IV

Para mim--e talvez que eu n'este ponto e em mais alguns me tenha

afastado do espirito com que Oliveira Martins, o notavel escriptor e o

amigo fiel e terno e quasi fanatico de Anthero escreve as palavras que

servem de prefacio aos magnificos versos do poeta--para mim o que

prostrou Anthero de Quental n'aquelle extase vago e contemplativo, de

que os seus ultimos _sonetos_ são a mais completa expressão, foi

justamente o _excesso do pensamento_, o abuso da analyse, a que elle se

entregou, prematuramente, no periodo mais activo e mais arrojado da vida

do homem, quando geralmente este emprega todos os recursos da sua

energia para se fazer no mundo um grande logar, onde tenha espaço que

baste á envergadura das suas ambições.

Pensou _de mais_, quiz conhecer e sondar e penetrar _de mais_ as

theorias extravagantes ou grandiosas, desconsoladoras ou sublimes,

phantasticas em todo o caso, com que a Humanidade tenta, desde que

existe, explicar a si mesma o mysterio da sua existencia.

São raras as almas em que se trava sériamente, tragicamente, este

combate com a Verdade! Procural-a e possuil-a foi o sublime fim a que a

alma d'este poeta, tão moço ainda, se entregou completamente.

Mas a nós homens não é dado achar a Verdade!

Por isso Anthero foi vencido na sua lucta soberba, por isso foi

contraproducente o seu trabalho heroico, e, prostado, abalado até ás

mais fundas raizes do seu sêr, por tantas contradições, que o cingiam

como as lianas tenazes de uma floresta virgem, por tantas duvidas que

estendiam sobre elle a sombra escura dos seus ramos venenosos, por

tantas hypotheses que se desmentiam aos seus olhos penetrantes, por

tantos sonhos vertiginosos que o entonteciam e embriagavam, pela

inextricavel vegetação, gigantesca e confusa, de tantas idéas, sob as

quaes o nosso seculo está litteralmente esmagado,--elle, o pensador

sincero, a alma enamorada da Verdade e da Justiça eterna, o idealista

incorrigivel que o mysterioso _au delá_ captiva e chama, apezar da

negação feroz dos racionalistas e da indifferença systematica do

positivismo, elle achou que o unico refugio, no meio d'este cahos, que o

unico descanso no meio d'este combate em que a vida quasi se lhe esvaía,

seria o de uma inacção contemplativa, de um renunciamento mystico, de

uma especie de _bhudismo_ mental que nos seus versos se reflecte ás

vezes em harmonias ineffaveis, em cantos resignados e immortaes!...

* * * * *

Mas, para chegar a esta estação ultima de uma longa Via Dolorosa, de que

tempestades enormes, de que dramas convulsos não foi theatro a alma

d'este poeta, que _viveu_ a sua poesia antes de a ter feito!...

Aspirou á felicidade como toda a gente, mas a felicidade a que elle

aspirava é que não era a _de toda a gente_, e por isso a procurou de

balde! É provavel que partisse, como todos os que são moços, com as suas

grandes _botas de sete leguas_ á conquista d'esse _Velo de ouro_, que se

chama amor ou que se chama gloria; mas que desalentos o fizeram parar

absorto e esquecido de tudo, nos recantos melancolicos ou nos

desfiladeiros sombrios do seu caminho imaginario!...

E é a historia d'essa viagem terrivel que estes _sonetos_ nos contam;

por isso elles hão de interessar tanto os que pensam e sentem, e n'uma

esphera, embora menos ampla, soffreram e luctaram tambem!

Foi n'uma das suas horas de tristeza sem consolo que elle escreveu estes

versos, cuja vibração sonora e longa se repercute para além das paginas

do livro, por esse espaço fóra...

Porque a noite é a imagem da Verdade

Que está além das coisas transitorias,

Das paixões e das formas illusorias,

Onde sómente ha dôr e falsidade...

Mas tu, radiante luz, luz gloriosa,

De que és symbolo tu? do eterno engano,

Que envolve o mundo e o coração humano,

Em rede de mil malhas mysteriosa!

Symbolo, sim, da universal traição

D'uma promessa sempre renovada

E sempre e eternamente perjurada,

Tu, mãe da Vida, e mãe da Illusão...

....................................

....................................

De que são feitos os mais bellos dias?

De combates, de queixas, de terrores!

De que são feitos? De illusões, de dôres,

De miserias, de magoas, e agonias!

O sol, inexoravel semeador.

