XXIX

De repente ouviu-se bater na porta, rapidamente. Levantou-se a criança

e dirigiu interrogador olhar á dona da casa.

--Abre, Sérgio! Quem poderá ser?

Com o maior socego, introduziu a mão na algibeira do vestido e disse á

sua hospede:

--Se fôr a polícia, colloque-se ali n’aquelle canto. E tu, Sérgio...

--Bem sei! respondeu a criança, baixando a voz. E saíu.

Pélagué sorria. Não a impressionavam taes preparativos; não tinha o

presentimento d’uma desgraça.

Quem entrou afinal foi o doutor. Annunciou logo com precipitação:

--O Nicolao foi preso!... Ah, está por cá, tiasinha?... Não estava em

casa quando o levaram?

--Não, senhor; foi elle que me mandou para aqui.

--Hum!... Não me parece que isso lhe seja de grande utilidade... Esta

noite, uns rapazes imprimiram com gelatina quinhentos exemplares do

discurso do Pavel. O trabalho ficou bom, está bem impresso, lê-se

bem. Tencionam distribuil-os pela cidade, esta noite. Não sou d’essa

opinião: para a cidade são preferiveis os folhetos impressos; os outros

é que devem ser expedidos para toda a parte.

--Eu os vou levar á Natacha! Dê-mos! exclamou Pélagué com vivacidade.

O seu grande desejo era fazer circular o mais depressa possivel o

discurso de Pavel; inundar a terra com as palavras de seu filho. E

fitava o médico attentamente, com olhar quasi supplicante.

--Não sei se será prudente que a senhora se metta agora n’essa empreza!

disse, indeciso. E puxou pelo relógio.--São onze horas e quarenta e

trez minutos... O comboio parte ás duas e cinco; póde chegar ao seu

destino ás cinco e quinze... Ia chegar de noite, mas não era muito

tarde... Além do que, não é isto o essencial...

--Não, não é isso o essencial! repetiu Lioudmila, franzindo o sobrolho.

--Então o que é? perguntou Pélagué, approximando-se d’elles. O

essencial é que a distribuição seja bem feita... e eu sei como me hei

de haver!

A dona da casa attentou n’ella fixamente e declarou, passando a mão

pela testa:

--É perigoso...

--Porquê? exclamou a outra.

--Aqui tem porquê! expôz o doutor com voz precipitada e desigual.

Vocemecê desappareceu de casa uma hora antes da prisão do Nicolao.

D’aqui a pouco, vae ser vista lá na fabrica, onde é tão conhecida. Logo

depois de lá chegar, entram a apparecer os folhetos revolucionarios...

Tudo isso são indícios que se lhe vão apertar na garganta como um laço

corredio...

--Mas é que não hão de dar por mim! objectou ella com animação

crescente. Se fôr presa quando de lá voltar, e me perguntarem onde

estive...

Interrompeu-se um momento e proseguiu:

--Sempre hei de achar resposta! Por exemplo: posso ir da fabrica

directamente ao arrabalde. Conheço lá um sujeito chamado Sizof. Pois

digo que logo em seguida ao julgamento fui para casa do Sizof, por me

achar incommodada com o desgosto soffrido... Tambem elle está muito

pezaroso: o sobrinho foi condenado juntamente com o Pavel!... Digo que

estive todo este tempo em casa d’elle, e elle ha de confirmar o que eu

disser... Bem vêem!

E porque os sentisse cederem aos seus argumentos, esforçava-se por

convencel-os e falava com crescente calor. Por fim, acquiesceram.

--Que se ha de fazer? Pois vá! concordou o doutor, mas de má vontade.

Lioudmila conservava-se em silencio; passeava pelo quarto, meditativa.

O rosto assombreára-se-lhe, as faces haviam-se-lhe cavado; os músculos

do pescoço pareciam ter-se distendido, como se a cabeça se tivesse

bruscamente tornado mais pesada e tombasse irresistivelmente para o

peito.

O forçado consentimento do doutor arrancára a Pélagué profundo suspiro.

--Andam todos a animar-me! disse, sorrindo. Mas os senhores são os

primeiros que não se poupam!

