De manhã muito cedo, apenas André e Pavel tinham sido, Maria Korsounova
bateu á janella com estrondo.
--O Isaías foi assassinado! Vamos ver!
Pélagué estremeceu: o nome de assassino atravessou-lhe o peito como uma
flécha.
--Quem o matou?
--O assassino fugiu!
Tendo posto um chale, á pressa, Pélagué foi ter com ella á rua.
--Naturalmente começam outra vez a fazer buscas. Ainda bem que a tua
gente não saíu de casa áquella hora. Posso tesmunhar. Á meia noite
passei eu por aqui, olhei pela janella e vi-os a todos trez sentados á
meza.
--Mas, Maria, porque haveriam de accusal-os? perguntou aterrorisada.
--O assassino é forçosamente dos vossos! Todos sabem que o Isaías os
espionava...
Pélagué parou, offegante, com a mão no peito.
--Que é isso? Não tenhas medo. O Isaías não merecia outra coisa. Vamos
depressa, que não chegamos a tempo.
A pobre velha caminhava sem mesmo perguntar a si propria para que ia
ver o cadaver; tremia pensando em Vessoftchikof: «Conseguiu o seu fim!»
Não distante da fabrica, sobre o entulho d’uma casa recentemente
destruida por um incendio, grande ajuntamento de povo murmurava como
uma nuvem de bezouros, e movia-se levantando em poeira a cinza com
os seus passos. Já lá estavam muitas mulheres, ainda mais creanças,
lojistas, os moços da taverna proxima, agentes de policia, o guarda
Pétline, um guarda velho, de barbas brancas como prata, e com o peito
coberto de medalhas.
Isaías estava meio deitado no chão; tinha as costas apoiadas a uma
trave enegrecida pelo fogo, a cabeça descaída para o ombro direito.
Conservava a mão direita na algibeira das calças; os dedos da esquerda
desappareciam contraídos sob a terra fôfa.
Pélagué olhou para o rosto do morto. Um dos olhos tinha-o elle fixado
no boné posto entre as pernas estendidas, a boca entreaberta n’uma como
expressão d’assombro; a barbicha ruiva pendia. O corpo magro, com a
cabeça ponteaguda, e o rosto ossudo coberto de manchas avermelhadas,
parecia diminuido, comprimido pela morte.
Ella então benzeu-se suspirando. Em vida, aquelle homem fôra-lhe
antipatico; morto, fazia-lhe dó.
--Não tem sangue! disse alguem. Talvez o prostrassem aos murros.
--Talvez ainda esteja vivo.
--Vão-se d’aqui! berrou o guarda.
--O medico já veio, e disse que elle estava morto!
--Fecharam a boca a um denunciador... Foi bem feito!
O guarda afastou as mulheres que o cercavam e perguntou ameaçadoramente:
--Quem é que falou?
Muitos recuaram; outros deitaram a fugir. Ouviram-se risos escarninhos.
Pélagué voltou para casa.
--Ninguem tem dó d’elle!... ia pensando.
--E o perfil macisso do bexigoso erguia-se na sua frente; os seus olhos
tinham um brilho frio e rude; a sua mão direita balouçava, como se
estivesse ferida.
Quando André e Pavel entraram para o jantar, perguntou-lhes logo:
--E então? Não está ninguem preso por causa do Isaías?
--Não ouvi nada... respondeu o russo-menor.
Ella notou que os dois vinham sombrios e reservados.
--Não falam do Vessoftchikof?... avançou.
O filho encarou-a com severidade e respondeu, accentuando muito as
palavras:
--Não! Ninguem pensa n’elle. Está ausente. Hontem ao meio dia, partiu a
caminho da ribeira e ainda não voltou... Tirei informações...
--Deus seja louvado! exclamou ella com um suspiro d’alivio.
Ao jantar, Pavel deixou caír de repente a colher no prato e disse:
--Não entendo isto!
--O quê? perguntou André, até ali triste e silencioso.
--Admitto que matem um animal feroz, uma ave de rapina... Julgo-me
capaz de matar um homem que se tornasse uma fera para os seus
semelhantes. Mas como ha quem possa levantar a mão para assassinar uma
creatura miseravel e repugnante?
