III

É fóra de duvida que hoje a questão religiosa, existente em toda a

parte, aqui revelada, ali occulta, é uma das causas determinantes do

horrivel mal-estar que tortura o nosso tempo e principalissimamente a

nossa raça, mas não se conclua da enorme importancia d'essa questão que

a mulher,--fatalmente educada n'este meio cada vez mais materialista,

mais negativo, mais incredulo em tudo que seja sobrenatural e alem do

humano,--se transforme no perigoso monstro phantasiado por Feuillet.

Que culpa teem as pobres creaturas, educadas agora, das ideas que pairam

sobre todos nós, que nos penetram insensivelmente, que nos roubam ao

influxo mystico do catholicismo, que, mau grado nosso, substituem pela

duvida dolorosa, pela curiosidade analytica, pela ancia penetrante de

saber, os enthusiasmos fervidos, as crenças pueris e simples da nossa

mocidade.

Não são os homens que nos teem ensinado a duvidar do que elles duvidam?

não são elles que nos teem perturbado, agitado, com a sua duvida e

incerteza? e sobretudo desnorteado com a leviandade cynica da sua

negação? E terão elles tambem culpa por ventura de que os descobrimentos

extraordinarios e imprevistos da sciencia, de que o alargamento continuo

e progressivo do pensamento, de que as lições irresistivelmente

verdadeiras da natureza, desvendada emfim, depois de tantos seculos de

mysterio, lançassem por terra, de envolta com a tradição desmentida,

tantos dos alicerces em que elles haviam construido o edificio da sua

crença?!

Sim, o catholicismo sendo o codigo mais completo que a humanidade

elaborou ainda, tinha soluções para todas as crizes do nosso destino,

podia dar-nos a paz, podia satisfazer as mais irrequietas ambições da

nossa alma. Mas esse catholicismo, contra o qual o enorme oceano chamado

humanidade deixou durante vinte seculos bater a onda tremenda das suas

duvidas--foi por ventura a nossa geração que o fez em ruinas?!

Se a tibieza da fé, se a incredulidade no mysterio, se o desdem pelo

sobrenatural são factos, dolorozos muito embora, se assim o querem, mas

factos positivamente adquiridos, se a ancia da verdade, impondo-se ao

homem, lhe deu na duvida a sua gloria maxima e tambem a sua maxima

tortura, se a nenhum de nós, filhos d'este seculo, e vergados ao pezo

terrivel e tragico d'essa herança titanica de tantos seculos de

investigação e de angustia, nos é dado fugir á excruciante agonia da

nossa eterna e audaciosa interrogação, se nós fômos os eleitos da

Historia para esta tragedia que consiste em agonisar junto ao tumulo

d'um Deus, digam-me: não será tempo de fazer uma tentativa suprema, que

pacifique emfim a nossa consciencia desnorteada e vacillante?...

Pois se fora do catholicismo não podem subsistir as grandes leis moraes,

de cujo austero cumprimento depende a nossa felicidade e a nossa intima

paz, assim se lançam ás gemonias tantas almas sinceras, tantas almas

inquietas, tantas almas sedentas de verdade e de justiça, que não

acharam na Egreja a solução aos graves e complexos problemas da vida?...

Porque, emfim, o catholicismo não é uma convicção raciocinada, é uma fé

subjugadora. Ha muitos espiritos, que, achando a organisação catholica a

mais elevada expressão de força intelligente, que, achando a disciplina

catholica o mais frizante exemplo da vontade applicada á moral, sentem

com tudo que, para serem catholicos, lhes falta simplesmente... tudo!

Tudo, quer dizer a fé na origem divina d'essa religião que os

enthusiasma, que os apaixona, considerada como resultante de uma serie

de leis historicas e puramente humanas. A nossa crença, ou a nossa

duvida, estão em nós; mas dependem acaso de nós?

Não, mil vezes não!

Os estados da nossa consciencia proveem do ambiente moral que temos

respirado desde o berço e de uma serie de causas existentes já antes de

nós existirmos, e cujos effeitos herdámos involuntaria,

inconscientemente.

