranhas de inventores
incomprehendidos, que vão ao acaso, monologando pelos passeios, com
gestos inconscientes de actor.
«Estudava aquella belleza singular e espirituosa, a indefinivel belleza
da mulher de Paris. Seguia as apparições imprevistas; as caritas
irregulares e radiantes; as pequeninas creaturas estranhas, que
desabrocham, como flôres, d'entre as pedras da calçada e que, de
repente, desapparecem,--com o seu arzinho de costureiras, que vão
amanhecer cortezãs--por uma porta humilde e escura, por uma escada
ingreme e repugnante. E tentava analysar o encanto d'essas magras
raparigas, que teem nas fontes como que o reflexo do candieiro da
officina, pallidas das noites perdidas á costura, e como que vagamente
torturadas pela nostalgia da preguiça e do luxo. Ás vezes debaixo d'uma
touquinha muito pobre, dava subitamente, com uma graça requintada, uma
expressão rara, um ar de suavidade martyrisada, de melancholia virginal,
que a vida dos grandes centros, o refinamento das civilisações, o fim
dos sangues empobrecidos parecem fazer cahir sobre o rosto das
costureirinhas miseraveis. Uma vez levou na memoria, para um estudo que
principiou no dia seguinte, o rosto da filha d'uma parteira, uma pobre
pequenita lymphatica, tão mansinha, tão definhada, tão branca, com os
olhos tão cheios de ceu, sob a sombra das pestanas, que fazia scismar
n'um anjo doentinho.
«No seu intimo, n'aquella agitação dos seus passeios, havia um mal estar
terrivel e indefinido, a inquietação que se apossa do homem abandonado
pela religião da sua mocidade. Sentia-se n'esse momento critico, n'essa
hora da vida d'um artista em que elle sente morrer dentro de si a
primeira consciencia da sua arte; instante de duvida, de tortura
contradictoria, de anciedade, em que, incerto a respeito de proprio
futuro, hesitante entre os habitos de seu talento e a vocação da sua
personalidade, _elle sente agitar-se e estremecer dentro de si o
presentimento de outras fórmas e d'outras visões, o começo de novos
modos de sentir, de vêr, e de querer!..._
O trabalho interior que, por este modo incisivo e brilhante, os dois
Goncourt, aqui descrevem, fez-se n'elles, sob a influencia de Gavarni.
É mais raro do que parece este dom especial, que nos torna, por assim
dizer, physicamente sensiveis ás fórmas, ás linhas, ao relevo e ás côres
do que nos tem cercado desde a infancia....
Parece que o nosso tempo é aquelle que nós devemos saber pintar melhor.
Nem sempre.
Na arte, o mais difficil é traduzir as coisas simples, as coisas reaes,
sem nos afastarmos da exactidão, e sem cahirmos na banalidade.
Pintar por exemplo o aspecto de uma rua; um grupo de gente do povo que
conversa e gesticula; uma senhora que passa, bem vestida, discreta,
envolvida muito prosaicamente no seu chaile de cachemira, distincta,
fina e natural; pôr em attitudes expressivas e _reaes_ duas porteiras
que tagarellam; esboçar com rapidez frisante um _decavé_ da Bolsa ou de
_baccarat_ que vae andando cabisbaixo, lugubre e banal; desenhar a dois
traços um _dandy_ de charuto na bocca e ar _spleenetico_; dar emfim o
tom vivo, o destaque poderoso e ao mesmo tempo a nota exacta e
verdadeira áquillo em que nós, nem reparamos já, á força de o termos
visto milhares de vezes, eis um milagre que só realisam artistas
consummados e organisações muito especialmente dotadas.
É muito mais facil ser phantasista do que ser verdadeiro, descrever a
largos traços o pôr do sol por detraz de uma cordilheira gigantesca, do
que pintar uma paisagem doce, simples, vulgar, que apenas se distinga
pela doçura da luz, pela graça enternecedora e humilde da expressão.
A verdade de todos os dias parece impôr-se a todos nós, sentimol-a,
vêmol-a, ella penetra-os por assim dizer: pois apezar d'isso tudo,
tentemos traduzil-a artisticamente, e veremos depois que esforço, que
condensação de vida intellectual, essa pequena coisa tão grande exige de
nós!
