Este terror de Pélagué não fez senão augmentar durante os trez dias que
a separavam da audiencia e, quando esta chegou finalmente, levava ella
sobre si, para o tribunal, um fardo que toda a avergava.
Cá fora, reconheceu varios dos seus antigos visinhos do arrabalde,
inclinou-se em silencio para corresponder aos seus cumprimentos e
abriu á pressa caminho por entre a multidão tristonha. Nos corredores
e depois, na sala, topou com as familias dos seus. Falava-se abafando
a voz; trocavam-se frases que ella não compreendia. D’aquella turba
brotava pungente sentimento que se communicava a Pélagué e a opprimia
ainda mais.
--Senta-te! convidou Sizof, arranjando-lhe logar no banco, a seu lado.
Obedeceu, compôz as dobras do vestido e olhou em torno. Divisava
vagamente umas faxas verdes e encarnadas, umas manchas, uns fios
amarellos e delgados, que brilhavam.
--Foi o teu filho que levou o meu á perdição! murmurou uma mulher que
lhe ficava perto.
--Cala-te d’ahi, Nathalia! interrompeu Sizof com o semblante carregado.
Pélagué ergueu a vista para aquella mulher: era a mãe de Samoílof.
Um pouco mais adiante, estava o pae, calvo, de bello rosto ornado de
espessa barba ruiva talhada em leque. Semi-cerrava as palpebras e
olhava direito para diante de si, com um estremecimento involuntario de
vez em quando.
Pelas altas janellas entrava uma claridade uniforme e turva;
escorregavam flocos de neve pelas vidraças. Entre as janellas, havia
um immenso retrato do czar em grossa moldura doirada, e com reflexos
oleosos na pintura; e a um e outro lado do quadro, occultavam a
parede as pregas hirtas dos pesadissimos reposteiros que revestiam as
janellas. Frente ao retrato, uma meza coberta de panno verde, occupava
quasi toda a largura da sala; á direita, por detraz d’uma especie
de gelosia gradeada, dois bancos de pau; á esquerda, duas filas de
poltronas forradas de vermelho. Os officiaes de diligencias, de golas
verdes e botões doirados iam e vinham pela sala, nos bicos dos pés.
Na atmosfera, de equivoca pureza, perpassavam ruidos de vozes,
cochichando baixinho; pairava, vindo ninguem saberia d’onde, um vago
cheiro de farmácia. Todas aquellas côres vivas e aquellas scintillações
offuscavam a vista; penetravam no peito os odôres do ambiente d’envolta
com a respiração; o espirito sentia-se submerso n’uma especie de temor
inexprimivel.
De súbito, alguem começou a falar em voz alta. Toda a assistencia se
pôz de pé. Pélagué teve um sobresalto e ergueu-se tambem, agarrada ao
braço de Sizof.
No canto esquerdo da sala, tinha-se aberto uma porta alta, dando
passagem a um velhinho de oculos, muito alcachinado e de andar incerto.
Umas escassas suissas tremiam-lhe dos lados da carinha de côr terrosa,
o lábio superior, barbeado, quasi se lhe sumia na cavidade da bôca.
As maçãs do rosto e o queixo comprimiam-se-lhe sobre a altissima gola
da farda, dando a julgar que por baixo nada existia de pescoço. O
velho caminhava sustido por um rapaz alto, de cara de porcelana, muito
redonda e rosada. Atraz d’elles, vinham trez personagens revestidos de
uniformes recamados de bordados e mais trez sujeitos á paisana.
Por muito tempo, estiveram a deliberar entre si, em volta da mesa;
depois, sentaram-se. Logo que todos tomaram os seus logares, um
d’elles, rosto imberbe e com a farda desabotoada, entrou a falar ao
velho, com uns modos de indifferente indolencia e movendo com custo
os beiços entumecidos. O velho ia-o escutando. Conservava-se hirto e
immovel, e Pélagué distinguia-lhe duas manchasinhas esbranquiçadas por
detraz dos vidros dos oculos.
Junto de estreita secretária, na extremidade da mesa, um homem alto e
calvo folheava papeis, com uma tossinha sêcca.
O velho fez um movimento para diante e começou a falar. A primeira
palavra pronunciou-a elle distinctamente, mas as outras parecia que se
sumiam ao sahir-lhe dos lábios delgados e sem côr.