Se a nossa vontade entra como elemento importante na obra complexa do

nosso destino, ella é apenas um elemento, subordinado a centenas de

outros, que nós não podemos sujeitar, nem prever sequer.

Assim como o sangue que nos corre nas veias vem eivado, ou fortalecido

já, de maculas ou de qualidades hereditarias, o nosso espirito traz

impresso o cunho de mil influencias anteriores á propria formação

d'elle. Ninguem se esquiva ás idéas do seu tempo; e tão impossivel seria

Voltaire em plena Edade Media, como S. Francisco de Assiz em pleno

seculo XIX.

Portanto, tudo o que se diga hoje, para provar que a mulher é

absolutamente obrigada a ter a fé de santa Theresa, não passa d'um

entretenimento de rhetorica, sem a minima seriedade, e sem o minimo

pezo.

Eu, já se vê, que ponho aqui completamente de parte aquella porção

distincta e particular da sociedade do meu tempo, para a qual a religião

é um luxo, requintado, feito de pequeninos apuros frivolos, um ritual de

praticas estereis, sem pensamento, sem alma, sem significação moral, um

preceito de alta educação mystico-elegante, um formulario ôcco, uma

lampada artisticamente cinzelada, sim, mas já sem oleo perfumado e sem

luz fecunda e clara! Mas se, alem d'essas praticantes, que sabem a letra

do Evangelho e que não sabem ou não querem saber a preciosa essencia do

seu espirito, se alem d'essas zelosas, que contradizem e desmentem a

cada passo a doutrina que acceitam, ha ainda hoje creaturas simples,

piedosas, absolutamente crentes, que teem a fé _do carvoeiro_, como guia

da propria existencia, que, aquellas que não podem imital-as lançam para

ellas um olhar de admiração, de inveja sem fel, e lhes digam ingenua e

simplesmente!--Abençoadas sejaes vós, ó doces e queridas irmãs, que

nunca tereis de hesitar nos desfiladeiros e nos algares, nas asperas

charnecas e nas rudes montanhas d'esta vida! Abençoadas sejaes vós, que

pudesteis fechar os ouvidos ao clamor confuzo das gerações atormentadas

e não ouvir o que dizia, no murmurio vago das noites mysteriozas, a voz

de tantos ardentes corações, pedindo á Natureza um raio de luz, um raio

de verdade, a pacificação suprema ás torturas, sempre renascentes, da

Duvida! Abençoadas sejaes vós, que para cada pergunta da vossa

consciencia, tendes a resposta prompta do vosso codigo divino!

E depois da rapida e ephemera passagem, que é para vós a vida, tendes,

para matar todas as sedes, a Eterna fonte sempre limpida; para compensar

de todas as abnegações terrestres, a celeste recompensa, sempre

renovada; para satisfazer todas as ambições ainda as mais

incontentaveis, a ineffavel beatitude sempre luminoza e sempre azul!

São essas as felizes, as privilegiadas, as raras.

Mas não são essas que precisam das lagrimas da minha piedade, nem dos

conselhos da minha razão.

As que n'este momento de transição terrivel, eu supponho bem dignas de

piedade, aquellas para quem eu desejava ver formulado um codigo de moral

positiva, feito de todas as acquisições da experiencia, são as que não

teem uma fé solida a dirigil-as na vida.

A moral preciza de tornar-se independente de qualquer religião, para

ser, ao lado d'ella ou sem ella, o principio dominante a que sujeitamos

todos os arrojos do nosso pensamento, todos os impetos desordenados da

nossa paixão. Porque é fatal que o individuo tenha de sacrificar-se pela

collectividade, e que a vontade de cada homem se subordine á utilidade e

ao bem de todos.

A moral positiva, disem os seus adversarios, funda-se pura e

exclusivamente no interesse. É triste eu bem sei, que é triste, esta

conclusão humilhante a que temos de chegar; mas qual é a lei que se nos

impôe e que nós acceitamos, que não tenha por fundamento mais ou menos

disfarçado o nosso proprio interesse? A felicidade no ceu ou a

felicidade na terra, eis os unicos motores que dirigem este hybrido ser,

meio animal e meio anjo, que se chama homem.