André encolheu os hombros, e depois:
--Elle era tão nocivo com uma fera.
--Sei...
--Nós tambem esborrachamos o mosquito que nos suga um pouco de sangue...
--Sim, é verdade. Não é esse o meu ponto de vista. Digo que é
repugnante!
--Que se ha de fazer? e encolheu outra vez os hombros.
--Poderias matar uma creatura d’aquellas? perguntou Pavel depois de
curta pausa.
--O russo-menor fitou-o, lançou um rapido olhar a Pélagué, e respondeu
tristemente mas com firmeza:
--Se se tratasse de mim só, não tocaria em ninguem. Pelos companheiros,
pela nossa causa, faria tudo. Mataria até meu proprio filho, se preciso
fosse!
--Oh!... suspirou Pélagué.
Elle sorriu, concluindo:
--Impossivel proceder d’outra maneira! É a vida que assim o quer!
Como se obedecesse a um impulso intimo, André ergueu-se de repente.
--Que se ha de fazer? É-se obrigado a odiar o homem, para que venha
mais cedo o tempo de admiral-o sem reservas. Temos que destruir
aquelle que obsta ao curso da existencia, que vende os outros para
adquirir honrarias ou o descanso. Se encontramos no caminho dos justos
um Judas que nos espera para nos traír, eu proprio seria um traidor,
se não o anniquilasse. É crime? É contra o direito? E os outros, os
nossos senhores, com que direito se servem de soldados e carrascos,
de casas publicas e de prisões, do degredo e de tanta coisa infame
para protegerem a sua segurança e o seu bem-estar? Os nossos senhores
assassinam-nos ás centenas, aos milhares; isto dá-me o direito de
levantar a mão e de deixal-a caír na cabeça d’um inimigo, d’aquelle
que mais se approximou de mim e que mais me prejudica na vida. Sei que
o sangue dos meus inimigos não cria, que é esteril... Desapparece sem
deixar vestigios, porque está podre; ao passo que quando o nosso rega
a terra como uma chuva compacta, a verdade desenvolve-se exhuberante!
Tambem o sei! Mas se vir que é indispensavel matar, matarei e
revindicarei a responsabilidade do meu crime. Não falo senão de mim. O
meu peccado morrerá comigo, não maculará o futuro com uma unica nódoa,
não manchará ninguem, ninguem senão eu!
Cheia de tristeza e de inquietação, Pélagué sentia que elle tinha como
que uma mola partida no seu espirito, e que soffria. Não a inquietava
já o caso do assassinio: não tendo sido Vessoftchikof, nenhum outro
companheiro de Pavel o seria, por certo.
André proseguia:
--Tempo virá em que os homens se admirarão uns aos outros, em que
cada qual brilhará como uma estrella, em que escutará a voz do seu
semelhante, como se fosse uma musica. Haverá na terra homens ricos,
grandes pela sua liberdade, tendo todos o coração aberto, purificado
de qualquer ambição ou interesse. A vida será então um culto prestado
ao homem; a sua imagem será exhaltada porque para os homens livres
todas as alturas são accessiveis. Viver-se-á então na liberdade e na
egualdade, pela belleza; os melhores serão os que mais souberem abarcar
o mundo no seu coração, os que mais o amarem! E por esta vida assim,
estou prompto a tudo. Arrancaria o coração a mim proprio, e pizal-o-ia,
com os meus pés!
O seu rosto tremia; as suas feições tinham uma excitação luminosa; uma
a uma, as lagrimas deslisavam-lhe pelas faces.
Pavel levantou a cabeça e contemplou-o. Pélagué sentia-se inquieta, com
um vago e terrivel presentimento.
--O que tens, André? perguntou Pavel, a meia-voz.
Elle esticou o corpo, e fitando a velha:
--Eu vi... eu sei...
Pélagué levantou-se, correu a elle, pegou-lhe nas mãos.
--Socega, André! meu filho!... socega!... murmurava.
--Esperem!... Quero dizer-lhes como a coisa foi...
--Não! não! accudiu ella, com os olhos razos d’agua.
Pavel approximou-se d’elle, com as mãos trémulas e muito pálido, e
segredou-lhe:
--A minha mãe receia que tivesses sido tu...
