Minutos depois, aquecia-se Pélagué junto do fogão, no quarto de
Lioudmila. Vestida de preto, esta ultima passeava devagar pelo estreito
aposento, que enchia com o rugir das suas saias e com a soberania
da sua voz autoritária. No fogão, a lenha estralejava e assobiava,
aspirando o ar do quarto. Vibrava a voz igual e monótona da dona da
casa:
--Os homens são infinitamente mais tôlos do que maus. Não sabem vêr
senão o que lhes fica perto, o que teem ao seu alcance immediato!...
Ora tudo o que nos fica próximo é mesquinho; só o que se encontra
afastado tem valor. Na realidade, seria vantajoso para todos que a
vida se tornasse mais facil e as creaturas mais intelligentes... Mas
para chegarmos a isso, forçoso é renunciar por emquanto a viver com
tranquilidade.
Aqui, estacou de súbito em frente de Pélagué e accrescentou mais baixo,
como para desculpar-se:
--Dou-me com tão pouca gente!... Quando alguem vem a minha casa,
ponho-me logo a discursar!... É ridículo, não é?
--Ora essa! Porquê?
Diligenciava Pélagué descobrir onde era que Lioudmila imprimia os
folhetos, mas não via em torno de si nada extraordinario. No quarto,
com trez janellas para a rua, havia um canapé, um armário com livros,
uma mesa, cadeiras, uma cama encostada a uma das paredes; n’um dos
cantos, o lavatório, n’outro, o fogão; pelas paredes fotografias. Tudo
isto com apparencia de novo, sólido e aceado. E n’este conjunto, a
figura quasi monástica da dona do aposento era principalmente o que
impunha severo aspecto. Presentia-se haver n’aquelle quarto o que quer
que fôsse misterioso e occulto.
Olhou depois para as portas: penetrára no quarto por uma d’ellas--a que
abria para uma exigua casa de entrada; perto do fogão, havia outra,
alta e estreita.
--Vim para tratar de certo negócio... disse ella um tanto confusa, ao
ver que Lioudmila a estava observando.
--Já sei. Ninguem vem a minha casa com outro motivo.
Pareceu a Pélagué vibrar na voz da sua interlocutora uma intenção
singular; via-lhe um sorrisinho nas delgadas commissuras dos lábios, e
as pupilas, baças habitualmente, brilhavam-lhe por detraz dos vidros da
luneta. Desviou portanto o olhar e apresentou-lhe o manuscrito com o
discurso de Pavel.
--Aqui está. Pedem-lhe que o imprima o mais depressa que possa.
E narrou os preparativos a que Nicolao procedera, prevendo a sua
captura.
Sem dizer uma palavra, Lioudmila entalou o papel no cinto e sentou-se
n’uma cadeira. Agitavam-se-lhe pelo rosto impassivel os reflexos do
lume.
--Quando os polícias vierem a minha casa, faço fogo para cima d’elles!
declarou. Tenho o direito de defender-me contra a violencia e o dever
de luctar contra ella, visto que instigo tambem os outros a fazel-o!
A vermelhidão das chammas desappareceu-lhe do rosto, o qual voltou a
mostrar-se severo e um pouco altivo.
«Deve ser bem trabalhosa a vida que levas»--foi o súbito pensamento que
accudiu ao espirito de Pélagué, acompanhado d’um sentimento d’affeição.
Ella pôz-se a lêr o discurso de Pavel, primeiro, sem vontade, depois,
curvando-se cada vez mais sobre o papel. Ia atirando rapidamente para
o chão as folhas já lidas. Finda a leitura, levantou-se, endireitou o
tronco e foi para a outra:
--Está muito bom! Ahi está do que eu gosto! É nitido e claro!
Inclinou a cabeça e reflectiu um instante.
--Não quiz falar-lhe do seu filho: nunca o vi e não me agradam as
conversas tristes. Eu sei o que se sente quando vemos um dos nossos ir
para o degredo!... Diga-me: é agradavel ter-se um filho como elle?
--Sim, muito agradavel!
--E deve ser coisa terrivel tambem?...
Com um sereno sorriso, Pélagué respondeu:
--Não; agora já não...
Lioudmila alisou com a mão, muito morena, os cabellos penteados em
bandós; depois, voltou-se para a janella: palpitava-lhe nas faces uma
leve sombra apaixonada.
--Vamos imprimir isso... Quer ajudar-me?
--Certamente!
