Á noitinha, voltaram os quatro operarios, satisfeitos por verem
terminado o seu dia. Ao ruido das vozes, Pélagué, accordou, veio á
porta da cabana, risonha, bocejando.
--Vocês a trabalharem e eu a dormir como uma fidalga! disse, fitando-os
affectuosamente a todos.
--Não faz mal, nós perdoamos-te, disse Rybine.
Mostrava-se mais socegado do que ao jantar; o cansaço dissipára o seu
excesso de agitação.
--Ignaty! ordenou. Arranja a ceia. Cada um trata da casa, por sua vez.
Hoje é ao Ignaty que compete dar-nos de comer e de beber... Ora ahi
está!
--De bom grado cedia hoje a minha vez a outro qualquer, declarou
Ignaty. E, emquanto procurava distinguir a conversa, começou a apanhar
aparas, afim de accender o lume.
--As visitas são sempre interessantes para toda a gente! confirmou
Jéfim, sentando-se ao lado de Sofia.
--Eu te ajudo, Ignaty! disse Jacob.
Penetrou na choça e de lá trouxe um pão redondo. Partiu-o em fatias.
--Schiu! murmurou Jéfim, oiço tossir...
Rybine apurou o ouvido e disse:
--É elle que chega.
E, voltado para Sofia, explicou:
--Vae ouvir uma testemunha. A minha vontade era poder leval-o a essas
cidades, pôl-o em exposição por essas praças, e o povo que fôsse
ouvil-o... Diz sempre o mesmo, mas é digno de ser ouvido!...
Silencio e escuridão tornavam-se mais profundos; as vozes ecoavam com
mais suavidade. Sofia e Pélagué seguiam com o olhar os camponezes a
moverem-se pesadamente, mas de vagar, com singular prudencia.
Do bosque surgiu um homem corcovado, de alta estatura, caminhando
apoiado com todo o seu peso a uma bengala. Ouvia-se-lhe o ruido da
respiração rouca.
--Ahi vem o Savely! exclamou Jacob.
--Aqui me têm! disse o homem, parando, saccudido por um accesso de
tosse.
Vestia um sobretudo usado que lhe cahia até aos pés; de sob o chapeu
redondo e muito velho, saíam-lhe em madeixas ténues uns cabellos
amarellentos e asperos. Cobria-lhe o rosto ossudo e pallido uma barba
loira; a bocca aberta, os olhos com um brilho de febre, nas orbitas
profundamente cavadas, como no fundo de sombrias cavernas.
Apresentado a Sofia, perguntou:
--Segundo parece, trouxe livros para o povo lêr?
--Sim, senhor.
--Agradeço-lh’o... pelo povo. O povo não pode ainda compreender o livro
da verdade... ainda não póde agradecer-lhe como merece; mas eu que o
compreendi já, agradeço-lhe em nome do povo.
Respirava com avidez, absorvendo o ar em pequenas golfadas repetidas.
Falava a espaços.
Os dedos descarnados das diafanas mãos, perpassava-os pelo peito,
tentando abotoar o sobretudo.
--Póde ser-lhe doentio, para si, este passeio tão tarde, pela
floresta... Ha muita humidade e suffoca-se, ali! fez notar Sofia.
--Para mim já nada ha salubre ou doentio! respondeu, offegante. Só a
morte será bemvinda.
Era doloroso ouvir falar aquelle homem, tanto mais que toda a sua
pessoa provocava dó, uma compaixão infinita mas improficua. Agachou-se
sobre uma barrica, dobrando os joelhos com precaução, como se receasse
que se quebrassem; depois, enxugou a fronte, coberta de suor. Tinha os
cabellos seccos e sem viço.
O lume começava a atear-se. Ao clarão das chammas tudo se deslocou; as
sombras, lambidas pelas labaredas, fugiam assustadas pela floresta. Por
cima do brazeiro appareceu por instantes a cara redonda d’Ignaty, a
soprar. Depois, apagado o lume, ficou persistente o cheiro do fumo, e o
silencio e as trevas apoderaram-se de novo da clareira, como se viessem
apurar o ouvido para o falar rouco do doente.