Pois é positivamente, repetimos, esse dom possuido em alto grau pelo
grande pintor de costumes do seculo XIX chamado Gavarni, que elle soube
communicar aos dois irmãos Goncourt.
Os que duvidarem que leiam a lancinante, a dolorosa historia tão
mesquinha e tão tragica, tão humilde e tão desoladora da creada
_Germinia_; que leiam aquelle terrivel estudo chamado Charles Demailly,
em que Julio de Goncourt como que advinha e prophetiza as torturas da
sua vida de escriptor, e a agonia longa e martyrisante da sua morte de
artista ambicioso e incontentado.
Muitas das cartas de Julio são dirigidas a Gavarni. Ha outras a
Flaubert, a Paulo de Saint Victor, a Theofilo Gauthier, a Saint Beuve, á
princeza Mathilde, a Zola, etc., etc.
Todas ellas explicam, esclarecem, commentam, illuminam, dia a dia, o
trabalho constante que os dois irmãos proseguiram, até á morte do mais
novo, atravez de todas as hostilidades da critica, da indifferença do
_grosso publico_, do desdem de muitos, da ironia incredula, ou do pasmo
ingenuo de quasi todos.
O amor da litteratura, este amor que nós, em Portugal, só por ouvirmos
fallar d'elle, conhecemos incompletamente, amor que absorve, que
encanta, que allucina e que mata por fim--como matou Flaubert, como
matou Julio de Goncourt, como matou Balsac, como é muito provavel que
mate brevemente Daudet--o amor da litteratura respira-se n'estas cartas
com um perfume subtil que as embalsama, e que as impregna
admiravelmente.
Póde mesmo affirmar-se que este amor é o maior que domina a vida dos
dois irmãos, e que os faz vêr a vida nos livros e atravez dos livros.
E a cada obra bem feita, que sentido e sincero applauso! que vibrar de
phrases sonoras traduzindo a admiração, o goso agudo da intelligencia
satisfeita!
O estylo, isto que a nós nos parece apenas o instrumento mais ou menos
perfeito de que a idéa se serve, e que a outros parece toda a arte,
dá-lhes a elles, quando é cinzelado com o primor a que aspiram, prazeres
comparaveis aos que nós, os que não commungamos n'essa religião da
fórma, temos diante de um grandioso espectaculo da Natureza ou diante de
uma sublime acção do homem.
«Ha no seu livro, diz Julio de Goncourt n'uma carta a Michelet, phrases
feitas de luz, paginas inteiras de sol, epithetos que se respiram, idéas
que fremem e palpitam sobre a haste das palavras!!»
Qual de nós tem esta viva impressão intellectual, tão delicada e
subtilmente expressa aqui, ante a musica mais ou menos bella de um livro
de prosa? E, no entanto, são incompletos todos os artistas da palavra
que a não sentem. A palavra é _tudo_ para o escriptor, visto que é o
unico meio que elle tem de traduzir as variadissimas, as infinitas
modificações do espirito humano. Os dois Goncourt fizeram do estylo uma
sciencia, a mais complexa e requintada das sciencias. Comprehenderam e
muito bem, que todos os doentios symptomas, todos os phenomenos
pathologicos da alma moderna, todos os effeitos multiplos, inteiramente
ineditos que na Vida produz a comprehensão morbida que nós temos da
Vida, precisavam tambem de uma formula nova que os exprimisse.
Para as doenças recentes que o excesso da civilisação, o _détraquement_
nervoso, as diversas aberrações cerebraes nos teem trazido, precisava-se
de uma technologia ainda não sabida até hoje. A elles foi-lhes
necessario encontrarem a arte de _notar os sentimentos indiscriptiveis_;
de traduzir as imperceptiveis vibrações da alma; as mutações rapidas da
sensibilidade; as delicadezas doentias de uma geração estragada pelo
excesso da vida nervosa e cerebral. Julio de Goncourt conseguiu, pois, á
custa de um trabalho mental exagerado e exclusivo que lhe custou a vida,
dar á lingua franceza a subtileza, o nervosismo, a intensidade
harmonica, a rapidez e a variedade de cambiantes que ella não tinha.
