IV

Quatro dias depois, apresentavam-se a Nicolao as duas mulheres

pobremente vestidas de saias de chita já usadas, de cajados na mão e

alforge ao hombro. Este trajo tornava Sofia mais baixa e dava-lhe á

fisionomia uma expressão de austeridade.

--Parece que passas a vida a jornadear de convento em convento!

disse-lhe o irmão.

E ao despedir-se d’ella, apertou-lhe a mão com energia. Mais uma vez,

notou a velha esta simplicidade e esta calma. Decididamente, não

eram pródigos de beijos nem de demonstrações de estima, e comtudo,

mostravam-se tão sinceros um para o outro, tão sollicitos para com os

estranhos! Porque nos meios onde Pélagué vivera, todos se beijavam

muito, todos se animavam com bonitas palavras, o que não impedia que se

mordessem como cães damnados.

Atravessaram as viandantes a cidade, alcançaram o campo e tomaram a

vasta estrada bem calcetada, orlada de velhas bétulas.

--Não estará cansada? inquiriu a mais idosa.

--Julga que não estou costumada a andar? Pois engana-se...

Jovialmente, por entre risadinhas, como se tratasse de travessuras

de criança, Sofia entrou de contar os seus feitos de revolucionária.

Vivera já com um nome supposto, servindo-se para isso d’um passaporte

falsificado; disfarçára-se para fugir aos espiões, transportára

para diversas cidades muitos quintaes de brochuras proíbidas. Tinha

arranjado a fuga a muitos companheiros exilados, acompanhára-os ao

estrangeiro. De uma vez, montára na sua própria casa uma imprensa

clandestina; e quando os gendarmes, sob denuncia do delicto, tinham

vindo proceder ás buscas, disfarçara-se ella de criada, minutos antes

d’elles chegarem e saíra, cruzando-se com os inquisidores já no limiar

do predio. Sem uma capa, com uma simples mantilha pela cabeça e de

amotolia de petroleo em punho, percorrera de outra vez a cidade de

extremo a extremo, sob um frio rigoroso, em pleno inverno. D’outra

occasião, porque se tivesse dirigido a casa de uns correligionarios,

n’uma cidade distante, ia a subir a escada quando percebeu que havia lá

policia, varejando. Era tarde para saír do prédio; bateu portanto com o

maior atrevimento, no andar de baixo. Entrou em casa de gente que não

conhecia, de mala na mão, e tratou de pôr a claro o acontecido.

--Os senhores podem denunciar-me se quizerem, mas não os julgo capazes

d’isso declarára ella convictamente.

Atrapalhadissimos, não fecharam os olhos toda aquella noite, julgando

a todo o momento que lhes vinham bater á porta. Comtudo, não a

denunciaram e, chegada a manhã, mangaram, como ella, com a polícia.

Tambem lhe acontecera vestir-se de irmã da caridade e fazer viagem

no mesmo compartimento e no mesmo assento do vagon em que ia um

espião encarregado de lhe seguir a pista, o qual, para fazer valer a

sua esperteza, se lhe puzera a contar como era que procedia em tal

diligencia. Estava certo o homem de que Sofia ia n’aquelle comboio, em

segunda classe: e a cada nova paragem, descia e commentava regressando

para o pé da pseudo religiosa:

--Não a vejo... Provavelmente vae a dormir. É que essa gente tambem

cansa... Levam uma vida tão dura... tal qual a nossa!

A outra ria com estas historias, olhava para Sofia com affecto. Alta

e magra, a joven senhora caminhava com passo leve mas firme; tinha os

pés fortes e bem feitos. Na maneira de andar, no falar, no proprio

timbre da voz, decidida se bem que um pouco baça, em toda a sua figura

esbelta, transparecia uma como bôa saude moral, uma audacia alegre, um

desejo de ar e de espaço, e os seus olhares para tudo se dirigiam com

uma expressão de juvenil contentamento.

