A vida dos dois heroes do livro é portanto, dilacerada obscuramente por
dissenções intimas, que ambos elles, por mais vontade que tenham de
facilitarem reciprocamente a felicidade commum, não podem evitar que se
levantem a cada passo.
Conclusão tremenda do auctor, indicada apenas, mas clara para todos os
olhos: a mulher piedosa não pode, dado o modo de ver do homem moderno,
achar a paz da consciencia, achar a harmonia das coisas na vida
conjugal.
Surge, porém, em scena, a mulher educada segundo o que Feuillet quer
imaginar o ideal moderno,--a mulher que lê Darwin, que applica na
existencia as theorias do grande sabio inglez, que conhece as sciencias
naturaes e que fortaleceu o seu espirito na formidavel negação que
d'ellas resulta como um effeito fatal,--e Feuillet reune n'ella todas as
monstruosidades, todos os crimes, desde a abdicação voluntaria da honra
até ao assassinio.
Perto da propriedade rural, para onde Bernardo de Vaudricourt consente
em retirar-se com a mulher, depois d'esta ir quasi que morrendo de dôr
na vida de dissipação parisiense que ao principio é obrigada a seguir,
vive um medico retirado da clinica, um chimico notavel, que fez da
sobrinha e pupilla uma discipula dilecta da sua philosophia
materialista, uma companheira dos seus trabalhos scientificos, uma
ajudante das suas experiencias chimicas e physiologicas.
Sabina, a sobrinha do doutor, é, segundo Feuillet parece pensar, a
mulher moderna, tal qual vae ser, creada pela educação que a França está
dando ás suas filhas.
Pois Sabina envenena Aliette para casar com Bernardo; consegue casar com
este, depois de ter feito morrer de degosto o tutor e tio, e a breve
trecho é infiel ao marido, com o primeiro que lhe apparece diante dos
olhos, e responde muito serena a quem ousa interrogal-a, que fazendo
tudo isto, e muito mais ainda, se é possivel fazer-se mais, ella segue
simplesmente até ás suas consequencias logicas as doutrinas com que lhe
embeberam o espirito infantil.
Quando o doutor Tallevaut descobre o horrivel crime commettido pela sua
adorada sobrinha e lh'o lança em rosto antes da apoplexia que o fulmina,
ella responde-lhe que é apenas sua humilde discipula.
--«Minha discipula, miseravel! exclama o desgraçado. Pois eu ensinei-te
alguma vez principios diversos d'aquelles que eu proprio praticava? Pois
eu dei-te, pela minha palavra ou pelo meu exemplo, outras lições que não
fossem de rectidão, de justiça, de humanidade e de honra?...
--«Realmente o meu tio surprehende-me immenso. Como é que um espirito
tão lucido poude deixar de perceber, que eu podia tirar das suas
doutrinas e dos nossos estudos communs, consequencias e ensinamentos
diversos d'aquelles que o seu espirito tirava? A arvore da Sciencia, não
produz em todos os terrenos os mesmos fructos?... Fallou-me de rectidão,
de justiça, de humanidade e de honra?... Espanta-se que as mesmas
theorias que lhe inspiraram essas virtudes m'as não houvessem inspirado
a mim?... E com tudo a rasão d'isto é bem simples... Sabe tão bem como
eu, que essas suppostas virtudes, são na realidade facultativas... pois
que não passam de instinctos... de verdadeiros preconceitos que a
natureza nos impõe... por que necessita d'elles para a conservação e
progresso da sua obra... Gosta de submetter-se a esses instinctos... eu
não gosto... eis a unica differença que nos separa.
«--Mas eu não te disse e não repeti mil vezes, desgraçada, que o dever,
a honra, a propria felicidade consistiam na submissão a essas leis
naturaes, a essas leis divinas?!
--Disse-m'o, «e assim o julga, bem sei... Eu, pela minha parte, creio o
contrario. Creio que o dever, que a honra d'uma creatura humana consiste
em revoltar-se contra essas servidões, em sacudir essas cadeias com que
a natureza... ou Deus, como quizer, nos prende, nos opprime, para nos
fazer cooperar, contra a nossa propria vontade, n'um fim desconhecido...
n'uma obra a que somos estranhos... Ah! de certo. O meu tio disse-me e
repetiu-me mil vezes que era para si não sómente um dever, mas até uma
alegria, o poder contribuir humildemente pelos seus trabalhos e pelas
suas virtudes para não sei que obra divina, para não sei que fim
superior e mysterioso, que é como o alvo supremo, a que o universo se
encaminha...
Mas que quer? esses prazeres deixam-me a mim perfeitamente insensivel;
não tenho o minimo desejo de levar a vida a constranger-me, a privar-me,
a soffrer, para preparar, a não sei que futura humanidade, um estado de
felicidade e de perfeição, do qual nada gosarei, festas a que não posso
assistir, paraizos, emfim, onde não entrarei nunca!...
......................................................................
E depois de continuar n'este tom meia hora, amontoando paradoxos,
argumentos falsissimos, dos quaes a sciencia humana nunca, que eu saiba,
se serviu, acrescenta:
«Um crime foi o que eu perpetrei?... Mas isto de crime não passa d'uma
palavra, bem sabe.
