Sizof retomou o seu logar resmungando.
--Que tens? perguntou-lhe Pélagué.
--Não tenho nada! O povo é estupido... Não sabe nada, vive ás
apalpadellas.
Resoou uma campainhada. Alguem annunciou com indifferença:
--O tribunal!
Todos se puzeram novamente de pé, como da primeira vez. Os juizes
entraram pela mesma ordem e sentaram-se. Foram introduzidos os
accusados.
--Attenção agora! segredou Sizof. Vae falar o procurador.
Pélagué estendeu o pescoço e toda se inclinou para a frente,
immobilisada na espectativa do terrivel acontecimento imminente.
De pé, virando a cabeça para o lado dos juizes, o procurador soltára
um suspiro e entrára a falar, agitando a mão direita. Pélagué não
percebeu as suas primeiras palavras. A voz do orador era facil e
grossa, mas, tão depressa lhe affluia com rapidez, como afroixava.
As palavras iam-se seguindo primeiro como em larga fita uniforme,
depois, voavam, redemoinhavam, tal um enxame de negras moscas sobre um
torrão d’assucar. Mas n’essas palavras não via Pélagué coisa alguma
ameaçadora ou terrificante. Frias como neve, indecisas como cinza,
iam-se succedendo e enchiam a sala de aborrecimento, de alguma coisa
horripilante como uma poeira fina e sêcca. O discurso, abundante em
palavras e falho de idéas, não chegava provavelmente aos ouvidos
de Pavel e dos seus companheiros, os quaes, sem mostrarem a menor
preoccupação, continuavam socegadamente a conversar entre si. Umas
vezes, sorriam, outras, faziam-se muito sérios para conterem o sorriso.
--Está mentindo! declarou Sizof baixinho.
Pélagué não saberia dizer ao certo se assim era.
Escutava o que elle dizia e compreendia que estava accusando toda a
gente, sem se referir directamente a ninguem. Quando citava o nome de
Pavel, punha-se a falar de Tédia; em seguida, depois de ter reunido
estes, juntava-lhes Boukine. Dir-se-ia que mettia todos os accusados no
mesmo sacco, apertados uns contra os outros. Mas o sentido externo das
suas palavras não satisfazia Pélagué, como tambem não a perturbava nem
mesmo impressionava. Comtudo, continuava esperando o pormenor terrivel,
e procurava-o obstinadamente sob aquelle fluxo de palavras, no rosto do
procurador, nos olhos, na voz, na mão muito branca que elle balanceava
com lentidão. E sentia que estava ali, n’aquelle homem, a coisa
assustadora, indefinivel e incompreensivel. De novo se lhe confrangeu o
coração.
Olhou para os jurados: o discurso estava-os claramente enfadando.
Os seus rostos macillentos, terrosos, inanimados, não apparentavam
expressão alguma; eram quaes manchas cadavéricas e immoveis. E aquellas
faces, umas de nutrição enfermiça, outras, demasiado magras, sumiam-se
cada vez mais em meio do cansaço que invadia a sala. O presidente não
fazia um só movimento, estatico e hirto; por vezes, as manchasinhas
pardacentas que lhe appareciam por detraz dos vidros dos oculos,
sumiam-se-lhe na palidez do rosto. Perante esta indifferença glacial,
esta frieza tíbia, Pélagué a si própria perguntava com desasocego:
--Estarão elles verdadeiramente a julgar?
De repente, como de improviso, terminou o procurador o seu libello.
O magistrado inclinou-se perante os juizes, a esfregar as mãos. O
marechal da nobreza fez-lhe com a cabeça um signal, ao mesmo tempo que
rebolava as pupillas. O administrador da communa estendeu-lhe a mão e o
syndico contemplou o seu abdomen, risonho.
Mas via-se que os juizes não haviam ficado satisfeitos com o
procurador: não tinham feito um só movimento.
--Cão tinhoso! resmungou Sizof.
--Tem a palavra... disse o velhinho, erguendo um papel até junto do
rosto. Tem a palavra o defensor de... Fédossief, Markof, Zagarof.
