Logo ao nascer da aurora, lá ia a velha na carrinhola, em fortes
solavancos pelas estradas enlameadas pelas chuvas do outono. Soprava
húmido vento; a lama voava em mil respingos; o postilhão, sentado
á beira do carro, virado para Pélagué, ia a lamentar-se n’uma voz
anasalada e filosófica:
--Tinha eu dito áquelle meu irmão: façamos partilhas! E começámos a
fazer partilhas...
Mas de repente fustigou o cavallo da mão com valente chicotada e gritou
furioso:
--Queres andar, ou não, estuporado animal?
Os nédios corvos d’outono saltitavam com gravidade pelos campos nús;
o vento vinha-lhes ao encontro, assobiando; elles então apresentavam
o flanco ao vento, que lhes arrepiava as pennas e os obrigava a
cambalear, e elles cediam á força da brisa e deitavam a voar com um
palpitar indolente das azas.
--Finalmente prejudicou-me, e eu vi que não havia nada a fazer com
elle, concluiu o postilhão.
As palavras do homem resoavam como n’um sonho, aos ouvidos de Pélagué;
no seu coração germinava um pensamento muito diverso, a sua memoria
fazia-lhe desfilar na frente a longa série dos acontecimentos passados
nos ultimos annos. Outrora, a vida, para ella, era como uma coisa
criada não se sabia onde, muito longe, não se sabia por quem, nem
porquê, e, agora, um numero consideravel de coisas se faziam á sua
vista e com o seu próprio auxílio. E um vago sentimento se apoderava
d’ella: era perplexidade e suave tristeza, contentamento e desconfiança
de si mesma...
Em torno d’ella, tudo se deslocava com lento movimento; no ceu, vogavam
pesadamente as nuvens pardacentas, correndo para passarem umas adiante
das outras; aos dois lados do caminho, fugiam as arvores encharcadas,
com os cumes desnudados a baloiçarem; os campos estendiam-se em
circulos regulares; monticulos adiantavam-se-lhe ao encontro, depois,
ficavam para traz. Dir-se-ia que aquelle dia turvado ia a correr para
alguma coisa longinqua, indispensavel.
A voz nasal do postilhão, o tintilar dos guisos, o assobiar húmido
e o perpassar do vento, tudo se fundia em uma torrente sinuosa e
palpitante, que corria por cima dos campos com força uniforme e que
suggestionava os espíritos.
--O rico até no ceu acha o espaço pouco!... É sempre assim! Meu irmão
entrou a chicanar... as autoridades protegem-no! continuava o cocheiro,
sentado sempre no rebordo do vehículo.
Chegados ao termo da viagem, desatrelou os cavallos e disse á velha
n’um tom desesperado:
--Bem me podias dar cinco kopecks para beber uma pinga.
E como ella acquiescesse ao pedido, o homem declarou no mesmo tom,
fazendo tenir as duas pequenas moedas no concavo da mão:
--Pois vou comprar uns trez kopecks d’aguardente e dois de pão!...
Pela tarde, chegou Pélagué, esfalfada e transida á importante villa de
Nikolsky. Dirigiu-se á hospedaria, pediu chá e, tendo occultado debaixo
d’um banco a sua pesada mala de mão, foi sentar-se ao pé da janella,
a olhar para o largosinho, revestido d’um tapete amarellado de herva
calcada, e para o edificio da administração da communa, um casarão
pardacento e triste, com os telhados a caír. Sentado nos degraus da
entrada, estava um campónio calvo, de barbas compridas, a fumar o seu
cachimbo.
Corriam as nuvens em massas sombrias; amontoavam-se umas sobre outras.
Reinava silencio; tudo respirava um tédio de mau humor; dir-se-ia que a
existencia inteira se tinha occultado não se sabia onde, silenciosa.
De repente, appareceu um official inferior de cossacos, a galope;
sopeou o alazão que montava, em frente da entrada da administração e
gritou o que quer que fôsse para o campónio, agitando o chicote no
ar. Os seus gritos atravessavam as vidraças, mas Pélagué não podia
distinguir as palavras. O campónio levantou-se, estendeu a mão para
o horizonte; o official inferior saltou para o chão, cambaleou um
pouco, atirou as rédeas ao homem; depois, firmando-se pesadamente na
balaustrada, subiu os degraus e sumiu-se no interior do edificio.
Fez-se novo silencio. Por duas vezes o alazão bateu com o casco no
solo empapaçado. Uma rapariguinha, de olhos cariciosos e rosto muito
redondo, com uma pequena trança loira caída no hombro, entrou na sala
onde Pélagué estava. De bocca franzida, trazia sobre os dois braços
estendidos uma enorme bandeja de bordas já gastas, carregada de louça.
