I
Visto que é da França que nos vem o santo e a senha, olhemos para a
França, onde litterariamente se discutem sempre questões geraes, que a
todos interessam.
N'este momento, e como que em protesto á obra naturalista e á escola que
a produz--escola de que Zola está dando a formula no seu ultimo livro:
_L'oeuvre_--Octave Feuillet, o velho romantico, acaba de publicar, na
_Revista dos Dois Mundos_, um estudo intitulado: a _Morta_.
A _Morta_ é uma especie de pamphleto, escripto na adoravel maneira, um
pouco falsa, do elegante romancista contra a invasão crescente e
victoriosa das ideias modernas.
Ora o que os velhos de todos os tempos, de todas as raças, de todas as
civilisações chamam _ideias modernas_, combate-se sim, mas não se vence.
A evolução permanente, a lenta transformação fatal das ideias humanas,
está fóra da acção exercida pela vontade individual.
Cada geração traz o seu contingente á formação d'esse inventario enorme,
que é feito de todas as riquezas do pensamento e de todas as acquisições
progressivas da Sciencia, e ninguem tem no seu poder regeitar ou
acceitar um facto que é de si inevitavel.
As ideias modernas triumpham sempre, e é por isso mesmo que a humanidade
não pára, e caminha incansavelmente á procura do que julga _melhor_.
Imagina enganar-se?
Muito embora!
Retrocede, mas não pára.
E, n'esses momentos de retrocesso os velhos, que assistem a um
espectaculo diverso d'aquelle a que assistiram moços, continuam a chamar
_ideias modernas_ ao que mais propriamente se chamaria _ideias
renovadas_.
O _naturalismo_ exigente, exagerado ou brutal, tal como elle hoje tenta
estabelecer-se na arte e nos costumes, será uma invenção moderna?
Decerto que não!
Na Grecia encontramol-o soberbo, triumphante, constituindo só por si a
religião, a lei, a moral, a civilisação completa, harmoniosa e feliz,
que é ainda o modelo para o qual todos os olhos se levantam embevecidos
e saudosos.
Na derrocada final do mundo romano, achamol-o como um facto
irresistivel, como uma manifestação inconsciente de força, na onda
germanica que invade o imperio caduco, e vem refundir physiologica e
moralmente a raça cuja actividade especulativa, levada aos requintes
extremos, se tornara na mais rapida e fatal das decadencias.
Mais tarde, ao sair das trevas gothicas, o que foi o mundo, senão o
mesmo que hoje está sendo com menos pompa decorativa, com menos vigor
physico e moral, com menos vivo sentimento do pittoresco?
A ideal exaltação de que o _romantismo de 1830_ fez escola, seria
porventura, n'aquella quadra, uma _ideia moderna_?
O que foram as epochas de cavallaria, ao mesmo tempo mystica e sensual,
o que foi a quadra das _côrtes de amor_, dos trovadores e dos pagens,
dos cultos platonicos levados até ao exagero ridiculo, dos enthusiasmos
apaixonados e symbolicos pela mulher, senão a traducção na litteratura e
nos costumes do mesmo estado mental, menos requintado, menos perfeito,
menos contradictorio, menos complexo, menos _civilisado_ emfim?
Já nada ha moderno sob a face dos ceus!
_Nous sommes revenus de tout_, mas depois de tudo havermos
experimentado!...
Como quer que seja, Octave Feuillet fez um romance, combatendo as ideias
modernas, e poz n'esse romance, delicioso em todo o caso, todas as suas
qualidades e todos os seus defeitos de escriptor.
Entendamo-nos:
Octave Feuillet não é um escriptor profundo, é um escriptor elegante.
Pinta com uma seducção de pincel muito sua, pinta de _chic_, na phrase
de _atelier_, uma certa especie particular da sociedade franceza.
A aristocracia refinada, devota e monarchica, adora Feuillet, a quem no
fim de contas não deve muito, porque se quasi todas as suas mulheres são
encantadoras de graça e distincção, n'ellas a virtude é, raramente, um
principio inabalavel; em quanto que a fraqueza é na maior parte das
vezes um requinte delicioso.
A gente gosta de ler Feuillet, como gosta de estar n'um salão elegante.
Conversa-se ali bem, no tom discreto e _nuancé_ das conversações
aristocraticas; respira-se um aroma de feno, ou de tilia, que tem
suavidade sem produzir entontecimentos; as reticencias, subtilmente
accrescentadas á phrase, dão a esta um sabor vivo e penetrante, sem
todavia melindrarem de leve as conveniencias mais correctamente
exigentes; as intenções finissimas sublinham o dialogo, a graça da
observação substitue-se á profundeza dolorosa da analyse.
A paixão nunca ali soltou o seu uivo estridulo e dilacerante. Ama-se,
como se faz tudo o mais... correctamente.
O homem é, primeiro que tudo, _gentleman_; a mulher é, antes de mais
nada, senhora!
As paginas de Feuillet poderiam ler-se á vontade n'um d'estes adoraveis
salões convencionaes, que todo o artista aprecia, mas no qual elle não
aprenderia nunca a conhecer a rude naturesa brutal, a que tem exigencias
fataes, a que tem gritos de paixão impetuosa, a que, pelo amor robusto e
sagrado da verdade, atira por terra todas as hypocrisias, todas as
convenções, todos os veus, todos os sophismas que a mascaram, que a
desformisam, que a falseiam, que fazem d'ella uma coisa immoral e cahida
no desagrado das familias.
Feuillet é pois genuinamente, o romancista para a ordem de pessoas acima
descriptas, o romancista distincto na mundana accepção da phrase.