Levantou-se então o advogado que Pélagué vira em casa de Nicolao. Tinha
uma cara cheia e aspecto bonacheirão; os olhinhos irradiavam, parecia
ter nas orbitas dois pontos acerados, a cortarem no ar qualquer coisa,
como laminas de tesoura. Entrou a falar sem pressa, em voz nítida e
sonora; mas Pélagué não poude escutar o que dizia. Sizof segredava-lhe
de lado:
--Percebeste o que elle disse? Diz que são uns doidos, uns garotos de
genio brigão. É do Fédia que elle quer falar!
Acabrunhada pela sua cruel decepção, Pélagué não respondeu.
Sentia-se mais e mais humilhada, e esta humilhação opprimia-lhe a alma.
Compreendia agora porque esperava em vão a justiça, porque se enganara
pensando assistir a uma discussão leal e séria entre a verdade que seu
filho proclamava e a dos juizes.
Imaginára que os juizes iam interrogar Pavel, demoradamente e com
attenção, sobre a sua vida; que examinariam com olhos perspicazes
todas as idéas, todos os actos de seu filho, e o emprego de todos os
seus dias, e que, reconhecendo a sua hombridade, haviam de declarar
convictamente: «Este homem tem razão.»
Mas nada d’isso succedia. Era para crêr que os accusados e os juizes
estivessem a cem leguas uns dos outros e ignorassem mutuamente as suas
existencias. Fatigada pela tensão da espectativa, Pélagué deixára de
acompanhar o debate. Pensava de si para comsigo, melindrada:
--É então assim que se julga? O julgamento...
E pareceu-lhe vazia e sem sentido esta palavra; soava como um vaso de
barro, quebrado.
--É bem feito! murmurou Sizof, approvando com a cabeça.
--Parece que estão mortos, aquelles juizes! disse ella.
--Elles já voltam a si!
E com effeito, tornando a olhar para elles, viu-lhes nos rostos uma
expressão de desasocego. Era outro advogado que falava, um homensinho
de cara de fuinha, lívido e irónico. Os juizes interromperam-no logo.
O procurador levantou-se de chofre e em voz rápida e zangada, ameaçou-o
com uma autoação; depois, conferenciou com o velhinho. O advogado
ficou-os escutando, com a cabeça respeitosamente inclinada; em seguida,
proseguiu no uso da palavra.
--Vae catando! vae catando! aconselhou Sizof. Vê se descobres onde está
a alma!...
Na sala crescia a animação; começava a nascer uma exaltação
batalhadora. O advogado atacava os juizes por todas as fórmas,
aguilhoava-lhes as carcomidas epidermes com ditos causticos. Os juizes
parecia apertarem-se mais uns contra os outros, incharem e fazerem-se
mais corpulentos, para resistirem áquelle chuveiro de piparotes,
com toda a massa dos seus corpos amollentados e nullos. Pélagué
examinava-os; pareciam intumecer cada vez mais, como se receassem que
os botes do advogado lhes fizessem vibrar dentro do peito um eco capaz
de lhes perturbar a soberana indifferença.
Pavel pôz-se de pé. Estabeleceu-se súbito silencio.
A mãe inclinou para a frente todo o corpo.
Tranquillamente, Pavel declarou:
--Pertencendo eu a um partido, só reconheço o tribunal d’esse partido.
Não falo para defender-me, mas para satisfazer o desejo d’aquelles dos
meus companheiros que tambem não quizeram ser defendidos. Vou tentar
explicar-lhes o que os senhores não compreenderam. O procurador
qualificou a nossa demonstração, sob o estandarte da democracia
socialista, de revolta contra as autoridades supremas e falou
constantemente de nós como de revoltados contra o czar. Devo declarar,
comtudo, que, para nós, não é só o czar a grilheta a que anda amarrado
o corpo da nação; o czar não é mais do que o primeiro élo d’essa
cadeia, de que jurámos libertar o povo.
Fizera-se mais profundo ainda o silencio, sob o império d’aquella voz
varonil. A sala parecia tornar se mais vasta e Pavel afastar-se para
longe do auditório, mais luminoso e inspirado. Pélagué foi tomada de
uma sensação de frio.
Os juizes agitavam-se pesadamente nas cadeiras, cheios de inquietação.
