Não venho contar aqui, é claro, a vida de Georges Sand, que de resto, é
sufficientemente conhecida. Não venho advogar a causa das suas paixões
irregulares, que ella chorou com lagrimas de sangue, e que eu, pela
admiração infinita que a grande mulher me inspira, quizera, á custa d'um
sacrificio immenso, poder apagar da memoria de todos que a amaram.
Era-me tão doce, poder levantar-lhe um altar no meu espirito, sem as
dolorosas restricções que a sua desvairada mocidade me impõe!..
Eu queria vêr n'ella apenas os ultimos trinta annos da sua vida,
illuminados pelo mais grandioso talento que ainda ardeu em cerebro
feminino.
Não posso!..
Para que ella fosse a sublime desenganada, cuja palavra era uma lição,
cujo conselho era um dogma, cujo sorriso doce e triste era feito de
experiencias amargas e de decepções crudelissimas, era indispensavel que
ella tivesse percorrido a Via Dolorosa, ferindo-se em todos os silvedos,
precipitando-se em todos os barrancos, dilacerando os pés em todas as
urzes da estrada!..
Lembremo-nos comtudo que Georges Sand, filha d'uma ligação irregular e
portanto condemnada pela sociedade e pela familia; eternamente combatida
entre dois poderes igualmente funestos--o primeiro, a avó _voltaireana_
e sem crenças, o segundo a mãe, plebeia, leviana, inteiramente
ignorante,--só poude sahir d'esta situação difficil, dolorosa, causadora
de eternos conflictos, pela porta d'um casamento desigualissimo, um
casamento que fatalmente a predestinava á desgraça.
Esse casamento fez d'ella--natureza superior, bella e robusta
organisação artistica, espirito cultivado e grande--a quasi escrava de
uma especie de bruto, sempre ebrio, incuravelmente grosseiro, de gostos
baixos, de costumes iguaes aos gostos.
Nada d'isso a desculpa, bem sei. Eu não quero, nem devo desculpal-a. Sei
que este virtuoso e sabio mundo impõe a cada mulher a facil obrigação de
ser heroica, julgando-a muito feliz por lhe merecer depois um pouco de
consideração banal, ou um grão de louvor condescendente!..
Mas a esta mulher em particular, dada a educação que ella tivera e o
meio em que viveu por tanto tempo, quem podia dar-lhe forças para levar
ao cabo a sua missão de sacrificio? Não tinha uns braços de mãe que a
amparassem; um exemplo santo que a fizesse preferir a tudo o
incompensado, o obscuro, o aspero dever! Não havia ao pé d'ella uns
labios immaculados que a beijassem e lhe dissessem:
--Tem delicias austeras, tem voluptuosidades verdadeiramente dignas das
que são grandes, o cumprimento do dever, por mais duro que elle seja.
Vaes procurar a felicidade ás paixões ephemeras, que na ebriedade da sua
febre romantica te pintaram os artistas e os poetas, cuja obra tem sido
o alimento de tua vida interior? Olha que elles todos mentem! O que de
lá trarás, do paiz das chymeras azues e das miragens enganosas, é uma
sêde de ideal ainda mais ardente, é o tedio da vida ainda mais profundo
e mais penetrante; é uma chaga aberta que só em longos annos de
renunciamento e de velhice tu poderás sarar, mas cuja cicatriz,
eternamente asquerosa, desformizará, para sempre, a formosura ideal do
teu genio sublime!--»
Mas ai! ella era moça, tinha a sofrega curiosidade da vida; tinha lido
os poetas da paixão; tinha-se contaminado d'aquella febre sensual, que
se exhala, como um miasma putrido, dos livros ardentes de Rousseau. O
periodo, de resto, era de delirio ardente. Gosar, eis o motte d'essa
geração de desequilibrados, nascida d'um beijo entre duas batalhas
sangrentas.
Quando ella voltou das suas primeiras excursões ao paiz maldicto onde se
respira a _malaria_ dos desejos insalubres, que immensa dôr inconsolavel
se evola, como um aroma de morte, das suas tristes cartas!
«O meu coração envelheceu vinte annos! Já nada na terra me sorri! Para
mim já não póde haver nem paixões profundas, nem vivas alegrias. Tudo
está dito! Dobrei o cabo. Cheguei ao porto, não como esses nababos que
regressam em redes de sêda, ao tecto de cedro dos seus palacios, mas
como os pobres pilotos, que esmagados pelo cançasso, queimados pelo sol,
deitam a ancora, para não exporem mais ao mar a chalupa avariada. Não
têem de que viver em terra, e demais a terra aborrece-os. Tiveram
antigamente uma bella vida, tiveram riquezas, aventuras, combates e
amores. Talvez lhes fosse grato recomeçar... mas como se a embarcação
está desmantellada e a carregação perdida?..»
