Julgava ella que os juizes iam discutir severamente com elle,
replicar-lhe coléricos, e expôr os seus argumentos.
Mas n’isto, levantou-se André, lançou um olhar de soslaio para o
tribunal e começou:
--Senhores defensores.
--Quem o senhor tem na sua presença é o tribunal e não a defeza!
gritou-lhe o juiz doente, com força, muito irritado.
Pélagué percebia pela fisionomia de André que o que elle queria era
gracejar; o bigode tremia-lhe de riso mal contido, e nos olhos, tinha
uma expressão ao mesmo tempo felina e meiga, bem conhecida d’ella.
Esfregou vigorosamente a cabeça com as compridas mãos e suspirou.
--Pois é possivel? perguntou, ao mesmo tempo que saccudia a cabeça.
Eu julgava que não era assim, que os senhores eram, não juizes, mas
unicamente defensores!...
--Queira fazer favor de se referir somente ao assunto principal!
intimou o velhinho com seccura.
--O assunto principal? Está bem. Quero pois crêr que os senhores são
realmente juizes, isto é: pessoas independentes, leaes...
--O tribunal não precisa da sua opinião!
--Como? Não precisa d’um elogio d’estes!... Hum!... Todavia, eu
continúo. Os senhores são homens que não estabelecem differença alguma
entre amigos e inimigos, os senhores são inteiramente livres no seu
juizo. Assim, teem agora na sua frente dois partidos: um queixa-se de
que o roubam e o maltratam; o outro responde que tem o direito de
roubar e de maltratar porque traz na mão uma espingarda.
--Tem alguma coisa a dizer concernente ao processo? perguntou o
velhinho, alteando a voz e com as mãos a tremer.
Esta irritação satisfazia immenso Pélagué. Mas a fórma de proceder de
André não lhe agradava; achava a discordante do discurso de Pavel.
Preferia ouvir travar-se uma discussão séria e ponderada.
O russo-menor fitou o velho, sem responder; em seguida, disse com
gravidade:
--O processo?... Para que lhe havia eu de falar do processo? O meu
companheiro disse-lhes o que os senhores deviam saber já! O resto,
outros lho dirão quando chegar o momento opportuno...
O velhinho sobreergueu-se da poltrona e declarou:
--Retiro-lhe a palavra!... Gregorio Samoílof!
O russo-menor apertou com força os dentes e deixou-se caír pesadamente
no banco. Ao lado d’elle, Samoílof pôz-se de pé, saccudindo os anneis
do cabello.
--O procurador disse que nós eramos uns selvagens, inimigos do
progresso...
--Fale só do que diz respeito á sua accusação!
--Mas é justamente o que estou fazendo!... Não deve haver coisa alguma
que não interésse á gente honesta... E peço-lhe o obsequio de não me
interromper. Assim, pergunto eu aos senhores: qual vem a ser o grau das
suas culturas intellectuaes?
--Não estamos aqui para discutir comsigo! Voltemos ao assunto! disse o
velho, mostrando rancorosamente os dentes.
Os gracejos de André haviam manifestamente irritado os juizes e como
que lhes tinham supprimido o que quer que fôsse das fisionomias.
Agora, nos rostos terrosos, appareciam-lhes manchas sanguineas,
brilhavam-lhes os olhares com scintillações frias e implacaveis. O
discurso de Pavel tambem os havia encolerisado, mas o tom de energia
em que fôra dito, reprimira-lhes o rancor e forçára-lhes o respeito.
O russo-menor, porém, conseguira quebrar esta contenção e puzera a
descoberto o que sob ella se occultava. Com crispações nas fisionomias,
os juizes segredavam entre si, tinham gestos mais saccudidos,
denunciadores da raiva que lhes ia no íntimo.
--Os senhores educam espiões, pervertem mulheres e donzellas, collocam
o homem sério na situação d’um gatuno, d’um assassino, envenenam-no
com a aguardente, deixam-no apodrecer nas masmorras!... As guerras
internacionaes, a mentira, o deboche, o embrutecimento de todo o
paiz--aqui está a vossa civilisação! Sim, somos inimigos de tal
civilisação!
--Tenha a bondade!... gritou o velhinho, saccudindo ameaçador o queixo.
Samoílof, rubro, o olhar em fogo, entrou a gritar ainda mais alto do
que elle.