--Olhe aquelle pinheiro tão bonito! exclamou, mostrando uma arvore á

sua companheira, que parou para vêl-a. Mas o pinheiro, afinal, não era

nem maior nem mais folhudo que os outros.

--É verdade, bonita arvore! repetiu, risonha.

--Olhe uma cotovia!

E os olhos pardos de Sofia brilharam de satisfação. Ás vezes, com

movimentos flexuosos, baixava-se, apanhava uma flôr e acariciava-lhe

amorosamente as petalas tremulas com o ligeiro contacto dos seus dedos

afusados e ageis. E trauteava canções meigas.

Pelo caminho, cruzavam-se com peões ou campónios empoleirados nas suas

carroçadas, que lhes diziam:

--A paz seja comvosco!

Brilhava um lindo sol primaveril; todo o vasto azul resplandecia;

aos dois lados da estrada, estendiam-se densas florestas de madeiras

resinosas, herdades de um verde muito vivo; cantavam passaros, o ar

tepido e perfumado acariciava brandamente as faces.

Tudo contribuia para approximar Pélagué d’aquella mulher de alma e de

olhos tão limpidos; e involuntariamente, chegava-se mais para ella,

esforçando-se por igualar a sua andadura pela d’ella. Comtudo, ás

vezes, destacava-se das frases de Sofia uma expressão demasiado viva,

demasiado sonora, que a Pélagué se afigurava superflua. Então, era

tomada de inquietação:

--Estou vendo que não vae agradar ao Rybine...

Mas um instante depois, Sofia voltava a falar com simplicidade,

cordialmente, e ella de novo a olhava com ternura.

--Como é nova ainda! suspirou.

--Ora! olhe que já tenho trinta e dois!

A outra riu.

--Não é isso que quero dizer... Á primeira vista parece ter mais

idade... mas quando se repara nos seus olhos, quando a ouvimos falar,

fica-se muito admirado, parece uma menina... A sua vida é desasocegada,

penosa, cheia de perigos... e todavia, tem o coração alegre...

--Não vejo em que a minha vida seja penosa, nem posso imaginar outra

mais interessante e melhor do que esta...

--E quem ha de recompensal-a dos seus trabalhos?

--Se já estamos recompensados! respondeu Sofia, em tom que á outra

pareceu denunciar fundo orgulho. Arranjámos uma existencia que nos

satisfaz; que mais havemos de desejar?

A mãe olhou para ella furtivamente e baixou a cabeça, repetindo a si

mesma:

--Não vae gostar nada d’ella, o Rybine...

Aspirando a plenos pulmões o ar tepido, as duas mulheres caminhavam em

passo lento mas firme. A Pélagué parecia-lhe que andava em romaria.

Lembrava-lhe aquillo a sua meninice e a pura felicidade que a animava

quando, nos dias de festa, partia da aldeia em direcção a algum

mosteiro, onde houvesse uma imagem milagrosa.

De vez em quando, Sofia entoava com a sua voz novas canções em que se

falava de amôr e do Ceu; outras vezes, punha-se de subito a declamar

estrofes celebres que celebravam os campos e as florestas, o Volga; e a

outra escutava-a, prazenteira, meneando, sem dar por isso, a cabeça ao

rythmo do verso, cuja melodia a enfeitiçava.

N’aquelle coração, tudo era paz, carinho e doçura, como n’um velho

jardinsinho, n’uma tarde de estio.

V

Ao terceiro dia, ao chegarem a uma aldeia, perguntou a mais velha das

duas a um trabalhador do campo onde ficava a fabrica do alcatrão. E

logo tiveram de descer por estreito atalho ingreme e agreste, qual

escada, onde as velhas raízes formavam degraus. Avistaram d’ali uma

clareirasinha circular atapetada de aparas de lenha e de carvão e onde,

aqui e ali, havia poças de alcatrão.

--Eis-nos chegadas! disse a velha, olhando em volta com desconfiança.

