Para mim--e talvez que eu n'este ponto e em mais alguns me tenha
afastado do espirito com que Oliveira Martins, o notavel escriptor e o
amigo fiel e terno e quasi fanatico de Anthero escreve as palavras que
servem de prefacio aos magnificos versos do poeta--para mim o que
prostrou Anthero de Quental n'aquelle extase vago e contemplativo, de
que os seus ultimos _sonetos_ são a mais completa expressão, foi
justamente o _excesso do pensamento_, o abuso da analyse, a que elle se
entregou, prematuramente, no periodo mais activo e mais arrojado da vida
do homem, quando geralmente este emprega todos os recursos da sua
energia para se fazer no mundo um grande logar, onde tenha espaço que
baste á envergadura das suas ambições.
Pensou _de mais_, quiz conhecer e sondar e penetrar _de mais_ as
theorias extravagantes ou grandiosas, desconsoladoras ou sublimes,
phantasticas em todo o caso, com que a Humanidade tenta, desde que
existe, explicar a si mesma o mysterio da sua existencia.
São raras as almas em que se trava sériamente, tragicamente, este
combate com a Verdade! Procural-a e possuil-a foi o sublime fim a que a
alma d'este poeta, tão moço ainda, se entregou completamente.
Mas a nós homens não é dado achar a Verdade!
Por isso Anthero foi vencido na sua lucta soberba, por isso foi
contraproducente o seu trabalho heroico, e, prostado, abalado até ás
mais fundas raizes do seu sêr, por tantas contradições, que o cingiam
como as lianas tenazes de uma floresta virgem, por tantas duvidas que
estendiam sobre elle a sombra escura dos seus ramos venenosos, por
tantas hypotheses que se desmentiam aos seus olhos penetrantes, por
tantos sonhos vertiginosos que o entonteciam e embriagavam, pela
inextricavel vegetação, gigantesca e confusa, de tantas idéas, sob as
quaes o nosso seculo está litteralmente esmagado,--elle, o pensador
sincero, a alma enamorada da Verdade e da Justiça eterna, o idealista
incorrigivel que o mysterioso _au delá_ captiva e chama, apezar da
negação feroz dos racionalistas e da indifferença systematica do
positivismo, elle achou que o unico refugio, no meio d'este cahos, que o
unico descanso no meio d'este combate em que a vida quasi se lhe esvaía,
seria o de uma inacção contemplativa, de um renunciamento mystico, de
uma especie de _bhudismo_ mental que nos seus versos se reflecte ás
vezes em harmonias ineffaveis, em cantos resignados e immortaes!...
* * * * *
Mas, para chegar a esta estação ultima de uma longa Via Dolorosa, de que
tempestades enormes, de que dramas convulsos não foi theatro a alma
d'este poeta, que _viveu_ a sua poesia antes de a ter feito!...
Aspirou á felicidade como toda a gente, mas a felicidade a que elle
aspirava é que não era a _de toda a gente_, e por isso a procurou de
balde! É provavel que partisse, como todos os que são moços, com as suas
grandes _botas de sete leguas_ á conquista d'esse _Velo de ouro_, que se
chama amor ou que se chama gloria; mas que desalentos o fizeram parar
absorto e esquecido de tudo, nos recantos melancolicos ou nos
desfiladeiros sombrios do seu caminho imaginario!...
E é a historia d'essa viagem terrivel que estes _sonetos_ nos contam;
por isso elles hão de interessar tanto os que pensam e sentem, e n'uma
esphera, embora menos ampla, soffreram e luctaram tambem!
Foi n'uma das suas horas de tristeza sem consolo que elle escreveu estes
versos, cuja vibração sonora e longa se repercute para além das paginas
do livro, por esse espaço fóra...
Porque a noite é a imagem da Verdade
Que está além das coisas transitorias,
Das paixões e das formas illusorias,
Onde sómente ha dôr e falsidade...
Mas tu, radiante luz, luz gloriosa,
De que és symbolo tu? do eterno engano,
Que envolve o mundo e o coração humano,
Em rede de mil malhas mysteriosa!
Symbolo, sim, da universal traição
D'uma promessa sempre renovada
E sempre e eternamente perjurada,
Tu, mãe da Vida, e mãe da Illusão...
....................................
....................................
De que são feitos os mais bellos dias?
De combates, de queixas, de terrores!
De que são feitos? De illusões, de dôres,
De miserias, de magoas, e agonias!
O sol, inexoravel semeador.
