III

Pelas quatro da tarde, Nicolao estava de volta. Ao jantar, Sofia

contou, rindo, o seu encontro com o forçado evadido; falou do terror

d’esse homem, sempre a vêr espiões em todos os cantos, e dos modos

exquisitos do evadido... No tom de voz em que falava alguma coisa fazia

lembrar á velha Pélagué a fanfarronada d’um operario que terminou uma

tarefa difficil e que d’ella se gaba.

Vestia agora Sofia um roupão cinzento, leve e adejante que lhe cahia

dos hombros até aos pés em pregas harmoniosas, vaporoso e simples.

Este novo trajo fazia-a parecer mais alta, ao passo que o olhar se lhe

annuviára e os movimentos se lhe tornavam mais serenos.

--É preciso que trates d’outro negocio, Sofia! disse Nicolao, terminado

o jantar. Como sabes, ha idéa de editar um jornal para a gente dos

campos... mas, graças ás ultimas prisões effectuadas, os laços que nos

uniam a esses camponezes, quebraram-se. Só Pélagué sabe como poderemos

rehaver o homem que se encarrega da distribuição do jornal... Parte com

ella... o mais cêdo que possas...

--Está bem, disse Sofia, recomeçando a fumar. Está combinado, mãesinha?

--Porque não? Pois, vamos!

--E é longe?

--Oitenta kilometros, pouco mais ou menos.

--Optimamente!... Agora vou tocar um bocado de piano... Está disposta

para um pouco de musica?

--Nada me pergunte, faça de conta que não estou aqui, respondeu ella.

E foi sentar-se para um canto do canapé coberto de uma capa de linho.

Notava ella que os dois irmãos, sem parecerem ligar-lhe importancia, a

intromettiam todavia, e a meude, na conversação.

--Ouve isto, Nicolao; é de Grieg. Trouxe hoje a musica. Fecha a janella!

Abriu a partitura e acariciou as teclas de mansinho, com a mão

esquerda. As cordas entraram a vibrar em accordes indolentes e pesados.

Houve primeiro um profundo suspiro, depois outra nota veio juntar-se

ás primeiras, n’uma forte e tremente amplidão de som. A mão direita

entrou então em resonancias claras, em gritos parecidos com os de uma

ave assustada; balanceou-se depois, em cadencia, imitando o palpitar

das azas no fundo sombrio das notas graves, que cantavam, harmoniosas e

compassadas, quaes vagas batidas pela tempestade. Em resposta á canção,

vinham logo caudaes de accordes soturnos, chorando com dôr, suffocando

queixumes, implorações, gemidos, tudo fundido n’um rythmo de angustia.

Por vezes, como n’um impulso de desespero, a melodia soluçava,

desfallecida; mas logo recaía, rastejando, hesitante, sob a torrente

espessa e cascadeante das notas cavas, e afogava-se, sumia-se, para de

novo reaparecer por entre o ribombar igual e monotono; tomava alento,

então vibrava e dissolvia-se por fim n’um poderoso martelar de notas

humidas que toda a salpicavam, e ficava a suspirar sem cansaço, com a

mesma força e a mesma resignação...

Ao principio, a música não impressionou Pélagué; não a compreendia;

era para ella como um cáos de sonoridades. O ouvido não lhe permittia

distinguir a melodia na palpitação complexa d’aquella alluvião de

notas. Meio somnolenta, fitava Nicolao, sentado no outro extremo do

canapé, com as pernas dobradas por debaixo do corpo; considerava tambem

o severo perfil de Sophia, de cabeça inclinada, sob o velo espesso dos

seus cabellos d’oiro. Ia pôr-se o sol. Um raio tremulo nimbou primeiro

a cabeça, o hombro da pianista; depois, deslisando para o teclado,

brincou-lhe entre os dedos. Toda a sala estava cheia d’aquella melodia,

e o coração da mãe despertava emfim, sem que ella mesma o percebesse.

Succediam-se, entretanto, trez notas vibrantes como a voz de Fédia

Mazine, regularmente e sustentando-se mutuamente á mesma altura, taes

trez peixes de prata fluctuando n’um regato, scintillando por entre a

torrente dos sons...