--Declaro...
--Olha! segredou Sizof á sua visinha com uma leve cotovellada. E pôz-se
de pé.
Por detraz do gradeamento abrira-se uma porta que dera passagem a um
soldado de espada desembainhada, ao hombro, e logo depois a Pavel,
André, Fédia Mazine, os irmãos Goussef, Boukine, Samoílof e mais
cinco rapazes desconhecidos de Pélagué. Pavel vinha a sorrir; André
cumprimentou Pélagué com um aceno de cabeça.
Aquelles rostos, aquelles sorrisos e gestos de animação fizeram parecer
menos frio o silencio e tornaram a sala mais luminosa; suavisaram-se
os reflexos opulentos de oiro dos uniformes; um alento de confiança,
uma aragem de força viril penetraram o coração da mãe de Pavel,
arrancando-a ao seu torpor. Por detraz d’ella, pelas bancadas onde até
ali a turba se conservava acabrunhada, á espera, murmurios surdos e
reprimidos iam respondendo ás saúdações dos reus.
--E é que não teem medo! ouviu ella Sizof segredar-lhe, ao passo que á
sua direita a mãe de Samoílof se desatava em soluços.
--Silencio! gritou uma voz severa.
--Tenho a prevenil-os... disse o velho.
Pavel e André tinham ficado lado a lado; a seguir, estavam Mazine,
Samoílof e os irmãos Goussef, todos na primeira bancada. André cortára
a barba; mas o bigode crescera-lhe tanto, que as guias pendiam e
reuniam-se, assemelhando-lhe a redonda cabeça á d’um gato. Trazia
impressa na fisionomia uma expressão nova: nos vincos aos cantos da
bôca, havia alguma coisa penetrante, irónica, e o olhar tornára-se-lhe
sombrio. Mazine tinha agora o lábio superior sombreado por dois traços
escuros, e o seu rosto engordára; o Samoílof tinha os mesmos cabellos,
tão encaracolados como d’antes.
O Ivan Goussef continuava a mostrar o mesmo amplo sorriso.
--Fédia! Fédia! suspirou Sizof, baixando a cabeça.
Pélagué respirava agora melhor. Apurava como podia, o ouvido ás
perguntas indistinctas do velho, o qual interrogava os reus sem olhar
para elles, com a cabeça entalada entre a gola da farda. Escutava as
respostas breves e calmas que seu filho ia dando. Queria-lhe parecer
que aquelle presidente e aquelles juizes não podiam ser más e crueis
pessoas. Examinava-lhes pormenorisadamente as fisionomias, tentando
perscrutar-lhes os sentimentos, e assomava-lhe ao coração uma nova
alvorada de esperança.
Indifferente, o homem da cara de porcelana estava lendo um documento; a
sua voz circumspecta enchia a sala d’um tedio que causava somnolencias
no publico. Em voz baixa e animadamente, quatro advogados conversavam
com os réus; tinham todos uma gesticulação saccudida e veemente e
faziam pensar em grandes passarolos negros.
Á direita do velho, um juiz ventrudo, de olhinhos sumidos entre as
papadas da gordura, enchia completamente toda a capacidade da poltrona;
á esquerda, estava um homem alquebrado, de bigode vermelho, de rosto
esmaecido. Reclinava com lassidão a cabeça no espaldar, de palpebras
semi-cerradas, meditando. O procurador tambem apparentava cansaço,
enfado e indifferença. Por detraz dos juizes, occupavam poltronas
varios individuos: um robusto e esbelto homem estava acariciando uma
das faces, com ares de grande concentração; o marechal da nobreza, já
grisalho, de rosto rubicundo e comprida barba, divagava o olhar dos
seus grandes olhos simplorios; o syndico do bailiado, a quem o enorme
abdomen visivelmente incommodava, diligenciava disfarçal-o sob uma aba
da blusa, que escorregava de contínuo.
--Aqui não ha criminosos nem juizes! proclamou Pavel com voz firme.
Aqui só ha captivos e vencedores!
Fez-se silencio. Durante alguns segundos, o ouvido de Pélagué nada
distinguiu além do ranger precipitado e estridente das pennas sobre o
papel e das palpitações do seu proprio coração.
