Outra tribuna, a tribuna politica, se lhe abriu então ampla e rasgada!
Quem não advinha hoje as tristezas que a consciencia austera d'este
homem terá sentido ao apalpar a inanidade vã das chymeras que sonhou
antes de entrar n'este novo mundo!...
Porque, os que julgando amesquinhal-o e diminuil-o, lhe chamam _poeta_,
sómente se enganam na intenção com que o fazem. Se é ser poeta não poder
viver sem um ideal de justiça, de belleza, de bondade que sobredoire
ainda as concepções mais vulgares, que espiritualise ainda as realidades
mais praticas; se é ser poeta ter sempre a impulsal-o, a commovel-o, o
sonho de _melhor_, a aspiração indefinida a alguma cousa que ainda não
foi realisada no mundo, mas por amor da qual o mundo tem caminhado sem
parar; se é ser poeta ter a comprehensão, perfeita e sympathica, de
todos os sonhos adoraveis com que se entretem eternamente a phantasia
d'esta velha creança incorrigivel chamada, a Humanidade--Antonio Candido
é poeta como os que mais o são.
Lembro-me de o ter ouvido, ha bastantes annos, fallar com enthusiasmo na
vida nova que encetára,--resignado já ao tragico _abortamento_ do seu
destino de homem;--lembro-me de o ter applaudido quando, diante de mim e
d'alguns amigos sinceros, dos quaes um já desappareceu da terra, elle
desenrolláva com a palavra flexivel e deslumbradora, colorida e
vibrante, em que a eloquencia é tão natural que chega mesmo a ser
involuntaria, os planos sociaes que o consolavam de tanta cousa perdida
para sempre, ou para sempre inacessivel...
É provavel que hoje Antonio Candido já não sonhe; mas acredita ainda
decerto que a evolução necessaria das sociedades tende constantemente a
melhorar os seus instinctos, a esclarecer a sua consciencia, a diminuir
n'ellas a somma do mal e da iniquidade, a desenvolver mais e mais no seu
espirito a ambição d'um alto destino... E a sua philosophia, a que elle
ás vezes se refere sorrindo, e ácerca da qual os seus amigos gracejam
benevolamente, não se perturba nem se ensombra, porque o meio que o
cerca n'este momento parece comprazer-se em contradizer todas as suas
formulas, em desmentir todas as suas conclusões...
De feito elle tem visto que, na lucta que as ambições pessoaes travam na
scena politica, o vencedor paga o seu doloroso, o seu humilhante
triumpho, com os thesouros insubstituiveis da integridade e da
delicadeza moral. Elle tem tido, hora a hora, a prova irrefutavel e
desconsoladora de que a _habilidade_ vence o genio, de que a astucia
vence a virtude, de que os meios tortuosos vencem os impulsos dignos e
as aspirações sinceras.
A historia moderna em Portugal tem sido, sem duvida, um ensinamento
fecundo e triste para esta intelligencia tão penetrante na analyse das
cousas, como intuitiva e superiormente sagaz na sua concepção
synthetica.
Porque é que n'esse caso não deserta elle o exercito sem ideal,
onde--errando mais uma vez o caminho da vida--elle se alistou na ingenua
confiança do seu optimismo juvenil?
Por muitas razões, umas claras e simples, outras mais complicadas, umas
originadas, simplesmente pelo seu proprio destino, outras que derivam
naturalmente da especie de determinismo historico, que principalmente o
inspira ainda nas crises de mais desolação interior, ainda nas luctas
mais dolorosas da sua sensibilidade um pouco feminina, quasi morbida...
Como Renan, um dos seus amigos ideaes, o mystico e bondoso coração com o
qual o seu tem tantos pontos de contacto--elle acceita resignado, com o
benevolo desdem das almas fortes, a dura lei que, fazendo tão grande e
tão sublime a Humanidade, fez ao mesmo tempo tão frageis e tão
imperfeitos os individuos, a complicação inextricavel, apparente, que
existe em tudo que nos cerca, e que faz com que, muita vez, as mais
contrarias soluções do mesmo problema moral sejam igualmente justas,
igualmente legitimas diante do olhar da Critica; a certeza melancolica
de que os males e as miserias que nos circumdam e nos fazem tanta vez
perder de vista o ceu azul, o amplo espaço luminoso e puro, não são
feitas pela vontade dos homens, são simplesmente modificadas por ella
n'um ou n'outro ponto secundario. Elle sabe que só a vagarosa evolução
dos tempos pode exercer a acção que antigamente se attribuia ao capricho
ou á influencia immediata de homens providenciaes.
D'aqui a sua tolerancia, a sua resignação austera e triste, e a
expressão melancolica da sua palavra, em que não ha revoltas inuteis nem
injustiças escusadas, mas sim a tragica acceitação de leis ineluctaveis
e crudelissimas.
Cada epocha que passa não faz mais do que servir, intelligentemente ou
cegamente, conscia da sua missão historica ou ignorante d'ella, a
corrente das idéas, dos factos, dos phenomenos que o periodo anterior
tinha necessariamente preparado.
Caminhantes forçados d'uma estrada enorme, cujo principio se perde em
sombras incognosciveis, cujo fim nenhum olhar descortina ou sondará
jamais, nós seguimol-a, resistentes ou doceis, confiantes ou resignados,
scepticos ou cheios de fé, egoistas ou desinteressados, parando nas
_etapes_ marcadas, perdendo-nos momentaneamente nas charnecas aridas, ou
nos atalhos floridos e risonhos, mas voltando, apoz o retrocesso rapido,
ao longo caminho que necessariamente temos de seguir, como o astro segue
a sua trajectoria, como a Vida segue a sua evolução.
De resto, aos que perguntarem a Antonio Candido o motivo porque elle,
sem ambições pessoaes de especie alguma e com poucas illusões a respeito
todas as cousas, ou antes julgando todas as cousas uma illusão mais ou
menos radiosa, se conserva ainda assim no seu posto de politico
militante, elle responde com um bello trecho d'um dos mais bellos
discursos que este orador tem pronunciado, o discurso consagrado á
memoria de Braamcamp.
«O desfavor com que a _acção politica_ é considerada por muitos
espiritos superiores, no velho e no novo mundo, tem da sua parte, é
forçoso confessal-o, bastantes apparencias de razão.
Pela sua influencia immediata e complexa, e pela enorme comprehensão dos
interesses que move, este genero de acção é o mais vasto, o mais
attrahente de quantos podem sollicitar um homem de intelligencia e de
vontade; mas como estadio de exhibição moral e como processo de educação
publica mostra-se a esta hora, na America e na Europa Occidental,
adverso a muitos interesses da dignidade civica, da justiça
distributiva, da logica que deve haver nos factos, e do prestigio que as
pessoas devem conservar. Tem uma base intellectualmente falsa: a
philosophia naturalista do seculo XVIII! Tem um principio inane e
contradictorio: a soberania popular. Tem um processo que não
qualifico... por uma delicada circumstancia de logar e de tempo: o
suffragio universalisado! Tem um limite para as elevações pessoaes, que
difficilmente varia: a mediocridade. Tem uma litteratura propria, quasi
sempre sem ideal e sem verdade: o jornalismo e a oratoria parlamentar.
Tem uma liturgia sem pompa e sem pensamento: a das ficções
constitucionaes.
A grande revolução, de que promana e deve dactar-se toda a moderna
historia, assumiu, como se sabe, as formas d'um drama grandioso, enorme.
«Emquanto este drama desenrollou nos Estados latinos as suas scenas
formidaveis foi sublime de paixão, de força e de movimento. O theatro
grego, em que intervinham deuses, não é mais maravilhoso do que este em
que representaram povos!
«Mas a commoção publica, como estado violento, não podia ser perduravel;
a ebullição dos espiritos, consumidora quando é prolongada, não poude
deixar de diminuir; recahiram nas condições normaes da vida os homens e
as nações que se tinham exaltado até ao heroismo e até ao martyrio; e
viu-se então que a superficie moral do mundo ficára com o aspecto
devastado, arrefecido, melancolico, d'uma floresta que o incendio
consumisse, e de que os velhos troncos em cinza tivessem apenas servido
para fecundar rasteiras vegetações uniformes, de pouco vigor e sem vulto
definido ainda...
«A França, onde a immensa combustão principiara, ainda se reenflammou
uma vez contra a senil e caduca _Restauração_ e teve, durante alguns
annos, uma prolongação artificial de vida politica na tribuna illustre
de Guizot, Royer Collard e Thiers, e na imprensa convicta e apaixonada
de Armand Carrel e de P. L. Courier; mas formado e desfeito o sonho de
1848, caiu, sossobrou, veio, pouco a pouco, a volver-se no que está, no
que é hoje... A Italia depois de Cavour e de Garibaldi, a Hespanha
depois de Espartero e de Mendizábal, Portugal depois de Mousinho da
Silveira e de Saldanha,--grandes nomes que marcam a estatura de velhos
povos,--voltaram fundamentalmente ao que eram d'antes, porque ha, meus
senhores, uma tyrannia que as espadas não cortam, e um despotismo que a
penna do legislador não fere de morte; a tyrannia das raças, e o
despotismo da historia!
