XXVI

Julgava ella que os juizes iam discutir severamente com elle,

replicar-lhe coléricos, e expôr os seus argumentos.

Mas n’isto, levantou-se André, lançou um olhar de soslaio para o

tribunal e começou:

--Senhores defensores.

--Quem o senhor tem na sua presença é o tribunal e não a defeza!

gritou-lhe o juiz doente, com força, muito irritado.

Pélagué percebia pela fisionomia de André que o que elle queria era

gracejar; o bigode tremia-lhe de riso mal contido, e nos olhos, tinha

uma expressão ao mesmo tempo felina e meiga, bem conhecida d’ella.

Esfregou vigorosamente a cabeça com as compridas mãos e suspirou.

--Pois é possivel? perguntou, ao mesmo tempo que saccudia a cabeça.

Eu julgava que não era assim, que os senhores eram, não juizes, mas

unicamente defensores!...

--Queira fazer favor de se referir somente ao assunto principal!

intimou o velhinho com seccura.

--O assunto principal? Está bem. Quero pois crêr que os senhores são

realmente juizes, isto é: pessoas independentes, leaes...

--O tribunal não precisa da sua opinião!

--Como? Não precisa d’um elogio d’estes!... Hum!... Todavia, eu

continúo. Os senhores são homens que não estabelecem differença alguma

entre amigos e inimigos, os senhores são inteiramente livres no seu

juizo. Assim, teem agora na sua frente dois partidos: um queixa-se de

que o roubam e o maltratam; o outro responde que tem o direito de

roubar e de maltratar porque traz na mão uma espingarda.

--Tem alguma coisa a dizer concernente ao processo? perguntou o

velhinho, alteando a voz e com as mãos a tremer.

Esta irritação satisfazia immenso Pélagué. Mas a fórma de proceder de

André não lhe agradava; achava a discordante do discurso de Pavel.

Preferia ouvir travar-se uma discussão séria e ponderada.

O russo-menor fitou o velho, sem responder; em seguida, disse com

gravidade:

--O processo?... Para que lhe havia eu de falar do processo? O meu

companheiro disse-lhes o que os senhores deviam saber já! O resto,

outros lho dirão quando chegar o momento opportuno...

O velhinho sobreergueu-se da poltrona e declarou:

--Retiro-lhe a palavra!... Gregorio Samoílof!

O russo-menor apertou com força os dentes e deixou-se caír pesadamente

no banco. Ao lado d’elle, Samoílof pôz-se de pé, saccudindo os anneis

do cabello.

--O procurador disse que nós eramos uns selvagens, inimigos do

progresso...

--Fale só do que diz respeito á sua accusação!

--Mas é justamente o que estou fazendo!... Não deve haver coisa alguma

que não interésse á gente honesta... E peço-lhe o obsequio de não me

interromper. Assim, pergunto eu aos senhores: qual vem a ser o grau das

suas culturas intellectuaes?

--Não estamos aqui para discutir comsigo! Voltemos ao assunto! disse o

velho, mostrando rancorosamente os dentes.

Os gracejos de André haviam manifestamente irritado os juizes e como

que lhes tinham supprimido o que quer que fôsse das fisionomias.

Agora, nos rostos terrosos, appareciam-lhes manchas sanguineas,

brilhavam-lhes os olhares com scintillações frias e implacaveis. O

discurso de Pavel tambem os havia encolerisado, mas o tom de energia

em que fôra dito, reprimira-lhes o rancor e forçára-lhes o respeito.

O russo-menor, porém, conseguira quebrar esta contenção e puzera a

descoberto o que sob ella se occultava. Com crispações nas fisionomias,

os juizes segredavam entre si, tinham gestos mais saccudidos,

denunciadores da raiva que lhes ia no íntimo.

--Os senhores educam espiões, pervertem mulheres e donzellas, collocam

o homem sério na situação d’um gatuno, d’um assassino, envenenam-no

com a aguardente, deixam-no apodrecer nas masmorras!... As guerras

internacionaes, a mentira, o deboche, o embrutecimento de todo o

paiz--aqui está a vossa civilisação! Sim, somos inimigos de tal

civilisação!

--Tenha a bondade!... gritou o velhinho, saccudindo ameaçador o queixo.

Samoílof, rubro, o olhar em fogo, entrou a gritar ainda mais alto do

que elle.