Sem jamais se cançar, percorre o espaço,
E em borbotões lhe jorram do regaço
As sementes innumeras da Dôr!
Oh! como cresce sob a luz ardente
A seara maldita! Como freme
Sob os ventos da vida, e como geme
N'um sussurro monotono e plangente!
* * * * *
Não pode a revolta d'um coração ferido pelas injustiças sangrentas da
vida exprimir-se com mais desesperada e mais apaixonada eloquencia!...
Se a vida é isto--e é isto quasi sempre aos olhos do poeta dos
_Sonetos_,--para que luctar, para que trabalhar, para que arrastar
eternamenre ao alto da montanha, aspera de tojos bravos, o enorme
rochedo que eternamente rolará pelos seus flancos duros ao abysmo fundo
onde de novo o homem tem de ir buscal-o, para novamente procurar com
elle o pincaro escalvado d'onde cahiu?! D'aqui ao profundo _nihilismo_
em que Anthero tem de ir dar é, longo o caminho, mas é logico e está
claramente indicado...
Sob o ponto de vista pratico e razoavel, este livro, tão profundamente
espiritualista, é um livro, no fim de contas, desconsolador; se a obra
de Anthero fosse comprehendida por todos, teria um alcance funesto para
o espirito humano! O sonho da perfeição que o inspira, leva-o a uma
comprehensão da existencia erronea e perigosissima! Incompleta como é, a
vida exige de nós todos, como um dever sagrado, que appliquemos a
resolver-lhe os problemas, a vencer-lhe as luctas dolorosas, a
cumprir-lhe os asperos deveres, toda a energia das nossas faculdades,
toda a abnegação dos nossos sacrificios, todo o vigor da nossa vontade,
todo o amor do nosso coração, todo o poder de sympathia de que a nossa
alma dispõe. Não tem desculpa os que desdenhosos e inactivos, cruzam os
braços, indifferentes aos triumphos do Mal desde que perderam a
esperança de fazer do Bem o rei absoluto da creação.
Mas, feitas estas restricções que a consciencia me está impondo, a
verdade é que não ha no bello livro de Anthero, tão pessoal e tão
_vivido_ nem um _estado de alma_ que a minha alma não comprehenda e não
justifique.
E que diversidade de sentimentos, e que mundo, complexo e vago, de
emoções cambiantes!
É um devoto da Virgem, de um mysticismo doce como o dos monges
primitivos? É um triste e incrédulo filho d'este seculo sem Deus? É um
metaphysico perdido no seu sonho nebuloso e desconnexo? É um
espiritualista que protesta com todas as revoltas da sua consciencia e
todas as lagrimas do seu coração contra o materialismo que ameaça fazer
retroceder este mundo a um estado de brutal immoralidade e de goso
sensual nunca saciado? É um pensador que, conhecendo todas as theorias
philosophicas que explicam o ser, a todas domina e a todas dá a forma
sentimental e poetica de que ellas carecem para serem comprehendidas
pelos profanos da sciencia, e pelos _diletantti_ do pensamento?...
É tudo isto, sem ser nada d'isto; porque é tudo isto em momentos que
passam, e que, ao passarem, fixam a fugitiva imagem n'uma lamina
argentea, emmoldurada em esmaltes vivos, em cinzeladuras rendilhadas, em
delicados e artisticos florões.
Mas--e é este o supremo merecimento d'este livro--é tudo isto
sinceramente, espontaneamente, sem _pose_, sem artificio, sem estudo
previo!
* * * * *
Anthero não é um acrobata da rhetorica, não é um prestidigitador de
imagens faceis, é um coração que soffre, é uma alma que se impressiona,
é um cerebro que vibra, é um _sincero_ que põe toda a potencia das
faculdades em cada rapida modalidade do seu complexo sêr!
Querem vêr como elle proclama, n'uma dolorosa amargura a inanidade final
de todo o esforço humano?
Em vão luctamos! Como nevoa baça
A incerteza das cousas nos envolve;
Nossa alma, emquanto cria, emquanto volve
Nas suas proprias rêdes se embaraça.
O pensamento que mil planos traça,
É vapor que se esvae, e se dissolve,
E a vontade ambiciosa que resolve
Como onda entre rochedos se espedaça.
Filhos do amor, nossa alma é como um hymno
Á luz, á liberdade, ao bem fecundo,
Prece e clamor d'um pressentir divino...
Mas n'um deserto só, arido e fundo,
Echoam nossas vozes que o Destino
Paira mudo e impassivel sobre o mundo!
Contradictorio? sim; mas verdadeiro!
