É perfeitamente esta dôr terrivel, que só é dada a alguns eleitos da
sensibilidade, esta dôr sem consolo que tem de os perseguir
implacavelmente até á morte, e que póde achar calmantes e anesthezicos,
mas nunca uma cura decisiva, que Anthero de Quental exprime dolorosa e
magnificamente n'estes _Sonetos_ que, para o _grosso publico_, hão de
parecer apenas os devaneios de um phantasista, senão as mysteriosas
locubrações de um allucinado e de um nevrotico.
Oh! felizes dos _simples_, porque elles não conhecem esta dôr
dilacerante de duvidar, esta ancia amarga de saber, esta inquieta
curiosidade de prescrutar todos os mysterios, de sondar todos os
recessos sombrios do pensamento! Felizes dos simples, porque elles não
voltam d'essas regiões terriveis, d'esses circulos dantescos,
empallidecidos, cançados, mortalmente tristes, sem coração para amar,
sem força para viver, sem incentivo para a lucta, sem alimento para as
ambições banaes e limitadas d'este mundo.
E, no entanto, maldizendo as dôres de que a razão lhe foi origem,
Anthero de Quental não pode amaldiçoar essa faculdade superior, comprada
á custa de taes agonias, mas que lhe tem dado--goso contradictorio e
extranho!--o austero orgulho dos que sabem!...
Razão, velha de olhar agudo e frio
E de halito mortal, mais do que a peste!
Pelo beijo de gello que me deste,
Fada negra, bemdita sejas tu!
Bemdita sejas tu pela agonia
E o lucto funeral d'aquella hora
Em que eu vi baquear quanto se adora,
Vi de que noite é feita a luz do dia!
Pelo pranto e as torturas bemfazejas
Do desengano... pela paz austera
D'um morto coração que nada espera
Nem deseja tambem... bemdita sejas!...
Muitos perguntam,--e, no seu ponto de vista racional e practico,
perguntam com razão--a que se deve a reclusão quasi absoluta, o abandono
de todos os interesses positivos, a inacção voluntaria, que tão
estranhamente caracterisam esse pensador, esse critico, esse poeta,
chamado Anthero de Quental.
Quando pela primeira vez os echos d'este nome repercutiram na sociedade
portugueza, foi como um som bellicoso e guerreiro que se ouviu,
sobresaltando os possuidores consagrados da realeza litteraria d'esse
tempo.
Anthero de Quental era, na somnolenta, monotona e convencional _coterie_
litteraria de ha vinte annos, considerado um iconoclasta, atrevido e
sacrilego, que vinha sem dó derrubar os velhos idolos, atirar por terra
as reputações consagradas, levantar uma vermelha bandeira revoltosa em
meio da serena paz, que os bons e pachorrentos mestres do classicismo
academico faziam reinar entre todos os portuguezes... que os não liam!
Na politica Anthero tinha a ousadia, então quasi criminosa, de se
proclamar socialista; em philosophia era um pantheista, em cuja bella
imaginação, colorida e meridional, as sublimes hypotheses de Hegel
exerciam uma acção dominadora; em litteratura, elle trazia todas as
novas idéas hoje conhecidas e generalisadas, então quasi inteiramente
ignoradas por nós, que la fóra tinham desthronado o romantismo, e
produzido a grande evolução naturalista agora triumphante.
Anthero de Quental era pois um revolucionario, um innovador; estava-lhe
destinado um d'estes papeis que n'uma litteratura e n'um paiz são o
maior titulo de gloria, que ao pensamento e ao trabalho de um homem é
dado alcançar: o de iniciador, de percursor, de _porta-estandarte_ de
uma Idéa civilisadora e grande!
Porque não realisou elle estas promessas de luctador e de artista
infatigavel?
A esta pergunta, que se apresenta naturalmente diante de todos os
espiritos, responde este livro. Vamos pois vêr de que modo.