--Mas ainda posso ser util ao povo... Sim, como o testemunho d’um
enorme crime! Olhem para mim! Tenho vinte e oito annos e ando a
morrer... Ha dez annos, levantava nos hombros, sem me custar, até
duzentos kilos... Pensava eu então que com uma saude d’aquellas, havia
de levar setenta annos para chegar á cova, direito e sem tropeçar... E
afinal vivi dez... e não posso ir mais longe.
--Ahi têm a canção d’este homem! disse Rybine com voz rancorosa.
Reaccendeu-se mais viva a fogueira; de novo as sombras debandaram,
para se sumirem nas chammas, agitando-se em torno do brazeiro n’uma
dansa silenciosa e hostil. Sob a mordedura do lume, os velhos troncos
estralejavam e gemiam. A folhagem susurrava em segredo, agitada por uma
corrente d’ar quente. Vivas e folgazãs, as linguas de fogo purpureas e
doiradas brincavam, abraçavam-se, erguiam-se, despedindo faíscas. Voou
uma folha em braza. No ceu, as estrellas sorriam para as scentelhas,
attraíndo-as a si.
--Não é só minha esta canção; ha milhares de creaturas que tambem a
cantam, mas só para si! E cantam-na só para si porque não compreendem
que as suas miseraveis existencias são uma lição salutar para o povo...
Quantos seres minados ou estropiados pelo trabalho e pela cadeia, não
morrem para ahi de fome, sem um queixume!... É preciso gritar bem alto,
companheiros, é preciso gritar!
E Savely entrou a tossir, todo curvado e tremulo.
Jacob poz na mesa uma caneca de _koass_[2] e atirou para o lado um
molho de cebolas, e disse ao enfermo:
--Anda, Savely, trouxe leite para ti.
O outro abanou negativamente a cabeça; mas Jacob agarrou-o por debaixo
dos braços e fêl-o sentar á mesa.
--Oiçam, disse Sofia a Rybine, em voz baixa e em tom de censura, para
que o obrigaram a vir? Póde morrer d’um momento para o outro.
--É certo, replicou Rybine. Mas mais vale morrer rodeado de amigos;
ser-lhe-á menos doloroso do que na solidão. Tem soffrido muito na sua
vida; pois que soffra ainda mais um pouco para servir de aviso aos
homens... Que lhe póde fazer isso? Ali está!
--Chega a parecer que se desinteressa d’elle com horror pelos seus
soffrimentos, exclamou Sofia.
Rybine lançou-lhe rapido olhar e respondeu com modos sombrios:
--Só os fidalgos é que se recreiam com o espectaculo do Christo a gemer
na sua cruz; mas nós outros, nós queremos estudar os homens ao vivo e
gostavamos que a senhora tambem apprendesse a conhecel-os...
O enfermo retomou a palavra:
--Destroe-se um homem com o trabalho, dá-se cabo d’elle com a prisão...
e porquê? O nosso patrão--era na fabrica Nefédof que eu trabalhava á
doida--o nosso patrão deu a uma cançonetista uma grande bacia de mãos e
mais uma bacia de cama tudo de oiro... E foi em tal vaso que ficaram as
nossas forças, as nossas vidas... as minhas e as de milhares d’outros.
Ahi têem para que ellas serviram!
--O homem foi creado á imagem e semelhança de Deus! disse Jéfim,
sorrindo--e ahi está o emprego que lhe dão... não vae mal!
--É necessario gritar isso! exclamou Rybine com violenta palmada na
mesa.
--Não devemos supportal-o! accrescentou Jacob mais baixo.
Ignaty limitou-se a sorrir.
Notava a velha que os trez operarios falavam pouco, mas escutavam com
uma attenção insaciavel d’almas sequiosas. De cada vez que Rybine abria
a bocca, fitavam-no, copiavam-lhe os menores movimentos. As frases
de Savely, porém, provocavam-lhes singulares tregeitos de enfado.