Para mim os que nunca se contradizem são, em geral, os que mentem
sempre.
Os sinceros são alcunhados de incoherentes pelas pessoas _sérias e
graves_ que fazem a _opinião publica_, quer dizer, que criam esse
absurdo enorme, feito de convenções falsissimas, sempre aprumado na sua
immobilidade estupida e na sua monotonia secular...
V
É-me absolutamente impossivel, e nem com esse intento se compadece a
indole d'este rapido esboço critico, fixar aqui completamente a
physionomia litteraria, tão expressiva e tão complexa de Anthero de
Quental.
De resto, eu escrevo apenas para os que leram e apreciaram o poeta, para
aquelles que se sentiram mais impressionados diante das suas
contradicções, tão humanas, tão genialmente sinceras!
Pois qual é o homem verdadeiramente digno d'este nome, que nunca sentiu
dentro da sua alma o terrivel embate de mil pensamentos dolorosamente
hostis?!
O mais sceptico dos filhos d'este seculo sente palpitar ás vezes, no
fundo intimo do seu coração, o dôce coração piedoso e crente da mãe
querida, da velha avó, que outr'ora foi levar á sombra austera do
templo, ao altar onde o Homem-Deus sorri resignado e triste, o
holocausto de todas as suas tentações e de todos os seus amores; assim
como o mais piedoso de entre nós, nem sempre logra fugir á acção
dissolvente do scepticismo universal, que vai crescendo, crescendo, como
uma maré de perdição...
Entre estes dois pólos do pensamento humano, quantas gradações, quantos
cambiantes, quantos modos complicados ou morbidos de pensar e de
sentir!...
Se só é completo e grande o que os comprehender a todos,--que desgraçado
não será o que a todos experimente!
Por isso o nosso poeta exclama, n'um impeto de dôr sincera e tragica:
Ouve tu, meu cançado coração,
O que te diz a voz da Natureza
--«Mais te valera, nú e sem defeza,
Ter nascido em asperrima soidão!
Ter gemido, ainda infante, sobre o chão
Frio e cruel da mais cruel deveza,
Do que embalar-te a Fada da Belleza
Como embalou, no berço da Illusão!
Mais valera á tua alma visionaria,
Silenciosa e triste, ter passado
Por entre o mundo hostil e a turba varia.
(Sem ver uma só flôr das mil que amaste)
Com odio, raiva e dôr... que ter sonhado
Os sonhos ideaes que tu sonhaste!...
* * * * *
Pouco a pouco, porém, por uma especie de lenta gradação, com retrocessos
fugitivos, a alma de Anthero do Quental, cançada de sonhar, de aspirar,
de desejar em vão, vae-se iniciando n'essa paz suprema a que os
sectarios do velho Bhuda indico chamaram o _nirvana_!
O _nirvana_ é uma especie de renunciamento da alma que nada espera, e
que, fóra da esperança, achou a tranquillidade beatifica do _não-ser_.
Schopenhauer não fez mais do que pôr em moldes novos a palavra mil vezes
secular do antigo sabio:
«A virtude, diz Bhuda, consiste em nos desinteressarmos de tudo que é
sensivel.»
«Liberto de todo o cuidado da acção, o verdadeiro crente queda-se
tranquillamente sentado na cidade das nove portas, sem de nada cuidar, e
sem aconselhar aos outros a acção.»
«D'entre os meus servos, aquelle a quem mais quero é o que tiver coração
benevolo para toda a natureza, não temendo os homens, nem sendo por
elles temido. _Apraz-me tambem o que houver renunciado inteiramente á
esperança, e o que não se abalance a nenhuma empreza humana_,»
Toda a desgraça do homem, continua ainda o philosopho da velha India, é
attribuir ás coisas d'este mundo duração, permanencia, e realidade.
«O mundo é uma illusão immensa.»
Não desejemos, para não soffrermos. Não amemos, para nos não prendermos
ao que é illusorio e passageiro. Não _esperemos_, e, n'esse
_renunciamento_ absoluto (principio da moral bhudica, e fim da
philosophia Schopenhaureana), encontraremos a paz, quer dizer, a
extincção de todo o desejo, a morte de toda a sensação, o desprendimento
de nós mesmos e da Vida universal.
N'esta doutrina tão velha, que o espirito germanico remoçou e como que
adaptou ás complicações extraordinarias e imprevistas da vida moderna,
acolhe-se adoravelmente o poeta em muitas das suas horas de desalento e
de cançasso.
Envolve-te em ti mesma, oh alma triste!