--Mas a civilisação que nós amamos e respeitamos é a outra, a que foi

criada pelos que vós atirastes para as masmorras ou para os hospitaes

de doidos...

--Retiro-lhe a palavra!... Fédia Mazine!

O rapazinho levantou-se de chofre, como uma sovela a saír d’um furo e

exclamou com voz saccudida:

--Eu... juro!... Eu bem sei, os senhores vão condemnar-nos!

Suffocou; fez-se branco, só se lhe viam os olhos, muito brilhantes.

Estendeu o braço e proseguiu:

--Dou-lhes a minha palavra d’honra! Mandem-me para onde quizerem, que

eu hei-de fugir, hei de voltar, hei-de dedicar-me sempre pela causa do

povo... pela liberdade da nação... toda a minha vida! Dou-lhes a minha

palavra d’honra!

Sizof soltou um gritinho. Toda a assistencia, revolucionada por vaga

excitação, se mexia com um ruido surdo e singular. Chorava uma mulher;

alguem tossia, suffocando. Os guardas, alternadamente olhavam para os

réus com um espanto estupido e para a multidão do público, furiosos. Os

juizes agitaram-se; o velho gritou:

--Goussef Yvan!

--Não falo!

--Goussef Vassili!

--Não quero responder!

--Bouckine Fédor!

Loiro e meio descorado, ergueu-se pesadamente e disse com lentidão,

meneando a fronte:

--Os senhores deviam envergonhar-se!... Eu, que não passo d’um

ignorante, compreendo ainda assim o que deve ser a justiça!

Levantou o braço acima da cabeça e calou-se, com as palpebras

semi-cerradas, como se estivesse vendo qualquer coisa muito ao longe.

--Que diz? gritou o velho com attónito exaspero, reclinando-se na

poltrona. Olhe que você!...

Boukine deixou-se caír no banco tristemente. Havia nas suas palavras

desacompanhadas de significação, alguma coisa immensa e importante, e

ao mesmo tempo uma censura ingénua e penalisada. Foi esta a impressão

que todos receberam. Os próprios juizes apuraram o ouvido, como

para distinguirem um éco mais nitido de tal discurso. Nas bancadas

reservadas ao público, tudo se calou; apenas ficou resoando um leve

ruído de chôro. Depois sorriu-se o procurador e encolheu os hombros;

o marechal da nobreza tossiu; de novo se elevaram susurros que

serpenteavam vagamente pela sala.

Pélagué inclinou-se para Sizof e perguntou-lhe:

--Os juizes falarão?

--Não; está tudo terminado. Só falta pronunciar o veredicto.

--E não ha mais nada?

--Não!

Pélagué não podia acreditar. A mãe de Samoílof agitava-se anciosamente,

tocando em Pélagué com o cotovello e com o hombro, e perguntando em voz

baixa ao marido:

--Mas, como? É possivel?

--Bem vês!

--E o que é que vão fazer ao nosso filho?

--Cala-te! Deixa-me!

--Percebia-se que no público alguma coisa se havia perdido, anniquilado

ou transformado. Os olhos desvairados, pestanejavam como se ardente

lareira se lhes tivesse incendiado na frente. Embora não compreendessem

o grande sentimento que acabava de despontar n’elles tão bruscamente,

os curiosos iam, sem dar por isso, fragmentando-o em sensações

evidentes, accessiveis e futeis. O irmão de Boukine dizia a meia voz,

sem constrangimento algum:

--Perdão! Porque não os deixam falar? O procurador disse tudo o que

quiz e durante todo o tempo que quiz!

Perto da bancada estava uma sentinella. O soldado murmurava, agitando o

braço:

--Silencio! silencio!

O pae de Samoílof inclinou-se para traz, e, disfarçado com as costas da

mulher, continuou a pronunciar em voz surda frases entrecortadas:

--Evidentemente!... Admittindo que elles sejam culpados, o dever do

tribunal era deixal-os explicar-se... Contra quem se revoltaram elles?

Contra tudo! Eu gostava de compreender, afinal! Porque isto tambem me

interessa... De que lado está a verdade? Sim, eu queria compreender...

É preciso que os deixem explicar-se!

--Silencio! gritou de novo a sentinella, ameaçando-o com um dedo.

Sizof abanava a cabeça, apouquentado.

