Alguem acabava de chegar sob o alpendre. Mãe e filho entreolharam-se,
estremecendo.
A porta abriu-se e deu entrada a Rybine. Trazia vestida uma capa curta,
de pelles, toda manchada de alcatrão, e nos pés sapatos de canhamo; do
cinto pendiam-lhe grosseiras luvas de lã preta; na cabeça um boné de
pelles.
--Como vão de saúde? Puzeram-te na rua, Pavel? E tu, Pélagué, como vaes?
--Ah! és tu? muito estimo ver-te!
--Olha que vens mesmo lindo! disse Pavel.
Rybine respondeu, tirando vagarosamente a capa:
--Sim. Fiz-me camponez. Tu e os teus vão-se transformando pouco a pouco
em senhores; eu ando para traz.
E passando ao quarto, lançou o olhar em roda.
--Não teem mais mobilia do que d’antes. Os livros é que augmentaram.
São o melhor bem que se pode possuir hoje. Como vão as coisas por cá?
Conta-me.
Sentou-se abrindo muito as pernas, apoiou as palmas das mãos nos
joelhos, parecendo satisfeito na espectativa da resposta de Pavel.
--Vão bem.
--Muito me alegro! muito me alegro!
--Queres chá? perguntou a dona da casa.
--Pudera! e um copinho de aguardente... e se me offerecessem de comer,
tambem não recusaria. Estou contente por tornar a vêl-os!
--E como vae?
--Bem. Parei em Eguildiévo. Conhecem? É uma bella villa, com duas
feiras por anno e mais de dois mil habitantes. Má gente. Não ha
terras para cultivar; arrendam-nas, mas são de má qualidade. Entrei
como assalariado ao serviço de um explorador do povo; não faltam
d’estas sanguesugas; são como as moscas á roda de um cadaver. Fazemos
carvão, extraímos alcatrão das bétulas. Trabalho duas vezes mais do
que trabalhava aqui, e ganho quatro vezes menos. Ao serviço d’esta
sanguesuga somos sete, todos lá da terra, menos eu. Sabem ler e
escrever. Um delles, chamado Jéfim, é muito bulhento...
--E fala muito com elles?
--Está claro. Levei comigo todos os meus folhetos. Tenho trinta e
quatro. Mas prefiro servir-me da Bíblia: encontra-se lá tudo o que se
quer, e é um livro permittido, publicado pelo Santo-Synodo, e no qual
se pode crer.
Piscou o olho, malicioso, e continuou:
--O peor é que não basta. Vim cá buscar leitura. Como vamos fazer uma
entrega d’alcatrão, o tal Jéfim e eu, combinámos a patuscada de passar
por tua casa... Dá cá livros antes que elle appareça... É inutil que
elle fique sabendo...
Pélagué observava-o; parecia-lhe que ao largar a capa, largara tambem
qualquer coisa da sua pessôa: estava menos grave do que d’antes, e
havia no seu olhar mais astucia.
--Mamã, vae buscar os livros. Dize que vão para o campo, que logo sabem
o que te hão de dar.
--Irei apenas o samovar esteja pronto.
--Quero livros proíbidos e bem incisivos. Distribuil-os-ei ás
escondidas. E se o padre ou alguem da policia os descobrir, imaginarão
que os mestres-escolas é que fazem a propaganda. De mim ninguem
suspeitará.
Satisfeito por este achado, desatou a rir.
--Olha sabes? disse Pélagué. Tens assim o aspecto de um urso, e afinal
és uma raposa!
Pavel ergueu-se, em tom de censura:
--Dar-lhe-emos os livros que deseja, mas o que pensa fazer não lhe fica
bem.
--E porquê?
--Porque se deve responder sempre pelo que se faz.
--Não percebo o que dizes!
--Acha bem que os mestres-escolas sejam mettidos na cadeia como
suspeitos de fazerem propaganda?
--Então? que tem isso? Essa é boa! Os livros são coisa que lhes dizem
respeito, a elles; portanto elles que tenham a responsabilidade!
Pélagué interveio, mostrando-se da opinião de Rybine, ao que Pavel
objectou:
--Se qualquer de nós, o André por exemplo, praticasse uma infracção da
lei e me mettessem na cadeia, a mim, o que diria a minha mãe?