N'este momento, pois, o ponto interessante e capital a discutir vem a

ser este: Dos resultados já liquidados de todas as sciencias

particulares poderá sommar-se um capital de conhecimentos positivos,

capaz só por si de constituir a moral social?

Se a resposta feita pelos observadores, pelos moralistas, pelos

philosophos, fôr affirmativa, que elles tratem de formular esse codigo,

visto que a humanidade, eterna tutellada, abomina a independencia da sua

propria razão, e preciza de ter escripta, e reduzida a preceitos

dogmaticos, cada uma das leis a que tem de subordinar o seu destino.

Se a resposta, por emquanto, for negativa, trabalhe-se no sentido de

augmentar as riquezas já coordenadas, e tracte-se de chegar cedo á

conclusão pacificadora, pela qual todos nós anceiamos.

Acreditemos, para nossa consolação e para nosso descanço, que ha em nós,

independentemente de qualquer principio extranho, embora superior, a

aspiração permanente ao que é bom, ao que é bello, puro e harmonioso.

Muita vez, é claro, a paixão desvaira a mulher, mas a mulher religiosa

nem sempre escapa a esses desvairamentos, visto que a Historia os aponta

nos seculos do mais exaltado ascetismo. Não queiramos particularisar

tanto o sentimento da moralidade, que esta não possa viver senão ao

abrigo de qualquer templo.

É um mau serviço que fazemos, pois que não nos é dado a nós, nem a

ninguem, obstar a que o ideal religioso vá pouco a pouco cedendo o passo

á invasão triumphante, embora desconsoladora, da sciencia positiva e

experimental.

* * * * *

Escrevendo o que ahi fica, eu não tomo o partido contra as tendencias da

minha epocha, nem a favor d'ellas. Sou o relator imparcial do

espectaculo a que assisto. Não ha porém, a meu ver, tragedia mais

dolorosa do que esta de que o meu tempo é o theatro.

E sinto no fundo desconsolado e escuro da minha alma de mulher, aquella

ineffavel tristeza dilaceradora que Virgilio sentiu, quando, pelas

florestas do seu Lacio, ouviu passar a voz lamentosa e inolvidavel, que

annunciava ás gentes a morte do velho Pan!

Desgraçadas as gerações que são fatalmente condemnadas a assistirem ao

desmoronar de um mundo.

_OS IRMÃOS GONCOURT_

I

Um dos defeitos, ou, se preferem, uma das virtudes do nosso tempo é a

_curiosidade_.

Somos curiosos de tudo; descemos ás minuciosidades mais microscopicas, e

subimos ás mais altas generalisações. Nada eguala o cuidado attento com

que reunimos os documentos dispersos, que devem conduzir-nos á

acquisição de uma verdade qualquer, senão o poder de synthese com que

sabemos, do encadeamento de todos os phenomenos, tirar a lei que os

explica, relaciona e domina.

Em cada ramo do pensamento humano se revella, por todos os modos, a

nossa insaciavel e inquieta curiosidade.

A litteratura está, como todas as mais manifestações da actividade

physica ou mental do homem, subordinada a esta tendencia tão moderna do

nosso espirito. Os livros hoje interessam-nos principalmente, por nos

revellarem o machinismo interno de quem os escreveu, e atravez d'elle o

homem, com as suas contradicções e desordens mentaes, com os seus

desequilibrios, fraquezas, vicios e virtudes.

A critica tornou-se uma especie de romance historico, muito mais

interessante que os romances da imaginação.

Para conhecermos os homens, e d'entre os homens o escriptor,--quer

dizer, aquelle que mais deve ter condensado em si todas as energias

intellectuaes do seu seculo--pegamos nos seus livros e analysamos

miudamente, scientificamente, anatomicamente essas creações vivas que

elle nos legou.

Cada livro é um orgão ainda palpitante do corpo que estamos dissecando.

Não nos contentamos, porém, com o livro, desde logo destinado pelo seu

auctor a ser lido e interpretado pelo publico.