--Vou compôr o mais depressa possivel. Deite-se; o dia deve-lhe ter
sido fatigante. Vê-se que está cansada. Deite-se n’aquella cama, que eu
não durmo hoje. Talvez tenha de a accordar de noite, para me auxiliar.
Antes de adormecer, apague o candieiro.
Accrescentou duas achas ao lume e saíu pela porta estreita, praticada
ao lado do fogão, que tornou a fechar cuidadosamente apóz si.
Pélagué seguira-a com o olhar. E emquanto se despia, pensava
maquinalmente na sua hospedeira:
«É um caracter severo... E vê-se que soffre, a pobre senhora!»
O cansaço esvaía-lhe a cabeça; no entretanto, sentia o coração
singularmente calmo; no seu espirito, tudo se illuminava com suave
e cariciosa luz. Pélagué conhecia já aquella tranquillidade, que
segue sempre ás grandes commoções; antigamente, inquietava-a, mas
agora, fazia que a sua alma se expandisse, revigorada em forte e
puro sentimento. Apagou o candieiro, deitou-se na cama muito fria,
encolheu-se, aconchegando a si os cobertores e adormeceu logo em
profundo somno.
Quando descerrou os olhos, estava o quarto banhado da claridade gélida
e branca d’um desanuviado dia d’inverno. Estendida no canapé, com um
livro na mão, Lioudmila fitava-a com uma expressão de ternura que a
transfigurava.
--Deus meu! exclamou Pélagué, confundida. Quanto tempo eu dormi! É
muito tarde, pois não é?
--Bom dia! respondeu-lhe Lioudmila. Vão dar as dez horas. Levante-se
para irmos almoçar.
--Porque não me accordou?
--Tive idéa d’isso; mas a senhora mostrava um sorriso tão bonito,
emquanto dormia...
N’um movimento ágil do seu corpo robusto e flexivel, Lioudmila
levantou-se, approximou-se do leito, curvou-se sobre o rosto d’ella; e
Pélagué poude distinguir nos olhos sem brilho da sua hospedeira alguma
coisa familiar, amigavel, compreensivel.
--... que não quiz despertal-a... Era um bello sonho que estava tendo,
com certeza...
--Não, senhora; não sonhei com coisa alguma.
--Pois é pena... Mas gostei de vêr aquelle seu sorriso: achei-o tão
meigo, tão santo!
E Lioudmila poz-se a rir, um rir aveludado e discreto.
--Entrei a pensar em si, na sua vida... Porque a sua existencia deve
ser ardua!
Pélagué contraíu os sobrolhos, pensativa.
--Não sei! respondeu, hesitante. Ha momentos em que me parece que
sim... mas não é verdade! Ha tantas coisas... coisas espantosas e
graves, que se seguem com tanta rapidez umas ás outras!...
Subia-lhe ao peito a onda de excitação que ella conhecia bem,
enchendo-lho d’imagens e de pensamentos. Sentou-se na cama e deu-se
pressa em revestir de palavras as suas idéas.
--Tudo o que estamos presenceando caminha para o mesmo fim, como o
fogo, quando arde uma casa, tende sempre a subir! Aqui, abre caminho,
mais além, brilha intensamente, sempre mais violento, sempre mais
luminoso... Ha tanta coisa que custa vêr! Se soubesse!... Essa pobre
gente soffre, é incommodada, espiada... Batem-lhes, batem-lhes com
crueldade... Elles, então, occultam-se a todas as vistas, passam a
viver como frades. Quantas alegrias ha que lhe são defezas!... E é
triste assim, a vida!
Lioudmila ergueu com vivacidade a cabeça e fitou Pélagué com profundo
olhar.
--Não é de si que está falando! observou em voz baixa.
--De mim!... repetiu ella, emquanto se ia vestindo. E póde alguem
collocar-se á parte, quando o nosso coração ama alguma coisa, quando
este ou aquelle nos é querido, quando se sente medo e compaixão por
todos?... Tudo isto se nos entrechoca na alma, attraída assim para cada
um d’esses infelizes... Como podemos collocar-nos á parte? Para nos
refugiarmos onde?
Já meio vestida, permaneceu um instante pensativa no meio do quarto.
E subitamente, afigurou-se-lhe que já não era ella a mesma creatura
que tanto se inquietára e alarmára pela sorte de seu filho; tal
personalidade já não existia, tinha-se desapegado e afastado d’ella.
Escutou-se então a si própria, no desejo de saber o que se passava no
seu íntimo, embora receasse despertar outra vez o seu velho sentimento
de anciedade.
--Em que está pensando? perguntou-lhe Lioudmila affectuosamente.