«N'este estado de cousas, _superior aos antecedentes porque sempre é um
ponto vencido na serie do progresso humano_, mas repousado, egoista,
apenas assignalado por um mais intenso fervilhar de vida vegetativa e
intellectual, sem accidentes revolucionarios, salvo quando a questão
politica trava na questão nacional, como em Italia antes da occupação de
Roma, na França depois de 1870 e na Inglaterra actualmente; n'este
estado de cousas, pouco propicio ás germinações do heroismo, e ás
ostentações da grande força, porque os _obstaculos sociaes deslocaram-se
do mundo para a consciencia_ e o poder publico desvigorisou-se,
enfraqueceu nas multiplas divisões que o fraccionaram: n'este estado de
cousas, que em compensação de tanta inferioridade é pacifico, é
evolutivo, é felizmente desassombrado de terrores divinos e humanos--_ha
um largo espaço para uma boa intelligencia que queira applicar-se, para
uma energica vontade, que queira desenvolver-se, para um caracter
honesto e digno que a vida publica tente com as suas glorias e os seus
sacrificios, com os seus ruidosos triumphos e as suas tremendas
ingratidões_!»
Citei todo este largo trecho, em que vão sublinhadas por mim algumas
passagens mais significativas, porque, formosissimo, como forma,
admiravel com synthese historica, elle vem de molde para definir as
idéas que Antonio Candido tem ácerca da politica moderna, e os motivos
que actuaram n'elle para continuar na vida publica que adoptou.
* * * * *
Como quer que seja e sem me alongar, indiscretamente, em considerações
que prendem no que ha de mais delicado e mysterioso n'uma consciencia de
homem, o que é verdade é que Antonio Candido é hoje a suprema
representação da arte oratoria no mundo politico e litterario d'este
paiz.
Não é que no parlamento portuguez não brilhem talentos muito
notaveis,--nas nossas assembléas meriodinaes sabe-se que não é o talento
que falta--muitos fallam bem, argumentam bem, discutem bem.
Ha tribunos enflammados, ha luctadores politicos, a que nenhum segredo
da estrategia parlamentar é vedado, mas orador, apezar de tudo é só
elle.
Todos, em qualquer dos campos partidarios em que militem, o reconhecem
unanimemente. Observação feita muito de passagem--o partido opposto
áquelle em que Antonio Candido está, reconhece-o muito mais
ostentivamente do que o seu proprio partido, injusto muitas vezes,
ingrato quasi sempre para este homem que tanto o illustra.
O orador, é o mais privilegiado e o mais raro entre todos os artistas, e
tambem--como que para contrabalançar a influencia directa e poderosa que
só elle consegue exercer, como que para amargar e diminuir a sensação
voluptuosa de força e de imperio absoluto, que só elle experimenta em
certas horas de triumpho moral, quando a sua palavra fremente e
indignada passa, curvando os espiritos, como a ventania passa, curvando
as grandes arvores--o seu poder é de todos o mais passageiro, a sua
força é de todas a mais ephemera, o brilho do seu nome é de todos o que
mais rapido se apaga...
Quem é que hoje póde reconstituir pelo pensamento a commoção profunda
que electrisou as almas de 89, quando a palavra de Mirabeau trovejava do
alto da tribuna as suas apostrophes sublimes?... Quem fixou no papel os
rugidos leoninos, os gritos titanicos de Danton? Quem, lendo os
discursos de Savonarola, o inspirado dominicano florentino, comprehende
o movimento desordenado e febril, com que elle agitou em convulsões de
arrependimento e de lagrimas as almas italianas de seu tempo?...
Levaram o segredo de todas estas maravilhas aquelles que as ouviram e
que as não poderam communicar a ninguem!
Na arte de orador, na _sublime arte potente e deslumbradora_, como lhe
chama, no discurso já citado, aquelle que tanto lhe deve e tanto a ama
synthetisam-se n'um relampago fugitivo, todas as mais bellas irradiações
das outras artes!
A esculptura empresta-lhe a elegancia e a magestade das suas attitudes,
a flexibilidade viril dos seus gestos, a graça malleavel e movimentada
dos seus aspectos; a musica dá-lhe as notas graves ou dôces, apaixonadas
ou severas, vibrantes ou meigas, sonoras, ou melancolicamente
esmorecidas da sua voz; a poezia dá-lhe o encanto alado indefinivel,
subjugador das suas imagens; a litteratura o requinte subtil da sua
fórma, a belleza penetrante dos seus conceitos, a seducção _ondeante e
diversa_ das suas expressões; a philosophia, a amplidão dos seus
horisontes, uma comprehensão da vida soberanamente inspiradora, uma
envergadura de azas potente e larga bastante para que elle possa
levantar-se ás amplidões sem fim do Pensamento, ás deslumbrantes vizões
do Ideal...
Faz-se de todas estas cousas maravilhosas e divinas a eloquencia dos
grandes oradores, mas faz-se de mais alguma cousa que sobredoira tudo
isto, e sem a qual tudo isto seria artificial como a representação d'um
actor de genio! E essa outra cousa, insubstituivel e sagrada, é a
sinceridade ingenua do caracter, é a bondade humana e communicativa do
coração!
E é isto, que além de tudo o mais Antonio Candido tem como ninguem. É
isto que, acima de tudo, o torna sympathico e querido.
A nota de probidade virginal, de susceptivel e melindrosa pureza de
alma, que o distingue, e acaso, no meio actual da nossa politica o
singularisa, punha-a Oliveira Martins em evidencia, ha tempo, no formoso
_perfil parlamentar_ que consagrou a Antonio Candido.
«Quando Antonio Candido falla, diz elle, vê-se um caracter atravez de
uma obra de arte.»
E accrescenta lucidamente. «Pela sua mente impressionavel passam as
ideas do seu tempo como os raios do sol pela placa sensivel do
photographo, e as imagens fixam-se com a mesma nitidez e a mesma
fidelidade. Pela sua alma ingenua passam, como por philtro, as ondas da
corrente dos factos e ahi se depuram para surgirem depois transparentes
e crystallinas. E factos e idéas, animadas e allumiadas pela sua
imaginação creadora, borbulham-lhe dos labios no caudal de uma palavra
incomparavel de atticismo, de colorido, de propriedade, que são as
qualidades artisticas do orador, combinado com um gesto e uma voz que
não mente, quando exprime a energia mascula, a convicção ingenua, a
indignação fremente, ou a caridade pura, que são as qualidades moraes do
homem!»
* * * * *
Para provar quanto é rara a reunião de faculdades que constituem este
aristocrata do pensamento, esse maestro da palavra que se chama
_orador_,--no sentido amplo e complexo, no sentido artistico que eu aqui
dou á palavra--basta vêr-se que Portugal que tem tido sempre uma
florescencia notavel de bellos talentos... desaproveitados, só teve no
passado um orador chamado José Estevão, como só tem no presente um
orador chamado Antonio Candido.
E a geração de José Estevão foi: Garrett, foi Castilho, foi Rebello da
Silva, foi Herculano, foi Rodrigo da Fonseca, foi Fontes, foi Sampaio,
assim como a geração de Antonio Candido é composta de tantos nomes
illustres, que estão no pensamento e na memoria de todos, e que tanto na
politica como em todas as outras manifestações da actividade
intellectual tem dado de si soberbas provas.
Antonio Candido, porem, foi mais infeliz que o seu glorioso antecessor,
porque em quanto esse achou o meio perfeitamente adquado ás suas bellas
qualidades de tribuno impetuoso, enflammado, um tanto declamatorio como
o seu tempo; emquanto esse podia vibrar ainda intensamente ao nome,
então virginal, poetico, mysterioso, de _Liberdade_,--este, na fria
quadra evolutiva que atravessamos, n'este periodo, que se chama positivo
mas ao qual se deveria chamar sceptico, não encontra, fóra de si, nada
que o estimule, nada que o anime, nada que responda ao sonho altissimo
que a sua imaginação sonhára, antes de ter penetrado nos meandros
complicados d'este moderno constitucionalismo, tecido de ficções
transparentes, n'este mesquinho periodo politico, que é o triumpho da
mediocridade, que é a tortura do genio, e a condemnação das fortes
individualidades!...
Dessem a Antonio Candido os soberbos assumptos, que Emilio Castellar tem
tido na sua brilhante e revolta existencia de agitador e de tribuno;
dessem-lhe a vizão radiosa e juvenil da Democracia e da Liberdade, que
deslumbrou na aurora da sua vida publica, esse bello Atheniense chamado
José Estevão; dessem-lhe o theatro collossal em que representou esse
titan de cabeça convulsionada e febril que foi Mirabeau;--e veriam se
não era egual a qualquer d'esses, sem comtudo se parecer com nenhum
d'elles, o homem que póde, ainda hoje, em Portugal, n'este momento de
victorioso mercantilismo e de arranjos e combinações deprimentes,
fulminar de admiração um auditorio de burocratas, fazer tremer de
enthusiasmo uma assembleia de homens de negocios!...
É que o orador, infeliz em tudo como eu ha pouco dizia, alem de todas as
singulares faculdades individuaes que necessita de possuir, para exercer
e desenvolver o pleno vigor do seu genio, precisa tambem de que o tempo
em que vive,--pela grandeza das suas luctas, pelo contraste das suas
agitações, pela desordenada corrente dos seus desejos, pelo combate
tumultuoso das suas paixões civicas, pelo interesse dramatico dos seus
acontecimentos,--corresponda aos ideaes generosos que lhe illuminam a
consciencia, e á fibra guerreira que palpita e freme na alma de todo o
luctador, quer seja da Ideia quer seja da Acção!
Sempre uma quadra epica da vida dos povos antigos ou modernos, foi
representada e contida na palavra d'um orador. E appareceria esse orador
se as circumstancias o não houvessem por assim dizer, determinado e
creado? Talvez que não!
