Lá fóra, o ar sêco e glacial fustigava o corpo, irritava a garganta e
o nariz; suffocava a respiração. Pélagué parou a certa altura, olhando
em torno: perto d’ali, á esquina d’uma rua, estava um cocheiro com um
bonné de pello; mais longe, caminhava um homem, todo corcovado, com
a cabeça encolhida entre os hombros. Um soldado corria, aos pulos,
esfregando as orelhas.
«Provavelmente mandaram-no á loja, a comprar alguma coisa!» pensou
ella. Escutava com satisfação o ruído da neve que se lhe quebrava
sob os passos. Em breve chegou á estação; o comboio ainda não estava
formado; no entretanto, havia já muita gente na sala de espera da
terceira classe, enfumaçada e suja. O frio para lá escorraçára os
trabalhadores do caminho de ferro; e tambem vinham aquentar-se ali,
cocheiros e individuos mal vestidos, sem eira nem leira. Tambem ali se
encontravam viajantes: alguns campónios, um negociante gordo, vestido
de espessa capa de pelles, um padre com a sua filha, uma rapariguita
de rosto pálido, cinco ou seis soldados e alguns burguezes com ares de
atarefados. Fumava-se, conversava-se, bebia-se aguardente ou chá. Junto
ao bufete, ouviam-se grandes gargalhadas; pairava por cima das cabeças
o fumo do tabaco em densas nuvens. Ao abrir-se, a porta chiava, e
quando a tornavam a fechar, batia com estrondo e as vidraças resoavam
e tremiam. Assaltava violentamente as narinas um cheiro a tabaco e a
peixe salgado.
Pélagué sentou-se perto da porta, bem em evidencia, e esperou. Quando
entrava alguem, envolvia-a uma lufada d’ar frio; a sensação era
agradavel: respirava n’esses momentos a plenos pulmões. Apparecia gente
em pesados trajos, carregada de embrulhos; prendiam se desastradamente
na porta, praguejavam, atiravam os seus fardos para o chão; depois
limpavam da geada a gola e as mangas dos casacões, limpavam as barbas
ou os bigodes, resmungando.
Um rapaz, que trazia uma mala amarella, entrou, e depois de olhar
rapidamente em torno, foi direito a Pélagué.
--A Moscou? perguntou elle a meia voz.
--Sim! a casa de Tania.
--Ahi tem!
E dito isto, collocou a mala sobre o banco, ao lado d’ella, tirou um
cigarro da algibeira, accendeu-o rapidamente e tornou a saír por outra
porta, depois de ter erguido levemente o bonné. Pélagué passou a mão
pelo coiro frio da mala e encostou-se a ella. Satisfeita, emfim, pôz-se
a examinar quem estava. Instantes depois, levantou-se e foi sentar-se
n’outro banco, mais próximo da saída. Levava a mala n’uma das mãos com
a maior serenidade, de cabeça levantada e fitando as caras que lhe
passavam ao alcance da vista.
Um homem vestido d’um casaco curto e com a cabeça enterrada na
gola, erguida, deu-lhe um encontrão e afastou-se sem dizer uma
palavra, levando simplesmente a mão ao bonné. Pareceu-lhe tel-o já
visto. Voltou-se e viu que elle a estava observando. Sentiu-se como
trespassada por aquelle olhar claro; a mala entrou a tremer-lhe na
mão, como se tivese repentinamente aumentado de peso.
--Onde vi eu aquelle homem? perguntava a si mesma, como para repellir
a sensação desagradavel que lhe subia do peito até á garganta e
lhe enchia a bocca de amargo travor. Apoderou-se d’ella um desejo
irresistivel de se voltar e de olhar mais uma vez para elle: o homem
continuava no mesmo logar, firmando-se ora n’um pé, ora no outro e
parecia indeciso. Introduzira a mão direita entre os botões do casaco e
conservava a outra na algibeira, o que fazia parecer que tinha o hombro
direito mais alto do que o esquerdo.
