VI

Chegando ao termo d'este trabalho percebo que ha n'elle, além dos mil

defeitos que outros lhe notarão, uma lacuna enorme que eu propria

reconheço.

Tentando explicar o pensador, eu não tenho dado ao poeta o merecido

relevo que elle tem; quero dizer, o pensamento d'estes _sonetos_ tem-me

ás vezes feito esquecer a belleza singular da sua forma artistica!

Parece que o soneto, pelos moldes precisos e rigorosos em que se vaza,

seria o menos proprio dos generos de poesia para fixar, em formosa

esculptura, as abstracções metaphysicas em que o genio de Anthero do

Quental se compraz principalmente.

Porque este poeta não é como H. Heine, apezar de tantas similhanças que

os aproximam, apesar de serem a negação e a duxida as muzas principaes

da sua inspiração, e de ambos representarem, sob uma fórma de grande

arte, este periodo de transição entre as velhas crenças e as novas

convicções do espirito, que a analyse paciente e complicada está

elaborando ainda. O poeta allemão tem a impressão directa das coisas, e

é n'ellas, e não nas idéas, que elle distingue a linha comica, a

contradicção irreductivel, a impassibilidade perfeita diante das velhas

theorias que decahem e agonisam; Anthero do Quental eleva essas dôres á

abstracção suprema do seu espirito, a uma especie de metaphysica

imaginosa e vaga, que pareceria impossivel a um temperamento peninsular

aquecido pelo nosso sol, vivificado pelo nosso clima, cingido no

circulo, impressionador e ardente, dos seus horisontes de ouro e de

fogo. A sua poesia é como o reflexo fluctuante, caprichoso e indeciso,

das contradicções, das amarguras, das tristezas e dos sonhos do nosso

tempo; ella canta a dôr de toda uma geração que a si propria se estuda,

sonda e interroga, e sendo profundamente pessoal, como é, repercute-se e

vibra todavia em muitas almas egualmente angustiadas e vacillantes.

Não tendo, pois, antecedentes da mesma especie, foi-lhe necessario

crear, dentro da velha fórma consagrada, uma forma nova; e d'esta

difficuldade sahiu-se admiravelmente Anthero de Quental. Os seus sonetos

trazem a marca do auctor; não se confundem com nenhuns outros. Muitas

vezes tem de sacrificar a melodia do verso á extensão e ao vigor do

pensamento; n'esse caso não hesita, e o pensador vence n'elle o poeta.

De todos os poetas que eu conheço ha um que Anthero me lembra muitas

vezes. É Sully Prudhomme. Mas devo accrescentar que a individualidade

accentuada de Anthero escapa incolume a toda a comparação e a todo o

confronto.

Já ouvi, não me recordo n'este momento a quem, que o livro dos _Sonetos_

lembra tambem em muitos pontos o _Diario_ de Amiel. É que realmente

estas duas obras, diversissimas entre si, filiam-se na mesma necessidade

inteiramente moderna que o homem sente de auscultar-se, de conhecer-se,

e de fazer a si proprio innumeras perguntas.

A antiguidade não tinha este prurido de penetração psychologica; por

isso a antiguidade foi feliz, radiosa, activa e sã.

Comtudo, dado o nosso gosto pronunciado para este genero de estudos,

ainda bem que Anthero escreve, e que Amiel escreveu. Se o primeiro não

tivesse cantado muitos dos seus adoraveis e extranhos sonetos, se o

segundo não tivesse _notado_, momento a momento, os cambiantes de uma

alma tão extraordinariamente e tão morbidamente complicada,

perder-se-hiam documentos inapreciaveis para o estudo completo da alma

contemporanea.