Pois a superioridade extraordinaria de Antonio Candido, e talvez a maior
causa da tristeza que transparece em tudo que elle diz, a fatalidade
mais insanavel do seu destino, é ter apparecido n'uma epocha em que
segundo elle proprio disse _a hora das grandes paixões politicas passou
no mundo_!
As circumstancias não o favorecem; a transformação por que está passando
a politica portugueza, e infelizmente toda a politica europeia, não o
inspira nem impulsiona; e no emtanto, apezar de todas as más
influencias, que parecem tender em toda a parte a paralysar o caracter e
o talento, é tal a pureza crystallina da sua consciencia, é tal a
illuminação fulgurante da sua palavra, que elle consegue crear para si,
um logar á parte, indisputavel, aristocraticamente reservado, em que
saboreia as delicias requintadas da sua isolação e do seu altivo
desinteresse.
Sem ter transposto para sempre o circulo acanhado da politica
partidaria, sem ter sahido definitivamente da jaula estreita do nosso
constitucionalismo nacional, Antonio Candido, consegue em admiraveis
_sortidas_ de que todos se lembram, dizer verdades profundas ao paiz que
teima em não querer ouvil-as. Na sessão de 87 a tantos respeitos
desoladora, n'essa sessão em que passaram sem debate leis d'uma grande
importancia economica e d'um alcance politico altissimo, e em que se
consumiram dias e dias discutindo os mais inuteis e ociosos pequenos
assumptos pessoaes, as questiunculas de interesse mais restricto e mais
acanhado, a palavra de Antonio Candido deixou, todavia, um rasto de
inolvidavel e luminosa critica.
Vio-se ali um parlamentar julgando o parlamento; um filho da Revolução
dizer á Revolução as verdades tristissimas que estão na consciencia de
todos! Criticando a moderna comprehensão que temos da Liberdade, o
orador, não teve a irreverencia que insulta, mas teve a razão austera e
firme que adverte, a lucida comprehensão que vê longe e que vê justo, e
que de leis inluctaveis sabe tirar as duras e ineluctaveis conclusões!
Já estamos longe do tempo em que se acreditava no empyrismo de receitas
particulares, e na vinda de Messias privilegiados e salvadores.
É inutil accusar este ou aquelle individuo de males, cujo segredo e cuja
origem só acha, quem investigue o espirito da nossa raça, o modo porque
n'ella actuaram as inesperadas transformações que soffreu, a corrente
historica dos acontecimentos, as mil influencias complexas, os mil
factores diversos que nos fizeram... o que hoje sômos!
Diante dos acontecimentos que desdobram sob o nosso olhar a sua trama
variada ou uniforme, é porem, nosso costume incorrigivel, accusar-mos
não só os homens, mas ainda certos e determinados nomes de homens!
Não percebemos ainda que uma sociedade, que um paiz, possam na sua
qualidade de organismos vivos, estar sujeitos ás mesmas condições de
germinação, desenvolvimento, degeneração e morte, a que está sujeita a
Vida Universal em qualquer das suas infinitas manifestações.
Revoltamo-nos contra o que não pudémos evitar! Attribuimos á
preversidade insolita dos individuos o que é puramente o resultado de
leis historicas incombativeis! D'aqui a nossa colera insensata, e
contraproducente!
Podem os homens modificar as condições moraes d'uma sociedade, não podem
obstar a que a vida d'ella siga o curso fatal que segue tudo que vive na
terra, e que na terra tem de morrer.
N'este ponto, Antonio Candido educado por Comte e por Littré tem uma
vantagem incontestavel sobre quasi todos os seus contemporaneos
portuguezes. Nenhum, que eu saiba, se embebeu mais profundamente das
lições do grande philosopho positivista, nenhum vê de mais alto e com
uma imparcialidade mais bella e mais fecundante para o espirito, a
evolução necessaria das leis sociologicas a que todas as civilisações
estão subordinadas. Mas extranho contraste! Este positivista de
educação, é um idealista incorrigivel, por temperamento.
Apezar d'isso ou talvez por isso mesmo nunca o ouvirão accusar um homem
dos acontecimentos de que pela maior parte das vezes esse homem não foi
senão o vizivel instrumento; nunca o ouvirão accusar o presente de não
ter sabido perpetuar as virtudes e as crenças do passado.
Se tem saudades das bellas cousas extinctas, se tem pena de não ter
vindo ao mundo n'outra quadra, em que o mundo ia n'um ponto mais
pittoresco ou mais interessante, mais illuminado ou mais espiritualista
do seu caminhar indefinido, se sente a nostalgia dos bellos ideaes hoje
desfeitos, nem por isso deixa de reconhecer que toda a vontade
individual é impotente para guardar na alma da Humanidade, pensamentos
que se vão fatalmente dissipando, phantasias que a experiencia repelle,
sonhos de que infelizmente se acordou, radiosas chymeras que se esvairam
com a hora infantil em que tinham visto a luz...
* * * * *
Como orador e como artista, Antonio Candido não pertence á raça
impetuosa e enflammada de Castellar ou de José Estevão.
Educado, como já disse, pelos processos da sciencia positiva, tão
disciplinadora e tão methodica; não se deixando nunca possuir pelo seu
assumpto, antes possuindo-o, subjugando-o, vencendo-o, torcendo-o a
todas as magicas flexibilidades da forma mais correcta e mais
superiormente bella; desprezando os artificios d'uma rhetorica
envelhecida e inane; sem nunca se deixar ir atraz das seducções um tanto
serodias da pompa e da exhuberancia oratorias; possuindo uma razão clara
e lucida, um poder de critica muito notavel, elle é justamente o orador
moderno tal como os auditorios d'hoje teem o direito de exigir...
O orador que impressiona mas que persuade, que tem o brilho e a côr, a
illuminação e o prestigio, mas que tem tambem o facto, o documento, a
demonstracção scientifica, a comprehensão positiva das cousas.
Essa eloquencia que tão poucos teem sabido comprehender, essa eloquencia
que os ignorantes desdenham, e que os mediocres teem em pouca conta,
encontrou na critica indigena as interpretações mais diversas e mais
extraordinarias.
Precedido d'uma celebridade cujas exigencias elle soube completamente
realisar, Antonio Candido, apparecendo em S. Bento fez um d'aquelles
seus discursos magistraes em que as bellas e largas syntheses brilham
como constellações, n'um fundo azul de arte pura e de belleza a um tempo
moderna e classica.
Foi então que o jornalismo portuguez o sagrou _rouxinol_. As appellações
mais vulgares, que ficaram desde esse dia como cauda obrigatoria ao seu
nome, foram as de: _orador maviosissimo_, _harmonioso tenor_, _voz
eloquente e suave_, etc. etc. Cantor dos bosques sagrados de S.
Bento--eis a sua posição social e artistica, perante a critica do seu
paiz.
«--Mas eu não sou tal rouxinol! Eu nunca na minha vida
cantei!--exclamava elle em vão com um gesto de suplice resistencia. Eu
não tenho a pezar-me na consciencia nem um trilo nem uma volata.
--É rouxinol--respondeu severa e cathedratica a critica portugueza. É
rouxinol, e rouxinol hade ficar!...
Foi uma hora amargurada esta, na vida do orador. Resignou-se então por
algum tempo, para ver se o despediam d'entre o bando dos _alados
cantores_, a fazer politica de pequenos interesses, e de pequenos
assumptos.
Defendeu eleições, atacou dictaduras; foi vehemente e apaixonado no
ataque ás personalidades eminentes; teve ironias mordentes e cruas, teve
energias inesperadas; foi o orador politico, opportunista, habil,
argumentador e arguto, que é necessario ser-se pelos modos, para
arrancar de sobre os hombros as azas um pouco humilhantes de rouxinol.
Ás vezes no meio d'estes discursos de argumentação _terra a terra_, a
sua imaginação opulenta e d'um brilhantismo extranho e raro, tinha uma
fuga subita pelas largos espaços estrellados d'onde andava foragida, mas
dos quaes se sentia eternamente nostalgica...
Outras vezes a sua faculdade critica tão educada e tão fina, d'uma
subtileza de comprehensão tão viva e requintada, atirava para o meio do
auditorio--sempre seduzido, senão sempre inteiramente capaz de o
perceber--com uma d'aquellas interpetrações geniaes, um d'aquelles
_aperçus_ soberbos, que só pertencem aos que meditam e estudam os mais
arduos e complexos problemas da vida social.
Foi por essa occasião que alguns noticiaristas principiaram
surrateiramente a chamar-lhe _aguia_. Nunca se soube bem qual a razão
d'aquella mudança. Já que elle estava, no emtanto, adstricto aos
dominios da ornithologia, antes aguia do que rouxinol,--pensou decerto
Antonio Candido.
E aguia e rouxinol lhe ficaram alternativamente chamando os seus amigos
e os seus adversarios.
Foi talvez para escapar a esta importuna classificação, que elle
ultimamente, queimando os seus navios, sacrificando denodadamente
qualquer ambição politica que ainda porventura se acoitasse no mais
intimo e secreto do seu alto espirito, fez ouvir em S. Bento uma palavra
de verdade suprema e tambem de suprema condemnação de toda a politica
interna d'este malfadado paiz.
De todos os lados da imprensa levantou-se um brado que, condemnando a
doutrina, glorificava o orador. Esqueceram-se, n'essa tardia accusação,
de que em S. Bento a camara inteira o applaudira vertiginosamente,
porque era a verdade quem punha na sua palavra a indignação fremente, a
paixão intensa e viva, a melancolia immensa, inconsolavel, feita de
ironia e de razão...