Junto a uma choça feita com estacas e algumas ramadas, jantavam

quatro operarios, em torno d’uma mesa feita com trez táboas em bruto

estendidas sobre umas estacas cravadas no solo. Eram elles: Rybine,

muito sujo, com a camisa aberta no peito, Jéfim e mais dois rapazes.

Rybine foi o primeiro que avistou as duas mulheres; quedou-se á espera,

em silencio, formando pala com a mão, para abrigar os olhos.

--Viva, irmão Mikhaíl! gritou-lhe de longe Pélagué.

Levantou-se então e veio-lhes ao encontro, mas sem se apressar. Ao

reconhecer quem lhe falava, deteve-se a acamar a barba.

--Andamos em romaria! disse ella, approximando-se mais. E fiz um rodeio

para vir vêr-te. Esta minha amiga veio comigo; chama-se Anna...

Contente com o seu achado, olhou de soslaio para Sofia. Esta permaneceu

séria e impassivel.

--Vivam lá, respondeu Rybine com um sorriso contrafeito. Apertou-lhe a

mão, cumprimentou Sofia e accrescentou:

--É inutil mentir; não estamos na cidade; aqui não são precisas

mentiras. Aqui só ha gente séria, todos nos conhecemos uns aos outros.

Jéfim, á mesa, onde continuava sentado, examinava com attenção as

recemvindas; segredou o que quer que fôsse aos seus commensaes.

Ao approximarem-se as duas, levantou-se, cumprimentou sem dizer uma

palavra. Os outros dois deixaram-se ficar, como se não tivessem dado

pelas viandantes.

--Vive-se aqui como presidiarios! proseguiu Rybine, batendo

familiarmente no hombro da sua conhecida. Ninguem vem vêr-nos, o patrão

não está na aldeia, a mulher d’elle lá está no hospital e eu sou agora

aqui uma especie de gerente... Sentem-se. Tomam chá? Ó Jéfim, vae

buscar o leite!

Vagarosamente, Jéfim encaminhou-se para a choupana, emquanto as duas

se desembaraçavam dos alforges. Um dos camponezes, um grande latagão

magro, levantára-se para as ajudar. O outro, atarracado e coberto

de farrapos, acotovelado sobre a mesa, olhava pensativo para ellas,

coçando a cabeça e trauteando baixinho. Aromas suffocantes de alcatrão

fresco casavam-se com o cheiro das folhagens apodrecidas, provocando

tonturas.

--Este chama-se Jacob, disse Rybine, apresentando o mais alto dos dois

operarios; aquelle é o Ignaty... E então o teu filho?

--Está na cadeia! gemeu a mãe.

--Outra vez! exclamou Rybine. Ao que parece deu-se bem por lá...

Ignaty deixára de cantarolar. Jacob tomou o cajado das mãos de Pélagué.

--Senta-te, tiasinha!

--E a senhora sente-se tambem, disse Rybine, dirigindo-se a Sofia.

Sem uma palavra, esta tomou assento em cima d’um fardo e poz-se a

examinar Rybine.

--E quando foi elle preso? perguntou este; e acrescentou com um abanar

de cabeça: Não tens sorte nenhuma, Pélagué!

--Que importa!

--Então, já te vaes costumando?

--Não, mas cheguei ao convencimento de que as coisas não pódem ir

d’outra fórma!

--Ora ahi está! disse Rybine. Conta, então...

Jéfim trouxe uma infusa de leite; o outro tomou de sobre a mesa uma

tigella, laviscou-a com um pouco d’agua e depois de a encher de leite,

empurrou-a para o logar de Sofia. Ia e vinha sem ruido, com precaução.

Depois da mãe ter finalisado a sua curta narrativa, todos ficaram

calados. Ignaty, que continuava á mesa, fazia gravuras nas taboas com

as unhas. Jéfim encostava-se ao hombro de Rybine. Jacob, de braços

cruzados no peito, baixava a cabeça. Sofia continuava a analysar as

caras d’aquelles campónios.

--Pois está visto! declarou Rybine, arrastando muito as sylabas.