«O que é o bem? O que é o mal? O que é verdadeiro e o que é falso?
«Na realidade o codigo da moral humana não passa hoje d'uma pagina em
branco, na qual cada um escreve o que quer, segundo a sua intelligencia
e o seu temperamento.
«Já não ha senão cathecismos individuaes... O meu é aquelle que me foi
pregado pelo exemplo da propria Natureza: ella elimina com egoismo
impassivel tudo que a incommoda; ella supprime tudo que lhe é obstaculo;
ella esmaga o fraco, para dar logar ao forte... e creia que não é de
hoje que esta doutrina é acceite pelos espiritos livres e superiores. Em
todos os tempos se disse: os bons vão-se embora cedo! Não, não são os
bons que se vão embora, são os fracos, e não fazem mais que o seu dever.
Quando a gente lhes presta n'este sentido um pequeno auxilio, imita
apenas o exemplo do creador! Leia o seu Darwin; leia o seu Darwin, meu
tio!»
O pobre do tio responde a esta bella tirada caindo varado por uma
congestão; e Sabina d'ahi a pouco tempo, casada já com Bernardo,
responde ao marido, que a accusa de faltar aos deveres mais elementares
da mulher, pelo mesmo modo emphatico e pedantesco, e com os mesmos
argumentos falseados, desformisados pela vontade do escriptor.
Por tanto a ignorancia de Feuillet a respeito de Darwin, ou a sua má fé
litteraria, é evidente na intenção d'esta obra.
Eu não conheço profundamente a doutrina do naturalista inglez; mas
conheço-a bastante para poder affirmar que nem essa doutrina é uma
philosophia, nem Octave Feuillet tem d'ella a comprehensão mais
elementar.
Darwin, dos seus estudos analyticos e das suas observações e
experiencias, deduziu algumas leis com applicação restrictamente
biologica, e que só por um aventuroso esforço de analogia se podem
applicar á sociologia e á historia.
A selecção natural, a luta pela vida no mundo organico não passaram
ainda de hypotheses, segundo o rigoroso criterio da philosophia
positiva; mas, quando chegassem a converter-se em leis perfeitamente
liquidadas, haveria entre o dominio d'essas leis e os factos superiores
do pensamento, a mesma distancia scientifica que vae de quaesquer
theorias geneseticas do mundo até quaesquer systemas de embryogenia
animal.
Resta-nos, por tanto, a convicção de que o auctor procedeu de má fé.
As applicações da doutrina de Darwin aos factos sociaes, feitas pelos
mais illustres dos seus discipulos, por Spencer por exemplo, estão
penetradas de um espirito moral austero e digno, a que faltará talvez
uma base scientifica, mas a que não faltam de certo a elevação e a
belleza. Feuillet, por conseguinte, é tão exacto, é tão verdadeiro, é
tão honesto na sua obra como seria qualquer livre pensador que, para
combater a moral catholica, a mostrasse exemplificada na devassidão de
Alexandre Borgia, no instincto sanguinariamente devoto de Carlos IX, no
fervor assassino de Torquemada, no fanatismo criminoso dos que acenderam
as fogueiras da inquisição, dos que vibraram o punhal da S. Barthelemy,
dos que bem disseram as dragonadas de Nantes, dos que organisaram a
matança dos Algibenses, dos que teriam perdido a Egreja, se a Egreja não
tivesse a salval-a na historia, e ainda na actualidade, a sua missão
civilisadora pela disciplina, pela arte, pela politica, pela unidade,
pela sciencia, e, sobretudo, e principalmente, por ter mantido sempre,
acima do interesse dos individuos e do egoismo das nações, o principio
da humanidade, que antes d'ella o mundo não conhecera.
Aquelles todos comprehenderam tão bem o catholicismo, como a heroina de
Feuillet comprehendeu o alcance moral, pequeno ou grande, que pode
extrair-se da doutrina darwiniana.
Já se vê que o que pode concluir-se do livro de Octave Feuillet é
realmente desconsolador até á desolação mais intima e mais profunda.
A piedosa e doce mulher christã, collocada em plena sociedade elegante
do seculo XIX, tem que fugir, por que principia a perder pé, e tem medo
de naufragar. Entre ella e seu marido nunca chega a realisar-se a união
intellectual, a invejavel identificação de duas almas, sem a qual o
casamento é apenas a attracção dos dois sexos, legalisada perante Deus e
perante o mundo.
A vida intima que todos sonham tão penetrada de luz beatifica, tão
unida, tão ardentemente vivida por dois espozos moços, intelligentes,
namorados, torna-se para qualquer d'elles um lento e obscuro supplicio
que os punge, e que, por mutua caridade, elles tentam disfarçar.
A mulher, desligada do ideal catholico, é o monstro que mata, que
atraiçoa, que morde a mão que a alimentou, que precipita na deshonra e
na inconsolavel dôr o marido que a estremeceu?... Que ha então a
fazer?... Que alvitre proporá o auctor de _une morte_?... Eu por mim
humildemente declaro que não concordo com o que elle diz, que não
acceito, as suas aterradoras conclusões.