Devagar, Pélagué caminhou até um banco, sentou-se lentamente, com
precaução, como se receasse quebrar alguma parte do corpo. A sua
memória, despertada por um agudo presentimento de desgraça, evocava
dois aspectos d’este homem: o primeiro datava do dia da evasão de
Rybine; o outro, da vespera. Lembrava-se ter visto no tribunal, ao
lado d’aquelle individuo o agente de polícia a quem fornecera a errada
indicação sobre o caminho que Rybine tomára na sua fuga. Tornára-se
pois conhecida, andava vigiada, era certo!
--Estarei eu apanhada? perguntou a si mesma. E respondeu, sentindo-se
estremecer: «Talvez ainda haja meio... Não, decididamente estou
apanhada, não ha nada a fazer...»
Olhou em roda, mas não viu nada suspeito. Uma apóz outra, como
scentelhas, surgiam-lhe e apagavam-se-lhe várias idéas dentro do
cérebro.
--Deixar a onda?... Ir-me embora?
Mas logo outra scentelha mais viva brilhou: «As palavras do meu
filho... atiral-as assim fóra! Deixal-as em semelhantes mãos!»
E chegou a mala mais para si.
«E se eu agarrasse n’ella e deitasse a fugir!...»
Chegava-lhe a parecer não serem seus os próprios pensamentos, que
alguem lh’os introduzia no cerebro, á fôrça. Eram como queimaduras
a corroerem-lhe dolorosamente a cabeça e o coração, levando-a para
longe de si mesma, para longe de Pavel, de tudo o que já fazia parte
integrante do seu coração. Sentia que uma fôrça hostil a opprimia
obstinadamente, lhe pezava nos hombros e no peito, a aviltava,
mergulhando-a em frio terror. Incharam-se-lhe as veias das fontes,
subiu-lhe á cabeça intenso calor.
Então, d’um só impulso vigoroso que a ergueu de chofre, suffocou em si
todos estes lampejos de tibieza, covardes e astuciosos, ordenando a si
própria com autoridade: «Não sejas a vergonha do teu filho!»
Aos seus olhos appareceu então um olhar tímido e desconsolado.
Passou-lhe pela memória a imagem de Rybine. Estes poucos segundos de
hesitação bastaram para fortalecer n’ella todas as crenças. O coração
pulsou-lhe com mais regularidade.
--Que irá acontecer? perguntou a si mesma, olhando em torno.
O espião acabava de chamar um guarda; segredava a este o que quer que
fosse, designando-a com o olhar. O guarda observou Pélagué e recuou.
Approximou-se outro guarda e pôz-se a escutar o que diziam. Era um
velho robusto, grisalho e de comprida barba. Fez um signal com a cabeça
ao espião e adiantou-se para o banco em que Pélagué se sentava. O
espião desappareceu como por encanto.
O velho caminhava sem pressa alguma, perscrutando attentamente com
olhar irritado a fisionomia de Pélagué. Ella encolheu-se toda no fundo
do banco.
«Com tanto que não me batam!... Deus permitta que não me batam!»
O guarda parou junto d’ella e, apóz silencio, perguntou com severidade:
--Que estás tu a olhar?
--Nada...
--Está bem... Ladra! Então és velha e andas n’essa vida?!
Com estas palavras julgou Pélagué que recebia uma bofetada. Irritadas
e roucas, faziam doer, como se lhe rasgassem as faces e arrancassem os
olhos.
--Ladra, eu?! Mentes! gritou com toda a fôrça dos pulmões.
Tudo o que a rodeava lhe parecia mover-se descompassadamente entre o
redemoinho da sua indignação; sentia o coração atordoado pela amargura
da injuria. Agarrou na mala, que logo se abriu por si.
--Olha! Olhem todos! exclamou, pondo-se em pé e agitando acima da
cabeça um maço de proclamações. Atravez dos zumbidos de que tinha
cheios os ouvidos, ouvia as exclamações das pessoas que accudiam de
todos os lados.
--Que se passa?
--É um agente da polícia secreta...
--Mas que aconteceu?
--Dizem que roubou, aquella mulher...
--Aquella mulher?
--Mas ella protesta.
--Ora adeus! Com aquelle todo tão respeitavel!
--Quem foi que prenderam?
--Eu não sou ladra! repetia ella com voz forte e serenando pouco a
pouco com o ver a attitude dos curiosos que a rodeavam em compacto
círculo.