Decidiram-se a proceder ás claras...

--Elles que viessem para cá com uma fantochada d’essas, declarou Jéfim,

que os moujiks dariam cabo d’elles!...

--Disseste que o Pavel vae ser julgado? perguntou Rybine.

--Sim, é coisa decidida, respondeu a mãe.

--E que pena póde elle apanhar... não sabes?

--Ou as galés ou o degredo para a Siberia, por toda a vida! respondeu,

baixando a voz.

Os outros trez operarios fitaram-na simultaneamente.

Rybine proseguiu:

--E quando elle se metteu n’esse negocio, sabia o que o esperava?

--Não sei... provavelmente.

--Sim, sabia-o! affirmou Sofia com decisão.

Calaram-se todos e ficaram-se como estaticos, mergulhados em um mesmo

pensamento consolador.

--Ora ahi está! continuou Rybine em tom de severa gravidade. Tambem

eu creio que o soubesse. É um homem sério; não se mette levianamente

n’essas coisas. Vejam lá companheiros. Sabia que o podiam espetar n’uma

baioneta ou que lhe davam as honras d’um presidio, e atirou-se para a

frente ainda assim! Era preciso que se atirasse--atirou-se! E se lhe

tivessem posto a propria mãe no caminho, passava-lhe por cima... não é

isto Pélagué?

--Com certeza... murmurou a mãe com estremecimento.

E depois de ter circumvagado o olhar em torno, soltou do peito profundo

suspiro. Sofia afagou-lhe com meiguice uma das mãos e teve para Rybine

um olhar de descontentamento.

--Aquillo é que é um homem? declarou elle a meia voz, fixando os

sombrios olhos nos companheiros. E novamente todos se quedaram

silenciosos. Pendiam da atmosfera tenues resteas de sol, como fitas

d’oiro. Perto d’ali grasnava um corvo. Os olhares de Pélagué vagueavam,

impressionada com as recordações do primero de maio, com a lembrança de

Pavel e de André. Pelo solo, na clareira exigua onde estavam, jaziam

barricas escangalhadas que tinham servido a alcatrão, madeiros sem

casca e com a fibra a desfiar-se; fluctuavam ao vento as aparas, em

longas fitas. Os carvalhos e as bétulas perfilavam-se em fila compacta;

por todos os lados, ganhavam insensivelmente o espaço da clareira como

para apagar, aniquilar todos aquelles destroços, toda aquella immundice

que os ultrajava, e, alliados no seu silencio, immoveis, projectavam no

solo as suas sombras negras e tragicas.

De subito, Jacob afastou-se da arvore a que se encostava, deu um passo

e logo parou para interrogar com voz forte e desabrida, abanando a

cabeça:

--E é contra gente d’essa que nos vão mandar a combater, o Jéfim e eu?

--Pois contra quem pensavas? retorquiu Rybine em tom frio. Andam a

esganar-nos com as nossas proprias mãos... É o cumulo!

--Pois assim como assim, prefiro ser soldado! declarou Jéfim com voz

indecisa.

--E quem te péga? exclamou Ignaty. Pois vae! E, fitando Jéfim,

acrescentou a rir:

--Em todo o caso, quando me apontares a espingarda, aponta á cabeça,

não me deixes estropiado... mata-me de vez!...

--Já me disseste isso! gritou Jéfim com desabrimento.

--Escutem, companheiros! proseguiu Rybine; e ergueu o braço n’um gesto

lento. Olhem para esta mulher!--e apontava para Pélagué.--O filho está

perdido; provavelmente...

--Porque dizes isso? perguntou a mãe, angustiada.

--Porque assim é preciso! Pois haviam os teus cabellos de embranquecer

em vão e o teu coração de soffrer inutilmente?... Tu ainda não

morreste, não é verdade?... Trouxeste livros?

A mãe lançou-lhe furtivo olhar e confirmou apóz um silencio:

--Trago.