O marechal da nobreza segredou algumas palavras ao juiz de modos
indolentes; este abanou a cabeça e falou com o velhinho, a quem o juiz
de aspecto doente estava tambem falando ao ouvido, do lado opposto.
O presidente, vacillante na sua poltrona, para a direita e para a
esquerda, dirigiu algumas palavras a Pavel, mas a voz sumiu-se-lhe no
curso amplo e igual da exposição que o mancebo ia proferindo.
--Somos socialistas. Significa isto que somos inimigos da propriedade
particular, que promove a desunião entre os homens, os leva a
armar-se uns contra os outros e cria uma rivalidade de interesses
irreconciliaveis, que mente quando pretende dissimular ou justificar
esta hostilidade e perverte os homens pela mentira, a hypocrisia
e o ódio. Somos de opinião que a sociedade, considerando o homem
unicamente como um meio de auferir riquezas, é anti-humana e torna
se nos declaradamente hostil; não podemos acceitar a sua moral com
duas caras, o seu cynismo sem vergonha e a crueldade com que trata
as individualidades que lhe são adversas; queremos luctar, e havemos
de luctar, contra todas as fórmas de subserviencia fisica e moral do
homem, em uso n’esta sociedade, contra todos os métodos de fraccionar
a collectividade em proveito da cubiça! Nós, os operários, somos quem
pelo nosso trabalho tudo cria, desde as máquinas giganteas até aos
brinquedos das crianças. E vêmo-nos privados do direito de luctar
pela nossa dignidade de homens; Cada qual arroga-se o direito de nos
transformar em instrumentos para attingir o seu fim! Queremos que nos
dêem liberdade bastante para que se nos torne possivel, com o tempo,
conquistar o poder. Quer-se o poder para o povo!...
Aqui, sorriu Pavel e passou de vagar a mão pelos cabellos; a luz dos
seus olhos azues brilhou com fulgor mais intenso.
--Tenha a bondade... Não saia do assunto! disse-lhe o presidente em voz
nítida e forte.
Virava-se agora todo para Pavel e fitava-o. Pareceu a Pélagué
distinguir-lhe nos olhos, até ali palidos e sem expressão, um brilho
cúpido e de maldade.
Todos os juizes tinham as attenções voltadas para o orador; os seus
olhos pareciam colar-se-lhe, aderir-lhe fortemente ao corpo, para lhe
sugarem o sangue e com elle reanimarem os seus membros exaustos. Pavel,
firme e resoluto, estendeu para elles o braço e proseguiu com voz
distincta:
--Somos revolucionários e sêl-o-emos emquanto uns só tratarem de
opprimir os outros. Havemos de luctar contra a sociedade, cujos
interesses os senhores foram mandados que defendessem; a reconciliação
só entre nós será possivel quando nós fôrmos vencedores. Porque havemos
de ser nós os vencedores, nós, os opprimidos! Os mandatários de todos
vós, senhores, não são tão fortes como se julgam. Essas riquezas que
accumularam e na defeza das quaes sacrificam milhões de infelizes
creaturas, essa força que lhes dá o poder sobre nós, criam entre
elles alternativas de hostilidade e arruinam-nos, a elles, fisica e
moralmente. A defeza do vosso poderio, senhores, exige uma constante
tensão d’espirito; e, na realidade, vós, nossos senhores, sois todos
mais escravos do que nós, porque são os vossos espiritos que jazem na
oppressão, ao passo que nós só fisicamente somos opprimidos. Não podeis
libertar-vos do jugo dos preconceitos e dos habitos, e isto mata-vos
moralmente; emquanto a nós, nada nos impede que sejamos intimamente
livres! E a nossa consciencia vae tomando vida, vae desenvolvendo
se sem cessar; inflamma-se dia a dia e arrasta comsigo os melhores
elementos, moralmente sãos, mesmo do próprio meio que é o vosso... E,
se não, vêde: já não possuis ninguem que possa lutar em nome do vosso
poderio contra a corrente das idéas; esgotastes já todos os argumentos
capazes de vos protegerem dos ataques da justiça da história; nada
mais podeis criar novo, no dominio da intellectualidade: sois uns
estereis de espirito. As nossas idéas, pelo contrário, desenvolvem-se
com força crescente, penetram nas massas populares e vão-nas dispondo
para a lucta pela liberdade, lucta incarniçada, lucta implacavel! Não
podereis travar este movimento, senão usando de crueldade e de cinismo.