O presidente do tribunal parecia que estava escutando ou esperando
alguma coisa. Os juizes seus collegas agitaram-se nas poltronas. Elle
então disse:
--Sim!... André Nakhodka!... Reconhece...
Ouviram-se vozes segredar:
--Levanta-te!... Levante-se!
André poz-se de pé com lentidão e ficou a olhar para o velho, de
soslaio, emquanto frisava e desfrisava o bigode.
--De que posso eu reconhecer-me culpado? disse, com um encolher de
hombros, o russo-menor, na sua voz cantante e arrastada. Eu não matei,
nem roubei: simplesmente protesto contra esta organisação da sociedade,
que obriga os homens a explorarem-se e a assassinarem-se uns aos outros.
--Limite-se a responder sim ou não! disse o velho com esforço mas
perceptivelmente.
Pélagué sentia que por detraz d’ella susurrava certa agitação;
todos falavam baixinho e mexiam-se muito nas bancadas, como para
desannuviarem os espiritos da teia d’aranha tecida pelo discurso
enfadonho do homem de porcelana.
--Vês como elles respondem? segredou Sizof para a mãe de Pavel.
--Sim!
--Fédia Mazine, responda!
--Não quero! declarou Fédia peremptoriamente, pondo-se de pé.
Estava muito córado pela commoção e com os olhos brilhantes. Sizof
soltou um «Ah!» de mal contido espanto.
--Não quiz defensor, portanto nada direi. Considero o julgamento
d’este tribunal como illegitimo!... Quem são os senhores? Foi o povo
quem lhes deu o direito de julgar-nos? Não, não foi o povo! Logo, não
os conheço!
Tornou a sentar-se e occultou o rosto rubro, por detraz do hombro de
André.
O juiz gordo curvou-se para o presidente, cochichando. O juiz de rosto
esmaecido lançou uma olhadela obliqua para os réus e, com o lapis,
passou um traço por cima do que quer que fôsse, escripto no papel que
tinha em frente. O syndico do bailiado abanou a cabeça e removeu os
pés do sitio em que os tinha, com precaução. O marechal da nobreza
conversava com o procurador; o administrador da communa prestava
attento ouvido ao que diziam e sorria, esfregando sempre uma das faces.
De novo se ouviu a voz triste e sumida do presidente.
Os quatro advogados escutavam attentos; os réus conversavam em segredo
uns com os outros; Fédia continuava a occultar-se ás vistas, sorrindo,
muito compromettido.
--Então, não viste aquillo?... Falou melhor que todos os outros!
murmurou Sizof ao ouvido da sua visinha. Ah, aquelle brejeiro!
Pélagué sorriu sem o compreender. Tudo o que se estava passando
não era para ella mais do que o prologo inutil e forçado d’alguma
coisa terrivel, que, ao surgir, havia de esmagar todo o auditório
sob gélido terror. Comtudo, as calmas respostas de Pavel e André
manifestavam tanta firmeza e decisão, como se as tivessem pronunciado
na modesta casinha do arrabalde e não perante juizes. A réplica
enthusiasta e juvenil de Fédia tinha-a divertido immenso. Pairava na
sala uma atmosfera de audácia e de mocidade, e, pela agitação de todo
o auditório, Pélagué sentia que não era ella só que lhe sentia os
effluvios.
--A sua opinião? perguntou o velho.
O procurador calvo ergueu-se com a mão apoiada na carteira e discursou
com verbosidade, citando numeros. Nada havia n’aquella voz que
infundisse terror. No emtanto, ao ouvil-o, Pélagué sentiu logo como uma
punhalada no coração: era um vago presentimento de alguma coisa hostil
e que se lhe afigurava ir desenvolvendo-se lentamente em uma fórma
indefinivel. Examinava tambem os juizes, mas não os compreendia: ao
contrario do que ella esperava, não os via zangar-se com Pavel e Fédia,
nem proferir palavras injuriosas contra os réus; queria-lhe parecer que
todas as perguntas que faziam não tinham para elles importancia alguma;
dir-se-ia que era de má vontade que as formulavam e que lhes custava
esperar as respostas; nada os interessava tudo sabiam já d’antemão.
Agora estava um policia postado na frente d’elles e falava com uma voz
de baixo profundo.