--Ora ainda bem! disse Rybine, dando uma palmada na mesa. Percebi-o

logo mal te vi. E para que terias tu vindo, a não ser para isso? Vejam

lá vocês, o filho desappareceu-nos das fileiras, e ahi temos a mãe no

logar d’elle!

Ergueu-se e poz-se a gritar com voz cava e gestos ameaçadores:

--Essa canalha não sabe o que anda a semear por ahi, ás cegas! Hão

de ver, quando nós estivermos mais fortes, quando entrarmos a ceifar

n’essas hervas malditas! Hão de ver!

A estas palavras, toda se assustou Pélagué; olhou para Rybine, achou-o

muito mudado, muito magro; já não tinha a barba cuidada como d’antes,

mas emaranhada; distinguiam-se-lhe perfeitamente as saliencias dos

malares. No branco azulado dos olhos corriam-lhe laivos sanguineos,

como de quem anda mal dormido. O nariz afilára-se-lhe, mais carlaginoso

e adunco, qual bico de ave de rapina. Pelo cós da camisa, desabotoado,

d’antes sempre sujo de tintas e alcatrão, viam-se-lhe as claviculas

mirradas e o denso velo do peito. Toda a pessoa d’este homem respirava

alguma coisa mais soturna e melancólica do que o fôra até então. O

brilho dos exaltados olhos illuminava-lhe o rosto sombreado por uma

expressão de soffrimento e de rancor, que relampejava em purpureos

clarões.

--No outro dia, continuou elle, o governador do districto manda-me

chamar e pergunta-me:

«--Que fôste tu dizer ao padre, grande garoto?--E porque é que eu

sou garoto? Ganho o meu sustento com o meu trabalho, não faço mal a

ninguem,» respondi-lhe eu. Pôz-se logo a berrar e deu-me um murro em

cheio na cara... e mandou-me para o calaboiço por trez dias. Ah! assim

é que vocês sabem falar ao povo? Está bem! Mas não esperem pelo perdão,

excommungados! Se não fôr eu, outro ha de lavar a injuria, em vocês

ou nos filhos de vocês... lembrem-se bem! Andaram a lavrar no peito do

povo com as garras de ferro da avidez e da cubiça e n’elle semearam a

maldade... Pois seremos sem piedade, malditos! Ahi tem!

Espumava de furor; na voz tinha impetuosidades que amedrontavam Pélagué.

--E afinal que tinha eu dito ao padre? proseguiu mais calmo. Á saída

d’uma reunião, estava elle na rua n’um grupo de camponeos e dizia-lhes

que os homens eram um rebanho e que precisavam sempre d’um pastor...

ahi está! E eu disse-lhe por brincadeira: «Se fizessem a raposa chefe

da floresta, pennas havia de haver muitas, mas passaros, nem um!» O

padre olhou-me de revez e entrou a dizer que o povo devia soffrer,

resignar-se e orar a Deus com mais frequencia, para que elle lhe desse

forças para tudo supportar. E eu respondi-lhe: «O povo reza muito;

provavelmente Deus é que não tem tempo para escutal-o. Se nem o ouve!»

Ora ahi está! Elle então perguntou-me quaes eram as minhas orações. E

eu respondi-lhe: «Não aprendi senão uma só na minha vida; é a do povo

inteiro:» Deus, ensina-me a trabalhar para os nossos senhores, a comer

pedras, a escarrar sangue! O padre não me deixou acabar... A senhora é

da nobreza, ao que vejo? perguntou bruscamente Rybine, interrompendo a

narrativa e voltando-se para Sophia.

--Porque julga isso? disse ella com um sobresalto de surpreza.

--Ora, porquê... disse Rybine. É sorte sua, nasceu assim, ahi está! A

senhora imagina que póde disfarçar o seu peccado de fidalguia só porque

tapou a cabeça com um lenço de chita? O padre conhece-se bem, mesmo

quando não traz corôa... Agora acaba a senhora de pôr o cotovello na

mesa, que estava molhada e a senhora fez uma carêta... E olhe que tem

as costas muito aprumadas para uma operaria...

