XIV

Ao meio dia, já Pélagué estava na secretaria da cadeia. Com turvo

olhar, examinava o rosto barbudo de Pavel, que se lhe sentára em

frente, á espera do momento em que poderia passar-lhe o bilhete que

apertava fortemente na mão.

--Estou de saúde, e outros tambem, dizia Pavel a meia voz. E tu? como

vaes?

--Muito bem. Morreu o Iégor! respondeu maquinalmente.

--Palavra?! exclamou Pavel; e baixou a cabeça.

--Vinha a policia no enterro, houve uma desordem, e foi um homem preso,

continuou ella com simplicidade.

O sub-director da cadeia deu com a bocca um estalo, aborrecido, e

levantou-se a resmungar:

--Não falem n’essas coisas! É proíbido, já devem sabel-o. Não se

consente que se fale de política... Oh, Deus poderoso!

Ella ergueu-se igualmente e em voz d’innocencia desculpou-se:

--Eu não falava de política, falava da desordem. E o certo é que elles

bateram uns nos outros. Até um ficou com a cabeça aberta!

--Não faz mal, queira calar-se! Quer dizer: não profira uma palavra que

não lhe diga pessoalmente respeito, a si, á sua familia ou á sua casa.

E para confirmar melhor as suas explicações, sentou-se á secretária e

acrescentou n’um tom de cansaço e de enfado, ao mesmo tempo que punha

em ordem uns documentos:

--Depois, eu é que sou responsavel.

Pélagué lançou-lhe furtivo olhar e introduziu rapidamente o bilhete na

mão de Pavel. Depois, suspirou com allivio:

--Nem eu sei de que hei de falar...

Pavel sorriu.

--Nem eu tão pouco.

--Então para que serve vir fazer visitas? observou, irritado, o

funccionario. Se não sabem de que hão de falar, não venham, não nos

incommodem!

--Quando vaes responder? perguntou a mãe apóz curto silencio.

--O procurador esteve ahi um dia d’estes; disse que era para breve.

Trocaram ainda umas frases banaes. A mãe via que o seu Pavel a fitava

amorosamente.

Não mudara; mostrava-se, como sempre, calmo e ponderado; unicamente, a

barba que lhe crescera vigorosamente, o fazia mais velho; e tinha os

pulsos mais brancos. Pélagué quiz causar-lhe prazer dando-lhe noticias

de Vessoftchikof. Então, sem mudar de voz, no mesmo tom em que lhe

falava de bagatellas, continuou:

--Vi o teu afilhado...

Pavel fitou-a com o ar interrogador. E logo para evocar o rosto

bexigoso do fugitivo, ella cravou o indicador em diversos pontos da

cara.

--Vae bem, o teu rapaz; é robusto, desembaraçado... Vae ter emprego

d’aqui a pouco... Lembras-te? estava sempre a exigir que lhe dessem

trabalho pesado.

Pavel tinha compreendido. Abanou a cabeça e respondeu com os olhos

illuminados por um alegre sorriso:

--Ora essa!... se me lembro!...

--Pois ahi tens! disse ella com satisfação.

Sentia-se contente comsigo mesma e alegre com a alegria do filho. Ao

retirar-se, apertou-lhe elle a mão vigorosamente:

--Obrigado, mamã!

Como o vapor da embriaguez, uma sensação de extase subiu á cabeça da

mãe; sentia o coração do filho mais perto do seu; não teve forças para

lhe responder com frases e contentou-se com apertar-lhe tambem a mão,

sem uma palavra mais.

Em casa, encontrou Sachenka, pois tinha esta por costume visital-os nos

dias em que Pélagué ia á cadeia. Nunca a interrogava ácerca de Pavel;

se Pélagué, de motu-proprio, não falava do filho, Sachenka ficava-se

a olhar fixamente para ella, e era tudo. Mas n’esse dia, acolheu-a com

uma interrogação de desasocego:

--E então, que faz elle?

--Está bom.

--Deu-lhe o bilhete?

--Com certeza.

--E leu-o?

--Está visto que não. Como podia elle lêl-o?

--É verdade!... Esquecia-me!... emendou com lentidão a rapariga.

Esperemos mais uma semana... E que lhe parece? Estará d’accordo? E

olhou fito para a mãe de Pavel.

--Sim... não sei... creio que sim! respondeu. Porque não havia elle de

se evadir? Perigo, não ha nenhum...

Sachenka concordou com um aceno e perguntou com seccura:

--Não sabe dizer-me o que é que se póde dar a comer ao doente? Diz que

tem fome...