Accusaram-n'o porque, fugindo á banalidade e á falsidade historica de
que todos ali são mais ou menos reus, elle não attribuia a ausencia de
costumes politicos, a falseação do systema representativo, a exagerada
elasticidade das ficções constitucionaes a violação sempre impune, de
todas as suas praxes, as mil imperfeições do nosso machinismo
governativo á vontade do sr. Fulano ao ministerio do sr. Cicrano, aos
maus conselhos do sr. X e ao systema de corrupção do sr. J.
Era isto que elles estavam costumados a ouvir; era a continuação d'isto
que elles reclamavam. Mas Antonio Candido é que lh'o não fez. É uma
desforra brilhante e inolvidavel este discurso! É uma desforra das mil
vezes em que o orador teve de pôr a sua palavra, não ao serviço d'uma
causa má, mas ao serviço d'uma questão pequena ou d'um assumpto
inferior.
Com a impaciencia, longo tempo soffreada, d'uma consciencia honesta, que
vê continuamente, em torno de si, falseada a verdade dos factos,
desfigurada a noção das coisas deslocados os assumptos, confundidas as
mais claras e simples questões,--elle fez a largos traços a nossa
historia constitucional, e provou, uma vez por todas, com o brilho e o
atticismo da sua palavra sem rival, que isto que nós chamamos
_decadencia do systema parlamentar_, não é mais do que uma justa e
inevitavel consequencia de factos, de que esta geração não tem a culpa
nem a responsabilidade, e de que ella tem fatalmente de ser a victima e
o joguete.
É bello de verdade e de eloquencia impressionadora todo este trecho do
seu ultimo discurso politico, que desenha, com rapida vivacidade, o modo
porque o constitucionalismo foi improvisadamente implantado entre nós, e
os obstaculos que para o seu pleno e vigoroso desenvolvimento encontrou
na nossa educação tradicional, na nossa indole herdada de fidalgos
preguiçosos, nos nossos costumes seculares, na nossa pobreza, na nossa
ignorancia, nos defeitos irreductiveis de raça que tão adversos nos
tornam por ora e, talvez para sempre, á ficção chamada systema
representativo.
Taine no 2.^o volume do seu trabalho sobre as _origens da França
contemporanea_ escreveu este trecho, que os nossos politicos deviam
meditar um pouco, antes de se entregarem á desabalada gritaria contra os
governos que se teem succedido, sempre perpetrando os mesmos erros, e
sempre conseguindo resultados iguaes:
«Se ha n'este mundo cousa que seja difficil de elaborar-se, é uma
constituição, sobretudo uma constituição completa. Substituir os velhos
quadros, dentro dos quaes vivia uma nação, por quadros differentes,
apropriados e duradoiros; applicar um molde de cem mil compartimentos á
vida de uns poucos de milhões de homens; construil-o tão
harmoniosamente, adaptal-o com tamanha habilidade e tamanha
opportunidade, com uma tão exacta apreciação das necessidades d'esses
homens e das suas faculdades, que elles entrem dentro d'elle de seu
mutuo proprio, para ahi se moverem sem atrictos asperos; e que
immediatamente a sua acção improvisada tenha a facilidade d'uma velha
rotina--eis uma empreza que é positivamente prodigiosa, e provavelmente
muito superior ás forças do espirito humano...»
Foi isto que nós tentamos fazer, e é do abortamento d'esta empreza
impossivel, que se originam e que resultam todas as nossas desgraças,
todas as provações dolorosas que temos atravessado, todas as amargas
desillusões que a nossa alma nacional tem soffrido e que tão abatida e
descrente a fizeram desde muito...
E foi isto que o orador fez sentir, com a clareza e a nitidez da sua
palavra privilegiada, na assemblea representativa e no paiz inteiro.
Parece impossivel que este modo de levantar a discussão, de illuminar os
phenomenos sociologicos, de fazer a critica ampla e elevada da nossa
vida publica, produzisse um effeito de _indignação patriotica_ na
imprensa d'este paiz.
E o grande pensador foi finalmente demittido do seu posto de rouxinol
honorario da camara dos deputados!
Se Antonio Candido, faltando á verdade da sua intelligencia e á verdade
da sua consciencia, tivesse declamado pomposamente sobre a _decadencia
politica_ dos nossos dias, attribuindo-a aos manejos machiavelicos do
sr. Fontes, que Deus haja,--uns applaudiriam enthusiasticamente, outros,
invertendo o caso, lançariam a responsabilidade d'essa decadencia ás
locubrações mysteriosamente preversas do sr. José Luciano que Deus
conserve, mas ninguem alcunharia de anti-patriotica a inspiração honrada
e nobre d'esse discurso, tão bello pela arte com que foi dicto, como foi
grande pela sincera verdade com que foi pensado.
* * * * *
Visto que o orador é o homem, fallemos do homem.
Quem vê Antonio Candido n'uma sala, quem conversa com elle, quem o
observa, caprichoso, desigual, expontaneo, mais triste do que alegre,
ora silencioso e esquivo como uma creança amuada, ora vibrante,
apaixonado, inquieto, defendendo ou atacando uma these artistica ou um
problema de moral,--perceberá logo que esse homem, apesar de não ser o
que nas salas se chama _um conversador_, tem o dom da palavra
maravilhoso e raro, que a poucos é concedido; mas não saberá, ainda
assim, advinhar n'elle o portentoso orador que as nossas assembléas
politicas conhecem e acclamam.
É que Antonio Candido, que, como todos os artistas sinceros, sente tudo
o que diz, e em quem, antes de sêrem verbo incomparavel, as ideias são
sangue das veias, vibração dos nervos, cellulas do
cerebro,--transfigura-se d'um modo indizivel, logo que, entre elle e o
seu auditorio, se estabelece aquella corrente magnetica, que faz com que
centenas de homens vibrem á voz d'um só homem, que faz com que a
sensibilidade d'um homem se exalte se exacerbe d'um modo violento,
doloroso quasi com a commoção de todos.
O olhar, que a contemplação das cousas da vida e a vizão interior,
desalentada e triste, tem apagado e como que vellado mysteriosamente,
accende-se então em scentelhas chammejantes, ou fulgura como luz fixa,
penetradora, intensa e viva; a cabeça, admiravelmente modelada, levanta
se n'uma attitude de orgulho infinito; o gesto faz-se, ora largo,
soberbo, magestoso, ora incisivo, ironico, sublinhando com extranho
vigor os tons diversissimos do discurso; na voz poderosa, d'uma gamma
opulentissima, vibram-lhe magnificamente todas as cordas que, diante
d'um auditorio um tanto sceptico, póde fazer vibrar um artista
intelligente--a ironia tempera n'ella a indignação, uma graça dolente e
melancolica, attenua-lhe e como que lhe subtiliza artisticamente a
tristeza. A sua dicção correcta até ao atticismo possue todos os
segredos da moderna comprehensão da arte. A palavra sahe-lhe colorida
por todos os cambiantes d'um sentir sincero e profundo, as intenções
teem uma graça penetrante, uma fina malicia, benevola e indulgente, de
quem conhece o mundo e os homens, de quem tem para a Vida, incompleta
como é sempre, miseravel como é tantas vezes,--uma larga tolerancia,
feita de sympathia e de bondade...
E a pairar sobre tudo isto, dando a tudo isto um toque de irresistivel
sinceridade--tornando uma creação de moral cada manifestação eloquente
de arte--aquella tristeza que elle exprime tanta vez em traços leves,
discretos e subtis: a tristeza que sentem os grandes pensadores, ao
verem que é, no fim de contas, tão estreita e tão limitada a esphera da
sua acção, que é tão inefficaz o poder isolado da sua vontade, que é
inutil e vão todo o esforço com que elles queiram combater a corrente
impetuosa que passa, a qual os mediocres continuam, com louvavel
modestia, a imaginar determinada, guiada por elles...
* * * * *
Alem dos seus discursos parlamentares, que já davam um bom volume e que,
segundo ouvi, serão breve publicados, Antonio Candido tem feito algumas
conferencias litterarias de subido merito, que no tribuno revelam o
pensador, no orador o litterato delicadissimo, o artista vibrante,
superiormente cultivado, a fina sensibilidade em que os mais differentes
estados se repercutem vivamente.
Estas conferencias são superiores aos _discursos_, porque os assumptos
escolhidos pelo orador põem mais á vontade o seu espirito, dão mais
espaço á sua imaginação, dão ensejo ao seu genio de manifestar-se em
mais liberdade.
D'entre ellas destaca-se, pela belleza litteraria, a que foi pronunciada
no Porto, quando Victor Hugo morreu.
Nem na patria do grande sonhador da _Légende des Siécles_, em que já
tinham morrido quasi todos os companheiros idolatras do poeta, se
encontrou, n'aquella occasião, uma voz que melhor e mais lucidamente
soubesse, em traços tão rapidos, com eloquencia tão maravilhosa e tão
adequada á grande gloria que se celebrava, julgar o o homem e o
escriptor, aquilatar o valor e a especie da sua obra, fazer valer a
exhuberancia extraordinaria d'aquella organisação, pôr em relêvo a força
creadora do gigante adormecido!...