Sem jamais se cançar, percorre o espaço,

E em borbotões lhe jorram do regaço

As sementes innumeras da Dôr!

Oh! como cresce sob a luz ardente

A seara maldita! Como freme

Sob os ventos da vida, e como geme

N'um sussurro monotono e plangente!

* * * * *

Não pode a revolta d'um coração ferido pelas injustiças sangrentas da

vida exprimir-se com mais desesperada e mais apaixonada eloquencia!...

Se a vida é isto--e é isto quasi sempre aos olhos do poeta dos

_Sonetos_,--para que luctar, para que trabalhar, para que arrastar

eternamenre ao alto da montanha, aspera de tojos bravos, o enorme

rochedo que eternamente rolará pelos seus flancos duros ao abysmo fundo

onde de novo o homem tem de ir buscal-o, para novamente procurar com

elle o pincaro escalvado d'onde cahiu?! D'aqui ao profundo _nihilismo_

em que Anthero tem de ir dar é, longo o caminho, mas é logico e está

claramente indicado...

Sob o ponto de vista pratico e razoavel, este livro, tão profundamente

espiritualista, é um livro, no fim de contas, desconsolador; se a obra

de Anthero fosse comprehendida por todos, teria um alcance funesto para

o espirito humano! O sonho da perfeição que o inspira, leva-o a uma

comprehensão da existencia erronea e perigosissima! Incompleta como é, a

vida exige de nós todos, como um dever sagrado, que appliquemos a

resolver-lhe os problemas, a vencer-lhe as luctas dolorosas, a

cumprir-lhe os asperos deveres, toda a energia das nossas faculdades,

toda a abnegação dos nossos sacrificios, todo o vigor da nossa vontade,

todo o amor do nosso coração, todo o poder de sympathia de que a nossa

alma dispõe. Não tem desculpa os que desdenhosos e inactivos, cruzam os

braços, indifferentes aos triumphos do Mal desde que perderam a

esperança de fazer do Bem o rei absoluto da creação.

Mas, feitas estas restricções que a consciencia me está impondo, a

verdade é que não ha no bello livro de Anthero, tão pessoal e tão

_vivido_ nem um _estado de alma_ que a minha alma não comprehenda e não

justifique.

E que diversidade de sentimentos, e que mundo, complexo e vago, de

emoções cambiantes!

É um devoto da Virgem, de um mysticismo doce como o dos monges

primitivos? É um triste e incrédulo filho d'este seculo sem Deus? É um

metaphysico perdido no seu sonho nebuloso e desconnexo? É um

espiritualista que protesta com todas as revoltas da sua consciencia e

todas as lagrimas do seu coração contra o materialismo que ameaça fazer

retroceder este mundo a um estado de brutal immoralidade e de goso

sensual nunca saciado? É um pensador que, conhecendo todas as theorias

philosophicas que explicam o ser, a todas domina e a todas dá a forma

sentimental e poetica de que ellas carecem para serem comprehendidas

pelos profanos da sciencia, e pelos _diletantti_ do pensamento?...

É tudo isto, sem ser nada d'isto; porque é tudo isto em momentos que

passam, e que, ao passarem, fixam a fugitiva imagem n'uma lamina

argentea, emmoldurada em esmaltes vivos, em cinzeladuras rendilhadas, em

delicados e artisticos florões.

Mas--e é este o supremo merecimento d'este livro--é tudo isto

sinceramente, espontaneamente, sem _pose_, sem artificio, sem estudo

previo!

* * * * *

Anthero não é um acrobata da rhetorica, não é um prestidigitador de

imagens faceis, é um coração que soffre, é uma alma que se impressiona,

é um cerebro que vibra, é um _sincero_ que põe toda a potencia das

faculdades em cada rapida modalidade do seu complexo sêr!

Querem vêr como elle proclama, n'uma dolorosa amargura a inanidade final

de todo o esforço humano?

Em vão luctamos! Como nevoa baça

A incerteza das cousas nos envolve;

Nossa alma, emquanto cria, emquanto volve

Nas suas proprias rêdes se embaraça.

O pensamento que mil planos traça,

É vapor que se esvae, e se dissolve,

E a vontade ambiciosa que resolve

Como onda entre rochedos se espedaça.

Filhos do amor, nossa alma é como um hymno

Á luz, á liberdade, ao bem fecundo,

Prece e clamor d'um pressentir divino...

Mas n'um deserto só, arido e fundo,

Echoam nossas vozes que o Destino

Paira mudo e impassivel sobre o mundo!

Contradictorio? sim; mas verdadeiro!