Desesperada, na hora dos remorsos supremos, que os orgulhosos nem a si
confessam, sentindo porventura essa dôr incomportavel, que deve ser o
tedio de si propria, é a morte que ella chama com lamentos de uma
incomparavel e poderosa melancolia.
E voltando depois, d'essa viagem que ficou celebre no mundo das letras,
pelos formosos livros que produziu, pelos versos divinos que inspirou,
voltando a _Nohant_, ao ninho humilde onde segundo ella propria diz, não
póde viver mas onde a morte lhe será mais doce, murmura meigamente:
«Vim dizer adeus ao meu paiz, ás memorias da meninice e da mocidade,
porque decerto comprehendes que a _vida me é odiosa e impossivel_ e que
é forçoso, absolutamente forçoso que eu morra.»
Oh! quem me dera poder citar largamente, d'essas cartas que resumem uma
vida, e uma vida cheia, accidentada, agitada por todas as paixões que
fazem pulsar febrilmente um coração de mulher, quem me dera poder citar
todos os trechos adoraveis, que me arrancaram lagrimas!..
Sonhadora, que nenhum desengano conseguiu acordar; vizionaria, que
nenhuma realidade chama á terra; ave enamorada, a que nenhuma queda
parte as azas de enorme envergadura, ella vae sempre, pedindo ás
amarguras dilacerantes de uma chymera impossivel, consôlo para as dôres
sem nome que outra chymera lhe deixara...
Pisam-n'a? abandonam-n'a? Enganam-n'a? Que importa!
A vida prometteu-lhe a felicidade, e ella vôa, sem cançar nunca, atraz
da sombra errante que lhe foge!
Allumiada, a intermittencias rapidas, pela cruel faculdade critica que é
a sua superioridade e o seu martyrio, ella despenha por suas proprias
mãos do pedestal marmoreo o idolo que as suas proprias mãos ali tinham
erguido.
Que importa? Porque se enganára uma vez não é licito esperar que se
engane eternamente.
A bella figura immaculada, que a sua phantasia imaginou, ha de vir; não
tarda ahi; é mister que ella tenha todo o seu coração vivo e juvenil,
para lh'o entregar, renascido das proprias cinzas.
E levantando-se mais vigorosa apoz o desfallecimento de todo o seu ser,
e resurgindo mais apaixonada e mais crente da completa derrocada de
todas as paixões e de todas as crenças, ella caminha insaciada e
insaciavel, peccadora inconsciente, somnambula da paixão, ambiciosa
sempre trahida d'essa chymera eterna que se chama amor feliz!
Mas em meio da carreira vertiginosa e febril ha duas forças que a
chamam, ha dois poderes secretos que a redimem e a salvam.
A maternidade e o trabalho.
Então no seu horisonte nublado e tempestuoso ergue-se, a principio
indecisa e dubia, depois purpurea, victoriosa, flamejante, a luz pura
que vae illuminar a vida d'esse grande espirito transviado e
enlouquecido.
Os homens pagaram-lhe, com insultos, o amor que, na sua fragilidade,
ella lhes teve, mas o filho extremecido, preferindo o appellido glorioso
que o genio de sua mãe lhe conquistara ao nome herdado de seu pae,
deu-lhe n'este acto de adoração intensa e delicada a desforra de todas
as humilhações, a victoria de todas as derrotas.
Mais tarde, no outomno tão purpureado de tons opulentos, da sua vida de
trabalhadora intrepida, ella sabe com a palavra convencida e grave dos
que soffreram, luctaram e venceram, incutir coragem aos que fraquejam,
ensinar o caminho do bom e do justo aos que vacillam na escolha da sua
estrada, dar animo, incentivo e applauso aos artistas, que succumbem ao
desalento d'uma hora infecunda, ser ella propria um exemplo de força
viril e de femenil ternura.
Os seis volumes da correspondencia de Georges Sand são como que a
ascensão d'um espirito para a região luminosa da bondade, da justiça e
do amor! Á proporção que a vida lhe declina--a pacificação, a doçura e a
paz vêem descendo sobre o seu agitado espirito, até fazerem d'elle um
exemplo de força e caridade, de resignação e de tolerancia.