Era para este genero de conferencias,--muito moderno, muito no gosto do
nosso tempo, que póde elevar-se á cathegoria d'uma arte perfeita,--para
este genero, a que Renan tem dado o prestigio da sua perfeição
atheniense de estylo, a graça ondeante e melancolica do seu pensamento
de celta, que eu quizera vêr voltado o espirito de Antonio Candido.
É que elle tem perfeitamente a especie de talento e de imaginação que
este trabalho requer. Desdenhoso e desattento para o contorno das cousas
exteriores; não se dando demasiadamente ao espectaculo mais ou menos
pittoresco da Natureza vizivel; adversario da comprehensão egoista da
_arte pela arte_; tendo por audaciosas hypotheses inverificaveis os
sonhos transcendentaes da methaphysica;--são principalmente as
preoccupações da ordem moral que o interessam, são as vizões e as
contemplações da consciencia que o absorvem, com exclusão de todos os
interesses e de todas as actividades praticas.
Cada grande espirito escolhe para esphera da sua acção e da sua
influencia aquella em que melhor se aclima o seu temperamento especial.
Uns, os philosophos, concentram-se na especulação desinteressada, sem se
preoccuparem sequer das consequencias terriveis, destructivas,
assolladoras muitas vezes, que possam resultar das suas premissas
audaciosas. Indifferentes a tudo que não seja a logica do seu systema,
seguem-n'a até ás extremas conclusões, sem curarem do mal ou do bem que
possam produzir na humanidade.
Quando Spinoza o _bemaventurado_, como, lhe chamavam os que o conheciam
de perto, doente e pobre no canto isolado da sua obscura casa, negava ao
Deus pessoal a possibilidade de existir, á Natureza um fim e um
principio, ao homem a noção do mal e do bem, e o livre arbitrio--minando
assim as bases fundamentaes em que assenta a segurança e a moralisação
das sociedades, pensava elle, porventura, que da applicação pratica das
suas ideias podiam provir os cataclysmos moraes mais terriveis, a
subversão de todos os principios existentes, o cahos de todas as leis e
de todos os dogmas?
A lembrança de que, das descobertas da astronomia e da physica, proviria
para o homem uma comprehensão do seu destino inteiramente diversa da que
elle tinha até ali, uma concepção do Universo contraria em tudo á que
elle formára, passou alguma vez pelo espirito de Galileo, de Copernico,
ou de Newton?
E o artista que adora e procura no mundo a belleza como elle a imagina,
a reproducção real d'um typo que elle sonhou, distingue acaso a belleza,
que é pura e sã, d'aquella que é preversa e corruptora? Não. Para elle a
belleza existe por si só, é só ella que o exalta e encanta, é só ella
que lhe dá a sensação unica, voluptuosa e divina, por amor da qual, aos
seus olhos, a vida tem um sentido e tem um fim!
O psychologo, como o artista e como o philosopho, não se preoccupa
absolutamente nada com o resultado nem com a applicação das suas
observações e das suas sondagens.
O seu desejo de penetrar os escaninhos mais secretos, mais escusos, mais
tenebrosos do coração humano, tem em si mesmo o seu limite, o seu fim e
a sua razão.
O que o interessa é o funccionar da machina cerebral, a germinação e o
desenvolver do pensamento, o jogo e a combinação das paixões; são os
estados variaveis e complicados da consciencia, as inextricaveis e
confusas vegetações da Ideia e do instincto, o impeto irreductivel dos
sentidos, a engrenagem complexa do organismo humano. É-lhe absolutamente
indifferente que haja paixões peccaminosas ou sentimentos legitimos,
ideias preversas ou ideias sãs, instinctos criminosos ou instinctos
bons.
Essa ordem de considerações fica alem dos limites que a si proprio
traçou. Não tem indignações nem desprezos, não tem admirações nem
alegrias. Tem simplesmente a curiosidade attenta do chimico, em presença
do qual dois productos se combinam ou se repellem, do naturalista que
encontrou a lei pela qual se explica um phenomeno da materia.
Ha porem outra ordem de espiritos, que teem, como o philosopho, uma
concepção particular do Universo e da Vida; que teem, como o artista, o
amor do bello; que teem, como o psychologo, a curiosa penetração do
homem interior,--mas que, de cada facto veem a consequencia, de cada lei
veem a applicação, de cada aspecto bello das cousas veem a influencia.
Julgam, estudam, absolvem ou condemnam, impõem condições á belleza,
regras immutaveis á consciencia, preceitos sagrados á Vida Humana e á
vida social. Não lhes basta o interesse dramatico, a magnifica
florescencia da Paixão, a vitalidade intensa do instincto, o jogo
admiravel das energias physicas ou mentaes. De tudo isto se preoccupam,
tudo isto estudam e analysam, mas com o fim de pôr o equilibrio e a
harmonia n'estas forças indomitas, que, entregues a si mesmas se
aniquillariam mutuamente, sem uma lei suprema que as subordinasse!
O espirito de Antonio Candido pertence ao genero d'estes espiritos em
que predominam as preoccupações de ordem moral.
Os asperos deveres e as amargas tristezas de todos os dias; os nossos
sentimentos mais intimos; as nossas mais irrepremiveis paixões; as
incertezas, as agonias do espirito alanceado por tantas contradicções e
tantas duvidas, e que, em nenhuma solução, das que offerece a
philosophia ou a crença religiosa, encontrou ainda o repouso desejado; e
lucta interior travada entre o mysticismo--innato ou herdado no homem--e
o racionalismo victorioso mas cruel, cujas ondas veem, dia e noite,
bater impetuosas contra a fortaleza mal segura, em que elle abrigou os
seus deuses foragidos; os combates da consciencia e da vontade, do
instincto e da razão; todo este mundo enorme, que cada um de nós traz
dentro de si, para sua tortura e seu orgulho;--eis em summa o que attrae
irresistivelmente este espirito contemplativo, no qual a educação
moderna não poude nunca vencer de todo a nostalgia, talvez inconsciente,
d'outras eras de simplicidade e de fé, em que a vida era mais facil, em
que o dogmatismo religioso se impunha sem esforço á consciencia
individual e a conservava mais tranquilla, mais ignorante e mais...
feliz!
O seu sonho--bello e radioso sonho, talvez nunca realisado--seria a
pacificação da alma moderna, tão desordenada, inquieta e dolorida n'este
momento, de que, todos mais ou menos, sentimos em nós a repercussão
dilacerante!
Elle não é dos indifferentes, que assistem impassiveis e frios a estas
angustias enternecedôras do espirito contemporaneo, ou dos que trabalham
para propagar, em torno de si, o desinteresse absoluto das cousas
invisiveis, das cousas ideiaes...
Achar uma solução pacificadora para este estado de crise latente,
reconciliar as aspirações irreductiveis da nossa alma, que são o seu
mais precioso e imperecivel thesouro, com as imposições da philosophia
d'este seculo, que se tem insinuado até nos espiritos que a ignoram,
pela indirecta e invizivel influencia que opera na litteratura, na arte,
no theatro, em todas as manifestações que _democratizam_ e vulgarisam a
Ideia--tal seria a ambição suprema d'este pensador, em quem a _vida
interna_ é tão exigente e intensa, tão desenvolvida e tão profunda.
Em varias conferencias feitas em Lisboa, em Coimbra e no Porto, Antonio
Candido tem tocado em todos estes pontos delicados e melindrosos da
consciencia moderna.
Em nenhuma, porem, os tocou mais magistralmente do que no discurso
pronunciado em 12 de abril de 1888, no theatro de S. Carlos, e n'um
saráu promovido pela imprensa lisbonense em favor das victimas do Porto.
Tenho ainda no ouvido, as palavras d'aquelle protesto heroico contra o
pessimismo doutrina, d'aquelle hymno entoado ás Alegrias e ás Virtudes
da vida, por esse melancolico, por esse vencido da felicidade, cuja voz
musical parecia embebida em lagrimas, quando pintou as bellas e radiosas
cousas que a Humanidade tem feito e que lhe conquistaram o direito
indeclinavel de amar a existencia, que a par de tantas tristezas tem
tantos risos, que a par de tanta covardia tem tão sublimes heroismos,
que a par de tantas paixões cruas e de tão mortiferas angustias tem
graças de tão ineffavel virtude, e voluptuosidades de encanto
incomparavel. Que desinteressada homenagem prestada a essa Vida, que
trahiu para elle as suas promessas todas, que nem das chymeras, que a
constituem e compõem, quiz fazer a chymera suprema que o illudisse e
fizesse feliz!...
Se realmente Antonio Candido versando estas questões de interesse
maximo, tratando estes problemas de tão complexa e vital importancia,
podia fazer um serviço grande á alma portugueza, porque é que elle se
não consagrou principalmente a esta alta e moralisadora tarefa social?
Porque não falla, elle que o sabe tão bem, aos que teem sêde de uma
palavra de vida; aos que não julgam grosseiramente que é só de pão que
vive o homem d'hoje.
E não é! Não o calumniemos, ao pobre homem d'hoje, tão mal pintado pela
litteratura decadente d'este tempo. Nunca, no meio do mais asqueroso
mercantilismo, houve mais violentas aspirações idealistas! Nunca, no
meio de mais desenfreadas ambições pessoaes, houve uma ancia mais
apaixonada e mais dolorosa de alguma cousa grande, indefinida e
immortal!
Eu sei que essa tarefa de orador e do escriptor moralista faria sorrir
ironicamente a turba multa soez dos triumphadores do dia, e que ella não
daria vantagens praticas de especie alguma ao que lhe acceitasse as
responsabilidades e os trabalhos.