Talvez sem esperança haja ventura!
E n'outro soneto:
Na floresta dos sonhos, dia a dia,
Se interna meu dorido pensamento,
Nas regiões do vago esquecimento
Me conduz, passo a passo, a phantasia.
Atravesso no escuro a nevoa fria
D'um mundo extranho, que povôa o vento,
E meu queixoso e incerto sentimento
Só das visões da noite se confia.
Que mysticos desejos me enlouquecem?
Do _Nirvana_ os abysmos apparecem
A meus olhos, na muda immensidade.
N'esta viagem pelo ermo espaço
Só busco o teu encontro e o teu abraço,
Morte! irmã do Amor e da Verdade!
Ó poeta,--eu, uma pobre mulher condemnada, pelas leis fataes da
physiologia e pelas leis logicas da sociedade, á inacção completa, não
posso deixar de protestar contra essa paz egoista, em que o teu coração
pretende affundar-se!
O _bhudismo_ comprehende-se n'essa India, corroida pelo odio das castas,
e na qual o homem se sentia esmagado e vencido pela implacavel Natureza,
devoradora e cruel, de uma exuberancia que escorria venenos!
Comprehende-se o _bhudismo_ no tempo em que a fatalidade das coisas
subjugava o homem, o ultimo que chegara ao banquete da vida, e que
chegára desarmado, predestinado á sua lucta de seculos, á sua lucta
sublime, á lucta de titan, em que elle começa apenas a ser vencedor!
Mas imagine-se por um momento o _bhudismo_ triumphante, alastrando pelo
mundo inteiro a sua doutrina de inerte contemplação, de extase inutil e
vago!
O que seria hoje o mundo?!...
Não, o Homem não se deixou vencer; em vão o convidaram á preguiça, á
covarde resignação, ao renunciamento esteril as religiões fatalistas e a
Natureza hostil e inviolada ainda!
Elle resistiu!
E, desarmado, escorrendo sangue de todos os póros da sua torturada
carne, perdido na escuridão profunda d'essa tenebrosa noite, que é o
passado, ora seduzido pelas sereias enganosas que tentaram perdel-o, ora
asphyxiado sob o pezo de barbaras e anti-naturaes doutrinas que o
mutilavam, soffrendo sempre, luctando sempre, sacrificando-se sempre,
trabalhando como escravo, guerreando como heroe, pregando como apostolo,
immolando-se como martyr, escalando o céu como Prometheu, encarando
intrepidamente, e face a face, os mysterios e os dogmas, furando as
entranhas da terra cheia de pavores, ascendendo á região dos astros
cheia de deslumbramentos, sondando os oceanos sem fim, resignado e
tenaz, revoltoso, indomito, terrivel, mas sempre com olhos fitos no
ideal, que pouco a pouco se ia desvendando, que a pouco a pouco se ia
tornando definitivo e claro, elle chegou emfim a fazer da Natureza, seu
algoz, a Natureza, sua escrava, e, das chymeras de hontem, as verdades
libertadoras de amanhã!
E caminha ainda, não descançou por ora o heroico viajante, avido de mais
dôres, avido de mais sacrificios, avido de mais combates!
Caminha não sabemos para onde, mas decerto para onde haja mais luz, mas
decerto para onde a alma tenha mais liberdade o espirito tenha mais
amplo espaço e a consciencia, a inviolavel consciencia, a garantia
sagrada de mais direitos!
E tudo isto sentiu, n'uma das suas horas boas, Anthero do Quental quando
escreve este soneto suggestivo de heroicos impetos e de ambições
sublimes:
Conquista pois sósinho o teu futuro,
Já que os celestes guias te hão deixado
Sobre uma terra ignota abandonado,
Homem = proscripto rei = mendigo escuro!
Se não tens que esperar do ceu (tão puro,
Mas tão cruel!), e o coração maguado
Sentes já de illusões desenganado,
Das illusões do antigo amor perjuro:
Ergue-te então na magestade estoica
D'uma vontade solitaria e altiva,
N'um esforço supremo de alma heroica
Faze um templo dos muros da cadeia
Prendendo a immensidade eterna e viva
No circulo de luz da tua Idea!
Oh! como isto é mais bello do que a derrota confessada do pensador que
se refugia no pessimismo, achando no pessimismo uma solução, quando elle
não é mais que um estado transitorio da alma contemporanea, um dos
symptomas mais caracteristicos da doença de vontade, de que mais ou
menos hoje estamos--ainda mal!--todos contaminados!