É fóra de duvida que hoje a questão religiosa, existente em toda a
parte, aqui revelada, ali occulta, é uma das causas determinantes do
horrivel mal-estar que tortura o nosso tempo e principalissimamente a
nossa raça, mas não se conclua da enorme importancia d'essa questão que
a mulher,--fatalmente educada n'este meio cada vez mais materialista,
mais negativo, mais incredulo em tudo que seja sobrenatural e alem do
humano,--se transforme no perigoso monstro phantasiado por Feuillet.
Que culpa teem as pobres creaturas, educadas agora, das ideas que pairam
sobre todos nós, que nos penetram insensivelmente, que nos roubam ao
influxo mystico do catholicismo, que, mau grado nosso, substituem pela
duvida dolorosa, pela curiosidade analytica, pela ancia penetrante de
saber, os enthusiasmos fervidos, as crenças pueris e simples da nossa
mocidade.
Não são os homens que nos teem ensinado a duvidar do que elles duvidam?
não são elles que nos teem perturbado, agitado, com a sua duvida e
incerteza? e sobretudo desnorteado com a leviandade cynica da sua
negação? E terão elles tambem culpa por ventura de que os descobrimentos
extraordinarios e imprevistos da sciencia, de que o alargamento continuo
e progressivo do pensamento, de que as lições irresistivelmente
verdadeiras da natureza, desvendada emfim, depois de tantos seculos de
mysterio, lançassem por terra, de envolta com a tradição desmentida,
tantos dos alicerces em que elles haviam construido o edificio da sua
crença?!
Sim, o catholicismo sendo o codigo mais completo que a humanidade
elaborou ainda, tinha soluções para todas as crizes do nosso destino,
podia dar-nos a paz, podia satisfazer as mais irrequietas ambições da
nossa alma. Mas esse catholicismo, contra o qual o enorme oceano chamado
humanidade deixou durante vinte seculos bater a onda tremenda das suas
duvidas--foi por ventura a nossa geração que o fez em ruinas?!
Se a tibieza da fé, se a incredulidade no mysterio, se o desdem pelo
sobrenatural são factos, dolorozos muito embora, se assim o querem, mas
factos positivamente adquiridos, se a ancia da verdade, impondo-se ao
homem, lhe deu na duvida a sua gloria maxima e tambem a sua maxima
tortura, se a nenhum de nós, filhos d'este seculo, e vergados ao pezo
terrivel e tragico d'essa herança titanica de tantos seculos de
investigação e de angustia, nos é dado fugir á excruciante agonia da
nossa eterna e audaciosa interrogação, se nós fômos os eleitos da
Historia para esta tragedia que consiste em agonisar junto ao tumulo
d'um Deus, digam-me: não será tempo de fazer uma tentativa suprema, que
pacifique emfim a nossa consciencia desnorteada e vacillante?...
Pois se fora do catholicismo não podem subsistir as grandes leis moraes,
de cujo austero cumprimento depende a nossa felicidade e a nossa intima
paz, assim se lançam ás gemonias tantas almas sinceras, tantas almas
inquietas, tantas almas sedentas de verdade e de justiça, que não
acharam na Egreja a solução aos graves e complexos problemas da vida?...
Porque, emfim, o catholicismo não é uma convicção raciocinada, é uma fé
subjugadora. Ha muitos espiritos, que, achando a organisação catholica a
mais elevada expressão de força intelligente, que, achando a disciplina
catholica o mais frizante exemplo da vontade applicada á moral, sentem
com tudo que, para serem catholicos, lhes falta simplesmente... tudo!
Tudo, quer dizer a fé na origem divina d'essa religião que os
enthusiasma, que os apaixona, considerada como resultante de uma serie
de leis historicas e puramente humanas. A nossa crença, ou a nossa
duvida, estão em nós; mas dependem acaso de nós?
Não, mil vezes não!
Os estados da nossa consciencia proveem do ambiente moral que temos
respirado desde o berço e de uma serie de causas existentes já antes de
nós existirmos, e cujos effeitos herdámos involuntaria,
inconscientemente.