Para mim os que nunca se contradizem são, em geral, os que mentem

sempre.

Os sinceros são alcunhados de incoherentes pelas pessoas _sérias e

graves_ que fazem a _opinião publica_, quer dizer, que criam esse

absurdo enorme, feito de convenções falsissimas, sempre aprumado na sua

immobilidade estupida e na sua monotonia secular...

V

É-me absolutamente impossivel, e nem com esse intento se compadece a

indole d'este rapido esboço critico, fixar aqui completamente a

physionomia litteraria, tão expressiva e tão complexa de Anthero de

Quental.

De resto, eu escrevo apenas para os que leram e apreciaram o poeta, para

aquelles que se sentiram mais impressionados diante das suas

contradicções, tão humanas, tão genialmente sinceras!

Pois qual é o homem verdadeiramente digno d'este nome, que nunca sentiu

dentro da sua alma o terrivel embate de mil pensamentos dolorosamente

hostis?!

O mais sceptico dos filhos d'este seculo sente palpitar ás vezes, no

fundo intimo do seu coração, o dôce coração piedoso e crente da mãe

querida, da velha avó, que outr'ora foi levar á sombra austera do

templo, ao altar onde o Homem-Deus sorri resignado e triste, o

holocausto de todas as suas tentações e de todos os seus amores; assim

como o mais piedoso de entre nós, nem sempre logra fugir á acção

dissolvente do scepticismo universal, que vai crescendo, crescendo, como

uma maré de perdição...

Entre estes dois pólos do pensamento humano, quantas gradações, quantos

cambiantes, quantos modos complicados ou morbidos de pensar e de

sentir!...

Se só é completo e grande o que os comprehender a todos,--que desgraçado

não será o que a todos experimente!

Por isso o nosso poeta exclama, n'um impeto de dôr sincera e tragica:

Ouve tu, meu cançado coração,

O que te diz a voz da Natureza

--«Mais te valera, nú e sem defeza,

Ter nascido em asperrima soidão!

Ter gemido, ainda infante, sobre o chão

Frio e cruel da mais cruel deveza,

Do que embalar-te a Fada da Belleza

Como embalou, no berço da Illusão!

Mais valera á tua alma visionaria,

Silenciosa e triste, ter passado

Por entre o mundo hostil e a turba varia.

(Sem ver uma só flôr das mil que amaste)

Com odio, raiva e dôr... que ter sonhado

Os sonhos ideaes que tu sonhaste!...

* * * * *

Pouco a pouco, porém, por uma especie de lenta gradação, com retrocessos

fugitivos, a alma de Anthero do Quental, cançada de sonhar, de aspirar,

de desejar em vão, vae-se iniciando n'essa paz suprema a que os

sectarios do velho Bhuda indico chamaram o _nirvana_!

O _nirvana_ é uma especie de renunciamento da alma que nada espera, e

que, fóra da esperança, achou a tranquillidade beatifica do _não-ser_.

Schopenhauer não fez mais do que pôr em moldes novos a palavra mil vezes

secular do antigo sabio:

«A virtude, diz Bhuda, consiste em nos desinteressarmos de tudo que é

sensivel.»

«Liberto de todo o cuidado da acção, o verdadeiro crente queda-se

tranquillamente sentado na cidade das nove portas, sem de nada cuidar, e

sem aconselhar aos outros a acção.»

«D'entre os meus servos, aquelle a quem mais quero é o que tiver coração

benevolo para toda a natureza, não temendo os homens, nem sendo por

elles temido. _Apraz-me tambem o que houver renunciado inteiramente á

esperança, e o que não se abalance a nenhuma empreza humana_,»

Toda a desgraça do homem, continua ainda o philosopho da velha India, é

attribuir ás coisas d'este mundo duração, permanencia, e realidade.

«O mundo é uma illusão immensa.»

Não desejemos, para não soffrermos. Não amemos, para nos não prendermos

ao que é illusorio e passageiro. Não _esperemos_, e, n'esse

_renunciamento_ absoluto (principio da moral bhudica, e fim da

philosophia Schopenhaureana), encontraremos a paz, quer dizer, a

extincção de todo o desejo, a morte de toda a sensação, o desprendimento

de nós mesmos e da Vida universal.

N'esta doutrina tão velha, que o espirito germanico remoçou e como que

adaptou ás complicações extraordinarias e imprevistas da vida moderna,

acolhe-se adoravelmente o poeta em muitas das suas horas de desalento e

de cançasso.

Envolve-te em ti mesma, oh alma triste!

Talvez sem esperança haja ventura!