--Isso não é assim! replicou o doutor. Poupamo-nos todos; temos o

dever de nos poupar. E as nossas censuras nunca serão demasiadas para

aquelles que se expõem inutilmente! Por consequencia lá se lhe irão

levar os folhetos á estação.

Explicou-lhe o que tinha a fazer e em seguida accrescentou, fitando-a

bem de frente:

--O que desejo é que se saia bem! Está satisfeita, não é assim?

E foi-se descontente. Logo que ouviu fechar se a porta, Lioudmila

approximou-se de Pélagué.

--A senhora é uma excellente mulher!... Eu compreendo-a...

Travou-lhe depois do braço, e ambas entraram a passear pelo aposento.

--Tambem eu tenho um filho. Tem já doze annos. Mas vive com o pae. Meu

marido é procurador substituto; talvez seja já procurador effectivo,

não sei... E aquella criança está na sua companhia... Quantas vezes

pergunto a mim mesma qual será o seu futuro!...

Teve na voz, desfallecida, uma commoção, e depois proseguiu baixinho,

de novo meditativa:

--Se elle está sendo educado por um inimigo figadal d’aquelles que me

são queridos, d’aquelles que eu considero como as melhores creaturas

da terra!... E assim, meu filho póde vir a ser meu inimigo tambem...

Não me é licito trazel-o para a minha companhia, pois que vivo com nome

supposto. E ha oito annos já que o vi pela ultima vez!... Quanto tempo!

Oito annos!

Ao pé da janella, parou e ficou a olhar para o pálido e desolado céu.

--Se elle vivesse comigo, sentir-me-ia mais forte. Mesmo se morresse,

ficaria mais aliviada...

Apóz um instante de silencio, ergueu a voz para explicar:

--Porque então, ficaria sabendo que só estava morto; porque não poderia

tornar-se n’um inimigo d’aquillo que é superior ao próprio amor

materno, de tudo o que na vida ha mais precioso!...

--Minha querida amiga! murmurou brandamente Pélagué, sentindo o coração

confranger-se-lhe de dó.

--A senhora é feliz! proseguiu Lioudmila com um sorriso. É admiravel

vêr uma mãe e um filho caminharem lado a lado... É raro!

--Sim, é certo; é delicioso! exclamou Pélagué.

E explicou, baixando a voz, como para confiar um segredo:

--É como se tivessemos uma segunda vida! A senhora, Nicolao, todos,

emfim, os que luctam pela verdade, estão comnosco!... E assim,

tornamo-nos mais intimos uns dos outros... E eu compreendo-os... não o

que dizem, mas tudo o mais, sim, compreendo-o!... Tudo!

--Ah, é assim? exclamou a joven senhora. É assim!...

E logo Pélagué, pousando-lhe a mão no hombro:

--Os nossos filhos vão em marcha pela terra! Eis o que eu compreendo!

Vão em marcha pela terra, por toda a terra e em toda a parte caminham

para o mesmo fim! Arremessam se ao assalto os melhores corações e os

espiritos mais leaes, sem olharem para traz de si, para tudo o que é

mau e sinistro. E avançam, avançam... Debeis ou robustos todos dedicam

as suas inteiras forças á mesma causa: a justiça! Juraram triunfar da

desgraça; armaram-se para aniquílar o infortúnio da humanidade: querem

vencer o horror e hão de vencêl-o! «Havemos de accender um novo sol»

disse-me um d’elles. E hão de accendêl-o! «Havemos de reunir num só

todos os corações despedaçados!» disse outro. E hão de fazel-o!

Ergueu o braço para o ceu:

--Além ha um sol!

E, batendo no peito, concluiu:

--E aqui, outro se ha de accender, mais brilhante que o do ceu, o sol

da felicidade humana, que eternamente illuminará a terra inteira e

aquelles que a habitam, com a luz do amor de cada creatura por todos e

por tudo!

E Pélagué evocava as palavras das orações esquecidas para entusiasmar a

sua nova fé e lançava-as do coração como scentelhas:

--Os nossos filhos, caminhando pela senda da razão e da verdade, levam

o amor a todas as coisas, criam um novo ceu, accendem o lume sagrado

e incorruptivel que brota da alma, do âmago do coração. E é assim que

nos é offerecida uma vida nova no apaixonado amor dos nossos filhos

pelo mundo inteiro. E quem poderia extinguir este amor? Quem? Existe

força superior a esta? Quem poderia vencel-a? Foi a própria terra que

a gerou e a vida inteira exige a sua victória... a vida inteira!