Cumprimentou com a cabeça.
--Viva, minha lindinha! disse-lhe Pélagué amoravelmente.
--Viva!
Quando dispunha sobre a mesa pratos e chavenas, a pequena annunciou de
chofre, muito animada:
--Apanharam agora mesmo um ladrão... Vão trazel-o para aqui.
--Que vem a ser esse ladrão?
--Não sei.
--Que fez elle?
--Não sei; só ouvi dizer que tinham apanhado um ladrão! Foi o guarda
que saíu a correr da administração para ir buscar o commissário. Ia a
gritar: «Está agarrado, tragam-no para cá!»
Pélagué olhou pela janella e viu que vários camponezes se approximavam.
Uns caminhavam devagar, com todo o socego; outros, corriam e vinham a
abotoar as suas capas de pelles mesmo a andar. Pararam todos em frente
do casarão e dirigiram os olhares para a esquerda. Mas conservavam-se
todos em singular silencio.
A rapariguinha olhou tambem para a rua e saíu da sala, batendo
ruidosamente com a porta. Pélagué estremeceu. Occultou o melhor que
poude a mala debaixo do banco, cobriu a cabeça com um lenço e veio
fóra, a passo rápido, reprimindo o incompreensivel desejo de fugir que
toda inteira a assaltava.
Ao chegar ao poial da entrada da estalagem, sentiu nos olhos e no peito
um friosinho agudo; suffocou, teve as pernas dormentes: a meio do largo
caminhava Rybine com as mãos amarradas nas costas, escoltado por dois
guardas. Silenciosa, a multidão dos campónios estava á espera, em volta
da escadaria da administração.
Atordoada, sem compreender bem o que via, Pélagué não desfitava Rybine.
Este vinha a falar, pois que Pélagué lhe ouvia o som da voz, mas as
palavras voavam indecisas, sem que tivessem éco no vácuo fremente e
obscuro do seu espirito.
Voltou a si e respirou melhor. Um campónio de barba loira estava a
fitar n’ella attentamente os olhos azues. Ella tossiu, esfregou o peito
com as mãos trémulas de terror e perguntou com esforço:
--Que se passa?
--Veja vocemecê mesma, redarguiu o camponez, voltando-se de novo para
ella. Outro rústico approximou-se do primeiro e postou-se lado a lado.
Os guardas fizeram alto em frente da populaça sem cessar crescente, mas
que permanecia muda. De súbito, a voz de Rybine resoou com inergia:
--Teem ouvido falar d’esses papeis em que se escreve toda a verdade a
respeito da nossa vida de campónios?... Pois bem: foi por causa d’esses
papeis que me prenderam! Fui eu que os distribui pelo povo!
A multidão cercou então o preso. Este apparentava voz calma,
reflectida, e isto aliviou Pélagué da oppressão em que se sentia.
--Estás ouvindo? perguntou o segundo camponez ao dos olhos azues,
dando-lhe com o cotovelo.
Este, sem responder, ergueu a cabeça e de novo fitou a velha. O outro
fez o mesmo. Era mais novo que o primeiro e tinha uma cara chupada,
coberta de sardas, de barbinhas pretas. Os dois afastaram-se um pouco.
--Teem medo! disse Pélagué comsigo.
E augmentou de attenção. Da soleira da estalagem distinguia
perfeitamente o rosto sujo e tumefacto de Rybine, divisava-lhe o brilho
do olhar; desejava que elle tambem a visse; pôz-se nos bicos dos pés,
de pescoço estendido.
Varios populares attentavam n’ella com modos frios, desconfiados, sem
proferir uma palavra. Só nas primeiras filas do ajuntamento é que se
notava um susurro continuado de conversações.
--Camponezes, meus irmãos, proseguiu Rybine com voz máscula e firme,
tenham confiança n’esses escriptos! É para a morte talvez, que
eu caminho por causa d’elles! Fui espancado, torturado, quizeram
obrigar-me a dizer d’onde elles provinham... Pois que continuem a
espancar-me--tudo supportarei!... Porque n’esses papeis encontra-se a
verdade, e a verdade é para ser por nós mais presada do que o pão!...
do que a própria vida!
--Para que diz elle aquillo? perguntou um dos dois campónios.
O dos olhos azues respondeu com lentidão:
--Que lhe importa, a elle? A gente não morre duas vezes... E agora que
já está condemnado...
Os trabalhadores continuavam mudos, relanceando olhares furtivos e mal
humorados; a todos parecia acabrunhar o que quer que fosse invisivel
mas esmagador.
O official inferior appareceu n’isto na balaustrada da administração.
