Approximara-se a primavera, ia-se derretendo a neve, descobrindo a lama
e o suor engordorado das chaminés da fabrica, que ella havia occultado
sob a sua camada branca.
Dia a dia, a lama tornava-se mais aggressivamente apparente, todo o
bairro parecia immundo e envolto em farrapos. O sol mostrava-se mais
a miude, e os regatos ainda indecisos começavam a dirigir-se para o
pantano. Ao meio-dia, a canção cariciosa das esperanças primaveris
palpitava pairando sobre o bairro.
Andavam em preparação as festas do primeiro de maio.
Pela fabrica e pelo bairro todo tinham sido espalhados muitos folhetos,
explicando a significação d’aquellas festas. Até a gente nova, que nada
tinha de commum com os socialistas, dizia ao lêl-os:
--É preciso tratar d’isso!
Vessoftchikof resmungava com o seu sorriso sorna:
--E não é cedo. O jogo das escondidas dura ha muito tempo!
Fédia Mazine rejubilava. Tinha emagrecido e o nervosismo dos seus
gestos e das suas palavras lembravam uma cotovia que estivesse mettida
n’uma gaiola. Acompanhava-o sempre Jacob Somof, rapaz taciturno, muito
grave apezar de novo, e que trabalhava então na cidade. Samoílof, cujos
cabellos e barba pareciam terem-se avermelhado ainda mais na cadeia,
Vassili, Goussef, Boukine, Dragounof e outros julgavam indispensavel
munirem-se de armas; mas Pavel, o russo-menor, Somof e os seus amigos
não eram da mesma opinião. Iégor chegou então, como sempre fatigado,
offegante, e coberto de suor. Disse de brincadeira:
--A transformação da organisação actual é uma grande obra,
companheiros, mas para que ella caminhe mais facilmente é necessario...
que eu compre um par de sapatos para a minha pessoa!
E mostrou as botas rotas e que mettiam agua.
--As minhas galochas estão na mesma, tambem muito doentes; todos
os dias molho os pés. Não quero descer ao seio da terra sem ter
renegado do velho mundo, d’uma maneira bem publica e visivel. Eis
porque, regeitando a moção do companheiro Samílof relativamente a uma
demonstração de força armada, proponho que me calcem com um bom par
de valentes botas, porque estou convencido de que serão mais uteis ao
triumpho da nossa causa do que a maior das sarrafuscas!
Pavel disse uma vez, falando de Iégor:
--Sabes, André, aquelles que mais riem, são aquelles cujo coração mais
soffre.
Depois de um curto silencio, o outro respondeu:
--Qual historia! Se assim fosse, toda a Russia morreria de riso!
Natacha appareceu tambem; estivera na cadeia, n’outra cidade, mas não
mudara d’aspecto. Pélagué notou que, quando ella estava presente, o
russo-menor ficava mais alegre, brincava com todos, com uma malicia
sem maldade que provoca as gargalhadas da rapariga, e que, quando ella
se ia embora, elle entrava de assobiar tristemente as suas innumeras
canções, passeando pela casa, arrastando os pés.
Sachenka vinha a miude, sempre apressada, tornando-se dia a dia mais
acre, mais angulosa.
Uma vez que Pavel tinha saído para acompanhal-a, sem fechar a porta
apoz si, Pélagué ouviu-lhes estas phrases:
--É o sr. que levará a bandeira?
--Sou.
--É caso resolvido?
--É o meu direito!
--Não seria possivel...?
--O quê?
--...deixar que fosse outro...?
--Não!
--Reflicta. O sr. tem tanta influencia... estimam-no tanto... Aqui
os chefes são o André e o sr. Quantas coisas poderão fazer, estando
livres!... Reflicta. São capazes de exilal-o... para muito longe e por
muitos annos!...
Estas palavras, cujo sentimento Pélagué estava entrevendo, caíam-lhe no
coração como pingos d’agua gelada.
--Não! estou decidido. Não renunciarei por coisa alguma n’este mundo!
--Ainda que eu lhe pedisse...?
Pavel interrompeu-a rapidamente, tendo na voz uma severidade especial:
--Não deve falar assim. No que está pensando?
--Sou uma creatura humana!... murmurou, defendendo-se.
--Uma excellente e meiga creatura! disse elle em voz baixa e como se
lhe custasse respirar. Uma creatura que me é querida... muito querida!
E é por isto mesmo que não deve falar assim!
--Adeus!
E pelo ruido dos seus passos, a velha percebeu que ella ia correndo.
Compreendeu que nova desgraça a ameaçava, e no cerebro cravou-se como
um prego esta interrogação: «O que será preciso fazer?»
Ao entrar na cosinha, Pavel avançou para André que lhe perguntou:
--E aquelle desgraçado do Isaías?
--Devemos aconselhal-o a que renuncie á espionagem.
--Denunciará aquelles que tal lhe aconselharem.
--Que pensas fazer, Pavel? perguntou-lhe a mãe, desviando o olhar.
--Quando? agora?
--Não: no primeiro de maio.
--Ah! quero levar a nossa bandeira. Pôr-me-ei á frente do cortejo, com
a bandeira em punho. Naturalmente mettem-me outra vez na cadeia.
Os olhos de Pélagué tornaram-se como candentes, a bôca foi-lhe invadida
por uma secura febril. O filho pegou-lhe na mão e ameigou-a:
--Assim é preciso, mãe. A honra está n’isto mesmo.
--Eu não disse nada... balbuciou.
--Deverias regosijar-te, em vez de entristeceres-te.
--Eu não disse nada... Não me opporei... Se tenho pena de ti, é
natural... e fica comigo...