Pélagué afastou-se de Lioudmila e sentou-se, offegante, quebrada pela

sua commoção. A joven senhora afastou-se tambem de mansinho, com

precaução, como se receasse quebrar alguma coisa. No seu passo agil,

atravessou o quarto, fixando para longe d’ali o olhar profundo dos seus

olhos sem brilho. Parecia ainda mais delgada, mais hirta e mais alta.

Tinha na cara chupada e severa uma expressão concentrada, comprimia

nervosamente os lábios. O silencio acabára por apaziguar a exaltação de

Pélagué. A meia voz, n’um tom de receio, perguntou:

--Talvez eu dissesse coisas que não deveria ter dito.

Lioudmila voltou-se com vivacidade, lançou-lhe um olhar assustado e

exclamou:

--Não! é assim mesmo! é assim mesmo!... Mas não falemos mais n’isso!

Fiquem as suas palavras taes quaes as pronunciou, sim!

E proseguiu depois, já mais calma:

--É forçoso partir... A estação fica longe d’aqui.

--Sim, vou já partir! Como me sinto contente! Se soubesse!... Levo

comigo as palavras do meu filho, as palavras do meu sangue! É como se

levasse a minha alma!

Sorria. Mas este sorriso não produziu mais que um pálido reflexo na

fisionomia de Lioudmila. Pélagué sentia aquella frieza regelar-lhe

a sua própria alegria. Assim, sentiu o desejo súbito de communicar

áquella alma severa o seu ardor, abraçar-se com ella, afim de a fazer

sentir em unísono com o seu coração de mãe. Tomou a mão de Lioudmila e

disse, apertando-lha com fôrça:

--Minha querida! Como é bom saber que ha na vida luz para todos os

homens e que, com o tempo, elles hão de acabar por vêl-a, por fundirem

n’ella as suas almas e por arderem todos da mesma chamma inextinguivel!

O seu rosto bondoso tremia de entusiasmo; os seus olhos radiantes e

as suas sobrancelhas agitavam-se, como para dar azas ao brilho das

pupillas. Sentia-se enebriada pela sublimidade dos seus ideaes, em que

punha toda a ardencia do coração, tudo o que experimentára, e encerrava

nos rijos e limpidos cristaes das palavras illuminadas as idéas

que floresciam e desabrochavam mais e mais no seu coração outonal,

illuminado pelo sol da fôrça creadora.

--É como se para nós tivesse nascido um novo Deus! Tudo para todos,

todos para tudo, a vida inteira em um só, em cada um a vida inteira!

E cada um para a vida inteira! É assim que eu compreendo; é para isso

que vós todos andaes pela terra, eu bem o vejo! Em verdade, todos sois

camaradas, todos sois da mesma familia, porque todos sois os filhos da

mesma mãe: a verdade! Foi a verdade que vos gerou e é pela sua fôrça

que viveis!

Pélagué retomou alento e continuou, com um gesto largo que parecia

abarcar tudo!

--E quando a mim própria pronuncio esta palavra «camaradas» parece-me

ouvil-os caminhar. De toda a parte vem em multidão. Oiço um ruido

atroador e alegre, como se os sinos de todas as igrejas da terra

entrassem a tocar!

Conseguira o que desejava: animára-se o rosto de Lioudmila; os lábios

tremeram-lhe; uma apóz outra, rolaram-lhe dos olhos pesados lagrimas

crístallinas.

Então, Pélagué tomou-a entre os braços; teve um riso silencioso,

meigamente ufana da victória obtida pelo seu coração.

Ao afastarem-se as duas mulheres, Lioudmila fitou Pélagué e perguntou

em voz baixa:

--Sabe que é muito agradavel estar na sua companhia?

E a si própria respondeu, rematando:

--Sim, parece que se está no cimo de uma alta montanha, ao nascer da

aurora...

A Mãe · 第 63 / 66 题