Se a nossa vontade entra como elemento importante na obra complexa do
nosso destino, ella é apenas um elemento, subordinado a centenas de
outros, que nós não podemos sujeitar, nem prever sequer.
Assim como o sangue que nos corre nas veias vem eivado, ou fortalecido
já, de maculas ou de qualidades hereditarias, o nosso espirito traz
impresso o cunho de mil influencias anteriores á propria formação
d'elle. Ninguem se esquiva ás idéas do seu tempo; e tão impossivel seria
Voltaire em plena Edade Media, como S. Francisco de Assiz em pleno
seculo XIX.
Portanto, tudo o que se diga hoje, para provar que a mulher é
absolutamente obrigada a ter a fé de santa Theresa, não passa d'um
entretenimento de rhetorica, sem a minima seriedade, e sem o minimo
pezo.
Eu, já se vê, que ponho aqui completamente de parte aquella porção
distincta e particular da sociedade do meu tempo, para a qual a religião
é um luxo, requintado, feito de pequeninos apuros frivolos, um ritual de
praticas estereis, sem pensamento, sem alma, sem significação moral, um
preceito de alta educação mystico-elegante, um formulario ôcco, uma
lampada artisticamente cinzelada, sim, mas já sem oleo perfumado e sem
luz fecunda e clara! Mas se, alem d'essas praticantes, que sabem a letra
do Evangelho e que não sabem ou não querem saber a preciosa essencia do
seu espirito, se alem d'essas zelosas, que contradizem e desmentem a
cada passo a doutrina que acceitam, ha ainda hoje creaturas simples,
piedosas, absolutamente crentes, que teem a fé _do carvoeiro_, como guia
da propria existencia, que, aquellas que não podem imital-as lançam para
ellas um olhar de admiração, de inveja sem fel, e lhes digam ingenua e
simplesmente!--Abençoadas sejaes vós, ó doces e queridas irmãs, que
nunca tereis de hesitar nos desfiladeiros e nos algares, nas asperas
charnecas e nas rudes montanhas d'esta vida! Abençoadas sejaes vós, que
pudesteis fechar os ouvidos ao clamor confuzo das gerações atormentadas
e não ouvir o que dizia, no murmurio vago das noites mysteriozas, a voz
de tantos ardentes corações, pedindo á Natureza um raio de luz, um raio
de verdade, a pacificação suprema ás torturas, sempre renascentes, da
Duvida! Abençoadas sejaes vós, que para cada pergunta da vossa
consciencia, tendes a resposta prompta do vosso codigo divino!
E depois da rapida e ephemera passagem, que é para vós a vida, tendes,
para matar todas as sedes, a Eterna fonte sempre limpida; para compensar
de todas as abnegações terrestres, a celeste recompensa, sempre
renovada; para satisfazer todas as ambições ainda as mais
incontentaveis, a ineffavel beatitude sempre luminoza e sempre azul!
São essas as felizes, as privilegiadas, as raras.
Mas não são essas que precisam das lagrimas da minha piedade, nem dos
conselhos da minha razão.
As que n'este momento de transição terrivel, eu supponho bem dignas de
piedade, aquellas para quem eu desejava ver formulado um codigo de moral
positiva, feito de todas as acquisições da experiencia, são as que não
teem uma fé solida a dirigil-as na vida.
A moral preciza de tornar-se independente de qualquer religião, para
ser, ao lado d'ella ou sem ella, o principio dominante a que sujeitamos
todos os arrojos do nosso pensamento, todos os impetos desordenados da
nossa paixão. Porque é fatal que o individuo tenha de sacrificar-se pela
collectividade, e que a vontade de cada homem se subordine á utilidade e
ao bem de todos.
A moral positiva, disem os seus adversarios, funda-se pura e
exclusivamente no interesse. É triste eu bem sei, que é triste, esta
conclusão humilhante a que temos de chegar; mas qual é a lei que se nos
impôe e que nós acceitamos, que não tenha por fundamento mais ou menos
disfarçado o nosso proprio interesse? A felicidade no ceu ou a
felicidade na terra, eis os unicos motores que dirigem este hybrido ser,
meio animal e meio anjo, que se chama homem.