Dir-se-ia não sentirem dó algum do enfermo.
E Pélagué inclinando-se ao ouvido de Sofia, perguntou baixinho:
--É certo o que elle conta?
Sofia respondeu em voz muito alta:
--É certo, sim senhora! Os jornaes falaram do caso; foi em Moscou que
isso se deu.
--E esse homem não foi castigado! disse Rybine com ódio. Devia ter sido
punido; precisava que o levassem a uma praça publica e ali cortal-o aos
bocados, atirando aos caes essa carne immunda! Grandes castigos se hão
de vêr, quando o povo se levantar!
--Que frio que faz! disse o tisico.
Ajudou-o Jacob a levantar e a chegar-se para o lume.
A fogueira ardia em clarão uniforme e vivo. Sombras imprecisas
erravam em torno, contemplando surprezas o brinquedo das labaredas.
Savely, sentou-se n’um cepo e offereceu ao calor as mãos seccas e
transparentes. Rybine designou-o com um gesto do mento, e disse para
Sofia:
--Sabe mais do que um livro! Eu é que o conheço... Quando uma máquina
arranca um braço ou mata um homem, compreende-se; é sempre do homem a
culpa. Mas sugar o sangue d’um homem e atira-lo depois á margem como
uma coisa pôdre, isso é que não se explica.
--Sim... pronunciou com lentidão Ignaty, não se explica... Um chefe de
districto conheci eu, que obrigava a gente do campo a cumprimentar-lhe
o cavallo, quando o levavam a passeio pela aldeia, e que punha a ferros
quem desobedecesse. Para que lhe servia aquillo?... É o que tambem não
se explica!
Depois de comerem, fizeram roda junto á fogueira. Diante d’elles
o lume ardia, devorando rapidamente a lenha; por detraz, ceu e
floresta envolviam-se na treva. O estropiado fixava no lume os olhos
esgazeados, tossia sem descanso, com grandes arrepios. Parecia que do
peito lhe saíam pedaços da propria vida, solertes em abandonar aquelle
corpo esqualido. Dansavam-lhe no rosto reflexos do fogo sem que lhe
colorissem a pelle fenecida. Só os olhos scintillavam n’uma coruscação
azulada, bruxuleante.
--Talvez preferisses abrigar-te na cabana, an, Savely? lembrou Jacob,
inclinando-se-lhe no hombro.
--Para quê? respondeu esforçadamente. Quero ficar aqui. Já não tenho
muito tempo a viver entre os homens... Não, não tenho para muito tempo.
Vagueiou o olhar em volta, ficou um bocado calado e proseguiu, com um
sorriso palido:
--Sinto-me bem entre vocês. Estou-os vendo e estou a pensar que talvez
sejam vocês que hão de vingar todos os que foram maltratados... o povo
inteiro!
Ninguem lhe respondeu. E d’ahi a pouco, a cabeça pendia-lhe para o
peito e entrou a dormitar. Rybine considerou-o demoradamente e disse
meio em segredo:
--É sempre assim quando vem visitar-nos; senta-se para ahi e conta
sempre a mesma coisa.
--Aborrece ouvil-o repetir-se! murmurou Ignaty. Bastava ouvir uma vez
essa historia para não a esquecer e elle sempre a moêl-a!
--É que para elle, n’essa historia, tudo se resume, a sua vida inteira,
compreende-o bem! justificou Rybine, soturno. E da mesma sorte a vida
de toda uma legião de seres. Ouvi-lhe essa historia dezenas de vezes
já, e, ainda assim, acontece-me ter certas dúvidas. Ha horas de bondade
em que a gente se recusa a crêr na vilania do homem, ou na sua loucura,
e em que se sente compaixão por todos, ricos e pobres... porque o rico
tambem é um transviado do bom caminho. A um cega-o a fome, ao outro, o
dinheiro... E então, a gente pensa:
«Homens, meus irmãos! Desentorpeçam esses raciocinios, reflictam com
lealdade, reflictam bem».