«Quanto mais vivo, diz ella n'uma das suas cartas, mais profundamente me
prostro diante da Bondade, porque vejo que é ella o beneficio de que o
Senhor é mais avaro. Onde a intelligencia não existe, chama-se bondade
ao que é simplesmente inepcia. Onde não existe a força, julgam bondade
ao que é apenas apathia. Onde a força e a luz intellectual se encontram,
é raro que se encontre tambem a bondade, pois que a experiencia e a
observação produziram a desconfiança e o odio! As almas votadas aos mais
nobres principios são tambem muitas vezes as mais acres e as mais rudes,
porque as decepções as adoeceram para sempre. A gente estima-as e
admira-as ainda, mas já não póde amal-as. _Ter sido desgraçado sem
deixar de ser intelligente e bom, faz suppôr uma bem poderosa
organisação, e são estas as que eu mais procuro e mais amo._
N'um periodo caracteristico d'uma carta a Lammenais diz assim, com
entristecida e commovedora franqueza:
«Mestre, ha n'este mundo atalhos pelos quaes os seus pés nunca passaram,
abysmos onde o meu olhar mergulhou. Viveu com os anjos e eu tenho vivido
com os homens e com as mulheres; sei como se padece, sei como se pecca,
sei a immensa necessidade que existe d'uma regra, que torne possivel a
virtude. Confie em mim, creia que ninguem a procura com mais desejo de
encontral-a, com mais respeito pela virtude e com menos personalidade;
porque eu não tentaria jámais palliar as minhas culpas passadas, e a
idade já me permitte o encarar com placidez as tempestades, que palpitam
e morrem no meu longinquo horisonte.»
A um dos queridos amigos da mocidade, tão piedosamente conservados até á
velhice, ella escreve um dia, n'uma d'estas horas em que a verdade nos
acode irresistivelmente aos bicos da penna, n'uma explosão de
sinceridade cheia de lagrimas?
«Oh! como eu soffri n'esta vida, meu pobre irmão!.. E tu, sentes-te
agora mais tranquillo?..
«Eu, por mim, tive um terrivel duello comigo mesma, um combate
gigantesco com o meu ideal. Que ferida, que dilacerada, que ás vezes me
senti!.. Agora vegeto docemente, placidamente. Pareço a mim mesma um
cypreste que viça em cima d'um cadaver. Meu Deus! meu Deus! quantas
lagrimas eu não contive! quantas queixas não suffoquei! quantas dôres
sem consôlo eu guardei para mim só!..»
E n'outra carta, como que tirando a suprema conclusão dos sacrificios
interiores, que se impoz pelo amor do bem, escreve d'este modo:
«Desde que sinto pezar por sobre mim a mão da velhice, experimento uma
paz, uma esperança, uma confiança em Deus, que eu não tinha nas
commoções da mocidade. Acho que Deus é tão bom, tão bom, por nos
envelhecer, por nos acalmar, por destruir em nós o egoismo, tão aspero
em quanto se é moço!.. E queixamos-nos de perder alguma cousa, quando a
verdade é que alcançamos tanto, que as nossas ideias se ampliam e se
tornam mais justas, e o nosso coração se faz mais vasto e mais doce, e a
nossa consciencia victoriosa emfim, póde olhar para o caminho já
percorrido e dizer: «Cumpri a minha tarefa, está perto a hora da
recompensa!»
Comprehende-se que, em seis volumes, ha centenas de paginas que eu
citaria com prazer, e que justificam amplamente o enthusiasmo, que
n'este rapido artigo se revella. As cartas em que Georges Sand deixa
transparecer, com divina eloquencia, o seu patriotismo de vizionaria, a
sua caridade inexgotavel e ardente, a sua doce tolerancia para as
fraquezas humanas, o seu genio simples e bom, feito de sinceridade e de
ternura...
A indole porem d'estes estudos não comporta tamanhas delongas, e na
impossibilidade de citar tudo, quasi que acho preferivel não citar nada.
A tentação todavia arrasta-me ainda a transcrever para aqui, ao acaso,
mais alguns trechos caracteristicos:
Quando a França parece querer suicidar-se nos excessos selvaticos da
Communa, quando todos se curvam desalentados ao pezo da mesma dôr
impotente, ella, a valente mulher, exclama cheia de fé:--«Sinto me
fluctuar ao acaso sobre as vagas, mas buscando a terra, porque sei que a
terra existe, e que tudo lá vae dar fatalmente.