Amiel, que, emquanto viveu, foi obscuro e desconhecido, e que, morto,

inspirou a muitos dos mais subtis moralistas modernos, taes como Renan,

Caro, Bourget, etc., estudos minuciosos e delicados, soffria, como

Anthero, de um excesso de _vida interior_, origem de desiquilibrios

dolorosos. A solidão, em que Anthero vive e em que viveu Amiel, aggrava

este estado, fazendo-o degenerar, de riqueza fecunda e rara, que pode

ser, na perigosa doença que a _élite_ do nosso tempo soffre com raras

excepções: o enfraquecimento progressivo nos orgãos que determinam a

acção e predispõem para o combate.

Para este mal, o remedio efficaz e supremo seria o contacto de outros

espiritos, o attricto com outras intelligencias hostis ou apenas

finamente e subtilmente criticas, porque se a convivencia com os homens

nos faz perder a independencia absoluta do espirito, ou a originalidade

profunda dos que não vão na corrente da opinião geral, nem tão pouco

navegam contra ella--o que é ainda um modo de a considerar--é claro que,

em compensação, ella nos torna mais aguerridos para a lucta, mais

tenazes nos nossos propositos e mais vivos nas nossas ambições.

Tanto Amiel como Anthero encarnam, pois, com extranha intensidade essa

doença que se traduz pelas hesitações do querer, e pelas fluctuações

permanentes do pensar. Para ambos a vida perdeu as linhas reaes, fixas e

positivas, com que ella apparece ao espirito pratico das raças latinas,

tornando-se no que é para os espiritos, ethnologicamente ou moralmente

germanicos, para Carlyle ou para Goethe, para Shopenhauer ou para

Shakspeare, um não sei que de indeterminado e de fluctuante, um sonho

que apparece confuso, nebuloso e phantastico, sempre prestes a

decompôr-se em transformações successivas, sempre em via de

desmanchar-se e de refazer-se em condições novas.

A Allemanha tem a palavra propria que exprime esta concepção das coisas;

nós não a temos, de tal modo ella repugna ao espirito da nossa raça!

Mas Anthero de Quental longe de ter adoptado a linguagem semi-barbara á

força de requintada, com que Amiel pretendeu naturalisar latinas

abstracções puramente e genuinamente germanicas, é pelo contrario um

escriptor de raça, um escriptor de primeira ordem, dando ao seu sonho,

vago como é, o molde nitido e magistral d'uma linguagem riquissima, e

sabendo em certas horas ser um prosador de largo folego, um critico

sagacissimo e cheio de penetração genial.

Bastariam para provar esta asserção, os seus dois magnificos opusculos:

_Considerações sobre a historia da litteratura portugueza e causas da

decadencia dos povos peninsulares_.

Pena é que um espirito tão extraordinariamente dotado não enriqueça a

litteratura nacional com alguns livros de critica e de historia, que,

tão bem como os melhores, elle poderia escrever.

Emquanto Anthero aspira infatigavelmente a alguma coisa de muito

superior ao que a vida póde dar, Amiel escreve n'uma das paginas do seu

_Diario_ este pensamento caracteristico:

«_Il n'y a de repos pour l'esprit que dans l'absolu, pour le sentiment

que dans le divin; Rien de fini n'est vrai, n'est interéssant, n'est

digne de me fixer!..._»

Amiel n'uma hora de lucidez rara, n'uma d'estas horas em que o

visionario mais intransigente vê em clarão rapido o _nada_, das chymeras

a que immolou a sua vida, traça estas palavras, que são uma revelação e

que são um arrependimento:

_Le resumé: Nada! Rien!... Et pour dernière misére, ce n'est pas une vie

usée en faveur de quelque être adoré ni sacrifié à une future

espérance..._

Do mesmo modo Anthero escreve este _soneto_, que é como a suprema

condemnação do seu funesto _credo_, que é como a lagrima que se

desprende da pupilla cançada de contemplar inutilmente as profundezas

insondaveis do _eterno abysmo_...

Empunhasse eu a espada dos valentes;

Impellisse-me a acção, embriagado,

Por esses campos onde a Morte e o Fado

Dão a lei aos reis tremulos e ás gentes!

Respirariam meus pulmões contentes

O ar de fogo do circo ensanguentado,

Ou caíra raivoso, amortalhado

Na fulva luz dos gladios reluzentes!