--Mas a civilisação que nós amamos e respeitamos é a outra, a que foi
criada pelos que vós atirastes para as masmorras ou para os hospitaes
de doidos...
--Retiro-lhe a palavra!... Fédia Mazine!
O rapazinho levantou-se de chofre, como uma sovela a saír d’um furo e
exclamou com voz saccudida:
--Eu... juro!... Eu bem sei, os senhores vão condemnar-nos!
Suffocou; fez-se branco, só se lhe viam os olhos, muito brilhantes.
Estendeu o braço e proseguiu:
--Dou-lhes a minha palavra d’honra! Mandem-me para onde quizerem, que
eu hei-de fugir, hei de voltar, hei-de dedicar-me sempre pela causa do
povo... pela liberdade da nação... toda a minha vida! Dou-lhes a minha
palavra d’honra!
Sizof soltou um gritinho. Toda a assistencia, revolucionada por vaga
excitação, se mexia com um ruido surdo e singular. Chorava uma mulher;
alguem tossia, suffocando. Os guardas, alternadamente olhavam para os
réus com um espanto estupido e para a multidão do público, furiosos. Os
juizes agitaram-se; o velho gritou:
--Goussef Yvan!
--Não falo!
--Goussef Vassili!
--Não quero responder!
--Bouckine Fédor!
Loiro e meio descorado, ergueu-se pesadamente e disse com lentidão,
meneando a fronte:
--Os senhores deviam envergonhar-se!... Eu, que não passo d’um
ignorante, compreendo ainda assim o que deve ser a justiça!
Levantou o braço acima da cabeça e calou-se, com as palpebras
semi-cerradas, como se estivesse vendo qualquer coisa muito ao longe.
--Que diz? gritou o velho com attónito exaspero, reclinando-se na
poltrona. Olhe que você!...
Boukine deixou-se caír no banco tristemente. Havia nas suas palavras
desacompanhadas de significação, alguma coisa immensa e importante, e
ao mesmo tempo uma censura ingénua e penalisada. Foi esta a impressão
que todos receberam. Os próprios juizes apuraram o ouvido, como
para distinguirem um éco mais nitido de tal discurso. Nas bancadas
reservadas ao público, tudo se calou; apenas ficou resoando um leve
ruído de chôro. Depois sorriu-se o procurador e encolheu os hombros;
o marechal da nobreza tossiu; de novo se elevaram susurros que
serpenteavam vagamente pela sala.
Pélagué inclinou-se para Sizof e perguntou-lhe:
--Os juizes falarão?
--Não; está tudo terminado. Só falta pronunciar o veredicto.
--E não ha mais nada?
--Não!
Pélagué não podia acreditar. A mãe de Samoílof agitava-se anciosamente,
tocando em Pélagué com o cotovello e com o hombro, e perguntando em voz
baixa ao marido:
--Mas, como? É possivel?
--Bem vês!
--E o que é que vão fazer ao nosso filho?
--Cala-te! Deixa-me!
--Percebia-se que no público alguma coisa se havia perdido, anniquilado
ou transformado. Os olhos desvairados, pestanejavam como se ardente
lareira se lhes tivesse incendiado na frente. Embora não compreendessem
o grande sentimento que acabava de despontar n’elles tão bruscamente,
os curiosos iam, sem dar por isso, fragmentando-o em sensações
evidentes, accessiveis e futeis. O irmão de Boukine dizia a meia voz,
sem constrangimento algum:
--Perdão! Porque não os deixam falar? O procurador disse tudo o que
quiz e durante todo o tempo que quiz!
Perto da bancada estava uma sentinella. O soldado murmurava, agitando o
braço:
--Silencio! silencio!
O pae de Samoílof inclinou-se para traz, e, disfarçado com as costas da
mulher, continuou a pronunciar em voz surda frases entrecortadas:
--Evidentemente!... Admittindo que elles sejam culpados, o dever do
tribunal era deixal-os explicar-se... Contra quem se revoltaram elles?
Contra tudo! Eu gostava de compreender, afinal! Porque isto tambem me
interessa... De que lado está a verdade? Sim, eu queria compreender...
É preciso que os deixem explicar-se!
--Silencio! gritou de novo a sentinella, ameaçando-o com um dedo.
Sizof abanava a cabeça, apouquentado.