N'este momento, pois, o ponto interessante e capital a discutir vem a
ser este: Dos resultados já liquidados de todas as sciencias
particulares poderá sommar-se um capital de conhecimentos positivos,
capaz só por si de constituir a moral social?
Se a resposta feita pelos observadores, pelos moralistas, pelos
philosophos, fôr affirmativa, que elles tratem de formular esse codigo,
visto que a humanidade, eterna tutellada, abomina a independencia da sua
propria razão, e preciza de ter escripta, e reduzida a preceitos
dogmaticos, cada uma das leis a que tem de subordinar o seu destino.
Se a resposta, por emquanto, for negativa, trabalhe-se no sentido de
augmentar as riquezas já coordenadas, e tracte-se de chegar cedo á
conclusão pacificadora, pela qual todos nós anceiamos.
Acreditemos, para nossa consolação e para nosso descanço, que ha em nós,
independentemente de qualquer principio extranho, embora superior, a
aspiração permanente ao que é bom, ao que é bello, puro e harmonioso.
Muita vez, é claro, a paixão desvaira a mulher, mas a mulher religiosa
nem sempre escapa a esses desvairamentos, visto que a Historia os aponta
nos seculos do mais exaltado ascetismo. Não queiramos particularisar
tanto o sentimento da moralidade, que esta não possa viver senão ao
abrigo de qualquer templo.
É um mau serviço que fazemos, pois que não nos é dado a nós, nem a
ninguem, obstar a que o ideal religioso vá pouco a pouco cedendo o passo
á invasão triumphante, embora desconsoladora, da sciencia positiva e
experimental.
* * * * *
Escrevendo o que ahi fica, eu não tomo o partido contra as tendencias da
minha epocha, nem a favor d'ellas. Sou o relator imparcial do
espectaculo a que assisto. Não ha porém, a meu ver, tragedia mais
dolorosa do que esta de que o meu tempo é o theatro.
E sinto no fundo desconsolado e escuro da minha alma de mulher, aquella
ineffavel tristeza dilaceradora que Virgilio sentiu, quando, pelas
florestas do seu Lacio, ouviu passar a voz lamentosa e inolvidavel, que
annunciava ás gentes a morte do velho Pan!
Desgraçadas as gerações que são fatalmente condemnadas a assistirem ao
desmoronar de um mundo.
_OS IRMÃOS GONCOURT_
I
Um dos defeitos, ou, se preferem, uma das virtudes do nosso tempo é a
_curiosidade_.
Somos curiosos de tudo; descemos ás minuciosidades mais microscopicas, e
subimos ás mais altas generalisações. Nada eguala o cuidado attento com
que reunimos os documentos dispersos, que devem conduzir-nos á
acquisição de uma verdade qualquer, senão o poder de synthese com que
sabemos, do encadeamento de todos os phenomenos, tirar a lei que os
explica, relaciona e domina.
Em cada ramo do pensamento humano se revella, por todos os modos, a
nossa insaciavel e inquieta curiosidade.
A litteratura está, como todas as mais manifestações da actividade
physica ou mental do homem, subordinada a esta tendencia tão moderna do
nosso espirito. Os livros hoje interessam-nos principalmente, por nos
revellarem o machinismo interno de quem os escreveu, e atravez d'elle o
homem, com as suas contradicções e desordens mentaes, com os seus
desequilibrios, fraquezas, vicios e virtudes.
A critica tornou-se uma especie de romance historico, muito mais
interessante que os romances da imaginação.
Para conhecermos os homens, e d'entre os homens o escriptor,--quer
dizer, aquelle que mais deve ter condensado em si todas as energias
intellectuaes do seu seculo--pegamos nos seus livros e analysamos
miudamente, scientificamente, anatomicamente essas creações vivas que
elle nos legou.
Cada livro é um orgão ainda palpitante do corpo que estamos dissecando.
Não nos contentamos, porém, com o livro, desde logo destinado pelo seu
auctor a ser lido e interpretado pelo publico.