De vez em quando, outra nota mais vinha juntar-se ás primeiras, e,

todas ao mesmo tempo, entravam a cantar uma canção ingenua, triste

e acalentadora. E Pélagué começava a poder seguil-as, esperando que

voltassem, não escutando outra coisa, abstraíndo-as do cáos inquietador

da harmonia geral, que pouco a pouco ia deixando de ouvir...

E subitamente, das negruras remotas do seu passado, veio-lhe a

recordação d’uma humilhação esquecida havia muito, mas que ressuscitava

agora com nitidez cruel.

De uma vez, o marido voltára-lhe para casa tardíssimo e completamente

embriagado. Puxára-a pelo braço, atirára-a da cama e enchera-a de

pontapés, regougando:

--Vae-te d’aqui, canalha, que não te posso aturar!... Vae-te!

Para se esquivar aos maus tratos, tomára precipitadamente nos braços

o filho, que então tinha dois annos, e, firmando-se nos joelhos,

protegia-se com o corpinho do innocente, como se fôsse um escudo. O

pequeno chorava, barafustava, com medo, nu, e quentinho do berço.

--Vae-te d’aqui! rugia Mikhaíl.

Ella saltára da cama, descalça, correra á cosinha; então, atirando uma

camisola para os hombros e embrulhando a criança n’um chale, sem uma

palavra, sem um queixume nem uma exortação, com os pés no lagedo, saíra

para a rua. Era em maio, a noite ia fresca; a frigida terra da calçada

collava-se-lhe aos pés, penetrando-a toda, regelando-a.

A criança chorava sempre e debatia-se. Desnudára o seio, conchegou a

si o pequeno; e, instigada pelo medo, lá se foi pelas ruas escuras,

cantando baixinho para adormecer o filho. Ia despontar o dia; Pélagué

toda se envergonhava com a ideia de ser encontrada n’aquelle estado.

Desceu até á margem do pantano, sentou-se no chão debaixo de compacto

bosque de álamos... E para ali esteve muito tempo, disfarçada

na treva, com os olhos esgazeados fitos na escuridão, a cantar

timidamente para embalar o filho e o coração ultrajado. Subito, uma

ave negra, silenciosa, esvoaçára-lhe por sobre a cabeça e sulcára o

ceu, accordando-a. E a tremer de frio, erguera-se e lá voltára para

casa, a arrostar com o seu habitual terror das sevicias e das injurias

incessantes...

Pela ultima vez, ecoou um accorde sonoro, mas de indifferença e frieza,

que n’um suspiro se immobilisou no ambiente.

Voltou-se Sophia e a meia voz perguntou ao irmão:

--Gostas?

--Muito! respondeu, estremecendo como se saísse d’um sonho; muito!...

Os dedos de Sophia desfiaram então um harpejo suave e harmonioso.

No intimo do seu peito, Pélagué escutava ainda o echo debil e tremente

das suas recordações. O seu desejo era que a musica proseguisse. E um

pensamento germinava n’ella:

--Ora aqui está uma gente que vive socegada... o irmão, a irmã... muito

amigos... Entretêem-se com a musica... Não dizem palavradas, não bebem

aguardente, não questionam por qualquer futilidade... nem pensam sequer

em offender-se um ao outro, como se faz entre toda a gente de baixa

extracção...

Sophia, entretanto, fumava um cigarro. Fumava muito, quasi sem descanso.

--Era este o trecho favorito do pobre Kostia! disse, aspirando com

força uma fumaça, e assentou de novo a mão, n’um debil accorde triste.

Como eu gostava de lh’o tocar! Era tão intelligente! Nada havia que não

compreendesse... O espirito d’elle era accessivel a tudo.

--É do marido que fala, pensou a hospede. E sorriu.

--Quanta felicidade elle me trouxe! continuou Sophia em voz baixa, ao

passo que acompanhava os seus pensamentos com leves accordes repetidos.

Como elle sabia viver bem!... Sempre alegre, de uma alegria infantil,

cheia de vida, que todo o illuminava...

--Infantil! repetiu a mãe comsigo mesma.

--É verdade, disse Nicolao, revolvendo a barbicha, uma alma de

illuminado!

Sophia atirou fóra o cigarro ainda acceso, voltou-se para Pélagué,

perguntou:

--Esta bulha não a incommoda?

--Já lhe disse que não se importe comigo, respondeu ella com um ligeiro

despeito que não poude disfarçar. Eu nada percebo d’isso... Estou aqui

quieta, a escutar e a pensar...