--Póde comer de tudo... de tudo! Eu mesma lá vou.

E encaminhou-se para a cosinha. Sachenka seguiu-a vagarosamente.

Pélagué foi ao fogão buscar uma cassarola.

--Escute! murmurou a rapariga.

Fez se pálida, os olhos dilataram-se-lhe n’uma angustia e com os beiços

trémulos, segredou de enfiada:

--Queria perguntar-lhe... Eu bem sei: elle não ha de querer. Mas

convença-o, diga-lhe que precisamos d’elle, que não podemos passar sem

elle, que tenho medo que elle caia doente n’essa prisão... que tenho

muito medo! Bem vê: nem ainda está fixado o dia do julgamento!...

Falava com difficuldade e tal esforço toda a inteiriçava; não se

atrevia a fitar a mãe de Pavel; a voz saía-lhe desigual como corda

que se puxa de mais, e logo se quebra. Com as palpebras cerradas

mollemente, mordia os beiços e ouviam-se-lhe estalar as articulações

dos dedos, enclavinhados.

Pélagué, ficou emocionada ao ver aquelle accesso de exaltação, mas

compreendeu. Commovida, cheia de tristeza, abraçou-a e respondeu baixo:

--Minha filha: elle não dá ouvidos senão a si mesmo... A mais ninguem!

Permaneceram um instante em silencio, estreitamente enlaçadas. Depois,

Sachenka soltou-se-lhe dos braços suavemente e disse enleada:

--Sim... tem razão! São tolices minhas... são os meus nervos!

E fazendo-se de repente muito séria, concluiu simplesmente:

--Mas agora me lembro: é preciso levar de comer ao doente!

D’ahi a pouco, sentada á cabeceira de Ivan, perguntava a este em tom de

amigavel sollicitude:

--Doe-lhe muito a cabeça?

--Não, não muito... Mas vejo e oiço tudo vagamente... sinto-me fraco!

respondeu Ivan confuso e puxando a roupa até o queixo. Pestanejava

de contínuo, como se a luz se lhe tornasse demasiado forte. E porque

notasse que o rapaz não se resolvia a comer na presença d’ella,

Sachenka levantou-se e saíu do quarto.

Ivan sentou-se na cama, seguindo-a com a vista; e, piscando o olho:

--É tão bonita!...

Ivan tinha uns olhos claros e espertos, dentes pequenos e muito iguaes,

a voz estava ainda na mudança da puberdade.

--Que idade tem? perguntou-lhe Pélagué pensativa.

--Dezesete annos.

--Onde vivem seus paes?

--No campo. Ha sete annos que vivo aqui; abandonei a aldeia ao saír do

collegio... E a senhora, camarada, qual é o seu nome?

O ouvir tratar-se assim divertia sempre Pélagué, e sensibilisava-a.

Muito risonha, retorquiu:

--Que precisão tem de o saber?

Calou-se um instante o rapaz, confuso, e explicou:

--É que um estudante do nosso grémio... quer dizer do grémio que nos

fazia as leituras, falou-nos da mãe de Pavel Vlassof, sabe? aquelle

que organisou a manifestação do primeiro de maio... o revolucionario

Vlassof.

Ella confirmou com a cabeça e apurou o ouvido.

--Foi elle o primeiro a desfraldar a bandeira do nosso partido!

declarou com emfase o rapaz, e esta exclamação de orgulho ecoou no

coração da mãe. Eu não estava no grupo... Tinhamos tenção de fazer

uma manifestação tambem aqui, mas fomos mal succedidos: eramos muito

poucos! Mas este anno ha de ser outra coisa... Verá!

Offegava, emocionado, comprazendo-se á idéa de futuros acontecimentos.

Agitando a colher, proseguiu:

--Falava eu então da mãe de Vlassof... Ao que parece, entrou tambem

para o partido depois da prisão do filho... Dizem que essa velha é

extraordinaria!

Pélagué teve um franco sorriso: sentia-se a um tempo lisonjeada e

constrangida. Ia dizer-lhe que a mãe de Pavel era ella; mas conteve-se

e pensou com tristeza e um pouco de ironia:

--Que velha tola que eu sou!

E de repente, dominando a sensibilidade que a dominava, curvou-se para

o rapaz:

--Vamos, coma! Coma que mais depressa se ha de curar para proseguir

nos nossos trabalhos! A causa do povo precisa de braços juvenis e

robustos, de corações puros, de espíritos leaes! São essas forças que

lhe dão vida; é por ellas que hão de ser vencidas toda a maldade e toda

a infamia!...