_Já não viria dissipar-se a aurora

De meus inuteis annos, sem uma hora

Viver mais do que sonhos e a anciedade!_

_Já não veria em minhas mãos piedosas

Desfolhar-se uma a uma as tristes rosas

D'esta pallida e esteril mocidade!_

* * * * *

Não foi esteril, não, a vida de quem produziu este livro, que ficará na

litteratura portugueza occupando um logar _á parte_, nosso pela lingua,

bella, harmoniosa e rica, em que está escripto, e d'outra raça bem

diversa da nossa, pelo perfume exotico de que está impregnado.

N'este momento de cosmopolitismo litterario, em que a arte é uma Babel

onde as raças e as linguas se confundem, este livro marca um momento, e

como tal é precioso para os que pensam e para os que estudam.

Reflecte-se n'elle, além do que deixo dito, uma alma angelica, uma

d'estas almas raras, que não podem deixar de soffrer muito n'um mundo

para que não são feitas.

Eu deixei de proposito, inviolado pela minha critica, porventura

audaciosa, o que ha de mais profundamente subjectivo, de mais intimo e

de mais sagrado no volume adoravel de Anthero de Quental.

Muitas vezes as lagrimas me romperam irresistivelmente dos olhos, ao ver

n'elle, deliciosamente reflectida, a aspiração, sempre incomprehendida,

a um amor que o consolasse e redimisse! Pensar é perigoso. Melhor é

sentir. Anthero pensou de mais.

Eis o motivo porque não encontra a consolação unica a que a sua alma

aspira anciosamente e inutilmente.

Sejamos bons e dôces para a Vida! Ella tem horas sinistras, bem sei;

ella tem a Duvida; ella tem a Dôr e tem o Silencio eterno a todas as

interrogações anciosas da nossa razão e da nossa consciencia; mas de que

doçura infinita ella nos não enche o coração! mas com que lagrimas

abençoadas ella não apaga as sêdes ideaes da nossa alma cubiçosa! Como

no mytho pagão, toquemos a Terra, quer dizer, retemperemos o nosso

organismo cançado nas primitivas alegrias da simplicidade, da

innocencia, e do amor! Não renunciemos a nenhuma das ineffaveis riquezas

de que a Vida é depositaria fiel, e acharemos, n'este retrocesso á

Natureza amiga e boa, a paz que os artificiaes _nirvanas_ d'este seculo

nos não podem dar!

* * * * *

Concluo este estudo, que eu fiz com o maximo amor que o artista, por

humilde que seja, póde pôr no seu trabalho, e no qual apenas a

sinceridade suppre tantos predicados que me faltam, pedindo a Oliveira

Martins desculpa da minha ousadia.

Melhor do que ninguem, elle fallou do seu amigo; melhor do que ninguem,

elle o explicou aos que o não conheciam, tocando com recolhimento e com

fervor quasi religioso n'esta alma, que é para tantos um enygma

indecifravel, e dando luz a tantos pontos indecisos d'este temperamento

artistico, extranho e singular.

Depois de ter inspirado aquelle sentido prefacio, com que o notavel

historiador enriqueceu o seu livro, que necessidade tinha o poeta dos

_sonetos_ de que uma alma, que o não conhece senão atravez d'elles,

viesse fallar ao publico da sua complexa individualidade?

No prologo de O. Martins ha mais do que o seu talento; ha tambem o seu

coração de amigo, e é isso o que, aos meus olhos, lhe augmenta

enormemente o valor.

Se houve audacia na minha apreciação, que m'a perdoem, pois, o poeta e o

seu critico. Eu não quiz mais do que fazer ver o livro extraordinario

dos _Sonetos_ de Anthero á luz da minha impressão pessoal. Não tive

outro intento, nem desejo outra recompensa além do prazer intimo e

profundo que senti escrevendo estas palavras sinceras, depois de ter

lido o livro adoravel que tão espontaneamente m'as inspirou.