--Toda a gente apontava Pavel Vlassof como o principal cabeça de motim.
--E André Nakhodka? perguntou com indolencia o jury gordo.
--Esse tambem.
Levantou se um dos advogados e disse:
--Dá-me licença?...
O velho perguntou a alguem:
--Não tem objecção a apresentar?
Pélagué chegava a julgar que os juizes se achavam todos doentes.
Traduzia-se um cansaço mórbido na menor das suas attitudes, nas vozes e
nas fisionomias. Via-se que tudo os enjoava: os uniformes, a sala, os
policias, os advogados, a obrigação de estarem ali sentados n’aquellas
poltronas, de interrogarem e de ouvirem. Raras vezes Pélagué se
encontrára na presença de gente de posição elevada e havia alguns annos
que nem sequer a tinha visto, e assim, as feições dos juizes eram para
ella como uma coisa inteiramente desconhecida, incompreensivel, mas
mais compassiva do que severa.
Estava agora a falar o official de cara amarellada que ella conhecia
bem; referia-se a André e a Pavel, arrastando muito as palavras,
emfaticamente. E emquanto o ouvia, Pélagué commentava comsigo mesma:
--Não sabes nada d’isto, meu pateta!
Deixára de sentir compaixão ou receio pelos que se sentavam por detraz
do gradeamento; não temia pela sua sorte, e achava que lhes era inutil
a sua piedade, mas todos elles lhe inspiravam admiração e um sentimento
de amor que lhe acalentava docemente o coração.
Jovens e robustos como eram, estavam sentados á parte, junto da parede
e quasi nem intervinham na conversação monotona entre testemunhas
e juizes, nas discussões dos advogados e do procurador. De vez em
quando, um d’elles tinha um sorriso de desprezo e dizia baixo algumas
palavras aos seus companheiros. André e Pavel, esses, falavam quasi
continuadamente com um dos defensores, a quem Pélagué conhecia de o
ter visto na vespera em casa de Nicolao e que por este era tratado de
«camarada». Mazine, mais animado e irrequieto que os outros, prestava
attento ouvido a esta conversa. De vez em quando, Samoílof segredava
meia duzia de palavras ao ouvido de Ivan Gousef. E Pélagué, olhando
para tudo, comparava, reflectia, sem que pudesse compreender aquella
sensação de hostilidade que a invadia, nem achar termos para exprimil-a.
Sizof chamou-lhe a attenção com ligeira cotovellada; virou-se para
elle: estava com uns ares ao mesmo tempo satisfeitos e um tanto
preoccupados. Segredava:
--Olha para a presença de espirito com que elles estão, aquelles
garotos, an? Parecem verdadeiros fidalgos, não é verdade? E no
entretanto estão a ser julgados... para os ensinar a não se metterem
no que não é da sua conta.
Ella repetiu involuntariamente a si mesma:
--Estão sendo julgados...
Na sala, depunham testemunhas, com vozes incaracteristicas e
atabalhoadas; os juizes iam sempre interrogando, indifferentes e mal
humorados. O juiz gordo bocejava, dissimulando a bôca sob a mão inchada
de cieiro; o seu collega dos bigodes ruivos tornára-se ainda mais
lívido; por vezes, erguia o braço, premia fortemente uma das fontes com
um dedo, e ficava-se a fitar o tecto com o olhar morto.
De vez em quando, escrevia o procurador algumas linhas a lapis e depois
recomeçava a cochichar com o marechal da nobreza. O administrador
cruzára as pernas e tamborilava n’uma dellas, com o olhar fixado com
gravidade no movimento dos dedos.
Com o ventre descansando-lhe nos joelhos e sustentando-o prudentemente
entre as duas mãos, o syndico do bailiado quedára-se de cabeça pendida;
parecia ser elle o unico a escutar o murmurio monotono das vozes, além
do velho, enterrado na poltrona e immovel como um catavento quando não
sopra a brisa. Durou isto muito tempo e de novo o aborrecimento se
apoderava do auditório.