Pélagué não perdia de vista os juizes. Notava-lhes a crescente

excitação, via-os falar uns com os outros, mas não podia comprehender o

que diziam. O susurro frio e escorregadio das suas vozes perpassava-lhe

pelo rosto, fazia-lhe tremer nervosamente as faces e provocava-lhe

na bôca uma sensação desagradavel. Afigurava-se-lhe que estavam

falando todos elles do corpo de seu filho e do dos seus companheiros,

d’aquelles corpos robustos, dos seus músculos e dos seus membros cheios

de vermelho sangue e de força vivente. Estes corpos deviam excitar

n’elles uma inveja impotente e malvada, uma avidez ardente de esgotados

e doentes. Falavam com estalidos sêcos dos lábios, com o pezar de não

possuirem aquelles músculos, capazes de trabalhar e de enriquecer, de

gozar e de criar. Agora, iam aquelles corpos saír da circulação activa

da vida, renunciavam a ella, ninguem poderia mais chamar-lhes seus,

aproveitar a sua força, nem absorvel-os. E era por isso que inspiravam

aos velhos magistrados a animosidade vingativa e desconsolada das feras

já sem forças que teem diante de si a carne fresca, mas já não dispõem

da energia sufficiente para d’ella se apoderarem.

E quanto mais Pélagué olhava para elles, mais esta idéa grosseira

e singular se accentuava no seu espirito. Parecia-lhe que estavam

patenteando claramente a sua rapacidade e a sua sanha de esfomeados,

capazes, em tempos idos, de comer muito. Ella, a mulher e mãe, para

a qual o corpo do filho tinha sido sempre e a despeito de tudo, mais

querido do que a própria alma, sentia-se horrorisada com os olhares

sem viço que perpassavam pelo rosto d’elle, tateando o peito, os

hombros, os braços, roçando-se pela ardente pelle, como em busca de

uma possibilidade de se reanimarem, de requentarem o sangue das suas

veias endurecidas, dos seus músculos gastos de homens semi-mortos.

Parecia a Pélagué que o seu filho sentia aquelles contactos frios e que

estremecia quando para ella olhava.

O mancebo fixava em sua mãe os olhos um tanto fatigados, mas calmos e

affectuosos. Por momentos, sorria-lhe e fazia-lhe um signal de cabeça.

--Em breve estarei em liberdade! dizia este sorriso, que era uma

caricia para o coração de Pélagué.

N’este comenos, levantaram-se os juizes todos ao mesmo tempo. Pélagué

seguiu-lhes instinctivamente os movimentos.

--Vão-se embora! disse Sizof.

--Para os condemnar! perguntou ella.

--Sim...

Dissipára-se de súbito a tensão de espirito em que até ali estivera;

pesado cansaço lhe invadiu o corpo; aljofraram-lhe a fronte gotas de

suor. Um sentimento de cruel decepção e de humilhação impotente brotou

no seu coração e depressa se transformou em profundo desprezo pelos

juizes e pelo seu julgamento. Assaltou-a violenta dôr nas fontes;

esfregou a testa com a palma da mão e olhou em torno: os parentes

dos réus tinham-se approximado do gradeamento, a sala enchia-se de

um ruído surdo de conversações. Ella caminhou tambem para o filho,

apertou-lhe a mão e entrou a chorar, tomada a um tempo, de desgosto e

de contentamento. Pavel dirigiu-lhe algumas palavras de confôrto. André

ria e gracejava.

Mais por hábito do que por desgosto, todas as mulheres choravam. O

que se sentia não era aquella dôr que atordoa como estúpido golpe

descarregado bruscamente na cabeça: tinha-se a consciencia da triste

necessidade de abandonar os filhos, mas esta magua confundia-se,

sumia-se nas impressões que eram filhas da opportunidade. Os paes

olhavam para os filhos com uma expressão em que a desconfiança que

lhes era inspirada pela mocidade e pela consciencia da propria

superioridade, se confundia singularmente com uma espécie de respeito

por elles. Ao mesmo tempo que a si próprios perguntavam com tristeza

como passariam elles agora a viver, os velhos olhavam com curiosidade

para aquella nova geração que discutia audaciosamente a possibilidade

d’uma existencia differente d’aquella e melhor. Não sabiam exprimir

o que sentiam, pois faltava-lhes para tanto o hábito; as palavras

corriam abundantes, das bôcas, mas não se falava mais do que de coisas

vulgares, de fatos e roupas, de cuidados necessarios; aconselhavam até

os condemnados a não irritarem inutilmente os superiores.