Receando que elle offendesse Sofia com aquella maneira de falar,

aquelles ditos e aquella graça pesada, Pélagué interveio com viveza e

severamente:

--É minha amiga esta senhora. É uma excellente mulher... Foi a

trabalhar por nós e pela nossa causa que fez os cabellos brancos... Não

sejas tão desabrido com ella...

Rybine soltou um suspiro mal contido.

--Então eu disse-lhe alguma coisa injuriosa?

Sofia olhou para elle e perguntou seccamente:

--Tinha alguma coisa a communicar-me?

--Eu? Ah, sim! Ahi tem: nós temos cá um homem que chegou ha dias; é

primo do Jacob, está doente, está tisico, mas é esperto e percebe muita

coisa. Posso mandar chamal-o?

--Porque não? retorquiu Sofia.

Rybine fitou-a franzindo as palpebras e ordenou em voz baixa:

--Jéfim, vae a casa do homem... diz-lhe que venha cá á noite.

Jéfim dirigiu-se á choupana, poz o boné e sem uma palavra, sem mesmo

olhar para quem estava, sumiu-se pelo bosque, a passo socegado. Rybine

meneou a cabeça e, apontando para elle, disse surdamente:

--Soffre muito!... É teimoso... Dentro em pouco vae ser soldado... E o

Jacob tambem... O Jacob diz que não póde, que não vae para o regimento.

O Jéfim tambem não póde, mas diz que quer ir, custe o que custar...

Teve uma idéa... Lembrou-se que poderá levar aos soldados pruridos de

liberdade... Eu cá, a minha opinião é que não se póde arrombar uma

parede dando-lhe com a cabeça. E elles, mettem-lhes uma espingarda na

mão e abalam por ahi fóra. Para onde vão? Não percebem que marcham

contra si mesmos... Anda a soffrer, o Jéfim. E o Ignaty ainda mais lhe

revolve o punhal na ferida. Parece-me inutil...

--Qual historia! replicou Ignaty com indignação, sem fitar o seu

contendor. Lá no regimento se encarregam de o converter, e ha de acabar

por fazer fogo, como os outros!

--Não, não creio! replicou o outro, pensativo. Mas, seja como fôr, mais

vale evitar isso... A Russia é grande... Como podem elles descobrir um

homem? É preciso arranjar um passaporte e fugir de aldeia em aldeia.

--São essas as minhas tenções! declarou Ignaty, batendo na perna com

uma acha. Uma vez que está resolvido combater-se, é preciso marchar sem

hesitação.

A conversa cessou. Voltavam pelo ar, atarefadas, as abelhas e as

vespas, esmaltando o silencio com os seus zunidos. Os passarinhos

chilreavam; de longe, vinha uma canção n’uma toada que vagueava por

sobre os campos. Depois de curto silencio, proseguiu Rybine:

--É preciso trabalhar, companheiros... Ou talvez prefiram descançar...

Lá dentro da choupana ha camas a lastro. Ó Jacob, vae-lhes arranjar

folhas bem sêccas... E tu, dá cá os livros, tiasinha! Onde estão?

Sofia e Pélagué abriram os alforges. Rybine inclinou-se a espreitar e

disse, satisfeito:

--Ahi está... Mas que grande quantidade trouxeram! Ora venham vêr!

Ha muito tempo que trabalha n’este negocio, a senhora? acrescentou,

falando com Sofia.

--Ha doze annos.

--Então, como se chama?

--Chamo-me Anna Ivanovna. Porquê?

--Cá por coisas. E já esteve presa provavelmente?

--Já estive.

--Bem vês! disse Pélagué, baixo e em tom de censura. E tu que a

trataste mal...

Ficou calado um momento. Depois, tomando um pacote de livros, respondeu:

--Não se zangue! Campónio e fidalgo são como o alcatrão e a agua, não

ha maneira de os misturar, não se dão...

--Não sou fidalga; sou uma creatura que pensa, que soffre e geme!

contestou Sofia.