São deploraveis os seus imitadores, como são detestaveis na burguezia os
salões que tentam imitar a inimitavel graça aristocratica dos outros.
Sob este ponto de vista, um pouco restricto, é que o escriptor tem de
ser julgado.
Consideral-o um observador profundo, um psycologico completo, um
moralista convencido, é pol-o inteiramente fóra da esphera que lhe é
propria.
Com tudo, tal é o desejo que toda a gente professa de fazer
positivamente aquillo para que não tem o minimo geito, que Feuillet teve
sempre a tentação de versar e discutir problemas moraes e problemas
phylosophicos da mais alta importancia.
Na _Histoire de Sybille_, elle já pintou, delicadamente, finamente, com
uma subtilesa de mão encantadora, o conflito que póde dar-se na moderna
sociedade entre a mulher educada dentro do ideal catholico mais
orthodoxo, e o homem nascido e creado no meio sceptico e indifferente
que nos envolve.
Respondeu a este livro--que desejava ser uma these philosophica, e, que
foi apenas, felizmente para o auctor, uma novella encantadora,--a
_Mademoiselle de La Quintinie_, de George Sand, e lembro-me d'esse
volume como d'um dos mais aridos e mais seccantes da grande escriptora.
É que a _these_ feita _romance_ é quasi sempre pretenciosamente
enfadonha.
Agora, é ainda um livro d'esta ordem, o ultimo livro do auctor do _Conde
de Camors_.
Duas questões de uma só vez tenta elle tratar no seu livro. O problema
terrivel do casamento, e o problema não menos perturbante, não menos
difficil, da moderna educação da mulher.
Vejamos o enredo do livro:
Bernardo de Vaudricourt, um moço pariziense da primeira nobreza, da
primeira roda e de primeira educação, apaixona-se por uma menina de
eguaes condições de posição, nobreza e fortuna.
Elle, porem, inteiramente contaminado pelas ideias do mundo em que tem
vivido, é uma completa imagem do scepticismo contemporaneo.
Já se vê que não tem tido tempo de sondar o que ha, no fundo das
questões que regeita.
E sceptico como... toda a gente. Nem melhor nem peior, nem mais nem
menos.
A controversia philosophica ou religiosa nunca lhe levou nem uma hora
dos dias occupados em montar a cavallo, em caçar, em valsar, em seduzir
as mulheres dos seus amigos intimos, em jogar no seu _club_, e em encher
de brilhantes o peito das actrizes em voga. Que querem! É sceptico por
dever de sociedade.
Qual é o homem do _sport_ que se atreveria a confessar-se crente nos
dias que vão correndo?
Sciencia não a tem, já se vê, mas visto que não sabe quasi nada, entende
mais commodo não acreditar no que não sabe.
Como gentil homem que é, tem o que na sua raça, no seu meio, se chama o
culto da honra.
A _honra_ é a coisa mais indefinivel e mais elastica que ha n'este
mundo.
Dentro dos seus limites cabem tantas e tão boas coisas, que não vale
realmente a pena a quem se respeita, ultrapassal-os e excedel-os!
Aliette de Courteheuse, a noiva, é um anjo de puresa, mas é tambem um
anjo de piedade orthodoxa. Educaram-n'a dentro do codigo genuinamente
catholico; ás crenças que a familia lhe communicou pela educação, reune
uma exaltada comprehensão dos deveres e da vida, e um certo desdem
aristocratico pela actualidade tão banal e tão cheia de contrasensos,
tão feita de transigencias e de covardias.
O amor porém, vence os obstaculos moraes que separam estes dois
caracteres tão contrarios, e Bernardo casa-se com Aliette de
Courteheuse.
A parte mais estudada do romance é aquella em que Feuillet conta,
analysa, descreve e sublinha subtilmente todos os conflictos inevitaveis
que d'esta união vão resultar.
Porque Aliette não é uma d'estas catholicas, que harmonisam o baile com
os officios, a confissão com as desordens de uma vida _à outrance_, o
mundanismo requintado, com as praticas mais estreitas.
Não!
Esta é uma crente, uma alma que identificou a sua religião e o seu
dever, e fez dos dois estreitamente entrelaçados a lei suprema da sua
existencia inteira. Esta não é das que pegam no seu _catholicismo_, como
quem pega no seu livro de missa: unicamente para os levar á egreja.
Tudo que ella pensa, tudo que ella sente, tudo que ella pratica, se
subordina ao alto principio a que submetteu a sua vida.
No museu de pintura, no theatro, nas salas elegantes onde a vida moderna
ostenta as pompas viciosas do seu goso, no interior da familia, ao pé
dos indifferentes e ao pé do seu marido Aliette é sempre
impeccavelmente, a bella e escrupulosa creatura, que para se respeitar a
si propria, precisa de não transigir com os sophismas e as contradicções
dos outros, que para não descer aos seus olhos, precisa de não afastar
os passos que dá do ideal que concebeu!
Realise-se esta hypothese figurada pelo primoroso romancista,--a mulher
profundamente e sinceramente religiosa ao pé do marido indifferente para
umas coisas, incredulo para outras, sempre divorciado moralmente da
mulher amada,--e ter-se-ha esse obscuro inferno da vida domestica tantas
vezes apontado, tantas vezes combatido por mim.
O casamento tem só uma base moral, séria e inviolavel; é a uniformidade
de vistas entre marido e mulher a respeito das questões fundamentaes da
vida.
A felicidade, sem essa base, é uma chymera irrealisavel, e eis o motivo
porque em cem casamentos desgraçados, ha um que o não seja.