Queremos, exigimos, muito mais. As cartas, os diarios posthumos, as
confidencias involuntarias, pelas quaes a alma se manifesta
irresistivelmente, nas suas particularidades, nas suas idyosincrasias,
eis o que hoje nos satisfaz.
É extraordinaria a indiscricção com que temos ido rebuscar todos os
documentos do passado, para encontrarmos n'elles a alma occulta, a vida
mysteriosa e latente.
N'esse ponto, temos tido como instrumento maravilhoso de investigação e
de critica, o nosso proprio scepticismo, o nosso _dilletantismo_ tão
moderno, pelo qual nos é facil penetrar em todas as epochas,
comprehender todas as civilisações e assimilar todas as idéas, ainda as
mais oppostas e as mais extremas.
O passado, porém, já nos não basta. O homem do passado não é o homem
d'hoje. O seculo XVII não pensa como o seculo XVIII, do mesmo modo,
porque o nosso seculo não pensa como qualquer dos dois.
A alma contemporanea é bem mais complexa. Dizem que o cerebro moderno
tem mais circonvoluções. Pudera! Se elle tem por força muitas mais
idéas. Tem todas as que tinham os seus antecessores, e mais aquellas de
que fez a acquisição por seu esforço proprio.
E depois _sabe muito_, sabe de mais, este endemoninhado seculo! Não ha
coisa que não fôsse desenterrar para sobrecarregar mais e mais a memoria
e a consciencia.
Os que estão acima do nivel vulgar, os que por sua desgraça, pensam,
julgam e criticam, são todos mais ou menos _hystericos_. Ha uns
requintes doentios, uma etherisação morbida, um excesso de actividade
cerebral no homem da nossa geração, que fôram inteiramente desconhecidos
n'outras epocas mais equilibradas e mais sadias. O systema nervoso
desconjunta-se-lhes á força de o terem em continua e dolorosa vibração.
D'aqui as oscillações e os desequilibrios fataes de todo o mechanismo
interno.
Penetrarmos o _porquê_ d'essas aberrações, que nos surprehendem e
desorientam nos que são grandes pela imaginação e pelo talento, eis um
dos nossos eternos e justificaveis apetites.
É esse que nos leva a devorarmos tudo que são autobiographias, memorias,
correspondencias, indiscricções litterarias, sejam de que genero fôrem.
As cartas de Julio de Goncourt, o _Diario_ dos dois irmãos, ultimamente
publicado por Edmond de Goncourt, fôram, portanto, e estão sendo,
objecto da maior curiosidade da parte dos _gourmets_ litterarios de toda
a Europa, e não sei se da America tambem.
Os dois Goncourt, por muito tempo desconhecidos e _negados_, são hoje,
finalmente, considerados como os continuadores do pensamento de Balzac,
sob uma fórma litteraria, mais artistica, mais requintada, mais
_tourmentée_ que a do grande romancista da _Cousine Bette_.
N'este exercito, cujos generaes se chamam Flaubert, Zola, Daudet,--são
os Goncourt que vão na vanguarda, desbastando a grande floresta, em que
Balzac foi o primeiro a penetrar, com as suas passadas de gigante e a
força herculea do seu machado de explorador.
Esta geração começa a perceber quanto deve a Balzac; e é realmente
honroso para ella, pagar emfim a divida que os contemporaneos d'esse
escriptor assombroso, tão grande como Shakespeare, deixaram de solver!
Se os Goncourt são os precursores da escola chamada _naturalista_, e
cuja paternidade se attribue injustamente a Flaubert, é fóra de duvida
que elles, o proprio Flaubert, Zola, Daudet, e alguns discipulos
d'estes, são apenas os filhos espirituaes de Balzac.
Elles são incontestaveis e distinctos artistas; elle era o Genio.
Cada um d'elles tem a sua accentuada individualidade propria. Um, a
analyse impessoal, outro a amplificação e a força brutal e desregrada;
este a sensibilidade feminina quasi doentia; aquelle a fina intuição
psychologica, a _visão interior_ n'um grau de lucidez estranho.