Pélagué não perdia de vista os juizes. Notava-lhes a crescente
excitação, via-os falar uns com os outros, mas não podia comprehender o
que diziam. O susurro frio e escorregadio das suas vozes perpassava-lhe
pelo rosto, fazia-lhe tremer nervosamente as faces e provocava-lhe
na bôca uma sensação desagradavel. Afigurava-se-lhe que estavam
falando todos elles do corpo de seu filho e do dos seus companheiros,
d’aquelles corpos robustos, dos seus músculos e dos seus membros cheios
de vermelho sangue e de força vivente. Estes corpos deviam excitar
n’elles uma inveja impotente e malvada, uma avidez ardente de esgotados
e doentes. Falavam com estalidos sêcos dos lábios, com o pezar de não
possuirem aquelles músculos, capazes de trabalhar e de enriquecer, de
gozar e de criar. Agora, iam aquelles corpos saír da circulação activa
da vida, renunciavam a ella, ninguem poderia mais chamar-lhes seus,
aproveitar a sua força, nem absorvel-os. E era por isso que inspiravam
aos velhos magistrados a animosidade vingativa e desconsolada das feras
já sem forças que teem diante de si a carne fresca, mas já não dispõem
da energia sufficiente para d’ella se apoderarem.
E quanto mais Pélagué olhava para elles, mais esta idéa grosseira
e singular se accentuava no seu espirito. Parecia-lhe que estavam
patenteando claramente a sua rapacidade e a sua sanha de esfomeados,
capazes, em tempos idos, de comer muito. Ella, a mulher e mãe, para
a qual o corpo do filho tinha sido sempre e a despeito de tudo, mais
querido do que a própria alma, sentia-se horrorisada com os olhares
sem viço que perpassavam pelo rosto d’elle, tateando o peito, os
hombros, os braços, roçando-se pela ardente pelle, como em busca de
uma possibilidade de se reanimarem, de requentarem o sangue das suas
veias endurecidas, dos seus músculos gastos de homens semi-mortos.
Parecia a Pélagué que o seu filho sentia aquelles contactos frios e que
estremecia quando para ella olhava.
O mancebo fixava em sua mãe os olhos um tanto fatigados, mas calmos e
affectuosos. Por momentos, sorria-lhe e fazia-lhe um signal de cabeça.
--Em breve estarei em liberdade! dizia este sorriso, que era uma
caricia para o coração de Pélagué.
N’este comenos, levantaram-se os juizes todos ao mesmo tempo. Pélagué
seguiu-lhes instinctivamente os movimentos.
--Vão-se embora! disse Sizof.
--Para os condemnar! perguntou ella.
--Sim...
Dissipára-se de súbito a tensão de espirito em que até ali estivera;
pesado cansaço lhe invadiu o corpo; aljofraram-lhe a fronte gotas de
suor. Um sentimento de cruel decepção e de humilhação impotente brotou
no seu coração e depressa se transformou em profundo desprezo pelos
juizes e pelo seu julgamento. Assaltou-a violenta dôr nas fontes;
esfregou a testa com a palma da mão e olhou em torno: os parentes
dos réus tinham-se approximado do gradeamento, a sala enchia-se de
um ruído surdo de conversações. Ella caminhou tambem para o filho,
apertou-lhe a mão e entrou a chorar, tomada a um tempo, de desgosto e
de contentamento. Pavel dirigiu-lhe algumas palavras de confôrto. André
ria e gracejava.
Mais por hábito do que por desgosto, todas as mulheres choravam. O
que se sentia não era aquella dôr que atordoa como estúpido golpe
descarregado bruscamente na cabeça: tinha-se a consciencia da triste
necessidade de abandonar os filhos, mas esta magua confundia-se,
sumia-se nas impressões que eram filhas da opportunidade. Os paes
olhavam para os filhos com uma expressão em que a desconfiança que
lhes era inspirada pela mocidade e pela consciencia da propria
superioridade, se confundia singularmente com uma espécie de respeito
por elles. Ao mesmo tempo que a si próprios perguntavam com tristeza
como passariam elles agora a viver, os velhos olhavam com curiosidade
para aquella nova geração que discutia audaciosamente a possibilidade
d’uma existencia differente d’aquella e melhor. Não sabiam exprimir
o que sentiam, pois faltava-lhes para tanto o hábito; as palavras
corriam abundantes, das bôcas, mas não se falava mais do que de coisas
vulgares, de fatos e roupas, de cuidados necessarios; aconselhavam até
os condemnados a não irritarem inutilmente os superiores.