--Todos andamos cansados d’isto! disse Samoílof ao filho. Nós tanto

como elles!

O mais velho dos Boukine agitava a mãe e exortava o mais novo:

--Ahi está a justiça d’essa gente! Custa acceital-a!

O rapaz respondeu:

--Has de tratar bem do estorninho, sim?... Gostava tanto d’elle!

--Ainda ha de ser vivo quando voltares!

Sizof tomára pela mão o sobrinho e dizia com vagar:

--Então foi assim que tu fizeste, Fédia? Foi assim?

Fédia curvou-se para elle e segredou-lhe o que quer que fôsse ao

ouvido, com um riso de esperteza. O soldado que lhes estava próximo

sorriu tambem, mas logo retomou os seus ares de gravidade e resmungou.

Pélagué limitava-se, como os outros, a conversar ácerca de arranjos de

roupas e cuidados de saúde, mas no coração reprimia mil interrogações

relativas a Pavel, a Sachenka e a si própria. E sob as suas palavras

banaes, lentamente se desenvolvia o sentimento de immenso amor que

dedicava ao filho, o ardente desejo de o captivar, de viver no seu

coração. A espectativa do acontecimento terrivel desapparecera,

deixando unicamente, apóz si, um arrepio desagradavel, quando se

lembrava dos juizes, agora ausentes.

Sentia nascer em si uma intensa alegria luminosa, mas não a compreendia

e isto trazia-a perturbada.

Viu que o russo-menor falava muito com todos os que o rodeavam,

e entendendo que elle, mais do que Pavel, precisava de confôrto,

disse-lhe:

--Não me agradou a audiencia!

--Porquê, mãesinha?! exclamou André. É um moinho velho, mas vae sempre

moendo!

--É uma coisa, afinal, que não mette medo algum, e é incompreensivel!

Nem ao menos se procura averiguar a verdade! disse ella hesitante.

--Oh! Era isso o que queria? exclamou André. Mas então imagina que

alguem se importa aqui com a verdade?

Pélagué suspirou.

--Eu imaginava que isto fôsse coisa muito séria... mais séria ainda do

que na igreja!... Que se celebrava o culto da verdade!...

--Querida mãe: onde a verdade é respeitada sabemol-o nós! disse Pavel

em voz baixa e no tom de quem perguntasse sem affirmar.

--E a mãesinha tambem o sabe! acrescentou o russo-menor.

--O tribunal!

Correram todos para os seus logares.

Com uma das mãos apoiada na mesa, o presidente occultou a cara por

detraz d’um papel e pôz-se a ler com uma voz debil qual zumbido:

«O Tribunal... depois de ter deliberado...»

--É a condemnação! disse Sizof, apurando o ouvido.

Fez-se silencio. Todos se haviam posto de pé, com os olhos fitos no

velhinho. Sêcco e hirto, assemelhava-se este a um cacete sobre o

qual mão invisivel se apoiasse. Os juizes estavam tambem de pé; o

syndico do bailiado, com a cabeça pendente no hombro, dirigia o olhar

para o tecto; o administrador da communa cruzava os braços no peito;

o marechal da nobreza afagava a barba. O juiz com cara de doente,

o seu collega barrigudo e o procurador, olhavam todos na direcção

dos accusados. E por detraz dos juizes, por cima das suas cabeças,

apparecia o czar, de uniforme encarnado.

Um insecto ia-lhe marinhando pela cara, pálida e indifferente; uma teia

d’aranha balouçava ao vento.

«são condemnados a deportação para a Sibéria»...

--O degredo! disse Sizof com um suspiro de alivio. Finalmente, já

passou, Deus louvado! Muita gente esperava os trabalhos forçados. Isto

assim, já não é tão mau, tiasinha; não vale mesmo nada!

--Eu já o adivinhava, disse Pélagué baixinho.

--Assim como assim, agora é certo!... Mas vá lá a gente saber, com uns

juizes d’estes!

Voltou-se para os condemnados, a quem faziam já abandonar o pretorio, e

disse alto:

--Até á vista, Fédia!... Até á vista, vocês todos! Que Deus os proteja!

Pélagué fez um signal de cabeça a Pavel e aos seus companheiros. A sua

vontade era chorar, mas conteve-a uma espécie de vergonha.

A Mãe · 第 60 / 66 题