III

É perfeitamente esta dôr terrivel, que só é dada a alguns eleitos da

sensibilidade, esta dôr sem consolo que tem de os perseguir

implacavelmente até á morte, e que póde achar calmantes e anesthezicos,

mas nunca uma cura decisiva, que Anthero de Quental exprime dolorosa e

magnificamente n'estes _Sonetos_ que, para o _grosso publico_, hão de

parecer apenas os devaneios de um phantasista, senão as mysteriosas

locubrações de um allucinado e de um nevrotico.

Oh! felizes dos _simples_, porque elles não conhecem esta dôr

dilacerante de duvidar, esta ancia amarga de saber, esta inquieta

curiosidade de prescrutar todos os mysterios, de sondar todos os

recessos sombrios do pensamento! Felizes dos simples, porque elles não

voltam d'essas regiões terriveis, d'esses circulos dantescos,

empallidecidos, cançados, mortalmente tristes, sem coração para amar,

sem força para viver, sem incentivo para a lucta, sem alimento para as

ambições banaes e limitadas d'este mundo.

E, no entanto, maldizendo as dôres de que a razão lhe foi origem,

Anthero de Quental não pode amaldiçoar essa faculdade superior, comprada

á custa de taes agonias, mas que lhe tem dado--goso contradictorio e

extranho!--o austero orgulho dos que sabem!...

Razão, velha de olhar agudo e frio

E de halito mortal, mais do que a peste!

Pelo beijo de gello que me deste,

Fada negra, bemdita sejas tu!

Bemdita sejas tu pela agonia

E o lucto funeral d'aquella hora

Em que eu vi baquear quanto se adora,

Vi de que noite é feita a luz do dia!

Pelo pranto e as torturas bemfazejas

Do desengano... pela paz austera

D'um morto coração que nada espera

Nem deseja tambem... bemdita sejas!...

Muitos perguntam,--e, no seu ponto de vista racional e practico,

perguntam com razão--a que se deve a reclusão quasi absoluta, o abandono

de todos os interesses positivos, a inacção voluntaria, que tão

estranhamente caracterisam esse pensador, esse critico, esse poeta,

chamado Anthero de Quental.

Quando pela primeira vez os echos d'este nome repercutiram na sociedade

portugueza, foi como um som bellicoso e guerreiro que se ouviu,

sobresaltando os possuidores consagrados da realeza litteraria d'esse

tempo.

Anthero de Quental era, na somnolenta, monotona e convencional _coterie_

litteraria de ha vinte annos, considerado um iconoclasta, atrevido e

sacrilego, que vinha sem dó derrubar os velhos idolos, atirar por terra

as reputações consagradas, levantar uma vermelha bandeira revoltosa em

meio da serena paz, que os bons e pachorrentos mestres do classicismo

academico faziam reinar entre todos os portuguezes... que os não liam!

Na politica Anthero tinha a ousadia, então quasi criminosa, de se

proclamar socialista; em philosophia era um pantheista, em cuja bella

imaginação, colorida e meridional, as sublimes hypotheses de Hegel

exerciam uma acção dominadora; em litteratura, elle trazia todas as

novas idéas hoje conhecidas e generalisadas, então quasi inteiramente

ignoradas por nós, que la fóra tinham desthronado o romantismo, e

produzido a grande evolução naturalista agora triumphante.

Anthero de Quental era pois um revolucionario, um innovador; estava-lhe

destinado um d'estes papeis que n'uma litteratura e n'um paiz são o

maior titulo de gloria, que ao pensamento e ao trabalho de um homem é

dado alcançar: o de iniciador, de percursor, de _porta-estandarte_ de

uma Idéa civilisadora e grande!

Porque não realisou elle estas promessas de luctador e de artista

infatigavel?

A esta pergunta, que se apresenta naturalmente diante de todos os

espiritos, responde este livro. Vamos pois vêr de que modo.

Alguns homens do meu tempo: impressões litterarias · 第 19 / 32 题