_ANTONIO CANDIDO_

I

Uma vocação irresistivel, uma d'estas vocações a que tem por força de

obedecer-se, sob pena da mais tremenda mutilação intellectual, fez de

Antonio Candido _um orador_.

Os escriptores fazem-se, os oradores nascem! Antonio Candido nasceu

orador.

N'este ponto é elle absolutamente irresponsavel do seu destino.

Poucos haverá que em Portugal não saibam as circumstancias singulares

que o subjugaram e venceram tragicamente, dando-lhe, n'este nosso meio

muito uniforme e muito incolor, uma individualidade extranha, um toque

de romanesco, que ainda mesmo nos oradores politicos destaca e assenta

bem.

A vontade respeitada e querida de alguem, que elle muito amou, impoz-lhe

um genero de vida com o qual o seu espirito, a sua educação, a sua

comprehensão das cousas, o iam brevemente tornar incompativel.

Moço, ingenuo, inexperiente, elle subordinou n'uma hora de

inconsciencia, de abatimento mental, toda a felicidade do seu destino

futuro a essa vontade que respeitava sobre todas. Mais tarde,

comprehendeu que as responsabilidades gravissimas que tinha acceitado,

na sua imprudencia de moço, importavam nada mais e nada menos do que a

abdicação da propria consciencia. Viu então que não podia occupar com

sinceridade--isto é, com dignidade, porque é indigno tudo que não é

sincero--a tribuna a que o tinham feito subir, e desceu d'ella sem

hesitação e sem covardia.

Fez mal, diz o mundo; e não ha ninguem que o não tenha ouvido dizer

muitas vezes, com aquella despreoccupada ousadia com que dizem tudo os

que não acreditam em cousa alguma.

Fez mal. _Il est avec le ciel des accommodements_; e a sociedade actual,

como em summa todas as sociedades extra-civilisadas, não exige heroismos

nem abnegações sobre-humanas.

Ella só quer o respeito apparente das convenções estabelecidas; no mais,

acha regular que se sophismem os preceitos, que se illudam e transgridam

hypocritamente as leis. O que exige apenas e não se dirá que exige

muito--é que se acceitem as posiçoes definidas, e que se finja acatar

todas as tyrannias sociaes que a tradição consagra.

Que fizesse mal ou bem não me pertence a mim julgar aqui. O caso é que o

fez, e que o fez com tamanha dignidade, com uma reserva tão silenciosa,

com um desdem dos bens positivos e das utilidades praticas tão

intellectualmente aristocrata, que ninguem ousou atacar de frente este

acto d'uma vontade, esta determinação d'uma consciencia!

Os que privam de perto com Antonio Candido sabem que elle amou muito

essa tribuna, onde a sua palavra deixou vestigios de graça incomparavel

e de soberbo vigor.

Amou-a muito, e nunca a ella se refere sem o respeito enternecido e a

vaga saudade dos que viram dissipar-se um sonho querido.

Mas ficar onde a Fé o não prendia teria sido uma transigencia covarde

com a hypocrisia mundana.

Só espiritos amesquinhados pela comprehensão d'uma falsa moral o

poderiam applaudir. Antonio Candido não teve essa transigencia. Antepoz

a todas as considerações de facil e util egoismo o seu culto sincero

pela verdade, a sua noção grave e austera do Dever.

Com a sua intelligencia malleavel, penetrante, capaz de vêr justo e de

vêr fundo, percebeu, de certo, antes de tomar a resolução definitiva de

romper com o passado, as difficuldades extremas que a vida ia ter para

elle. Não hesitou, porém, certo de que na sinceridade ingenua do seu

coração, na pureza do seu caracter, n'aquella isenção desdenhosa que é a

melhor salvaguarda do homem superior, n'este tempo sem crenças

absolutas, elle encontraria sempre um guia seguro para as complicações

de ordens diversas, que tivessem de surgir diante dos seus passos.

Alguns homens do meu tempo: impressões litterarias · 第 21 / 32 题