A mim, se me faltam, como já disse, muitos dos predicados exigidos para
analysar e estudar a obra, tão profundamente pessoal, do auctor dos
_sonetos_, não me falta comtudo, para lhe comprehender a alma agitada e
sacudida por tantas idéas que se combatem entre si, produzindo uma
tragica lucta interior, o que n'este caso supre vantajosamente a
sciencia e a critica: refiro-me á minha alma de mulher, contradictoria
tambem, tambem fluctuante, e que não foi corrigida nem mutilada pela
necessidade fatal da acção, pela despotica lei social que impelle o
homem a pronunciar-se n'um sentido definido, a caminhar para um fim
determinado, a _comprometter_, por assim dizer, as suas opiniões e as
suas crenças, dando-lhes uma forma precisa e limitada, encerrando-as
n'uma esphera positiva e restricta.
N'este ponto Anthero de Quental guardou, a par das qualidades poderosas
e creadoras de um espirito viril, a plena independencia mental que é
talvez a maior felicidade da mulher, quando a mulher--o que é raro--a
sabe aproveitar no enriquecimento, na ampliação e na cultura do seu
mundo interior.
Está portanto ahi o ponto delicado e subtil em que nos encontramos.
O livro dos _Sonetos_, que para mim vale muitissimo como obra de arte e
de poesia, vale principalmente como documento psychologico, como
_notação_ sincera, espontanea, feita dia a dia, de sensações
requintadas, como confissão d'uma alma que,--nas suas dôres imaginarias
ou reaes, nas suas ardentes aspirações d'um espiritualismo doloroso, nas
suas duvidas desnorteadoras diante de todos os problemas insoluveis da
Vida, no seu desejo dilacerante d'um absoluto impossivel, nas suas
anciosas interrogações em face do incognoscivel eterno, nos seus gritos
melodiosos de apaixonada tristeza e de amargura revoltada--condensa,
representa, synthetisa em si o estado sentimental de todo um mundo, o
mundo a que nós pertencemos.
O vago mal-estar que fez chorar tão docemente Lamartine, e que sacudiu
violenta e dolorosamente os nervos de Musset, definiu-se nos seus
symptomas, revelou-se aspera e positivamente nos seus mais accentuados
caracteres.
Nós não ignoramos o mal de que soffremos e porque soffremos.
Não foi impunemente, e sem que um medonho e forte abalo se produzisse
nos espiritos e nas consciencias, que a sciencia, implacavel e
tranquilla, despovoou os ceus, destruiu na nossa alma, ambiciosa e
soffredora, o sonho da triumphante immortalidade, fez do mundo, que
julgavamos centro e eixo do Universo este humilde grão de areia que hoje
gravita subordinado e dependente nas amplidões infinitas do espaço; não
foi sem dilacerar as fibras mais intimas do nosso orgulho que a
biologia, arrancando aos abysmos do tempo o segredo da primeira
scentelha da Vida que animou este planeta, nos demonstrou o que nós
eramos no fim de contas, nós que nos julgavamos os filhos dilectos do
Creador!
Se a sciencia exulta, se os seus apostolos continuam tranquillos e
convencidos a trabalhar para a completa libertação d'esse escravo
d'outras eras, que é o triumphador maximo de hoje, se o progresso
caminha, se a civilisação se requinta, se a materialidade do goso
attingiu quasi os limites do ideal, quantos corações, em compensação de
tanta grandeza, não ficariam esmagados e desfeitos em sangue sob as
rodas de fogo d'esse carro de triumpho, que leva a humanidade, cega de
orgulho, á conquista da sua apotheose final!...
A extraordinaria revolução scientifica e social, que faz do nosso seculo
uma quadra sem precedentes na historia, se trouxe a tantos a felicidade,
a libertação, a victoria, se deu ás massas o goso de regalias ignoradas,
se nivelou as castas, se diminuiu a miseria, se combateu muitos males
visiveis, muitas injustiças flagrantes, se teve, emfim, nos seus
aspectos geraes e nas suas linhas grandiosas, resultados soberbos, que
ninguem contesta e que todos aproveitam, não podia comtudo, deixar de
repercutir-se de um modo violento e profundo, dilacerante ás vezes,
outras vezes entontecedor, em certas almas impressionaveis, em certos
espiritos delicados, em certas organisações doentiamente accessiveis!...
Que importa, dirão, se a felicidade do maior numero exige o sacrificio
desses poucos!
Sim, não importa que elles soffram; o que não obsta a que, ainda mesmo
aos mais fortes, inspirem a mais irresistivel sympathia esses corações
ardentes, essas almas visionarias, que a sêde invencivel da sciencia
leva a beberem do seu amargo licôr, e que em vez de acharem n'elle a
robustez, a certeza fortificante, a saude mental, cáem prostrados por
uma dolorosa ebriedade,--iniciados que dariam tudo para ignorar,
curiosos e complicados espiritos que anceiam debalde por se salvarem
pela simplicidade e pela innocencia, a cujo seio nunca mais, _nunca
mais_, poderão retroceder...