Pélagué sentia que a justiça, a justiça implacavel que põe friamente
as almas a descoberto, que as examina, que tudo vê e tudo aprecia com
os olhos incurruptiveis e tudo pesa com mão leal, não tinha ainda dado
entrada n’aquella sala. Nada via por emquanto que a amedrontasse com
uma manifestação de força ou de majestade. Rostos descoloridos, olhos
sem brilho, vozes fatigadas, o indifferentismo tristonho d’uma tarde de
outono, eis tudo o que presenceava.
--Declaro... disse o velho com clareza; e em seguida, depois de ter
abafado o resto da frase entre os delgados labios, ergueu-se.
Logo a sala se encheu de rumores, suspiros, exclamações suffocadas,
accessos de tosse e arrastar de pés. Os réus foram conduzidos para fóra
do pretorio; ao saírem, faziam signaes com a cabeça e sorriam-se para
parentes e amigos. Ivan Goussef chegou mesmo a gritar com affabilidade
para quem quer que fôsse:
--Não te deixes intimidar, camarada!
Pélagué e Sizof saíram para o corredor.
--Queres vir ao bufete, tomar chá? perguntou sollícito o velho
operário. Temos hora e meia para esperar.
--Não, obrigada.
--Bem, então tambem eu não vou. Viste os rapazes, an? Falam como se
elles fôssem os verdadeiros homens e os outros coisa nenhuma! Ouviste o
Fédia, an?
De bonné na mão, vinha chegando n’este momento o pae de Samoílof. Com
um sorriso triste, perguntou:
--Que dizem do meu filho? Não quiz advogado e recusa-se a responder...
Foi elle que teve a idéa.
O teu filho era pelos advogados, Pélagué; o meu disse que não os
queria. E houve quatro que lhe seguiram o exemplo.
A mulher esteve ao lado d’elle. Piscava de contínuo os olhos e limpava
o nariz com a ponta do lenço. Samoílof reuniu na mão toda a barba, n’um
punhado, e continuou:
--Outra coisa que me dá que pensar: quando a gente olha para aquelles
demónios, parece que elles fizeram tudo aquillo inutilmente, que
comprometteram a sua vida sem necessidade e, de repente, fica-se a
scismar se elles não terão razão...
E é bom não esquecer que lá na fabrica, o partido d’elles aumenta
continuadamente. De vez em quando, prendem-nos; mas nunca os apanham a
todos, assim como nunca se apanham os peixes todos d’um rio! E a gente
fica sempre a perguntar com os seus botões: «Quem sabe se elles dizem a
verdade!»
--Para nós, é difficil compreender esta questão! declarou Sizof.
--Sim, é certo! acquiesceu o outro.
A mulher interveio então, depois de ter respirado com ruido:
--Parece que estão todos de perfeita saúde, estes malditos juizes!...
E continuou, com um sorriso no seu rosto emmurchecido:
--Não estejas zangada, Pélagué, por eu te dizer ha bocado que o Pavel
era o culpado de tudo!... Para falar com franqueza, nem a gente sabe
qual é o mais culpado! Ouviste o que os espiões e os policias contaram
do nosso filho?...
Claramente se via que tinha orgulho d’aquelle filho, embora ella
própria talvez nem désse por isso; mas Pélagué, que avaliava bem tal
sentimento, abriu-se em bondoso sorriso.
--Os corações moços andam sempre mais próximos da verdade do que os
velhos! disse ella em voz baixa.
Passeava-se pelo corredor; formavam-se grupos em que se discutia
concentradamente, todos pensativos e animados. Ninguem se conservava
afastado, toda a gente sentia a necessidade de falar, de interrogar e
de escutar o que se dizia. No estreito recinto da passagem, entre as
duas paredes brancas, os grupos iam e vinham, como se, impellidos por
violenta rajada, procurassem apoio n’alguma coisa firme e segura.
O irmão mais velho de Boukine, um grande latagão de cara envelhecida
prematuramente, gesticulava, virando-se com vivacidade para todos os
lados. Protestava elle:
--O syndico do bailiado nada tem a ver para o caso; não está aqui no
seu logar!
--Cala-te, Constantino! exortava o pae, um velhinho, sempre a olhar em
volta, assustado.
--Não, senhor, eu quero falar! Dizem que o anno passado matou um
empregado... por causa da mulher d’este! Ora que espécie de juiz vem a
ser aquillo, fazem favor de me dizer? A viuva do empregado vive agora
com elle!... Que havemos de concluir?... Além d’isso, toda a gente sabe
que é ladrão...