O doente oscilou estremunhado, abriu os olhos e deitou-se sobre a
terra. Sem ruido, Jacob levantou-se, foi á cabana buscar um pequeno
agasalho de pelles, e estendeu-lho por cima. Depois, retomou o seu
logar ao lado de Sofia.
Ás vozes dos homens misturavam-se o surdo crepitar da lenha e o
murmurio das labaredas; e aquelle lume, qual rosto rubicundo, parecia
sorrir-se com malicia para os sombrios vultos que lhe faziam circulo.
Falou então Sofia da lucta dos povos em prol do direito á vida e
á liberdade, dos remotos combates dos rusticos da Allemanha, dos
infortunios dos irlandezes, dos feitos do operariado francez.
Sob a floresta, revestida de veludos, na pequena rotunda limitada
pelos majestaticos arvoredos, sob a abobada do negro firmamento,
perante a risonha lareira, em meio d’aquelle grupo de sombras hostis e
assombradas, ressuscitavam os acontecimentos que haviam revolucionado o
mundo dos saciados, dos entes tresloucados pela cubiça; desfilavam uns
após outros, os povos da terra, sangrentos, esgottados em mil combates;
celebravam-se os nomes dos heroes da liberdade e da justiça...
Aquella debil voz de mulher ecoava mansamente, como se viesse do
passado; instigava esperanças, inspirava confianças. O auditorio
escutava religiosamente aquella melopeia, a vasta historia dos seus
irmãos espirituaes. Todos fitavam o rosto pálido e magro da narradora,
correspondiam com sorrisos ao sorrir dos olhos cinzentos. E com mais
viva luz brilhava para elles a sagrada causa da humanidade; nos seus
peitos medrava mais e mais o sentimento do parentesco moral com os seus
irmãos do mundo inteiro; um novo coração nascia para elles na propria
terra e ardiam no desejo de tudo compreenderem, de tudo resumirem
n’elle.
--Ha de chegar o dia em que os povos todos levantarão cabeça, bradando:
«Basta! não queremos continuar n’esta vida!» proclamou Sofia com voz
sonora, e então ha de desabar o ficticio poder d’aquelles que só na
avidez encontram a sua força, a terra fugir-lhes-á debaixo dos pés e
ficarão sem saber em que apoiar-se.
--É o que ha de acontecer! affirmou Rybine, de cabeça baixa. Que
ninguem poupe as suas forças e tudo vae de vencida!
Pélagué escutava, arregalando muito as sobrancelhas e com um sorriso
de surpreza nervosa. Estava a ver que tudo o que nas maneiras de
Sofia lhe parecia insolito, a sua audacia, a sua extrema vivacidade,
tudo desapparecera, como submerso no fluxo regular e entusiástico
das suas palavras. A noite silenciosa, o revolutear do lume, a
fisionomia da joven oradora, interessavam-na; mas o que a deleitava
principalmente era a absorta attenção dos campónios. Permaneciam
immoveis, esforçando-se por não perturbarem fôsse com o que fôsse o
desenvolvimento sereno do discurso; dir-se-ia n’elles um receio de
quebrarem o fio luminoso que os ligava ao mundo. De tempos a tempos, um
d’elles collocava com precaução uma nova acha no lume; e dispersava com
a mão as faúlhas e o fumo, para que não incommodassem Sofia.
Ao romper da aurora, Sofia calou-se, fatigada, e attentou, sorrindo,
nos rostos pensativos e tranquilisados que a cercavam.
--É tempo de partirmos, disse a velha.
--Vamos! respondeu Sofia com expressão de cansaço.
Um dos operarios suspirou ruidosamente.
--É pena que se vão! declarou Rybine com desacostumada meiguice. A
senhora fala tão bem! Grande coisa é ligar as creaturas pela sorte
commum! Quando a gente pensa que ha milhões de sêres a quererem o mesmo
que nós queremos, o coração torna-se bom... E ha tanta força na bondade!