Titubeante e em voz avinhada, regougou:
--Que vem a ser toda esta gente? Quem está para ahi a falar?
Precipitou-se para o largo, agarrou e saccudiu Rybine pelos cabellos,
gritando:
--És tu que estás a falar, filho d’uma cadella... és tu?
Fez-se agitação entre o povo, que entrou a murmurar. Presa de violenta
angustia, a cabeça de Pélagué descaíu sobre o peito. Um dos campónios
suspirou com ruido. E de novo resoou a voz de Rybine:
--Pois bem, bôa gente, escutem!...
--Cala-te!
E o sargento deu-lhe um murro sobre o ouvido. Rybine cambaleou, depois,
ergueu os hombros.
--Amarram as mãos a uma pessôa para a martirisarem á vontade!
--Guardas, levem-no! Olá! toca a dispersar! E, aos saltos na frente
de Rybine, como um cão preso pela trela diante d’um naco de carne, o
sargento atirava-lhe murros á cara, ao ventre e ao peito.
--Não lhe batas! gritou uma voz entre o povo.
--Para que lhe bates? perguntou outro.
--Vamo-nos embora! disse o dos olhos azues para o companheiro, abanando
a cabeça. E, de seu vagar atravessaram o largo, emquanto Pélagué os
acompanhava com um olhar de simpatia.
Suspirou então, mais aliviada. O sargento accudiu outra vez, em pesado
passo, á balaustrada e entrou a gritar, furioso, brandindo o punho:
--Tragam-no para aqui, já lhes disse.
--Não! replicou uma voz sonora. (A velha percebeu que era a do camponez
dos olhos azues.) Não devemos consentir! Se o deixam entrar ali, vae
ser espancado até o matarem! E depois não faltará quem diga que a culpa
foi nossa, que fomos nós que o matámos!... Não devemos consentir!
--Camponezes! gritou Rybine. Não vêem a vida que levam? Não vêem como
são explorados, ludibriados, e que lhes tiram o sangue?... Tudo repousa
em vós; vós sois a principal força da terra... toda a sua força!... E
quaes são as vossas regalias? Unicamente a de morrer á fome!
De subito, os camponezes proromperam em gritos, interrompendo se uns
aos outros:
--O homem tem razão!
--Chamem o commissário da policia rural! Onde está?
--O sargento foi chamal-o!
--Ora adeus! O sargento está bêbedo!
--Não é a nós que compete chamar as auctoridades!
--Fala, que não deixamos que te batam!
--O que foi que tu fizeste, an?
--Desamarrem-lhe os pulsos.
--Não, não, meus irmãos!
--Porque não? Que importancia tem isso?
--Pensem bem no que fazem!
--Doem-me os pulsos! disse Rybine, dominando o tumulto com a sua voz
sonora e espaçada. Meus irmãos! descansem que não fujo!... Eu não posso
fugir á verdade, pois que ella vive em mim!
Algumas pessôas separaram-se do ajuntamento e foram-se afastando com
meneios de cabeça; alguns riam... Mas sem cessar, gente exaltada, mal
vestida por terem envergado os fatos á pressa, vinha chegando de todos
os lados. Fervilhavam em volta de Rybine qual negra escuma. De pé, no
meio d’elles, tal um cruzeiro em meio da floresta, o preso ergueu os
braços acima da cabeça e gritou:
--Obrigado, obrigado, bôa gente! Sim! devemos desligar as nossas mãos
mutuamente! Quem nos havia de ajudar, se nós não nos ajudassemos uns
aos outros?
Ergueu novamente uma das mãos, toda ensanguentada:
--Vêem o meu sangue? É pela verdade que o derramo!
Pélagué desceu o poial. Mas do nivel do largo, já Rybine lhe não era
visivel; tornou pois a subir os degraus. Tinha o peito em fogo mas
dentro d’elle sentia palpitar alguma coisa de vaga alegria...
--Camponezes! Busquem esses folhetos, leiam-nos. Não acreditem nas
autoridades e nos padres, que andam a dizer-lhes que são ímpios e
herejes aquelles que vos trazem a verdade!... A verdade vae sempre
fazendo o seu caminho silencioso pela terra, e no seio do povo encontra
abrigo. Para essas autoridades ella é peor que o ferro e que o fogo.
A verdade é a nossa melhor amiga; para a autoridade é uma inimiga
declarada.--ahi teem porque ella se esconde.
De novo resoaram entre a multidão varias exclamações.
--Irmãos, escutem!
--Ai, pobre homem, estás perdido!
--Quem te denunciou?
--Foi o padre, respondeu um dos guardas.
Dois dos camponezes vomitaram logo uma chuva de impropérios.
--Cuidado, camaradas! advertiu uma voz.