--Hontem foram condemnados alguns presos politicos e entre elles o meu
filho... O meu filho chama-se Vlassof. Pronunciou um discurso: aqui
o teem! Ia leval-o á gente do povo, para que o leia e reflicta nas
verdades que elle encerra!
E porque um dos circumstantes, com precaução, tomasse um dos fasciculos
que ella tinha na mão, agitou os outros e atirou-os por sobre o
ajuntamento.
--Estás livre de receber felicitações pela maneira por que os
distribuiste! commentou a medo uma voz.
--Cuidado, que vae acontecer alguma! aconselhou outra voz.
Pélagué via que cada qual tratava de se apoderar dos papeis e de
escondel-os nas algibeiras ou no peito. Mais animosa, entrou a tomar
maços e maços de dentro da mala e a atiral-os á direita e á esquerda,
nas mãos ávidas e ligeiras que se lhe estendiam.
--Sabem porque condemnaram o meu filho e os que com elle estavam? Vou
dizer-vol-o! Creiam n’este coração de mãe! Condemnaram-nos porque vos
traziam a todos a santa verdade! E hontem mesmo eu vi como essa verdade
triunfou!... Ninguem póde luctar contra ella, ninguem!
A multidão, que se conservava muda de assombro, engrossava cada vez
mais, cercando Pélagué d’uma cadeia de seres viventes.
--A pobreza, a fome, a doença--eis o que o trabalho nos rende! Tudo é
contra nós. De dia para dia, morremos sob o trabalho, soffremos fome
e frio, prostrados sempre no lôdo e no ludíbrio; e são outros que se
fartam e se divertem á custa do nosso labor!... Como cães presos pela
trela, immobilisam-nos na ignorancia; nós nada sabemos e, na nossa
covardia, de tudo temos medo! A nossa vida é uma noite, uma noite
escura! É um pezadello horrendo!... Pois não é verdade?
--Sim! responderam algumas vozes surdas.
--Fecha-lhe a bôca!
Por detraz do ajuntamento, Pélagué avistou o espião acompanhado por
dois guardas. Deu-se pressa em distribuir os últimos maços, mas quando
a sua mão chegava mais uma vez á mala, sentiu o contacto de outra mão.
--Levem tudo! Levem tudo! disse ella, curvando-se. Para transformar
esta vida, para libertar todos os homens, para os resuscitar d’entre
os mortos, como eu resuscitei, nasceram creaturas filhas de Deus
que andam a semear pelo mundo a verdade santa. Operam em segredo,
pois, como bem sabem, ninguem póde dizer a verdade, sem que seja
logo perseguido, suffocado, atirado para uma enxovia, mutilado! A
verdade da existencia e a liberdade são inimigas para todo o sempre
irreconciliaveis d’aquelles que nos governam, d’aquelles que nos
opprimem. E são crianças, são creaturas purissimas e luminosas que vos
annunciam a verdade. Graças a ellas, ella ha de chegar emfim ás nossas
miseraveis existencias, ella ha de vir acalentar-nos e confortar-nos;
ha de libertar-nos da oppressão das autoridades e de todos os que lhes
venderam a alma! Creiam!
--Bravo, velha! gritou um.
Outro entrou a rir.
--Vamos, dispersem! regougaram os guardas, afastando brutalmente a
multidão.
O agrupamento recuou, resmungando, impedindo os guardas entre a
massa da gente e tolhendo-lhes os movimentos, mesmo sem querer.
Sentiam-se dominados por aquella mulher de cabellos grisalhos, olhar
de franqueza e modos bondosos. Indifferentes uns aos outros, isolados
pela vida, confundiam-se agora em um todo, acalentados pelo ardor
d’aquella palavra que muitos esperavam, sem duvida, ha muito tempo.
Os que ficavam mais perto de Pélagué permaneciam em silencio. Pélagué
sentia-lhes os olhares attentos fitos sobre si e o bafo das respirações.
--Sobe para o banco! gritou-lhe um.
--Vae-te d’aqui, velha!
--Vaes ser suffocada!
--Que insolente!
--Fala depressa, que elles ahi vem!