E n'outro soneto:

Na floresta dos sonhos, dia a dia,

Se interna meu dorido pensamento,

Nas regiões do vago esquecimento

Me conduz, passo a passo, a phantasia.

Atravesso no escuro a nevoa fria

D'um mundo extranho, que povôa o vento,

E meu queixoso e incerto sentimento

Só das visões da noite se confia.

Que mysticos desejos me enlouquecem?

Do _Nirvana_ os abysmos apparecem

A meus olhos, na muda immensidade.

N'esta viagem pelo ermo espaço

Só busco o teu encontro e o teu abraço,

Morte! irmã do Amor e da Verdade!

Ó poeta,--eu, uma pobre mulher condemnada, pelas leis fataes da

physiologia e pelas leis logicas da sociedade, á inacção completa, não

posso deixar de protestar contra essa paz egoista, em que o teu coração

pretende affundar-se!

O _bhudismo_ comprehende-se n'essa India, corroida pelo odio das castas,

e na qual o homem se sentia esmagado e vencido pela implacavel Natureza,

devoradora e cruel, de uma exuberancia que escorria venenos!

Comprehende-se o _bhudismo_ no tempo em que a fatalidade das coisas

subjugava o homem, o ultimo que chegara ao banquete da vida, e que

chegára desarmado, predestinado á sua lucta de seculos, á sua lucta

sublime, á lucta de titan, em que elle começa apenas a ser vencedor!

Mas imagine-se por um momento o _bhudismo_ triumphante, alastrando pelo

mundo inteiro a sua doutrina de inerte contemplação, de extase inutil e

vago!

O que seria hoje o mundo?!...

Não, o Homem não se deixou vencer; em vão o convidaram á preguiça, á

covarde resignação, ao renunciamento esteril as religiões fatalistas e a

Natureza hostil e inviolada ainda!

Elle resistiu!

E, desarmado, escorrendo sangue de todos os póros da sua torturada

carne, perdido na escuridão profunda d'essa tenebrosa noite, que é o

passado, ora seduzido pelas sereias enganosas que tentaram perdel-o, ora

asphyxiado sob o pezo de barbaras e anti-naturaes doutrinas que o

mutilavam, soffrendo sempre, luctando sempre, sacrificando-se sempre,

trabalhando como escravo, guerreando como heroe, pregando como apostolo,

immolando-se como martyr, escalando o céu como Prometheu, encarando

intrepidamente, e face a face, os mysterios e os dogmas, furando as

entranhas da terra cheia de pavores, ascendendo á região dos astros

cheia de deslumbramentos, sondando os oceanos sem fim, resignado e

tenaz, revoltoso, indomito, terrivel, mas sempre com olhos fitos no

ideal, que pouco a pouco se ia desvendando, que a pouco a pouco se ia

tornando definitivo e claro, elle chegou emfim a fazer da Natureza, seu

algoz, a Natureza, sua escrava, e, das chymeras de hontem, as verdades

libertadoras de amanhã!

E caminha ainda, não descançou por ora o heroico viajante, avido de mais

dôres, avido de mais sacrificios, avido de mais combates!

Caminha não sabemos para onde, mas decerto para onde haja mais luz, mas

decerto para onde a alma tenha mais liberdade o espirito tenha mais

amplo espaço e a consciencia, a inviolavel consciencia, a garantia

sagrada de mais direitos!

E tudo isto sentiu, n'uma das suas horas boas, Anthero do Quental quando

escreve este soneto suggestivo de heroicos impetos e de ambições

sublimes:

Conquista pois sósinho o teu futuro,

Já que os celestes guias te hão deixado

Sobre uma terra ignota abandonado,

Homem = proscripto rei = mendigo escuro!

Se não tens que esperar do ceu (tão puro,

Mas tão cruel!), e o coração maguado

Sentes já de illusões desenganado,

Das illusões do antigo amor perjuro:

Ergue-te então na magestade estoica

D'uma vontade solitaria e altiva,

N'um esforço supremo de alma heroica

Faze um templo dos muros da cadeia

Prendendo a immensidade eterna e viva

No circulo de luz da tua Idea!

Oh! como isto é mais bello do que a derrota confessada do pensador que

se refugia no pessimismo, achando no pessimismo uma solução, quando elle

não é mais que um estado transitorio da alma contemporanea, um dos

symptomas mais caracteristicos da doença de vontade, de que mais ou

menos hoje estamos--ainda mal!--todos contaminados!

Alguns homens do meu tempo: impressões litterarias · 第 20 / 32 题