Queremos, exigimos, muito mais. As cartas, os diarios posthumos, as

confidencias involuntarias, pelas quaes a alma se manifesta

irresistivelmente, nas suas particularidades, nas suas idyosincrasias,

eis o que hoje nos satisfaz.

É extraordinaria a indiscricção com que temos ido rebuscar todos os

documentos do passado, para encontrarmos n'elles a alma occulta, a vida

mysteriosa e latente.

N'esse ponto, temos tido como instrumento maravilhoso de investigação e

de critica, o nosso proprio scepticismo, o nosso _dilletantismo_ tão

moderno, pelo qual nos é facil penetrar em todas as epochas,

comprehender todas as civilisações e assimilar todas as idéas, ainda as

mais oppostas e as mais extremas.

O passado, porém, já nos não basta. O homem do passado não é o homem

d'hoje. O seculo XVII não pensa como o seculo XVIII, do mesmo modo,

porque o nosso seculo não pensa como qualquer dos dois.

A alma contemporanea é bem mais complexa. Dizem que o cerebro moderno

tem mais circonvoluções. Pudera! Se elle tem por força muitas mais

idéas. Tem todas as que tinham os seus antecessores, e mais aquellas de

que fez a acquisição por seu esforço proprio.

E depois _sabe muito_, sabe de mais, este endemoninhado seculo! Não ha

coisa que não fôsse desenterrar para sobrecarregar mais e mais a memoria

e a consciencia.

Os que estão acima do nivel vulgar, os que por sua desgraça, pensam,

julgam e criticam, são todos mais ou menos _hystericos_. Ha uns

requintes doentios, uma etherisação morbida, um excesso de actividade

cerebral no homem da nossa geração, que fôram inteiramente desconhecidos

n'outras epocas mais equilibradas e mais sadias. O systema nervoso

desconjunta-se-lhes á força de o terem em continua e dolorosa vibração.

D'aqui as oscillações e os desequilibrios fataes de todo o mechanismo

interno.

Penetrarmos o _porquê_ d'essas aberrações, que nos surprehendem e

desorientam nos que são grandes pela imaginação e pelo talento, eis um

dos nossos eternos e justificaveis apetites.

É esse que nos leva a devorarmos tudo que são autobiographias, memorias,

correspondencias, indiscricções litterarias, sejam de que genero fôrem.

As cartas de Julio de Goncourt, o _Diario_ dos dois irmãos, ultimamente

publicado por Edmond de Goncourt, fôram, portanto, e estão sendo,

objecto da maior curiosidade da parte dos _gourmets_ litterarios de toda

a Europa, e não sei se da America tambem.

Os dois Goncourt, por muito tempo desconhecidos e _negados_, são hoje,

finalmente, considerados como os continuadores do pensamento de Balzac,

sob uma fórma litteraria, mais artistica, mais requintada, mais

_tourmentée_ que a do grande romancista da _Cousine Bette_.

N'este exercito, cujos generaes se chamam Flaubert, Zola, Daudet,--são

os Goncourt que vão na vanguarda, desbastando a grande floresta, em que

Balzac foi o primeiro a penetrar, com as suas passadas de gigante e a

força herculea do seu machado de explorador.

Esta geração começa a perceber quanto deve a Balzac; e é realmente

honroso para ella, pagar emfim a divida que os contemporaneos d'esse

escriptor assombroso, tão grande como Shakespeare, deixaram de solver!

Se os Goncourt são os precursores da escola chamada _naturalista_, e

cuja paternidade se attribue injustamente a Flaubert, é fóra de duvida

que elles, o proprio Flaubert, Zola, Daudet, e alguns discipulos

d'estes, são apenas os filhos espirituaes de Balzac.

Elles são incontestaveis e distinctos artistas; elle era o Genio.

Cada um d'elles tem a sua accentuada individualidade propria. Um, a

analyse impessoal, outro a amplificação e a força brutal e desregrada;

este a sensibilidade feminina quasi doentia; aquelle a fina intuição

psychologica, a _visão interior_ n'um grau de lucidez estranho.

Todos, porém, procedem do Mestre.