--Não, senhora, é preciso que compreenda! replicou Sophia. Uma mulher,

principalmente quando está triste, não póde deixar de compreender a

musica...

E pulsou as teclas com força. Resoou um grito violento, como se a

alguem acabassem de dar uma d’estas noticias terriveis, das que ferem

em pleno coração e arrancam um dolorido queixume. Entraram então a

vibrar umas vozes frescas que, logo, horrorisadas e desconcertadas

fugiram velozmente, não se sabia para onde; de novo, ecoou uma outra

voz sonora e irritada, abafando todo o conjunto... Era com certeza

uma desgraça, mas desgraça que incitava coleras, não gemidos. Depois

outra voz energica mas reconfortante entrou a entoar uma canção bonita

e simples cheia de persuasão, de incitamento. Surdamente, em tom de

melindre, as vozes dos graves murmuravam...

Sofia tocou por muito tempo ainda. Pélagué sentia-se perturbada. Todo

o seu desejo era perguntar o que significava tal musica, que assim

fazia germinar n’ella imagens indistinctas, sentimentos, pensamentos

mutaveis sem cessar. O pezar e a angustia cediam o logar perante

as scintillações d’uma serena alegria; dir-se-ia que um bando de

invisiveis passarinhos redemoinhasse pela sala, acariciando as almas

com o perpassar das delicadas azas, contando gravemente alguma coisa

que provocasse instinctivamente o curso do pensamento com palavras

incompreensiveis, acalentando os corações com esperanças vagas,

enchendo-os de força e de vigor.

E Pélagué sentia o ardente desejo de dizer o que quer que fôsse meigo

aos seus companheiros. Sorria ternamente, enebriada por aquella música.

Procurou com a vista o que poderia fazer; ergueu-se, e nos bicos dos

pés, foi para a cosinha dispôr o samovar.

Mas o desejo de se tornar util não se lhe extinguiu, continuava a

pulsar-lhe no coração com obstinada regularidade; serviu depois o chá

com um sorriso de embaraço e de commoção, com a alma banhada em tepidos

effluvios de sollitude que ella partilhava por igual entre si e os seus

companheiros.

--Nós cá, gente do povo, explicou, sentimos tudo, mas é nos

difficil exprimil-o, não podemos formar senão ideias incertas; e

envergonhamo-nos de não podermos dizer o que se sente. E quantas vezes,

para falar com consciencia, a gente não se zanga com as proprias

ideias e com aquelles que nol-as suggerem! Entramos a irritar-nos e

afugentamol-as! Em que agitações se passa esta vida! É ella que por

todos os lados nos assalta e nos magoa. Era tão bom descansar!... mas

os pensamentos não deixam á alma um só momento de repouso e ordenam-lhe

que veja, que oiça.

Nicolao escutava-a, com approvações de cabeça; limpava os óculos

com movimentos saccudidos; Sofia encarava fixamente aquella mulher,

esquecida do cigarro, que se apagára. Continuava sentada ao piano, e

de vez em quando afagava o teclado. Accordes muito brandos acompanhavam

assim as considerações da anciã, a qual se deu pressa em revestir os

seus pensamentos intimos com palavras da mais simples sinceridade.

--Agora, posso falar um pouco de mim propria e dos meus... porque

já compreendo a vida, e comecei a conhecel-a quando pude comparar.

D’antes, não tinha pontos de comparação. Na nossa classe, todos levam

vida igual. Hoje, que vejo como vivem os outros, lembro-me de como

eu vivi e custa-me muito o recordal-o... Emfim, é impossivel voltar

atraz; e mesmo quando o pudessemos fazer, não encontrariamos uma nova

mocidade...

Baixou a voz; proseguiu:

--Talvez eu esteja dizendo coisas insensatas ou nescias, pois que o

senhor e sua irmã devem conhecer tudo isto... mas vejam que é de mim

que estou falando e que falo a quem teve a bondade de me chamar para o

seu lado.

Tremiam-lhe na voz lagrimas de grata felicidade; fitou-os a ambos com

um olhar muito risonho e continuou:

--Queria abrir-lhes a minh’alma para que vissem todo o bem que lhes

quero.

--Mas nós bem vêmos! disse Nicolao com bondade. E sentimo-nos felizes

por têl-a na nossa companhia.