Mas sei tambem que o pensador illustre, desinteressado, altivo e
desdenhoso, bastante superior para cahir no desagrado pleno d'essa cousa
niveladôra e immoral chamada _o sufragio universal_, poderia,
renunciando ao preço mesquinho com que o mundo sabe pagar aos que o
servem, guardar no coração, como um thesouro immaculado a consciencia de
haver semeado o bem, de haver lançado a luz d'uma palavra sincera nos
mil labyrintos tenebrosos em que a alma agonisante de hoje se perde e se
debate desnorteada, de haver fallado emfim, aos homens, d'aquellas
bellas e sublimes cousas, cuja posse, sonhada só que seja, nos consola
de todo o mal, de toda a tristeza de viver!..
Se a verdade não é privelegio exclusivo de ninguem, aquelles que possuem
uma das parcellas sagradas d'esse bem devem repartir d'elle com os seus
irmãos indigentes! Contar as delicias da Abnegação, os triumphos do
Sacrificio, a graça ineffavel da Virtude, não será possuil-os por
momentos, não será evocar nas almas o desejo sublime de os alcançar
tambem? Socegar a consciencia dos que duvidam dizendo-lhe que a Duvida é
o mais seguro meio de attingir a Verdade, de que é preferivel mil vezes
a agonia que os dilacera á quietação, á estagnada immobilidade dos
indifferentes, não será levar um pouco de tranquilidade a tantas almas
que padecem?.. Justificar as ousadias do pensamento moderno, pela sua
ancia tão meritoria de sciencia e de luz, não será apresentar sob um
aspecto misericordioso e justo tanto esforço que a ignorancia condemna,
tanto arrojo que a intolerancia maldiz? Oh! como é largo este campo, e
que beneficio não seria desbraval-o, e fazer com que na sua terra
esteril as arvores desabrochassem, crescessem, se enchessem de fructos e
de flores, dessem sombra, e abrigo aos que procurassem cançados a sua
rama protectora!
Ninguem poderia, melhor de que o orador em quem todos os prestigios da
Palavra se alliam a todos os calmos esplendores do Pensamento, fazer uma
realidade d'esta esperança que a tantos se affigurará talvez chymerica e
pueril, mas que eu, pobre mulher, ignorante e sonhadora, me não
arrependo de haver formulado aqui.
* * * * *
_TEIXEIRA DE QUEIROZ_
(BENTO MORENO)
Com quanto seja avultada a bagagem litteraria d'este escriptor,
comquanto seja admiravel a sua actividade intellectual, n'um meio tão
hostil a todos os trabalhos de imaginação ou de arte, a verdade é que
Bento Moreno não é, e creio que nunca será, um romancista popular.
É restricto o publico que o conhece e admira, e por isso mesmo, mais
rigoroso é ainda o dever da critica, perante este ostracismo injusto a
que é votado um talento bem nosso, bem portuguez, e d'uma probidade
litteraria, presentemente rara em toda a parte, quanto mais entre nós.
Hoje o escriptor portuguez, para ser lido e conhecido, precisa de
banalisar-se primeiro no jornalismo de todos os dias. O nosso publico
tem apenas a paxorra necessaria para ler as gazetas. Uma _élite_ ha,
pouco numerosa ainda assim, que compra a ultima _novidade_ parisiense na
livraria da moda, mas isto de ter em cada dia uma ou mais horas
destinadas a essa grande e purificadôra cultura do espirito, chamada a
leitura, é cousa que realmente não conhecem as nossas mulheres e muito
menos os nossos homens.
Os romancistas modernos, capitaneados por Flaubert e por Zola, professam
o mais profundo e altivo desdem para com o publico feminino. Fazem mal,
e por duas razões:
Primeiramente porque a imaginação e a sensibilidade da mulher são
muitissimo mais promptas e accessiveis que as do homem para este genero
de leitura, e depois porque a verdade dura, mas positiva é esta: só as
mulheres e os homens extremamente moços, isto é, ainda um pouco
_mulheres_, teem paciencia tempo e gosto de lêr romances.
Passado esse primeiro periodo da vida em que o sentimento impera sobre a
razão, em que a phantasia é mais forte que o raciocinio, _em que as
questões do coração_ são _as grandes questões_ que sobrelevam a todas,
qual é o homem que lê romances, e se enthusiasma por esses _creadores
d'almas_, chamados romancistas?
Talvez que os artistas os leiam, mas em cada dois mil espiritos praticos
póde talvez encontrar-se um espirito de artista. Não é o bastante para
constituir um publico, e sem publico como é que o escriptor póde
passar?...
São portanto as mulheres e os moços que restam ao romancista. É sobre
esses que elle tem de actuar, é esses que elle interessa e emociona,
educa ou perverte, ammollece ou tonifica, agita ou faz pensar.
As nossas mulheres leêm pouco. Falta de tempo, falta de habito, falta de
cultura litteraria, falta de gosto ingenito?... Não sei, nem é realmente
este o momento de o investigar. D'aqui provem portanto o escassissimo
mercado dos nossos livros. É o Brazil que ainda assim se encarrega de
lêr o que os nossos escriptores publicam e no Brazil tem Bento Moreno
uma popularidade muito maior do que chegou a alcançar aqui.
* * * * *
Foi com um volume de _Contos_ que Bento Moreno, haverá quatorze annos se
estreou na litteratura portugueza. Os que lêram este primeiro volume da
_Comedia do Campo_, e os que podiam ter n'este ponto opinião que valesse
a pena de attender-se, perceberam no artista que se estreiava faculdades
singulares, que davam á sua penna um cunho inconfundivel. _Não se
parecer com ninguem_ é a condição indeclinavel, indispensavel do
escriptor de raça.
Bento Moreno appareceu logo com um estylo seu.
Era duro esse estylo; não tinha as malleabilidades, as ductilidades e as
graças que se assignalam sympathicamente ao instincto do leitor; havia
n'elle um não sei quê de primitivo, de ingenuo, de _não cultivado_, que
o tornava talvez ainda defeituoso e tosco, mas as qualidades poderosas
do observador e o sentimento vivo e profundo do _pittoresco_
revellavam-se já n'este livro d'um modo surprehendente. A alma primitiva
e rude do minhoto, a paysagem deliciosamente verde, e singelamente
idyllica do Minho, retratavam-se ali, n'aquelle primeiro livro, em
traços admiraveis de verdade e de encanto. Observar e sentir, não serão
estas as duas faculdades principaes de todo o artista?
O theatro era talvez monotono e um pouco trivial na sua verdura sem
quebras, na sua paysagem sem accidentes e sem relevo accentuado; os
personagens não tinham nem o vigor brutal, e o monstruoso aspecto
inquietador dos camponezes de Zola, nem a manha, e a velhacaria quasi
grandiosas dos camponios de Balzac; mas scenario e figuras eram bem
nossas, e não havia nas paginas d'esse livro, como de resto continuou a
não haver nas obras de Bento Moreno, reminiscencias litterarias, echos
de vozes já ouvidas, copia ou imitação de processos extrangeiros,
_pastiches_ de creações alheias!
Seguiram-se, com intervallos desiguaes, a esse primeiro volume de contos
minhotos d'um sabor tão vivamente original, _sentant le terroir_, na
phrase franceza para a qual não encontro n'este instante equivalente,
muitos outros de varios generos, que accusavam cada vez mais o progresso
do estylista e a indole especial do escriptor.
São esses livros o _Amor Divino_, o _Antonio Fogueira_, os _Noivos_, o
_Grande homem_, o _Sallustio Nogueira_, e os _Novos Contos_.
D'esta bibliographia variada e extensa o que eu prefiro, são os _Novos
Contos_, o _Amor Divino_, e o _Antonio Fogueira_.
Desde que a critica hoje não é mais, no dizer de Anatole France, _que as
aventuras do espirito de cada critico atravez dos livros que este lê_,
porque não confessarei que em Bento Moreno prefiro o contista ao
romancista?
É que o _Amor Divino_, os _Novos Contos_ e o _Antonio Fogueira_, pintam
deliciosamente e naturalistamente scenas da vida minhota, quadros da
paysagem minhota, traços, condições peculiares, sentimentos e impressões
da alma minhota.
Desdenhando inteiramente o successo facil e o applauso condicional d'um
publico pouco litterario, Bento Moreno continuou a seguir, com enlêvos
de artista, o precioso filão que descobrira.
Elle, de resto, não fez senão recordar-se bem, e traduzir--pondo a _nota
justa_ nas suas formosas interpretações artisticas,--as scenas que vira
e que presenceára na infancia, inconsciente da graça nativa que d'ellas
se evola como um perfume acre e sadio!
Este escriptor, que o publico não tem favorecido com excessiva attenção,
é comtudo um dos homens mais doidos pela sua arte, que eu tenho
conhecido na minha já não curta existencia.
A fortuna, que ninguem mais do que elle merecia, pol-o desde longos
annos ao abrigo d'esta necessidade ferrea, que nos traz a tantos de nós,
curvados sobre a banca do trabalho, exhaurindo sobre ella a nossa força,
a nossa seiva intellectual, a nossa saude, a nossa alegria, a nossa vida
emfim.
Mas que lhe importava a elle esse secundario accessorio?
O trabalho litterario é o grande e o mais profundo amor da sua alma, tão
nobremente povoada de affectos santos.