«A verdade, o bem não são mentiras; basta que a gente os sinta viver
dentro de si propria, para ter a certeza firme de que elles existem no
coração da humanidade.»
E quando Flaubert, nas suas explosões de epileptico, lhe mandava em
cartas que tambem estão publicadas, mas que são incontestavelmente
inferiores ás cartas d'ella, os seu lamentos pueris ácerca dos males
imaginarios que o torturam, Georges Sand, a martyr de tantas agonias, em
vez de rir-se desdenhosamente d'essa velha creança, que, a tanto talento
juntava tão extraordinarias fraquezas, tracta, pelo contrario, de
combater o soffrimento que a sua alma intrepida nem concebe, e
explica-lhe d'este modo o ideal da sua velhice.
--«Amar sempre, sacrificar-se continuamente, não reassumir a posse de si
proprio senão quando o sacrificio já não seja necessario áquelle a quem
se consagra, e sacrificar-se ainda, na esperança de servir a unica cousa
verdadeira que ha n'este mundo--o amor!
«Não fallo aqui da paixão pessoal, fallo do amor da raça humana, do
sentir que cada ser amplia até aos outros seres! Esse ideal de justiça,
de que tu me fallas, nunca o poude comprehender separado do amor, visto
que a primeira lei, para que uma sociedade natural subsista é a que faz
com que os membros que a compõem se sirvam mutuamente e mutuamente se
amem. Chama-se nos animaes instincto este concurso de todos para o mesmo
fim; nos homens, porem, deve chamar-se amor; quem se subtrahe ao amor
subtrahe-se á verdade e á justiça.
«Lamento a humanidade; quereria vêl-a boa porque não posso separar-me
d'ella; porque _ella_ é _eu_; porque o mal que ella se faz a si me fere
o coração; porque a sua vergonha me faz corar; porque os seus crimes
dilaceram as minhas entranhas; porque não posso comprehender o paraizo
na terra ou no céo para mim sósinha.»
E como o grande escriptor de madame Bovary, na sua eterna lucta contra o
que elle chama a _bêtise humaine_, continúa a expandir-se em
manifestações colericas que irritam quem lhe lê as cartas, Georges Sand,
sempre serena e doce, sempre maternal, responde-lhe:
«Quanto mais desgraçado és, mais eu te quero!
«Como te apoquentas, como te affliges com a vida!.. Porque, no fim de
contas, é da vida que te queixas. Ella nunca foi melhor em tempo algum,
para ninguem! A gente _sente-a_ mais ou menos, comprehende-a mais ou
menos, soffre por causa d'ella mais ou menos, e quanto mais adiantado
está em relação á epocha em que vive, mais tem de padecer em resultado
d'essa desharmonia.
«Passamos como sombras sobre um fundo enublado que o sol apenas rompe em
raros instantes, e chamamos incessantemente por esse eterno sol que não
póde allumiar-nos. Está em nosso poder affugentar as nuvens...»
«Tens demasiado amor pela litteratura; ella ha de matar-te sem que tu
consigas matar a _tolice humana_. Pobre tolice humana! Eu não a detesto
como tu. Pelo contrario! Olho para ella com olhos maternaes, porque a
considero uma infancia, e toda a infancia é sagrada para mim! Que odio
que lhe votaste! que enorme guerra lhe fazes! Tens intelligencia e
sciencia de mais; esqueces-te de que ha alguma cousa superior á arte, e
essa cousa chama-se sabedoria, da qual a arte no seu apogeu é apenas a
expressão simples.
A sabedoria comprehende tudo: o bello, o verdadeiro, o bom, e por
conseguinte o enthusiasmo que d'elles derivam. É ella que nos ensina a
vêr fóra de nós, alguma cousa de mais elevado que o que está em nós, e a
assimilal-o pouco a pouco pela contemplação e pela admiração. Mas eu nem
sequer conseguirei fazer-te comprehender bem o modo pelo qual encaro e
percebo a _felicidade_, quer dizer a acceitação da vida tal qual ella
é.»
Quem não sentirá sympathia por estas palavras de fé, de pacificação e de
conforto! De quantas dôres superiormente supportadas, de quantos erros
expiados d'um modo sublime, se compõe esta serenidade augusta que dá a
velhice de Sand uma grave e encantadora magestade.