O seu largo sôpro creador penetra-os e inspira-os a todos. Nenhum

d'elles teria a magistral perfeição technica da fórma e a comprehensão

ampla do assumpto que tractam, na altura em que a possuem, se o auctor

da _Eugenie Grandet_, do _Pêre Goriot_, e de tantas obras immortaes lhes

não tivesse ensinado o caminho a seguir.

Os Goncourt, todavia, sendo os primeiros que se filiaram, sob uma fórma

diversa, na escola iniciada pelo genial creador da _Comedia Humana_, nem

por isso são os mais conhecidos e os mais apreciados. Só uma limitada

_élite_ intellectual seguiu com profundo interesse o trabalho d'estes

irmãos gemeos em litteratura.

Duas qualidades predominantes os distinguem. A finura subtil e delicada

da analyse e a linguagem que á força de _trabalhada_ adquiriu uma

fluidez, uma flexibilidade, uma sinuosidade ondeante, uma transparencia

crystalina, uns tons, uns cambiantes, umas côres que a tornam apta para

_notar_ e traduzir a impressão mais fugitiva, ou mais rara, o traço mais

leve, a sensação mais incoercivel, a sombra mais impalpavel do

pensamento, ou do sentimento humano.

Por estas duas qualidades se percebe já que os Goncourt não poderão

nunca ser uns escriptores populares. Só os delicados se comprazem

n'estas subtilezas da idéa e da fórma.

O que n'elles porém avulta a todos os olhos, é este phenomeno raro de

identificação, que fez de ambos _um_ só, sem que possa de modo algum

descriminar-se a parte em que qualquer d'elles concorreu para o trabalho

commum.

Edmond de Goncourt, quando perdeu o irmão mais novo, que estremecia como

uma porção da propria vida, como um membro do seu corpo, ou uma parcella

indivisivel da sua alma, ficou por largo tempo emmudecido, no lethargo

que succede aos grandes abalos da sensibilidade.

Sahiu d'esse estado, porém, e escreveu entre outros livros, muito

inferiores em todo o caso aos que tinham sido collaborados por Julio, um

estranho livro, que é necessario lêr attentamente, para que se possa

penetrar até certo ponto no segredo da maravilhosa união intellectual,

que fazia um só escriptor dos dois escriptores mais requintados e mais

vibrantes da moderna litteratura franceza.

Chama-se _Les frères Zenganno_ este livro que, á parte a linguagem, não

tem a meu vêr outro merito positivo que não seja a revelação ou antes a

critica d'esse phenomeno psychico-litterario de que acima fallámos.

_Les frères Zenganno_ são dois clowns, que trabalham sempre juntos,

conseguindo, por um milagre de gymnastica, harmonisar e identificar os

movimentos communs.

Percebe-se aqui a allusão ao trabalho litterario em que os dois

escriptores consumiram a existencia.

Entremeiados, porém, na obra, um pouco extravagante e levemente

phantastica, ha capitulos que são uma confidencia completa, e que mais

do que tudo que eu podesse dizer, explicam o caso phenomenal que tanto

interesse merece aos observadores, aos criticos e mesmo aos simples

profanos da arte.

Oiçamos por exemplo este trecho:

«Os dois irmãos não tinham um pelo outro um simples affecto fraternal.