O estylo d'elle, ou antes o estylo dos dois irmãos, tem musicas e tons
esbatidos, e perfumes agonisantes, e fremitos voluptuosos, e sobresaltos
hystericos. Para lêr e apreciar a obra dos Goncourt é necessario ter
como elles, os nervos vibrantes, o cerebro excitado, e a sensibilidade
estranhamente irritavel.
Escrevendo a Zola, a respeito da morte de seu querido irmão, Edmond de
Goncourt, dizia:
«A meu vêr, elle morreu do trabalho, morreu sobretudo da elaboração da
fórma, da cinzeladura da phrase, do lavôr do estylo.
«Estou-o vendo ainda, pegar dos trechos que tinhamos escripto em commum,
e que, ao principio, nos tinham satisfeito, e trabalhar n'elles horas e
horas, tardes inteiras, com uma obstinação quasi colerica, mudando aqui
um epitheto, pondo n'uma phrase o rythmo que lhe faltava, emendando uma
expressão, fatigando, gastando o cerebro á procura d'essa perfeição tão
difficil, ás vezes impossivel, á lingua franceza, na traducção das
coisas e dos sentimentos modernos. Depois d'essa tarefa enorme, cahia
para cima d'um sophá, moido pelo cançasso, e alli ficava um longo espaço
de tempo, silencioso, a fumar.»
Balzac, que teve como nenhum dos discipulos que vieram depois d'elle, a
larga, a profunda, a milagrosa intuição dos sentimentos que agitaram,
moveram, convulsionaram, subjugaram o seu tempo; Balsac, que pintou os
_frescos_ collossaes e as deliciosas miniaturas, que soube fazer viver
as suas eternas figuras, criminosas, sublimes e depravadas, cheias de
odio ou cheias de amor, illuminadas pela chamma de todas as paixões,
queimadas pela fornalha rubra de todas as cubiças insalubres, e que, não
contente de personalisar, á grande maneira de Shakspeare, a Avareza, a
Sensualidade, a Paternidade ludibriada e dolorida, a Amisade viril, os
sentimentos fundamentaes do homem emfim, soube ainda penetrar nos
refolhos mais reconditos da alma feminina, e colher ahi a fragil, a doce
flor da melancholia, as tristezas silenciosas do amor trahido, as
saudades, cuja raiz suga as forças todas de um coração solitario;
Balsac, que foi muito maior que todos os modernos pelo pensamento
proprio e pela vida dos seus personagens, não soube vencer, nem subjugar
como elles as tyramnias da Fórma.
Foi tambem n'esta lucta titanica de que sahia, deitando um vapor denso e
quente de todos os póros do seu corpo athletico, que elle consumiu e
gastou a existencia.
A morte surprehendeu-o quando, no seu ultimo livro, a _Cousine Bette_,
elle tinha emfim alcançado uma victoria decisiva e tinha quasi achado a
formula, que o podesse contentar.
A verdade é esta: ha escriptores para a maioria do publico. Esses não
teem mais do que traduzir os sentimentos communs a toda a humanidade. Ha
escriptores para os delicados, para os doentes d'essa terrivel nevrose
cerebral que hoje martyrisa os pensadores, os artistas, os
investigadores incontentaveis da verdade. Esses hão de ler com prazer
agudo, quasi doloroso, os livros de Julio e Edmundo de Goncourt. De
resto, não ha, entre os modernos, livros que mais vivamente ponham a nú
a personalidade de quem os escreveu. Ha paginas inteiras que são
confidencias mentaes. Ha estudos que foram feitos depois d'estas longas
meditações em que a alma se revela nas suas minimas particularidades,
nos seus mais intimos e dolorosos segredos!
Por isso se explica que, nas suas _Idéas e Sensações_, elles escrevessem
esta observação que, applicada aos dois artistas de que tratamos, é
d'uma verdade tão intensa e palpitante.
«Para as delicadezas, para as requintadas melancholias d'uma obra, para
as phantasias raras e deliciosas que se executam na corda vibrante da
alma ou do coração, não será necessario, indispensavel mesmo, uma
pontinha de doença no artista?
E, como Henrique Heine, não terá cada um d'esses escriptores de ser como
que o Christo da sua obra, o crucificado physico da sua fé?...»
Os Goncourt foram isto, e é por esse motivo que os que soffrem se sentem
um pouco irmãos d'esses artistas de tão morbida e delicada tristeza!
_GEORGES SAND_