E ao par d'estas graves lições de alta moralidade, d'estas lições que
reconciliam com a vida o espirito mais dolorido, mais inquieto e mais
revoltado, encontram-se aqui e ali phrases encantadoras d'uma graça
femenil deliciosa e fina. «Quando eu tiver exgotado a minha taça de
amargura, hei de então levantar-me. Sou mulher, tenho ternura, tenho
piedade, e tenho impetos de colera. Não terei nunca a serenidade d'um
erudito ou d'um sabio!.. «Os fortes são aquelles que não amam! Não serás
nunca um _forte_ e ainda bem!»
«Sou ainda, senão necessaria, pelo menos extremamente util a todos os
meus, e emquanto houver em mim um sopro da vida, hei de pensar,
trabalhar, soffrer por elles!» ... «Já não tenho tempo de pensar em mim,
de scismar em cousas desanimadoras, de desesperar da especie humana, de
olhar para as minhas proprias dôres e para as minhas alegrias passadas e
de chamar a morte. Olha, se a gente fosse egoista era o caso de a vêr
chegar com alegria; é tão commodo dormir para sempre, ou accordar para
uma vida melhor! Mas para quem tiver ainda de trabalhar, a morte não
deve chegar antes da hora em que o extenuamento completo nos possa abrir
as portas da liberdade.» ... «Não sejas fraco! então?! Devemos o exemplo
da nossa força moral a todos que nos cercam e podem ouvir-nos! E eu?!
Julgas que eu não tenho tambem necessidade de auxilio e de amparo, na
minha longa tarefa ainda por concluir?
«Pois não tens amor a ninguem, nem sequer á tua velha amiga, que sempre
canta, e chora muitas vezes, mas que se esconde para chorar, como os
gatos se escondem para morrer?.. »
Estas cartas a Flaubert são todas d'uma graça maternal, d'um encanto
affectuoso que conforta e fortifica. Depois de se terem lido, a gente
sente-se envergonhada de succumbir a meio do caminho, de se lamentar
egoista e puerilmente, porque a vida é triste e incompleta, e cheia de
aspirações e de esforços vãos!
Para Georges Sand a vida, dura e inhospita como lhe foi, a vida que
segundo ella propria confessa _lui a manqué de parole_ muitas vezes,
muitas vezes a fez sangrar por todos os póros da sua carne, muitas vezes
a dilacerou e abateu, nunca logrou prostral-a.
Tinha--dom raro e milagroso que constitue a unica superioridade d'este
mundo--tinha a faculdade da _eterna renovação_ que a natureza empresta a
raros eleitos seus.
_Mon coeur mille fois brisé et toujours heureux de vivre_--dizia ella
aos setenta annos, definindo, d'este modo profundo e brilhante, o seu
coração de valente e de luctadora, tão energico e tão meigo, e dando-nos
assim o segredo de seu genio cheio de contrastes, illuminado por todos
os esplendores, obscurecido por todas as sombras, opulento e suave,
risonho e melancholico, impetuoso e terno, bom sobretudo, bom como a
grande natureza sua inspiradora e sua mãe, sua confidente na mocidade
agitada, sua amiga na serena velhice.
Confidencias d'um apaixonado coração de mulher, que teve na amisade os
ardores e os extremos que outros, nem nos amores sabem ter;
despretenciosas lições de arte, de litteratura e de bom senso; conselhos
d'uma delicadeza penetrante, d'uma alteza de pensamento maravilhoso;
descripções formosissimas; palavras de caridade e de conforto; doces
expansões de amor materno; profissões eloquentes, e singelas ao mesmo
tempo, de tolerancia, de benevolencia universal, de religiosidade
profunda e intima, quasi que instructiva, de amor da humanidade elevado
ás sagradas proporções d'um culto;--eis o que nos dão essas cartas
soberbas, superiores talvez pela significação e pela verdade a toda a
obra da prodigiosa romancista.
* * * * *
Será a vida de Georges Sand um exemplo a apontar-se? É claro que não, e
que ninguem, d'este rapido esboço critico, póde deprehender tal absurdo.
O genio, porem, tem attenuantes excepcionaes para os seus excepcionaes
desvarios.
E se a obra da grande escriptora nos deixa ás vezes entristecidos e
descontentes, se a sua mocidade nos desola como uma pagina lamentavel da
vida dos grandes entendimentos, as suas cartas reconciliam-nos com ella,
e são os seis volumes das suas cartas que eu recommendo a todos os que
me lerem.