Todos, porém, procedem do Mestre.
O seu largo sôpro creador penetra-os e inspira-os a todos. Nenhum
d'elles teria a magistral perfeição technica da fórma e a comprehensão
ampla do assumpto que tractam, na altura em que a possuem, se o auctor
da _Eugenie Grandet_, do _Pêre Goriot_, e de tantas obras immortaes lhes
não tivesse ensinado o caminho a seguir.
Os Goncourt, todavia, sendo os primeiros que se filiaram, sob uma fórma
diversa, na escola iniciada pelo genial creador da _Comedia Humana_, nem
por isso são os mais conhecidos e os mais apreciados. Só uma limitada
_élite_ intellectual seguiu com profundo interesse o trabalho d'estes
irmãos gemeos em litteratura.
Duas qualidades predominantes os distinguem. A finura subtil e delicada
da analyse e a linguagem que á força de _trabalhada_ adquiriu uma
fluidez, uma flexibilidade, uma sinuosidade ondeante, uma transparencia
crystalina, uns tons, uns cambiantes, umas côres que a tornam apta para
_notar_ e traduzir a impressão mais fugitiva, ou mais rara, o traço mais
leve, a sensação mais incoercivel, a sombra mais impalpavel do
pensamento, ou do sentimento humano.
Por estas duas qualidades se percebe já que os Goncourt não poderão
nunca ser uns escriptores populares. Só os delicados se comprazem
n'estas subtilezas da idéa e da fórma.
O que n'elles porém avulta a todos os olhos, é este phenomeno raro de
identificação, que fez de ambos _um_ só, sem que possa de modo algum
descriminar-se a parte em que qualquer d'elles concorreu para o trabalho
commum.
Edmond de Goncourt, quando perdeu o irmão mais novo, que estremecia como
uma porção da propria vida, como um membro do seu corpo, ou uma parcella
indivisivel da sua alma, ficou por largo tempo emmudecido, no lethargo
que succede aos grandes abalos da sensibilidade.
Sahiu d'esse estado, porém, e escreveu entre outros livros, muito
inferiores em todo o caso aos que tinham sido collaborados por Julio, um
estranho livro, que é necessario lêr attentamente, para que se possa
penetrar até certo ponto no segredo da maravilhosa união intellectual,
que fazia um só escriptor dos dois escriptores mais requintados e mais
vibrantes da moderna litteratura franceza.
Chama-se _Les frères Zenganno_ este livro que, á parte a linguagem, não
tem a meu vêr outro merito positivo que não seja a revelação ou antes a
critica d'esse phenomeno psychico-litterario de que acima fallámos.
_Les frères Zenganno_ são dois clowns, que trabalham sempre juntos,
conseguindo, por um milagre de gymnastica, harmonisar e identificar os
movimentos communs.
Percebe-se aqui a allusão ao trabalho litterario em que os dois
escriptores consumiram a existencia.
Entremeiados, porém, na obra, um pouco extravagante e levemente
phantastica, ha capitulos que são uma confidencia completa, e que mais
do que tudo que eu podesse dizer, explicam o caso phenomenal que tanto
interesse merece aos observadores, aos criticos e mesmo aos simples
profanos da arte.
Oiçamos por exemplo este trecho:
«Os dois irmãos não tinham um pelo outro um simples affecto fraternal.