Debaixo do seu sorriso de sceptico, sob a sua palavra um pouco mordaz
sem nunca ser maledicente, um pouco acre, sem nunca ser cruel,
esconde-se um d'estes corações d'ouro, uma d'estas organisações d'uma
sensibilidade exquisita e dolorosa, excessivamente impressionavel,
aberta ás proprias dôres, e o que é mais, ás dôres d'aquelles que ama!
Esta sensibilidade fez d'elle, irremediavelmente, o artista condemnado
ás gestações dolorosas da ideia, aos improbos combates da fórma, ás
tristezas invenciveis dos longos periodos de desalento, ás luctas sempre
renascentes da creação artistica, laboriosa e terrivelmente fatigante
para o cerebro.
* * * * *
Nos _Contos_ de Bento Moreno ha duas figuras, que ressaltam
principalmente, com uma vida intensa, com uma realidade violenta. São o
_abbade_ e o _brazileiro_, as duas entidades importantissimas na
paysagem risonha e na farta vida tão singela da nossa verde provincia.
Foram Camillo e Bento Moreno os que comprehenderam e puzeram em poderoso
relêvo estas duas figuras caracteristicas e tão nacionaes! Em Camillo, a
linguagem d'uma riqueza incomparavelmente superior, a intensidade e a
vivacidade comica da expressão, que o tornam rival, muita vez
triumphante, dos maiores _humoristas_ do mundo, imprimem nas suas
creações a perfeição e o cunho soberbo das duradoiras obras, que nenhuma
revolução do gosto póde destruir.
Bento Moreno, com muito menos belleza na execução plastica da sua obra,
com muitas mais imperfeições de processo, dá uma realidade mais viva, um
cunho mais sincero ao personagem. Camillo faz o typo; elle desenha a
physionomia muito individual, muito caracteristica da figura evocada, de
modo a não deixar que se esqueça mais, ou que se confunda com qualquer
outra.
As concepções diversas, que os dois teem da Arte percebem-se claramente
nas differenças fundamentaes do modo de a executar. Mas o _abbade_ é tão
palpavel e real nos _Contos_ de Bento Moreno, como nas paginas
scintillantes de _humor_ do grande romancista, e o _brazileiro_ tem
talvez mais verdade, visto atravez da lente microscopica de Teixeira de
Queiroz, analysado com a paciencia de naturalista que distingue este
observador, do que pintado a _fresco_ em largas pinceladas d'um
immorredoiro sabor comico, pelo engenho extraordinario de Camillo
Castello Branco.
Percebe-se _à priori_ que o genero em que mais se deleita e em que mais
excellentemente se manifesta a imaginação e a observação de Bento
Moreno, não favorece n'elle o estudo das complicações psychologicas e
dos requintes sentimentaes, que tanto no gosto estão dos leitores
contemporaneos.
São almas simples as que elle melhor analysa e disseca. Uma pequena
ambição, uma vaidade pueril, um sonho de primitiva singeleza, uma paixão
rude e instinctiva; bastam para encher estas vidas ingenuas que o
artista se entretem em pôr a nú. Mesmo o drama, quando apparece como no
_Antonio Fogueira_, é um drama sem complicações extranhas, sem
contradições, sem complexidade, sem mysterios de indecifravel
profundeza.
Ou selvagens, ou pueris, ou violentas ou ingenuas, estas almas sentem
impetuosamente, n'uma explosão de instinctos irreductiveis e ardentes;
ou vegetam n'uma doçura inconsciente de planta que medra ao sol, bebendo
a luz sem saber que a bebe, amando sem ter a impressão de que ama!
O estylo de Bento Moreno que principiou por sêr duro e inflexivel, como
se não houvesse meio de o fazer obedecer docilmente á vontade e aos
caprichos do escriptor, e que pouco a pouco se foi transformando e
aperfeiçoando, ammolleceu-se n'este ultimo livro--_Os Novos Contos_--em
notas d'uma melancolia discreta, e d'uma sensibilidade suavemente
vellada, e ha _Contos_ d'elle como a _A minha morte_, o _Nosso Senhor
Jesus Christo_, o _Cego de Guardiam_, que dão uma nova phase d'este
talento progressivo, e perfectivel como os talentos de bôa raça.
* * * * *
_O Amor Divino_ (pathologia d'uma Santa) foi talvez um dos melhores
assumptos, que Bento Moreno encontrou no seu caminho de observador e
analysta scientifico das doenças e manias do _animal humano_.
A influencia do _missionario_ na alma rude, ingenua e candida da mulher
do povo das nossas provincias do Norte, é, como todos sabem,
poderosissima.
Quando as _missões_ passam pelas aldeas de Portugal, que ainda estão sob
a influencia d'esse meio paganismo, que ellas julgam religião catholica,
o que succede ahi de perturbador e de desordenado, chega a parecer
inverosimil e phantastico.
As raparigas deixam cahir, cortadas aos pés, as longas tranças nem
sempre excessivamente cuidadas dos seus cabellos escuros e bastos; as
mulheres abandonam pela egreja a casa onde o marido e os filhos ficam
entregues á mais deploravel incuria! Ouvem-se pelas ruas e pelas
azinhagas de carvalheiras, em que a vinha de enforcado pendura os
pampanos verde-claros, brados afflictivos de peccadôras arrependidas que
se lamentam; ha restituições de objectos roubados, denuncias de crimes
esquecidos, bulhas medonhas entre os paes e as filhas os maridos e as
mulheres; as _beatas_ arrepellam-se por quererem, todas á uma, ser a
favorita do sr. missionario que mais virtude apparenta; e nos campos
tranquillos e nas aldeias monotonas, que a ausencia completa do aceio
feminino torna sempre tão tristemente contradictorias com a paysagem
circumdante, luminosa, farta e festiva, tamanho movimento, tamanho
bulicio, tamanhas luctas se desenvolvem, que chegam a fazer, de cada
passagem de missionarios uma revolução memoravel.
Como em todos os movimentos sinceros da alma popular ha n'este muito
oiro e muita escoria, muita cousa boa e muita cousa má.
A inconsciencia animal, em que vive o nosso camponez, é violentamente
sacudida pela prédica, sempre adquada ao seu rude auditorio, do
missionario que vem espalhar pelo povo a _palavra de Deus_. E,
certamente levar uma pouca de luz a cerebros rudimentares, tão
profundamente submersos nas trevas d'uma ignorancia absoluta e d'uma
inconsciencia moral verdadeiramente lamentavel, poderia considerar-se
uma obra santa, se os missionarios se limitassem a fazer penetrar no
duro cerebro dos seus ouvintes algumas noções de moral, de religião e de
tolerancia mutua.
É porem exactamente o contrario que succede, ou antes, succede o que é
mais pernicioso que tudo!
Dirigindo-se de preferencia ás mulheres, d'uma impressionabilidade mais
dolorosa e mais vibratil, d'uma fraqueza organica mais accessivel a
qualquer influencia profunda, o que elles fazem é exacerbar-lhes
perigosamente a sensibilidade, latente em todo o organismo feminino, e
precipital-as n'uma ordem de ideias e de sensações morbidas, que por
tenebrosas e desconhecidas, são infinitamente perturbadôras para as
infelizes...
Pintando como peccado mortal a florescencia do rude instincto
irreductivel, e da innocente e expansiva natureza; condemnando como um
crime horrendo o exercicio das faculdades naturaes a todo o organismo
humano; fazendo a descripção medonha e phantastica do inferno, que
espera todos os que tiverem a desgraça de faltar aos preceitos da Egreja
mais orthodoxa, e da Moral mais austera; accentuando com traços
realistas, e com violentas côres brutaes, feitas para fallar ao
instincto da multidão ignorante, esse Inferno em que os supplicios são
comprehensiveis pelo materialismo grosseiro e pelas imagens physicas
d'uma revoltante energia;--os missionarios levam a desordem, o
desiquilibrio a todas as que os ouvem, e a loucura ás imaginações mais
exaltadas, e aos organismos mais fracos.
Quantas raparigas do povo enlouquecem ao ouvil-os!... Quantas, fugindo
para o convento ou fazendo-se irmãs de caridade procuram, na lida
esmagadora ou na clausura estreita aggravada pelos cilicios e pelos
jejuns, o perdão de imaginarios peccados e de phantasticas culpas!...
Pois o _Amor Divino_ é isto que pinta dramaticamente, com verdade, com
animação, com muita diversidade de typos e de figuras reaes, e bem
tocadas.
O _Amor Divino_ é a acção exercida pela palavra candente e inflammada
d'um missionario, no espirito, no coração, na vida interior, d'uma
robusta e alegre minhota, risonha, sensual, fortemente retemperada por
aquelle bello sol luxuriante e quente para as sãs alegrias da vida e da
maternidade feliz!
O missionario transfigura-a, e pouco a pouco, por uma gradação
escrupulosamente notada, leva a pobre moça á exaltação, ao hysterismo,
ao delirio, ao mysticismo das vizionarias e das stygmatisadas, á morte
emfim, acompanhada de torturas e de hallucinações pavorosas!...
Se á belleza d'esta concepção, se á intuição delicada de tantos segredos
intimos da organisação feminina, se ao vigor transcendente do assumpto,
correspondesse n'este livro--um dos melhores de Bento Moreno--a
impeccavel pureza d'uma fórma burilada e perfeita, este volume ficaria
como uma preciosidade litteraria incomparavel!
Raras vezes um assumpto tão verdadeiro, tão rico de aspectos diversos,
tão suggestivo, se offerece ao estudo d'um observador no genero especial
de Bento Moreno!