--Ai, meu Deus!... Constantino!...
--Tens razão, sim senhor! apoiou Samoílof. Tens razão! Não é um juiz
sério!...
Boukine, que tudo ouvira, approximou-se rápido, levando atraz de si
numeroso grupo. Muito vermelho, de excitado, entrou de falar, com
grandes gestos:
--Quando se trata de assassinatos ou de roubos, são os jurados que
julgam, quer dizer: a gente habitual, trabalhadores, burguezes...
Agora, quando se trata dos que são contra o governo, quem os julga é o
próprio governo!... Isto póde ser?...
--Constantino!
--Mas escuta, estão elles realmente contra o governo? Vê lá, que dizes?
Não, espera! O Fédia Mazine tem razão. Se tu me offenderes e eu te der
uma bofetada e se tu tiveres de me julgar, com certeza é a mim que
chamarás culpado; e comtudo, quem insultou? Tu! Tu!
Um guarda já idoso, de nariz adunco e peito ornado de medalhas,
atravessou por entre o ajuntamento e foi dizer a Boukine, ameaçando-o
com o dedo:
--Olá! não grites! Onde imaginas que estás? É alguma taberna, aqui?
--Queira perdoar, cavalheiro... Eu percebo bem. Ora escutem: se eu
bater em alguem e esse alguem me retribuir as pancadas e se eu tiver
de julgal-o depois, como é que podem imaginar...
--Olha que te faço saír! disse o guarda severamente.
--Saír? para onde? Porquê?
--Para a rua! Que é para não berrares!
Boukine circumvagou o olhar pelo auditório e commentou a meia voz:
--Para elles, o essencial é que estejamos calados.
--Ainda não o sabias? replicou o velho com rudeza.
O outro baixou a voz.
--E depois, porque é que o publico não póde assistir ás audiencias, mas
tão somente os parentes?
--Se ha justiça nos julgamentos, é para serem presenceados por todos!
De que teem medo?
E Samoílof apoiou, mas com mais vehemencia:
--Isso é verdade! Estes tribunaes não satisfazem a consciencia pública.
Pélagué desejava tambem repetir o que Nicolao lhe dissera ácerca
da illegalidade do julgamento; mas não o havia compreendido bem e
esquecera em parte as expressões empregadas por Nicolao. Para tentar
rememoral-as, afastou-se da multidão e viu um rapaz de bigode loiro a
observal-a. Trazia a mão direita mettida na algibeira das calças, o que
fazia com que parecesse ter o hombro esquerdo mais baixo do que outro.
Esta particularidade lembrou-se Pélagué que já era sua conhecida.
Mas o homem virou-lhe as costas e, cançada do seu esforço de memoria,
Pélagué logo se esqueceu d’elle.
Instantes depois, distinguia um fragmento de conversa em segredo:
--Aquella? Á esquerda?
E alguem respondeu mais alto, com expansão:
--Essa mesma.
Olhou. O homem dos hombros de desigual altura estava ao lado d’ella e
conversava com o seu visinho, um homem corpulento de barba preta, com
umas enormes botas e casaco curto.
Estremeceu. Ao mesmo tempo, sentia o desejo de falar nas crenças de seu
filho, para ouvir as objecções que lhe pudessem apresentar e calcular a
decisão do tribunal pelas opiniões dos que a rodeavam.
--É isto por ventura fórma de julgar? começou ella a meia voz,
prudentemente, dirigindo-se a Sizof. Não compreendo isto. Os juizes só
tratam de averiguar o que fez cada um d’elles, mas não perguntam porque
o fez. Será isto justo? diga lá! E são todos elles velhos! Para julgar
gente nova são precisos homens novos!
--Sim! disse Sizof. Torna-se-nos difficil compreender todo este
negocio... muito difficil!
E abanava a cabeça, pensativo.
N’isto, o guarda abriu a porta da sala e gritou:
--Entrem os parentes! Mostrem os seus bilhetes.
Uma voz de mau humor commentou:
--Os bilhetes... como no circo!...
Sentia-se agora uma irritação geral e mal contida, uma colera vaga. Os
curiosos manifestavam maior semceremonia do que pouco antes, faziam
barulho, discutiam com os guardas.