--Nem eu sei!
Calaram-se as duas, olharam uma para a outra e sorriram. Depois,
Lioudmila abalou do quarto, murmurando:
--Que estará fazendo o meu samovar?
Pélagué olhou então pela janella. Lá fóra, reinava a frialdade d’um
luminoso dia d’inverno. Ella, no âmago do coração, sentia tambem uma
claridade igual áquella, mas quente. O seu desejo seria falar de tudo;
demorada e jovialmente, n’um vago sentimento de gratidão por tudo o que
baixára á sua alma, tornando-lha assim bem formada. Sentiu, o que havia
muito não lhe succedia, um desejo de rezar. Veiu-lhe então á lembrança
um rosto moço e imberbe; na sua memória ecoou uma voz delgada: «É a mãe
do Pavel Vlassof...» Scintillavam os meigos olhos joviaes de Sachenka;
desenhava-se o negro perfil de Rybine; sorria o rosto valoroso e
bronzeado de Pavel; Nicolao piscava os olhos, acanhado. E de repente,
todos aquelles rostos amigos foram eclipsados em meio d’um suspiro
ligeiro mas de significação profunda; baralharam-se, confundiram-se
em uma nuvem transparente e multicolor, que envolvia o coração em um
sentimento de paz.
--O Nicolao tinha razão! disse Lioudmila ao regressar ao quarto. Foi
preso, não ha duvida possivel! Conforme me recommendou, mandei um
rapazito a casa d’elle. Já voltou. Diz que estão lá agentes de polícia
escondidos no páteo; que viu um por detraz da porta da rua. Os espiões
vigiam ao de redor da casa; o pequeno conhece-os.
--Ah! limitou-se Pélagué a dizer, com um meneio de cabeça. Pobre
Nicolao!
--N’estes ultimos tempos, elle fazia muitas prelecções aos operários
da cidade; estava desmascarado; era tempo e mais que tempo que
desapparecesse! proseguiu Lioudmila em tom sombrio mas sereno. Os
companheiros andavam sempre a dizer-lhe que saísse da cidade; elle não
quiz dar-lhes ouvidos!... A minha opinião é que, em taes casos, o que
se deve não é aconselhar as pessôas, mas obrigal-as!
Á porta appareceu um rapazito de cabello preto, pelle rosada, nariz
aquilino e bonitos olhos azues.
--Quer que traga o samovar? perguntou com voz sonora.
--Traz, sim, Sérgio, se fazes favor. É meu discipulo... Não o conhecia?
--Não.
--Tenho-o mandado algumas vezes a casa do Nicolao.
Pélagué, entretanto, achava Lioudmila muito mudada, parecia-lhe
mais singela de maneiras, mais compreensivel. Havia nos movimentos
graciosos do seu esbelto corpo, belleza e força, a attenuarem o que
no rosto pálido tinha de severidade. Com a noite perdida as olheiras
haviam-se-lhe cavado mais. Sentia-se-lhe nos modos um esforço
continuado, como se na sua alma vibrasse uma corda em demasiada tensão.
O rapaz trouxe o samovar.
--Sérgio, olha a senhora Pélagué Vlassof, a mãe do operário que foi
hontem condenado.
A criança inclinou-se em silencio, apertou a mão de Pélagué, tornou a
saír e voltou trazendo pão.
Sentou-se tambem á mesa. Emquanto ia servindo o chá, Lioudmila
aconselhou Pélagué a não voltar para casa sem que se soubesse quem era
a pessôa alvejada pelas deligencias policiaes.
--Talvez seja a senhora mesma... Hão de querer interrogal-a.
--Que me importa! redarguiu ella. Se for prêsa, a desgraça não será
grande! Só o que desejava era que o discurso do Pavel estivesse já
distribuido...
--Já está composto. Ámanhã teremos exemplares bastantes para a cidade
e para os arrabaldes... e tambem para o resto do districto. Conhece a
Natacha?
--Ora se conheço!
--Pois é preciso que lhe leve os folhetos.
A criança estava lendo um jornal. Parecia não ouvir o que diziam, mas
de quando em quando, erguia os olhos para Pélagué. Esta, quando lhe
surpreendia aquelle olhar tão vivo, sentia-se agradavelmente commovida.
A joven senhora falou novamente de Nicolao, sem lamentar sequer a sua
captura, o que de toda a maneira pareceu a Pélagué naturalissimo.
O tempo dir-se-ia passar mais veloz; era perto do meio dia quando
terminaram o almoço.