--Deixem o caminho livre! Vamos, a andar! gritavam outros guardas,
chegados n’este comenos.
Já em numero crescido, estes desviavam a multidão com mais violencia
ainda; toda aquella gente molestada, agarrava-se a quem lhe ficava
próximo.
Parecia a Pélagué ter na frente como que um férvido cachão e que todos
estavam prontos a compreendel-a e a acredital-a. O seu desejo era
dizer ali, depressa, tudo o que sabia, todos os poderosos pensamentos
que lhe subiam harmoniosamente, sem esforço, do âmago do coração;
mas faltava-lhe a voz, não lhe saíam do peito mais que sons roucos,
entrecortados e trémulos.
--A palavra do meu filho é a palavra pura d’um filho do povo, d’uma
alma integra! Pela audacia se reconhecem os que são íntegros; pela
verdade, quando ella o exija, sacrificam-se intrepidamente!
Entre o ajuntamento, olhos juvenis fitavam-na, a um tempo com
entusiasmo e terror.
Recebeu uma pancada no peito, cambaleou e caíu para cima do banco. Por
sobre as cabeças agitavam-se as mãos dos guardas, os quaes agarravam
brutalmente os circumstantes pela nuca ou pelos hombros e atiravam-nos
para o lado, arrancavam das cabeças os bonnés e arremessavam-nos ao
longe. Pélagué sentiu confundirem-se e vacillarem as coisas em frente
dos olhos, mas dominou a fadiga e serviu-se ainda da pouca voz que lhe
restava.
--Povo, reune as tuas fôrças em uma só fôrça!
Caíu-lhe no pescoço e saccudiu-a a mão enorme e encarniçada d’um guarda.
--Cala-te!
Foi bater com a nuca de encontro á parede. Durante um instante, teve o
coração envolvido n’uma névoa de ardente terror, mas este vapor logo se
dissipou ao entusiasmo que a aquecia.
--Anda para a frente! disse o guarda.
--...Não ha soffrimento mais amargo que o que dia a dia devora o
coração e exaure o peito...
O espião precipitou-se ao encontro d’ella e brandindo o punho em frente
da cara da presa, gritou com voz aguda:
--Cala-te, canalha!
Os olhos de Pélagué abriram-se desmedidamente e scintillaram; as
maxillas tremiam-lhe. Firmou os pés no lagedo escorregadio e gritou:
--Não se mata uma alma resuscitada!
--Cadella!
Com pequeno impulso, o capitão bateu-lhe no rosto.
--É bem feito para essa velha porca! gritou uma voz.
Uma coisa negra e vermelha cegou por instantes Pélagué; encheu-lhe a
bocca o sabor salgado do sangue.
Reanimou a uma explosão d’exclamações:
--Você não tem direito de bater!
--Camaradas!
--Que vem a ser isso?
--Ah, patife!
--Dá-lhe!
--... Não é com sangue que se ha de suffocar a razão!
Empurravam-na pelas costas, pelo pescoço, batiam-lhe na cabeça e no
peito; tudo oscillava e se sumia no sombrio turbilhão dos gritos,
dos lamentos e dos silvos dos apitos. Alguma coisa espessa e que a
ensurdecia lhe penetrava nos ouvidos e lhe enchia a garganta até á
suffocação. O solo fugia-lhe debaixo das pernas, que vergavam, o corpo
tiritava-lhe sob o aguilhão dos ferimentos; tropega e exausta, Pélagué
cambaleava. Mas continuava a distinguir em volta de si numerosos
olhares onde brilhava o entusiasmo decidido que ella conhecia bem e
que tão querido era ao seu coração. Levaram-na aos encontrões para uma
das portas.
Ella poude desembaraçar uma das mãos e agarrou-se ao batente.
--... Nem mesmo sob um mar de sangue a verdade desapparecerá...
Descarregaram-lhe logo uma pancada na mão.
--Só conseguis congregar os ódios, insensatos que sois! E este ódio,
este rancor, ha de subverter-vos!...
O guarda agarrou-a pela garganta e entrou a apertar-lh’a cada vez com
mais violenta pressão.
N’um estertor, balbuciou:
--Os desgraçados...
Respondeu-lhe alguem com prolongado soluço.