--Sabem o que isto me parece? interrogou ella, sempre com voz sumida,

risonha, parece que foi um tesoiro que eu achei, que estou rica, que

posso presentear toda a gente... Isto é talvez um effeito da minha

tolice...

--Não diga tal! interrompeu com gravidade Sofia.

Não era para acalmar de pronto aquella sêde de expansão; continuou

portanto Pélagué a falar-lhes de tudo o que para ella era novo e lhe

parecia de inapreciavel importancia. Contou-lhes a sua miserrima vida

cheia de humilhações e resignado soffrer; por vezes, interrompia-se;

julgava ter-se afastado de si mesma e estar falando de si como o faria

de qualquer outra...

Sem rancor, em termos correntios e nos lábios sorriso de piedade,

desenrolou em presença de Nicolao e da irmã a monotona e lugubre

história dos seus tristes dias, enumerado os maus tratos infligidos

pelo marido, intimamente admirada, ella própria, da futilidade

dos pretextos que os provocavam, admirada por não ter sabido

esquivar-se-lhes...

Attentos e silenciosos, Nicolao e Sofia escutavam-na; sentiam-se

esmagados pela significação profunda d’aquella historia, d’aquelle

ente humano tratado como um animal e que passára tanto tempo sem

sentir a injustiça da sua condição, sem um murmurio. Eram milhares de

vidas a falar pela bocca d’aquella mulher. Tudo n’esta existencia era

banal e indifferente, mas havia pelo mundo innumeravel quantidade de

creaturas avergadas áquelle modo de vida... E, avantajando-se mais e

mais nos seus raciocínios, aquella história assumia as proporções d’um

símbolo... Nicolao, com os cotovellos sobre a mesa, a cabeça entre as

mãos, quedava-se immovel, considerando a sua hospede por detraz do

vidro dos óculos, com os olhos piscando de attenção. Sofia, reclinada

no espaldar da cadeira, sentia-se estremecer, murmurava de quando em

quando o que quer que fôsse, abanando a cabeça negativamente. Deixára

de fumar; o seu rosto parecia agora mais magro ainda, e mais pálido.

--Um dia, começou ella, em voz baixa, senti-me muito infeliz;

parecia-me que toda a minha vida nada mais era do que um delírio de

febre. Estava eu então no desterro, n’uma miseravel povoação da

provincia, onde nada tinha a fazer, ninguem em quem pensar, a não ser

em mim propria... Para occupar este ocio, puz-me a fazer a conta das

minhas infelicidades, recordando-as todas: ficára de mal com meu pae,

a quem estimava, fôra expulsa do collegio por lêr livros proíbidos; em

seguida, fôra a prisão, a traição d’um companheiro a quem muito queria,

a captura de meu marido, outra vez a prisão e o degredo, a morte

d’elle... E então parecia-me que a mais desgraçada creatura de toda a

terra era eu... Mas todos os meus males justapostos e decuplicados, não

chegam a valer um mez da sua vida, pobre mulher... não! Essa tortura de

todos os dias durante annos e annos... Onde vão os pobres buscar essa

força contra o soffrimento?

--Acabam por se habituar! respondeu ella, suspirando.

--E julgava eu conhecer o mundo! disse Nicolao, pensativo. E afinal,

quando não se trata só de impressões fragmentadas, quando não é já um

livro que nos fala, mas uma creatura em pessôa, como é horrivel! E

os pormenores são tambem horrorosos, os proprios nadas, cada um dos

segundos que formam um anno inteiro!...

E a conversa proseguia em voz baixinha. Mergulhada nas suas

recordações, Pélagué extraía do crepúsculo sombrio do seu passado

todas as injúrias mesquinhas e habituaes; ia compondo negro quadro de

mudo horror immenso, em que sossobrava a sua juventude de mulher. De

repente, exclamou:

--Ai, e eu aqui a palrar!... São horas de nos irmos deitar! É

impossivel contar tudo!

Nicolao inclinou-se diante d’ella mais do que costumava e apertou-lhe

com mais força a mão. Sofia acompanhou-a á porta do quarto, e ali,

parando, murmurou:

--Durma bem!... Boa noite!

Era caloroso o seu falar; envolvia n’um meigo olhar de caricia o rosto

de Pélagué... Esta agarrou-lhe em uma das mãos e, apertando-a nas suas,

respondeu:

--Quanto lhes agradeço!

A Mãe · 第 38 / 66 题