Não. Estavam mutuamente ligados por laços mysteriosos, por affinidades
psychicas, e isto apesar de serem de idades muito diversas e de
caracteres diametralmente oppostos. Os seus primeiros movimentos
instinctivos eram identicamente os mesmos. Experimentavam sympathias ou
antipathias egualmente subitas, e quando iam a qualquer parte, sahiam do
sitio onde haviam estado, tendo a respeito das pessoas que tinham visto
uma opinião inteiramente similhante. Não só os individuos mas tambem as
cousas, com o _porquê_ irraciocinado do seu encanto ou do seu aspecto
desagradavel, lhes fallavam do mesmo modo a ambos. Emfim, as idéas,
essas creações do cerebro, cujo nascimento é d'uma phantasia tão livre,
e que tanta vez nos espantam pelo «não sei como» do seu apparecimento,
as idéas, de ordinario tão pouco simultaneas e tão pouco parallelas nas
uniões de coração entre homem e mulher, até as idéas nasciam commum aos
dois irmãos, que não raro, depois de uma pausa silenciosa se voltavam um
para o outro para se dizerem a mesma coisa, sem que achassem explicação
ao singular acaso que fazia encontrar nas suas boccas, duas phrases que
formavam apenas uma só. Assim moralmente _acolchetados_ um ao outro, os
dois irmãos precisavam de confundir constantemente os seus dias e os
seus serões, separavam-se sempre a custo, e cada um d'elles
experimentava na ausencia do outro, o sentimento estranho, indefinivel
de alguma coisa de incompleto e de mutilado.
«Quando um tinha sahido por algumas horas parecia que o que sahia levava
para fóra o poder de attenção do irmão que ficára em casa, e que não
podia fazer mais nada senão fumar até á volta do ausente.
«E se a hora annunciada para o regresso passava, o cerebro do que estava
á espera, enchia-se de desastres, de catastrophes, de accidentes
medonhos, de preoccupações estupidamente sinistras, que o faziam correr
continuamente do quarto á porta da rua. De modo que só forçadamente os
separavam; que um, nunca acceitava o convite que o outro não devesse
partilhar; e que, relembrando todos os annos da sua existencia commum,
elles só recordavam terem passado vinte e quatro horas completas, um
longe do outro.
«É necessario, porém, accrescentar que, entre os dois irmãos, este
estreitamento de fraternidade fôra feito por alguma coisa de mais
poderoso ainda que tudo isto. O trabalho de ambos achava-se tanto e tão
bem confundido, os seus exercicios de tal modo identificados, e tudo que
elles faziam unidos, parecia pertencer tão pouco a qualquer dos dois em
particular, que os applausos eram sempre dirigidos á associação e que
nunca o par tinha sido separado na censura ou no elogio. Era d'este modo
que estes dois seres tinham chegado ao ponto de constituirem _um_--e
caso raro, quasi unico nas amisades humanas--de não terem senão _um_
amor proprio, _uma_ vaidade, _um_ orgulho que o publico feria ou
acariciava ao mesmo tempo em ambos.»
Foi trabalhando d'este modo, tão subtilmente descripto pelo ultimo que
ficou, ferido e inconsolavel para sempre, que elles, fazendo da
physiologia o novo instrumento do romance contemporaneo, e levando para
os estudos delicadamente cinzelados da Historia o mesmo escrupulo de
analyse e a mesma finura extraordinaria de processo, pintaram, desde
_Maria Antoinette_ a adoravel, sympathica, leviana e altiva rainha, até
_Germinia Lacerteux_ a pobre e humilde creada, victima inconsciente e
fatal de um temperamento de hysterica; desde as deliciosas e corruptas
amantes de Luiz XV, até á doce e graciosa _Renée Mauperrin_; desde as
endemoninhadas cortezãs do seculo XVIII, até á austera e pensadora
madame Gervaisais; conseguindo, ao par d'isto, pôr tanta da vibrante
personalidade de ambos em toda a sua obra, que a gente reconhece-os em
Charles Demailly, o homem de lettras, victima da sua propria delicadeza
organica, e em dezenas de figuras, eminentemente modernas, que
atravessam as suas paginas impressionadoras e tão intensas de vida.
Ninguem exprimiu com uma penetração mais intima do que elles, a
_nevrose_ contemporanea com todos os seus simptomas de depravação ou
desequilibrio moral; a melancholia dos espiritos, exhaustos pelos
excessos de actividade mental; as baixas miserias da experiencia
quotidiana, tão cheia de catastrophes interiores e de angustias
dilaceradoras e invisiveis.
Mas tambem ninguem, como elles, resuscitou, em mais garrida e rendilhada
moldura, esse mundo galante, artistico, enfeitado, risonho, frivolo,
vicioso e triumphante, que principia na orgia da Regencia e acaba na
orgia da Revolução.