--E quando se procede com bondade, pagam-nos com a violencia! protestou
Jéfim n’uma risadinha e pondo-se de pé com presteza. É bom que ellas se
vão, tio Mikhaíl, antes que sejam vistas... Quando os livros estiverem
distribuidos pelo povo, as autoridades hão de indagar d’onde vieram...
E póde alguem lembrar-se das peregrinas e denunciál-as...
--Obrigado pelo incommodo, mãe! disse Rybine interrompendo Jéfim.
Sempre que olho para ti me lembro do Pavel... Fizeste bem em seguir-lhe
o exemplo...
Inteiramente apaziguado agora, esboçava franco e amigavel sorriso.
Fazia fresco; no emtanto, conservava-se de blusa, o cós entreaberto,
o peito á mostra. Pélagué attentou-lhe no robusto corpo e aconselhou,
sollicita:
--Devias agasalhar-te, faz frio.
--Se eu estou tão quente cá por dentro! objectou.
De pé, junto do fogo, os trez rapazes conversavam baixo; aos pés
d’elles, dormia o doente, embrulhado nas pelles. Branqueava-se o ceu,
fundiam-se as sombras. Tremula, a folhagem aguardava o sol.
--Está bem, adeus! disse Rybine, apertando a mão de Sofia. Como hei de
perguntar por si, na cidade?
--Basta que me procures, responde Pélagué.
Lentamente, em um só grupo, vieram os operarios apertar a mão de Sofia
com expressões desastradas, de affecto. Em cada um d’elles transparecia
secreta gratidão e amisade, e tal sentimento, novo como era para
elles, desconcertava-os. Com os olhos prazenteiros e amortecidos pela
insomnia, consideravam Sofia, firmando-se ora n’um pé, ora no outro.
--Querem beber uma gota de leite antes de partirem? offereceu Jacob.
--Ainda ficou algum? interrogou Jéfim.
--Um pouco.
Mas Ignaty, confuso, declarou, coçando a cabeça:
--Não ha; eu entornei-o.
E todos os trez se puzeram a rir.
Falavam no leite, mas Pélagué percebia que pensavam em coisa bem
diversa; que ambicionavam para Sofia e para si propria todas as
felicidades possiveis, mas sem poderem expressar-se. Sofia estava
visivelmente commovida, e a sua perturbação era tal, que apenas
conseguiu dizer em tom de voz humilde:
--Obrigada, companheiros!
Entreolharam-se, como se este tratamento os tivesse feito cambalear de
prazer.
Ouviu-se um accesso de voz rouca do enfermo. No lume extinguiam-se os
brazidos.
Até mais vêr! disseram os campónios a meia voz; e os adeuses
melancolicos de todos acompanharam por muito tempo as duas mulheres.
Vagarosamente estas embrenharam-se por um atalho da floresta, á
claridade da aurora.
Entraram a falar de Rybine, do doente, dos operarios, que sabiam
conservar tão attencioso silencio e que haviam exprimido sentimentos
de reconhecida amisade por fórma desgeitosa mas eloquente, dispensando
ás duas mulheres mil cuidados. Entraram no campo. O sol vinha-lhes ao
encontro. Invisivel ainda, o astro abrira no céu um leque diáfano de
purpureos raios; pela herva scintillavam gotas de rócio em multicolores
lumes de alegria viva e primaveril. Despertavam os passaros e animavam
a aurora com gritos joviaes.
Com o seu grasnar pressuroso, corpulentos corvos voavam para longe,
agitando pesadamente as azas; pelos campos semeados já desde o
outono, outros corvos de lustrosa plumagem, saltitavam, tagarelando
em vozes ritmadas; perto, andava um verdelhão a assobiar, inquieto.
Desanuviavam-se os longes e acolhiam o sol, apagando as sombras
nouturnas das cumieiras.