II

A vida dos dois heroes do livro é portanto, dilacerada obscuramente por

dissenções intimas, que ambos elles, por mais vontade que tenham de

facilitarem reciprocamente a felicidade commum, não podem evitar que se

levantem a cada passo.

Conclusão tremenda do auctor, indicada apenas, mas clara para todos os

olhos: a mulher piedosa não pode, dado o modo de ver do homem moderno,

achar a paz da consciencia, achar a harmonia das coisas na vida

conjugal.

Surge, porém, em scena, a mulher educada segundo o que Feuillet quer

imaginar o ideal moderno,--a mulher que lê Darwin, que applica na

existencia as theorias do grande sabio inglez, que conhece as sciencias

naturaes e que fortaleceu o seu espirito na formidavel negação que

d'ellas resulta como um effeito fatal,--e Feuillet reune n'ella todas as

monstruosidades, todos os crimes, desde a abdicação voluntaria da honra

até ao assassinio.

Perto da propriedade rural, para onde Bernardo de Vaudricourt consente

em retirar-se com a mulher, depois d'esta ir quasi que morrendo de dôr

na vida de dissipação parisiense que ao principio é obrigada a seguir,

vive um medico retirado da clinica, um chimico notavel, que fez da

sobrinha e pupilla uma discipula dilecta da sua philosophia

materialista, uma companheira dos seus trabalhos scientificos, uma

ajudante das suas experiencias chimicas e physiologicas.

Sabina, a sobrinha do doutor, é, segundo Feuillet parece pensar, a

mulher moderna, tal qual vae ser, creada pela educação que a França está

dando ás suas filhas.

Pois Sabina envenena Aliette para casar com Bernardo; consegue casar com

este, depois de ter feito morrer de degosto o tutor e tio, e a breve

trecho é infiel ao marido, com o primeiro que lhe apparece diante dos

olhos, e responde muito serena a quem ousa interrogal-a, que fazendo

tudo isto, e muito mais ainda, se é possivel fazer-se mais, ella segue

simplesmente até ás suas consequencias logicas as doutrinas com que lhe

embeberam o espirito infantil.

Quando o doutor Tallevaut descobre o horrivel crime commettido pela sua

adorada sobrinha e lh'o lança em rosto antes da apoplexia que o fulmina,

ella responde-lhe que é apenas sua humilde discipula.

--«Minha discipula, miseravel! exclama o desgraçado. Pois eu ensinei-te

alguma vez principios diversos d'aquelles que eu proprio praticava? Pois

eu dei-te, pela minha palavra ou pelo meu exemplo, outras lições que não

fossem de rectidão, de justiça, de humanidade e de honra?...

--«Realmente o meu tio surprehende-me immenso. Como é que um espirito

tão lucido poude deixar de perceber, que eu podia tirar das suas

doutrinas e dos nossos estudos communs, consequencias e ensinamentos

diversos d'aquelles que o seu espirito tirava? A arvore da Sciencia, não

produz em todos os terrenos os mesmos fructos?... Fallou-me de rectidão,

de justiça, de humanidade e de honra?... Espanta-se que as mesmas

theorias que lhe inspiraram essas virtudes m'as não houvessem inspirado

a mim?... E com tudo a rasão d'isto é bem simples... Sabe tão bem como

eu, que essas suppostas virtudes, são na realidade facultativas... pois

que não passam de instinctos... de verdadeiros preconceitos que a

natureza nos impõe... por que necessita d'elles para a conservação e

progresso da sua obra... Gosta de submetter-se a esses instinctos... eu

não gosto... eis a unica differença que nos separa.

«--Mas eu não te disse e não repeti mil vezes, desgraçada, que o dever,

a honra, a propria felicidade consistiam na submissão a essas leis

naturaes, a essas leis divinas?!

--Disse-m'o, «e assim o julga, bem sei... Eu, pela minha parte, creio o

contrario. Creio que o dever, que a honra d'uma creatura humana consiste

em revoltar-se contra essas servidões, em sacudir essas cadeias com que

a natureza... ou Deus, como quizer, nos prende, nos opprime, para nos

fazer cooperar, contra a nossa propria vontade, n'um fim desconhecido...

n'uma obra a que somos estranhos... Ah! de certo. O meu tio disse-me e

repetiu-me mil vezes que era para si não sómente um dever, mas até uma

alegria, o poder contribuir humildemente pelos seus trabalhos e pelas

suas virtudes para não sei que obra divina, para não sei que fim

superior e mysterioso, que é como o alvo supremo, a que o universo se

encaminha...

Mas que quer? esses prazeres deixam-me a mim perfeitamente insensivel;

não tenho o minimo desejo de levar a vida a constranger-me, a privar-me,

a soffrer, para preparar, a não sei que futura humanidade, um estado de

felicidade e de perfeição, do qual nada gosarei, festas a que não posso

assistir, paraizos, emfim, onde não entrarei nunca!...

......................................................................

E depois de continuar n'este tom meia hora, amontoando paradoxos,

argumentos falsissimos, dos quaes a sciencia humana nunca, que eu saiba,

se serviu, acrescenta:

«Um crime foi o que eu perpetrei?... Mas isto de crime não passa d'uma

palavra, bem sabe.