--Ah! ah! É um caso melindroso!... exclamou Rybine. Mas assumindo uns
ares doutoraes:
--Ainda és muito ingenuo, irmão! Não nos devemos preoccupar com casos
de honra, quando trabalhamos por uma causa secreta. Reflecte: quem
primeiro caírá na cadeia será a pessoa a quem forem encontrados os
livros, e não o mestre. Depois, o texto dos livros auctorisados que
os mestres distribuem é o mesmo dos livros proíbidos, com simples
differenças de palavras e com menos coisas verdadeiras do que os
nossos. Portanto os mestres teem o mesmo fim que eu, mas servem-se de
rodeios, ao passo que eu vou por caminho direito; e assim, aos olhos
das auctoridades, somos igualmente culpados; não achas? Em terceiro
logar, que tenho eu a ver com os mestres-escolas? Não procederia da
mesma maneira com um camponez. O mestre-escola é um filho de padre;
a mestra uma filha de proprietario; não sei porque se põem a querer
levantar o povo. Eu, camponez, não posso conhecer os seus pensamentos
de pessôas instruidas. Sei o que faço, mas ignoro o que elles querem.
Durante milhares d’annos, os grandes eram verdadeiros senhores e
tiravam a pelle do povo; de repente accordam e começam a abrir os olhos
ás suas victimas. Nunca tive predilecção por contos de fadas, e este
é um d’elles. Para mim, a gente rica e instruida, seja qual fôr, fica
afastada de nós. No inverno, quando atravessamos os campos e vemos ao
longe alguma coisa a mexer, perguntamos a nós mesmos: será uma raposa,
um lobo, um cão? Sabe-se lá o que é!
E, passando a mão pela barba:
--Não tenho tempo para delicadezas. O momento é grave. Trabalhe cada
qual, segundo a sua consciencia... Todas as aves teem o seu canto
especial.
--Mas ha ricos que se sacrificam pelo povo, que passam toda a vida na
cadeia... observou a velha, recordando-se de pessoas amigas.
--Com esses o caso é outro. Quando o homem do povo enriquece,
acotovella-se com os senhores. Estes, quando empobrecem, tornam-se
amigo do povo. Quando a algibeira está vasia, a alma torna-se pura, á
força.
Ergueu-se e continuou, sombriamente:
--Durante cinco annos, desacostumei-me do campo, andando errante de
fabrica em fabrica. Quando para lá voltei e vi o que se passava,
disse comigo que não podia viver como vivem os camponezes. Percebes?
Parecia-me impossivel. Por cá não se conhece a fome, nem a muita
humilhação. Mas na aldeia a fome segue o homem como uma sombra
durante toda a vida, sem nunca lhe dar a esperança de obter pão que
chegue. A fome devorou as almas, apagou as feições humanas; não se
vive: apodrece-se irremediavelmente na miseria. E as auctoridades
vigiam, cuidadosas; como os corvos, espreitam, não se dê o caso de
que o camponez tenha um bocado de pão a mais. Quando o descobrem,
arrancam-lho da mão, e ainda lhe dão com elle na cara!
Encostado á mesa, de pé, falando muito perto de Pavel, proseguiu:
--Julguei que não poderia supportar semelhante vida. Todavia,
dominei-me. Disse com os meus botões: «Não devo consentir que a minha
alma me faça partidas! Ficarei aqui, e, não podendo dar pão aos
camponezes, farei a zaragata!»
Com a fronte coberta de suor, exclamou:
--Dá-me livros que não deixem mais em descanso aquelles que os lerem.
Ajuda-me! É preciso metter ouriços dentro da cabeça d’aquella gente.
Dize aos que escrevem folhetos para os da cidade, que os escrevam
tambem para os do campo. Que os escrevam de maneira a regar o campo de
agua a ferver, para que os cultivadores, depois de lel-os, caminhem
para a morte sem protestarem!
As frases vigorosas de Rybine impressionavam Pélagué. Havia n’aquelle
homem o que quer que fosse que lhe recordava o marido: um e outro
mostravam os dentes e arregaçavam as mangas, com a mesma irritação
impaciente. Ao menos, Rybine falava.
--Sim! é indispensavel! disse Pavel. É indispensavel organisar um
jornal para o campo. Dê-nos o assumpto, narre-nos os factos, e nós lhe
daremos um jornal.
Ao que Rybine respondeu.
--Está dito! Mas escrevam com simplicidade, para que até os vitellos os
entendam!