Abriu-se a porta, deixando penetrar o fresco húmido do outono. Entrou

Sofia, alegre, com as faces muito córadas.

--Os espiões andam a perseguir-me como os janotas arruinados perseguem

uma herdeira rica, palavra d’honra! Tenho de me ir embora d’aqui.

--E então, Ivan, como vae?... Bem?... Pélagué, que diz o Pavel?... A

Sachenka está cá?

Accendia um cigarro e ia fazendo todas estas perguntas sem esperar

as respostas. Afagava no entretanto a velha e o rapaz com a caricia

do seu olhar pardacento. Pélagué considerava a recemchegada, rindo

interiormente e pensava:

«E eis como eu tambem me transformei em creatura humana... e n’uma bôa

creatura, até!»

Inclinando-se de novo para Ivan, disse-lhe:

--Cure-se depressa, rapazinho!

E passou á casa de jantar, onde estava Sofia a dizer a Sachenka:

--Ella já preparou trezentos exemplares!... Mata-se a trabalhar... Que

heroísmo o d’ella! Sabe Sachenka, que é uma verdadeira felicidade viver

entre gente assim, ser seu camarada, trabalhar com elles!...

--É certo! respondeu a rapariga.

E á noite, Sofia annunciou:

--Mãe Pélagué, precisamos que faça uma nova excursão pelo campo.

--Com muito gosto. Quando é a partida?

--Dentro de trez dias... Está por isso?

--Certamente!

--Mas não ha de ir a pé, aconselhou Nicolao.

Alugam-se cavallos de posta e toma outro caminho: pelo districto de

Nikolsky...

Aqui, calou-se; tomára uns modos sombrios que não condiziam com a sua

expressão habitual; as suas feições tão calmas tiveram uma contracção

singular de fealdade.

--É uma volta muito grande! fez notar a velha. E os cavallos custam

caro.

--É preciso que saibam, proseguiu Nicolao. Sou geralmente contrario a

estas viagens. Ha agitação lá para esses lados... ha pouco, fizeram-se

por lá prisões, foi encarcerado um mestre escola... É bom ser-se

prudente... Mais valia esperar um pouco...

--Ora! redarguiu Pélagué a rir. Se é certo o que dizem: que não se

tortura ninguem n’essas prisões...

Sofia, que tamborilava sobre a mesa, observou:

--Mas é importantissimo para nós que a distribuição dos folhetos e dos

manifestos se faça sem interrupção... Não tem medo de lá ir, Pélagué?

perguntou bruscamente.

Sentiu-se melindrada.

--Tive eu alguma vez medo? Mesmo da primeira vez não me senti nada

assustada... e a senhora...

Baixou a cabeça sem terminar a frase. É que sempre que lhe perguntavam

se ella tinha medo, se podia fazer uma coisa ou outra, se isto ou

aquillo era facil para ella, presentia que precisavam de si para alguma

coisa, que tratavam de se descartar d’ella, e que a tratavam por fórma

diversa da que usavam entre elles.

Quando tinham vindo os dias dos acontecimentos mais consideraveis,

haviam-na ao principio assustado um pouco a rapidez dos incidentes e a

repetição das emoções, mas logo, instigada pelo exemplo e sob o impulso

das idéas que a dominavam, o seu coração transbordára do immenso

desejo de se tornar tambem util. Era este o seu estado de espirito

n’esse dia, e a pergunta de Sofia tornou-se-lhe assim, pois, tanto mais

desagradavel.

--É inutil perguntar se tenho medo... ou outra qualquer coisa

d’este genero, proseguiu ella. Porque havia de ter medo?... Os que

possuem alguma coisa é que teem medo. E eu que tenho? O meu filho,

unicamente... Tinha medo por elle... Tinha medo que o torturassem e que

me fizessem outro tanto. Mas desde o momento que não ha torturas, que

me importa o resto?

--Não está zangada comigo?! exclamou Sofia.

--Não... Somente noto que nunca pergunta aos outros se têm medo...

Nicolao tirou com vivacidade os óculos, tornou a pôl-os e olhou de fito

para a irmã. O silencio contrafeito que se estabeleceu agitou a alma

de Pélagué. Levantou-se constrangida; ia falar, mas Sofia, pegando-lhe

brandamente em uma das mãos, disse baixinho:

--Desculpe... Nunca mais lho pergunto.

Esta promessa fez rir a anciã. E instantes depois, todos trez

conversavam affectuosamente mas preoccupados, sobre a nova jornada ao

campo.

A Mãe · 第 47 / 66 题