Não. Estavam mutuamente ligados por laços mysteriosos, por affinidades

psychicas, e isto apesar de serem de idades muito diversas e de

caracteres diametralmente oppostos. Os seus primeiros movimentos

instinctivos eram identicamente os mesmos. Experimentavam sympathias ou

antipathias egualmente subitas, e quando iam a qualquer parte, sahiam do

sitio onde haviam estado, tendo a respeito das pessoas que tinham visto

uma opinião inteiramente similhante. Não só os individuos mas tambem as

cousas, com o _porquê_ irraciocinado do seu encanto ou do seu aspecto

desagradavel, lhes fallavam do mesmo modo a ambos. Emfim, as idéas,

essas creações do cerebro, cujo nascimento é d'uma phantasia tão livre,

e que tanta vez nos espantam pelo «não sei como» do seu apparecimento,

as idéas, de ordinario tão pouco simultaneas e tão pouco parallelas nas

uniões de coração entre homem e mulher, até as idéas nasciam commum aos

dois irmãos, que não raro, depois de uma pausa silenciosa se voltavam um

para o outro para se dizerem a mesma coisa, sem que achassem explicação

ao singular acaso que fazia encontrar nas suas boccas, duas phrases que

formavam apenas uma só. Assim moralmente _acolchetados_ um ao outro, os

dois irmãos precisavam de confundir constantemente os seus dias e os

seus serões, separavam-se sempre a custo, e cada um d'elles

experimentava na ausencia do outro, o sentimento estranho, indefinivel

de alguma coisa de incompleto e de mutilado.

«Quando um tinha sahido por algumas horas parecia que o que sahia levava

para fóra o poder de attenção do irmão que ficára em casa, e que não

podia fazer mais nada senão fumar até á volta do ausente.

«E se a hora annunciada para o regresso passava, o cerebro do que estava

á espera, enchia-se de desastres, de catastrophes, de accidentes

medonhos, de preoccupações estupidamente sinistras, que o faziam correr

continuamente do quarto á porta da rua. De modo que só forçadamente os

separavam; que um, nunca acceitava o convite que o outro não devesse

partilhar; e que, relembrando todos os annos da sua existencia commum,

elles só recordavam terem passado vinte e quatro horas completas, um

longe do outro.

«É necessario, porém, accrescentar que, entre os dois irmãos, este

estreitamento de fraternidade fôra feito por alguma coisa de mais

poderoso ainda que tudo isto. O trabalho de ambos achava-se tanto e tão

bem confundido, os seus exercicios de tal modo identificados, e tudo que

elles faziam unidos, parecia pertencer tão pouco a qualquer dos dois em

particular, que os applausos eram sempre dirigidos á associação e que

nunca o par tinha sido separado na censura ou no elogio. Era d'este modo

que estes dois seres tinham chegado ao ponto de constituirem _um_--e

caso raro, quasi unico nas amisades humanas--de não terem senão _um_

amor proprio, _uma_ vaidade, _um_ orgulho que o publico feria ou

acariciava ao mesmo tempo em ambos.»

Foi trabalhando d'este modo, tão subtilmente descripto pelo ultimo que

ficou, ferido e inconsolavel para sempre, que elles, fazendo da

physiologia o novo instrumento do romance contemporaneo, e levando para

os estudos delicadamente cinzelados da Historia o mesmo escrupulo de

analyse e a mesma finura extraordinaria de processo, pintaram, desde

_Maria Antoinette_ a adoravel, sympathica, leviana e altiva rainha, até

_Germinia Lacerteux_ a pobre e humilde creada, victima inconsciente e

fatal de um temperamento de hysterica; desde as deliciosas e corruptas

amantes de Luiz XV, até á doce e graciosa _Renée Mauperrin_; desde as

endemoninhadas cortezãs do seculo XVIII, até á austera e pensadora

madame Gervaisais; conseguindo, ao par d'isto, pôr tanta da vibrante

personalidade de ambos em toda a sua obra, que a gente reconhece-os em

Charles Demailly, o homem de lettras, victima da sua propria delicadeza

organica, e em dezenas de figuras, eminentemente modernas, que

atravessam as suas paginas impressionadoras e tão intensas de vida.

Ninguem exprimiu com uma penetração mais intima do que elles, a

_nevrose_ contemporanea com todos os seus simptomas de depravação ou

desequilibrio moral; a melancholia dos espiritos, exhaustos pelos

excessos de actividade mental; as baixas miserias da experiencia

quotidiana, tão cheia de catastrophes interiores e de angustias

dilaceradoras e invisiveis.

Mas tambem ninguem, como elles, resuscitou, em mais garrida e rendilhada

moldura, esse mundo galante, artistico, enfeitado, risonho, frivolo,

vicioso e triumphante, que principia na orgia da Regencia e acaba na

orgia da Revolução.

Alguns homens do meu tempo: impressões litterarias · 第 27 / 32 题