Tem defeitos o livro? Tem. Mas é um dos melhores, dos mais exactos, dos
mais bem feitos que devemos á penna de Teixeira de Queiroz, e é um
_documento_ soberbo de verdade, e de vigor naturalista.
* * * * *
O _Antonio Fogueira_, é outro dos meus estudos favoritos. Que bellas
paginas de paysagem, que notação exacta no estudo d'esse typo tão
caracteristico e tão popular de _feirante_, amando os bons cavallos, o
bom vinho, as robustas e alegres cachopas, vivendo com a inconsciencia
vegetativa d'um bello e forte bruto, que nenhuma lei _flexibilisou_, em
que nenhum principio moral actua, cujo duro craneo não abriga uma ideia,
mas em cujo temperamento vegetam--no luxo enorme, na floração purpurea,
no regorgitamento sensual da seiva mais opulenta,--os instinctos do
selvagem, do animal bravio independente e feroz.
Tanto o _Amor Divino_ como o _Antonio Fogueira_, tanto o primeiro volume
como o ultimo dos contos soltos, não poderiam ter sido escriptos,
pensados, sentidos, senão em Portugal, senão na provincia em que teem a
sua origem e a sua raiz vigorosa e tenaz. Este merito é enorme n'uma
litteratura como a nossa, em que muitos dos melhores livros de costumes
ou de analyse psychologica parecem traduzidos do francez!
Eis provavelmente o defeito que as nossas delicadas leitoras lhes
encontram. Que lhes importa a ellas, no fim de contas, o que pensa um
cerebro plebeu de abbade minhoto, ou de homem do campo robusto,
indisciplinavel e brigão?
Que lhes importa o aspecto extranho que assumem, o mysticismo e a
exaltação devota, na organisação robusta e brutal de uma pobre e
ignorante mulher do campo?
Não é assim que pensam os cardeaes e os prelados, graciosamente
affaveis, classicamente eruditos, risonhamente paternaes, delicados
casuistas de consciencia, finos argumentadores theologicos e ao mesmo
tempo conversadores adoravelmente indulgentes, a quem ellas, as gentis
catholicas do _mundo_, beijam o annel encontrando-os nas salas mais
_selected_, ante os quaes ellas se ajoelham rendidas, nas cerimonias
patheticas e magestosas, austeras e tão impressionadôras do culto, que
praticam e professam devotamente.
Não é assim que procedem os _dandys_ que ellas conhecem e admiram; nem é
assim que a paixão dos divinos mysterios, que o extase das insondaveis
beatitudes, as aspirações mysticas e a exaltação sagrada se manifestam
nas deliciosas e pallidas mulheres, que ellas tractam de perto, e das
quaes algumas se refugiam de vez em quando, do mundo que as trahiu e
desenganou, sob o habito austero das _vizitandinas_, ou sob a grande
touca branca de azas soltas das irmãs de S. Vicente de Paula.
Eu propria, mais amiga dos estudos em que a alma moderna, _atormentada_,
saciada, desformizada por uma cultura excessiva, sonhadora de amarguras
e de volupias ineditas, traduz as suas dôres peculiares, as suas doenças
complicadas e extranhas, eu propria inacessivel ás vezes á sã e robusta
influencia da mãe natureza, me penitenceio aqui do crime de que accuso
as leitoras.
E no entanto a critica não deve assim proceder, para ser lucida e justa.
A sua obrigação é collocar-se nos mais diversos pontos de vista, e
explicar e comprehender as mais diversas tendencias.
Acceite, sem condições de especie alguma, o ponto de partida do
escriptor, o que ella tem de verificar é se a obra correspondeu á
concepção embryonaria, e traduziu bem a sua ideia inicial.
As mais oppostas manifestações de arte são igualmente legitimas perante
o critico, os temperamentos mais contrarios obedecem á lei superior que
os justifica, explicando-os, e perante a qual, quem só procura a verdade
e só a verdade investiga, tem de curvar-se com respeito sincero.
* * * * *
Não me parece que na sua _Comedia burgueza_, Teixeira de Queiroz fosse
tão feliz como na _Comedia do Campo_.
O estylo tem sempre progredido, a _maneira_ do escriptor, á proporção
que elle avança na vida, vae-se tornando ao mesmo tempo mais flexivel,
mais firme e mais sinuosa.
Comtudo é fóra de duvida que o seu instrumento de analyse presta-se
menos ao estudo do meio burguez, mais complicado e mais réles, do que se
presta á observação larga e feliz dos costumes campestres, e das simples
almas plebeias e incorruptas, mesmo até na violencia ou no crime.
Os _Noivos_ são talvez uma pintura exacta. Exacta de mais! Não a
sobredoira um raio de luz ideal. N'esse casal burguez profundamente
antipathico e inesthetico, o marido é mediocre, pobre, mesquinho de
comprehensão e de sentimento, incapaz de nos interessar pela sua figura
incolor e em que nenhuma paixão cravou a garra leonina, em que nenhuma
força desenvolve e manifesta energias latentes.
A mulher é mal educada, é rélesmente ambiciosa, coquette sem graça,
amiga do luxo sem intuição artistica do seu valor, sensual sem
impetuosidades de femea robusta e indisciplinavel. O meio em que elles
se movem corresponde, pelo seu acanhado ambito, aos personagens, que
longe de reagirem contra elle se lhe subordinam ás leis corruptôras.
É esta uma pintura real da pequena burguezia das grandes cidades? Não
creio que o seja. Mas é um recanto d'essa classe, que toca d'um lado no
povo inculto, que por outro se relaciona com uma cathegoria social mais
rica, mais educada e mais ambiciosa; tendo os vicios d'uma e d'outra
classe, sem ter nenhuma das qualidades solidas e grandes que no bem,
distinguem e caracterisam qualquer das duas.
Essa classe dubia que tem do povo a grosseria do instincto e que tem da
burguezia a ancia de _parecer_, o amor do luxo apparente e barato, a
ambição de elevar-se socialmente, o respeito das cousas officiaes, das
pessoas e superioridades consagradas, está aqui realmente apanhada, em
muitas das culpas flagrantes que a assignalam e a tornam tão
profundamente antipathica para o artista! Vê-se que Bento Moreno
empregou n'este estudo o mesmo escrupulo de naturalista, a mesma
indifferença de observador e de colleccionador, ao qual o sapo e a
andorinha, a rosa ou o cardo, a borboleta multicôr ou a viscosa lagarta,
interessam igualmente, e igualmente sollicitam e prendem!
Foi o mundo politico que no _Grande homem_ e no _Sallustio Nogueira_,
Teixeira de Queiroz tentou estudar de mais perto.
São simples tentativas no genero estes trabalhos. Em ambos se manifestam
as qualidades e os defeitos do escriptor. Mas o estylo tem sem duvida um
grande progresso. Faltam os dados para a observação positiva; os factos
não tem aquelle _carimbo_ de verdade tão indispensavel ao romancista da
nova escola; o _documento humano_ nem sempre é authentico e
incontestado. Tudo isto porem virá com o tempo, e essas acquisições
secundarias dependem do esforço e do poder de vontade empregados pelo
escriptor.
* * * * *
Concluindo repetirei o que já disse. A impopularidade de Bento Moreno é
inteiramente injustificavel.
Não falta a este escriptor a graça natural nem o colorido pittoresco e
vivo, nem a sensibilidade mais vibrante e mais enternecida!
Elle comprehende a natureza como poucos; é genuinamente portuguez no
modo de sentir, e de traduzir a impressão que lhe é suggerida pelo
espectaculo do mundo; e no seu talento impressionavel e delicado, ha uma
flôr de sinceridade, de honestidade e de nobreza ingenua que me encanta!
No mundo actual em que triumpha o materialismo, o mercantilismo, o amor
do ganho, elle adora com tocante desinteresse a Arte, que nem sempre o
tem recompensado dos seus extremos, o trabalho que prosegue infatigavel,
sempre em busca do melhor, sempre aspirando ao ponto mais alto e á
comprehensão mais ampla do seu assumpto, sempre perseguindo aquella
verdade relativa que é dado a cada homem possuir ou sonhar...
Cada novo livro tem revellado n'elle um progresso ou de estylo, ou de
sentimento e de observação. Espirito eminentemente progressivo, Bento
Moreno não nos deu ainda a medida completa do seu valor.
Atravez de todos os seus livros--marcos milliarios d'uma marcha
ascencional--elle tem caminhado para alguma cousa de definitivo e de
completo, que se está elaborando talvez inconscientemente no cerebro
fecundo do notavel contista, e que hade surgir, enriquecida de todos os
dons variados e preciosos que elle tem ido lentamente, gradualmente
adquirindo e manifestando em cada novo volume publicado.
Entre o auctor do primeiro volume da _Comedia do Campo_ e o auctor dos
_Novos Contos_, que extraordinaria differença, mas que progresso logico
e natural!
Muitas das qualidades que só appareceram ali em germen apenas,
fructificaram já; muitas estão na primeira flôr, e muitas não
conseguiram ainda sahir do estado embryonario em que pela primeira vez
appareceram. Mas o tempo que produz o seu effeito n'alguma d'ellas, ha
de exercer nas outras a mesma acção embora mais tardia, e cada novo
livro de Bento Moreno confirmará, estou certa, este diagnostico da
critica.
Felizes os espiritos progressivos porque elles são os que triumpham do
tempo, felizes os escriptores que em cada obra affirmam uma nova
qualidade, porque n'elles o talento é uma ascenção laboriosa embora, mas
feliz e consoladôra para a luz e para o ideal!