Ella porem ouviu, e disse:
--Não receio, não. Sei que não foi elle. Ainda que tivesse sido, não
acreditaria.
--Oiçam... pediu André, sem os fitar e buscando libertar as mãos que
Pélagué não abandonava. Não fui eu... mas poderia ter evitado o crime.
--Cala-te, André! exclamou Pavel, pondo-lhe a mão no hombro, como para
fazer cessar a tremura que lhe abalava todo o corpo.
O russo-menor explicou então:
--A coisa foi assim: quando nos deixaste, ficamos á esquina, eu e o
Dragounof. O Isaías appareceu de repente... e conservou-se afastado...
Troçava de nós, observando-nos... Dragounof disse-me: «Não vês!
Anda-me a espiar todas as noites. Ainda venho a dar-lhe uma lição!»
E afastou-se para entrar em casa, ao que julguei... Então o Isaías
chegou-se a mim...
Suspirou:
--Ninguem me insultou mais rélesmente do que aquelle cão!
Sem falar, Pélegué fôra conseguindo puxal-o para junto da meza até
obrigal-o a sentar-se.
--Disse-me que todos nós eramos conhecidos da policia, que tinha os
olhos em nós, e que antes do primeiro de maio estariamos servidos!...
Não respondi, limitei-me a rir-me, mas cá por dentro começava a ferver.
Disse-me depois que eu era um rapaz intelligente, que não deveria
metter-me a taes caminhos...
--Percebo!... murmurou Pavel.
--Isso! Acabou por dizer-me que seria melhor eu entrar ao serviço da
policia...
E de punho cerrado erguido:
--Que alma infame a d’aquelle homem! Mais valia que me houvesse
esbofeteado! ter-me-ia custado menos! e talvez fosse melhor para elle.
Perdi a paciencia quando assim me cuspiu no coração a sua saliva
infecta! Dei-lhe um muro em pleno rosto, e retirei-me. Ouvi uma voz
atraz de mim: «Fizeste muito bem!» Era Dragounof, que por certo tinha
ficado occulto na esquina. Não olhei para traz, apezar de sentir, de
compreender a possibilidade... Ouvi depois um ruido, mas não fiz caso.
Eu ia tão tranquillo como se tivesse acabado de esmagar um sapo. Quando
cheguei á fabrica, dizia toda a gente: «Mataram o Isaías! Não quiz
acreditar. A minha mão é que teve a culpa... Não sou senhor d’ella...
Não me faz soffrer, não... mas dir-se-ia que a sinto retraída agora...
Lançou á mão um olhar rapido e exclamou:
--Não conseguirei nunca laval-a d’esta mancha!
--Tenhas tu bem puro o teu coração!... disse Pélagué chorando.
--Não me accuso, não! declarou elle com energia. Mas é repugnante...
Não é agradavel ter esta lama cá dentro no peito!
--Que pensas fazer?
--O que quero fazer?
E depois de reflectir, de cabeça baixa, ergueu-a e respondeu com amargo
sorriso:
--Não tenho medo de dizer que fui eu... mas tenho vergonha do que fiz!
Não! não posso dizel-o! Tenho vergonha!
--Não te percebo bem! exclamou Pavel, encolhendo os hombros. Não foste
tu quem matou; e ainda que...
--Irmão, apezar de tudo, era um homem. O assassinio é coisa repugnante.
Saber que alguem assassina, e não o impedir... é talvez uma covardia
infame!
--Continúo sem perceber!
Ouviu-se o apito da fabrica. André deixou tombar a cabeça para o
hombro, escutando aquelle auctoritario chamamento e disse:
--Não quero ir trabalhar.
--Nem eu!
--Quero ir tomar um banho!
Vestiu-se á pressa e saíu.
Pélagué seguiu-o com um olhar de compaixão; depois abriu-se com o filho.
Podes dizer o que quizer, Pavel. Sei que é peccado matar um homem, mas
n’este caso não encontro culpa em ninguem. Lembro-me de que o Isaías me
ameaçou uma vez com a forca para ti... Eu não lhe queria mal, nem me
alegro por elle ter morrido... Tinha apenas dó d’elle... E agora... nem
mesmo isso já sinto...
--Ahi tens o que é a vida, mãe!