Mas o cinismo é evidente demais e a crueldade não faz senão irritar
o povo. As mãos que hoje empregaes para nos suffocar, hão de ámanhã
apertar as nossas mãos em fraterno amplexo. A vossa energia é a energia
mecanica produzida pelo açambarcamento do oiro, e é essa energia que
vos desune em grupos rivaes, destinados a aniquilarem se mutuamente.
Emquanto que a nossa energia é a força viva e sem cessar crescente do
sentimento de solidariedade que liga todos os opprimidos. Tudo o que
praticaes é criminoso, porque só pensaes em escravisar o homem; o
nosso empreendimento, esse, liberta o mundo dos monstros e fantasmas
criados pelas vossas mentiras, pela vossa cupidez, pelo vosso ódio!
Mas, em breve, a grande massa dos nossos artifices e camponezes ha de
ser liberta e ha de criar um mundo livre, harmonioso e immenso. E assim
ha de ser!
Calou-se Pavel um instante e depois repetiu ainda com mais força:
--E assim ha de ser!
Os juizes cochichavam, com caretas estranhas, sem desviarem os olhos de
Pavel. A mãe pensava de si para comsigo, que aquelles olhares infamavam
o corpo vigoroso de seu filho, cuja saúde e fresca mocidade invejavam.
Os réus tinham escutado attentos as palavras do seu companheiro.
Pálidos ao principio, tinham agora nos olhares uma chamma de alacre
contentamento. Pélagué devorára as frases de seu filho; gravavam-se lhe
todas profundamente na memória.
O velhinho por diversas vezes interrompeu Pavel, para lhe explicar
ninguem saberia dizer o quê, d’uma das occasiões, esboçou até, um
sorriso triste. Pavel escutava-o em silencio e logo retomava a palavra
com voz severa mas serena. Todas as attenções convergiam para elle.
Durou isto muito tempo. Por fim, o presidente gritou algumas palavras,
ao mesmo tempo que estendia o braço na direcção do mancebo. Este
respondeu em tom levemente ironico:
--Eu vou concluir. Não foi idea minha offender pessoalmente os membros
d’este tribunal, bem ao contrário: forçado a assistir a esta comédia
a que chamaes uma audiencia, chego a sentir compaixão pelos senhores.
A despeito de tudo, os senhores são homens e é sempre para nós uma
humilhação ver homens, curvarem-se de tão vil maneira ao serviço da
violencia e perderem a tal ponto a consciencia da sua dignidade
humana... mesmo quando esses homens se mostram hostis aos nossos
intentos...
E sentou-se sem olhar para os juizes.
A mãe conteve a respiração, fitando, anelante, aquelles de quem
dependia a sorte de seu filho, e esperou.
André, radiante, apertou vigorosamente a mão de Pavel. Samoílof,
Mazine e todos os outros voltaram-se para elle. Pavel sorriu, um tanto
constrangido pelo entusiasmo dos seus companheiros e olhando para a
bancada em que se encontrava Pélagué, fez-lhe um signal de cabeça, como
para perguntar:
--Foi bem, assim?
Ella respondeu-lhe com profundo suspiro de contentamento, fremente,
inundada por uma ardente vaga de amor.
--Ahi está! Vae começar o julgamento! segredou-lhe Sizof. O teu filho
deixou-os em bonito estado, an?
Ella abanou a cabeça sem responder, satisfeita de ter ouvido o filho
falar com tal desassombro e talvez mais satisfeita ainda por elle ter
terminado o discurso. Martelava-lhe no cérebro uma idéa fixa:
--Meus filhos! que vae ser de vocês?
O que seu filho dissera não era novo para ella; conhecia bem as suas
opiniões; mas, fôra ali, perante aquelle tribunal, que pela primeira
vez sentira a força convincente e extraordinaria das suas teorias.
Impressionava-a a serenidade do mancebo, e no seu intimo, o discurso de
Pavel aliava-se á firme convicção da victoria e dos justos direitos de
seu filho, que lhe punham na alma a irradiação d’uma estrella.