--É possivel! disse Rybine. Vou esconder tudo isto.

Ignaty e Jacob approximaram-se d’elle, de mãos estendidas.

--Dá-nos alguns! disse Ignaty.

--São todos iguaes? perguntou Rybine a Sofia.

--Nem todos. Vem tambem um jornal...

--Ah!

Os tres homens precipitaram-se para a cabana.

--É exaltado, este rapaz! observou Pélagué, baixando a voz e

seguindo-os com olhar pensativo.

--É verdade, disse Sofia no mesmo tom. Nunca vi uma cara como

aquella... Dir-se-ia um martyr heroico!... Vamos lá tambem; estou

curiosa por ver o effeito do jornal.

--Mas não se zangue com elle... supplicou brandamente a outra.

--Que bom coração é o seu, Pélagué!

Ao ver surgir as duas mulheres á porta da choupana, Ignaty levantou a

cabeça e lançou-lhes rapido olhar; depois, enterrando os dedos pelos

cabellos annelados, curvou-se de novo sobre o jornal, que desdobrára

nos joelhos. Rybine, de pé, apresentava o periodico á luz d’uma restea,

que penetrava na choupana por uma greta do tecto; ia deslocando pouco

a pouco o jornal sob o feixe de luz, á medida que ia lendo e lia por

bocca pequena. Jacob, ajoelhado, firmava o peito de encontro á borda

d’uma cama e lia tambem.

Pélagué viu que a Sofia não passava despercebido o enthusiasmo dos

trez por aquellas palavras de verdade. O rosto illuminou-se-lhe n’um

sorriso. Devagarinho, foi para um canto da choça e sentou-se. Sofia, em

silencio, passou-lhe o braço pelos hombros.

--Tio Mikhaíl! Olhe que nos insultam, n’este papel, a nós, camponezes!

proferiu Jacob a meia voz, sem se mexer. Rybine voltou-se para elle e

disse, risonho:

--É porque nos estimam. Aquelles que nos amam podem dizer-nos tudo o

que quizerem sem que nos irritemos.

Ignaty respirou ruidosamente, ergueu a cabeça e poz-se a rir; em

seguida, fechou os olhos, dizendo:

--Está aqui escripto: «O homem dos campos deixou de ser uma creatura

humana.» E é bem verdade; já o não é!

Perpassou pelo seu rosto ingenuo e franco uma expressão de aviltamento.

--Este sabio das duzias! continuou, referindo-se ao articulista. Eu

queria vêr-te na minha pelle! Fizesses-te tu fino! Então é que se havia

de vêr o que tu eras!

--Vou descansar um bocado, disse Pélagué a Sofia. Sinto-me um pouco

fatigada e este cheiro do alcatrão faz-me dôres de cabeça. Vem?

--Ainda não.

Pélagué estendeu-se na cama e d’ahi a pouco dormitava. Sofia, sentada á

cabeceira, continuava observando os leitores, ao passo que ia enxotando

com sollicitude os zangãos e as vespas que vinham adejar em volta do

rosto da companheira. Pélagué, com os olhos meio cerrados, percebia-o e

taes attenções impressionavam-na.

Rybine approximou-se, perguntou:

--Está a dormir?

--Está.

Elle calou-se um pedaço, attentou no sereno rosto da anciã e com um

suspiro proseguiu baixinho:

--É talvez esta a primeira que tenha seguido o filho pelo mesmo

caminho!... a primeira!

--Vamo-nos embora, não a incommodemos, propoz Sofia.

--Temos de ir trabalhar. Eu preferia ficar a conversar comsigo, mas é

forçoso deixar isso para a noite. Vamos, camaradas!

Saíram os trez homens, deixando Sofia na choupana. Pélagué pensava:

--Deus seja louvado! fizeram as pazes!... Entendem-se um com o outro!...

E adormeceu socegadamente, aspirando o ar perfumado da floresta.

A Mãe · 第 39 / 66 题