--Todos andamos cansados d’isto! disse Samoílof ao filho. Nós tanto
como elles!
O mais velho dos Boukine agitava a mãe e exortava o mais novo:
--Ahi está a justiça d’essa gente! Custa acceital-a!
O rapaz respondeu:
--Has de tratar bem do estorninho, sim?... Gostava tanto d’elle!
--Ainda ha de ser vivo quando voltares!
Sizof tomára pela mão o sobrinho e dizia com vagar:
--Então foi assim que tu fizeste, Fédia? Foi assim?
Fédia curvou-se para elle e segredou-lhe o que quer que fôsse ao
ouvido, com um riso de esperteza. O soldado que lhes estava próximo
sorriu tambem, mas logo retomou os seus ares de gravidade e resmungou.
Pélagué limitava-se, como os outros, a conversar ácerca de arranjos de
roupas e cuidados de saúde, mas no coração reprimia mil interrogações
relativas a Pavel, a Sachenka e a si própria. E sob as suas palavras
banaes, lentamente se desenvolvia o sentimento de immenso amor que
dedicava ao filho, o ardente desejo de o captivar, de viver no seu
coração. A espectativa do acontecimento terrivel desapparecera,
deixando unicamente, apóz si, um arrepio desagradavel, quando se
lembrava dos juizes, agora ausentes.
Sentia nascer em si uma intensa alegria luminosa, mas não a compreendia
e isto trazia-a perturbada.
Viu que o russo-menor falava muito com todos os que o rodeavam,
e entendendo que elle, mais do que Pavel, precisava de confôrto,
disse-lhe:
--Não me agradou a audiencia!
--Porquê, mãesinha?! exclamou André. É um moinho velho, mas vae sempre
moendo!
--É uma coisa, afinal, que não mette medo algum, e é incompreensivel!
Nem ao menos se procura averiguar a verdade! disse ella hesitante.
--Oh! Era isso o que queria? exclamou André. Mas então imagina que
alguem se importa aqui com a verdade?
Pélagué suspirou.
--Eu imaginava que isto fôsse coisa muito séria... mais séria ainda do
que na igreja!... Que se celebrava o culto da verdade!...
--Querida mãe: onde a verdade é respeitada sabemol-o nós! disse Pavel
em voz baixa e no tom de quem perguntasse sem affirmar.
--E a mãesinha tambem o sabe! acrescentou o russo-menor.
--O tribunal!
Correram todos para os seus logares.
Com uma das mãos apoiada na mesa, o presidente occultou a cara por
detraz d’um papel e pôz-se a ler com uma voz debil qual zumbido:
«O Tribunal... depois de ter deliberado...»
--É a condemnação! disse Sizof, apurando o ouvido.
Fez-se silencio. Todos se haviam posto de pé, com os olhos fitos no
velhinho. Sêcco e hirto, assemelhava-se este a um cacete sobre o
qual mão invisivel se apoiasse. Os juizes estavam tambem de pé; o
syndico do bailiado, com a cabeça pendente no hombro, dirigia o olhar
para o tecto; o administrador da communa cruzava os braços no peito;
o marechal da nobreza afagava a barba. O juiz com cara de doente,
o seu collega barrigudo e o procurador, olhavam todos na direcção
dos accusados. E por detraz dos juizes, por cima das suas cabeças,
apparecia o czar, de uniforme encarnado.
Um insecto ia-lhe marinhando pela cara, pálida e indifferente; uma teia
d’aranha balouçava ao vento.
«são condemnados a deportação para a Sibéria»...
--O degredo! disse Sizof com um suspiro de alivio. Finalmente, já
passou, Deus louvado! Muita gente esperava os trabalhos forçados. Isto
assim, já não é tão mau, tiasinha; não vale mesmo nada!
--Eu já o adivinhava, disse Pélagué baixinho.
--Assim como assim, agora é certo!... Mas vá lá a gente saber, com uns
juizes d’estes!
Voltou-se para os condemnados, a quem faziam já abandonar o pretorio, e
disse alto:
--Até á vista, Fédia!... Até á vista, vocês todos! Que Deus os proteja!
Pélagué fez um signal de cabeça a Pavel e aos seus companheiros. A sua
vontade era chorar, mas conteve-a uma espécie de vergonha.