«O que é o bem? O que é o mal? O que é verdadeiro e o que é falso?

«Na realidade o codigo da moral humana não passa hoje d'uma pagina em

branco, na qual cada um escreve o que quer, segundo a sua intelligencia

e o seu temperamento.

«Já não ha senão cathecismos individuaes... O meu é aquelle que me foi

pregado pelo exemplo da propria Natureza: ella elimina com egoismo

impassivel tudo que a incommoda; ella supprime tudo que lhe é obstaculo;

ella esmaga o fraco, para dar logar ao forte... e creia que não é de

hoje que esta doutrina é acceite pelos espiritos livres e superiores. Em

todos os tempos se disse: os bons vão-se embora cedo! Não, não são os

bons que se vão embora, são os fracos, e não fazem mais que o seu dever.

Quando a gente lhes presta n'este sentido um pequeno auxilio, imita

apenas o exemplo do creador! Leia o seu Darwin; leia o seu Darwin, meu

tio!»

O pobre do tio responde a esta bella tirada caindo varado por uma

congestão; e Sabina d'ahi a pouco tempo, casada já com Bernardo,

responde ao marido, que a accusa de faltar aos deveres mais elementares

da mulher, pelo mesmo modo emphatico e pedantesco, e com os mesmos

argumentos falseados, desformisados pela vontade do escriptor.

Por tanto a ignorancia de Feuillet a respeito de Darwin, ou a sua má fé

litteraria, é evidente na intenção d'esta obra.

Eu não conheço profundamente a doutrina do naturalista inglez; mas

conheço-a bastante para poder affirmar que nem essa doutrina é uma

philosophia, nem Octave Feuillet tem d'ella a comprehensão mais

elementar.

Darwin, dos seus estudos analyticos e das suas observações e

experiencias, deduziu algumas leis com applicação restrictamente

biologica, e que só por um aventuroso esforço de analogia se podem

applicar á sociologia e á historia.

A selecção natural, a luta pela vida no mundo organico não passaram

ainda de hypotheses, segundo o rigoroso criterio da philosophia

positiva; mas, quando chegassem a converter-se em leis perfeitamente

liquidadas, haveria entre o dominio d'essas leis e os factos superiores

do pensamento, a mesma distancia scientifica que vae de quaesquer

theorias geneseticas do mundo até quaesquer systemas de embryogenia

animal.

Resta-nos, por tanto, a convicção de que o auctor procedeu de má fé.

As applicações da doutrina de Darwin aos factos sociaes, feitas pelos

mais illustres dos seus discipulos, por Spencer por exemplo, estão

penetradas de um espirito moral austero e digno, a que faltará talvez

uma base scientifica, mas a que não faltam de certo a elevação e a

belleza. Feuillet, por conseguinte, é tão exacto, é tão verdadeiro, é

tão honesto na sua obra como seria qualquer livre pensador que, para

combater a moral catholica, a mostrasse exemplificada na devassidão de

Alexandre Borgia, no instincto sanguinariamente devoto de Carlos IX, no

fervor assassino de Torquemada, no fanatismo criminoso dos que acenderam

as fogueiras da inquisição, dos que vibraram o punhal da S. Barthelemy,

dos que bem disseram as dragonadas de Nantes, dos que organisaram a

matança dos Algibenses, dos que teriam perdido a Egreja, se a Egreja não

tivesse a salval-a na historia, e ainda na actualidade, a sua missão

civilisadora pela disciplina, pela arte, pela politica, pela unidade,

pela sciencia, e, sobretudo, e principalmente, por ter mantido sempre,

acima do interesse dos individuos e do egoismo das nações, o principio

da humanidade, que antes d'ella o mundo não conhecera.

Aquelles todos comprehenderam tão bem o catholicismo, como a heroina de

Feuillet comprehendeu o alcance moral, pequeno ou grande, que pode

extrair-se da doutrina darwiniana.

Já se vê que o que pode concluir-se do livro de Octave Feuillet é

realmente desconsolador até á desolação mais intima e mais profunda.

A piedosa e doce mulher christã, collocada em plena sociedade elegante

do seculo XIX, tem que fugir, por que principia a perder pé, e tem medo

de naufragar. Entre ella e seu marido nunca chega a realisar-se a união

intellectual, a invejavel identificação de duas almas, sem a qual o

casamento é apenas a attracção dos dois sexos, legalisada perante Deus e

perante o mundo.

A vida intima que todos sonham tão penetrada de luz beatifica, tão

unida, tão ardentemente vivida por dois espozos moços, intelligentes,

namorados, torna-se para qualquer d'elles um lento e obscuro supplicio

que os punge, e que, por mutua caridade, elles tentam disfarçar.

A mulher, desligada do ideal catholico, é o monstro que mata, que

atraiçoa, que morde a mão que a alimentou, que precipita na deshonra e

na inconsolavel dôr o marido que a estremeceu?... Que ha então a

fazer?... Que alvitre proporá o auctor de _une morte_?... Eu por mim

humildemente declaro que não concordo com o que elle diz, que não

acceito, as suas aterradoras conclusões.

Alguns homens do meu tempo: impressões litterarias · 第 26 / 32 题