Pavel afastou-se, e ella ouviu-o resmungar palavras acerbas:
--Ha affeições que impedem o homem de viver!
Receando que elle dissesse peor, exclamou vivamente:
--Não fales assim, Pavel! Compreendo. Tens que fazer o que tencionas,
por causa dos companheiros.
--Não! Por minha propria causa! Poderia proceder d’outra forma, mas não
quero! Hei-de ir!
André parou no limiar; parecia mettido n’uma moldura: era mais alto
do que a porta e curvava os joelhos caricatamente, com um dos hombros
encostados a um umbral, e com a cabeça e o outro hombro estendido para
a frente.
--Seria melhor que o sr. tagarellasse menos!
Parecia um lagarto semi-occulto na fenda d’um rochedo.
A velha tinha vontade de chorar, mas, não querendo que Pavel a
surpreendesse, disse de repente:
--Ah!... ia-me esquecendo...
E retirou-se, rapida. Sob o alpendre, encostou a cabeça á parede, e deu
livre curso a todo o seu pranto. As palavras dos dois amigos chegavam
até lá.
--Divertes-te em atormental-a! dizia André.
--Não tens o direito de falar-me assim!
--Não seria um bom companheiro, se me calasse ao ouvir as tuas
estupidas cabriolices! Para que respondeste tão rudemente á tua mãe?
--Deve-se falar sempre com firmeza, seja a quem fôr!
--Á tua propria mãe?
--A todos! Dispenso qualquer amor ou amisade que me detenham no meu
caminho.
--Que heroe! Á Sachenka é que devias falar assim.
--Foi o que fiz.
--Com essa rispidez? Não creio! Havias de falar-lhe com uma voz
carinhosa, terna... É como se estivesse a ouvir-te! Guardas o teu
heroísmo para quando a tua mãe está presente. Pois fica sabendo,
animal, que o teu heroísmo não vale nada!
Pélagué receou que a discussão se azedasse; limpou rapidamente as
lagrimas e appareceu, dizendo:
--Oh! que frio que faz! E é isto a primavera!...
E, nos arranjos domesticos, deu alguns passos pela casa, voltando de
novo á cosinha.
Apóz um silencio, André approximou-se de Pavel.
--Percebeste-a?... Tem mais coração do que tu.
--Querem chá? perguntou a velha.
E sem esperar resposta, accrescentou logo:
--É que estou transida de frio.
Pavel dirigiu-se a ella, com um sorriso a tremer-lhe nos labios.
--Perdôa, mãe... Sou ainda uma creança... um garôto...
Ella estreitou-o a si.
--Não me ralhes mais. Não me digas mais nada. Deus seja comtigo,
filho! Segue lá a tua vida, mas não bulas no meu coração. Como não
haveria de uma mãe ter piedade do seu filho? Tenho piedade de todos...
--Está bem, mamã. Perdôa. Fiz mal.
E afastando-se, enleado:
--Nunca mais o esquecerei, palavra d’honra!
Passando á cosinha, Pélagué disse a André, que se conservara á porta:
--Não ralhe com elle. Bem sei que o André é mais velho, mas...
Elle não se moveu, e pôz-se a berrar comicamente:
--Ora! ora! ora! Ralho... e até lhe chego, se calhar!
A velha apertou-lhe a mão commovida.
--Meu bom amigo!...
André entrou na cosinha, e, continuando no mesmo tom ironico:
--Desapparece, Pavel, se não queres que eu te torça o pescoço. Por
emquanto, não, porque estou arranjando o samovar! Oh! que pessimo
carvão! Está molhado, com mil diabos!
Calou-se. Quando a viu perto de si, foi dizendo, baixinho, todo
entretido no seu trabalho:
--Não tenha medo, mãesinha, que não lhe tocarei nem com um dedo! Sou
simplorio como um nabo cosido. E gosto muito d’elle. Olha tu é que
não deves dar ouvidos ao teu heroe! Anda como se tivesse estreado um
collete garrido: com o peito espetado, empurrando em toda a gente para
que lhe vejam bem o collete... É bonito, lá isso é; mas para que diabo
empurra elle o proximo?
Pavel disse de lá:
--Ainda estás resmungando? E approximou-se logo.
André, sempre sentado no chão, tinha posto entre as pernas o samovar e
contemplava-o. Pélagué, encostada á porta, fixava o olhar na nuca e no
farto pescoço do russo-menor. Elle então deitou o corpo para traz, com
as mãos apoiadas no chão, e, depois de ter observado a mãe e o filho:
--Em verdade, olhem que são muito boa gente!
Pavel abaixou-se para lhe pegar n’um braço.
--Não puxes por mim, que me fazes caír!
--Para que se zangam? perguntou ella tristemente. Não seria melhor que
se abraçassem?
--Queres?... murmurou Pavel.
--Porque não?
Pavel ajoelhou-se e os dois homens abraçaram-se, unindo-se n’uma só
alma, animada da mais quente amisade.
Pélagué chorava; era porem um pranto sem amargor. Enxugando os olhos,
balbuciou:
--As mulheres gostam de chorar... de tristeza... e de alegria...
André afastou o amigo, e esfregando os olhos:
--Basta! basta! Que diabo de carvão! Tenho os olhos cheios d’elle!
Pavel sentara-se junto da janella, e murmurou:
--Lagrimas como estas não devem envergonhar.
--Sim! Acabámos de viver uns momentos de uma boa vida, humana, replecta
de amor! exclamou André.
Ao que a mãe observou:
--Tudo está mudado! O pezar é outro... outra é a alegria... já nem
sei... já não sei o que me faz viver... faltam-me as palavras...
--Tudo está mudado. E assim é que deve ser! acudiu André. E sabe
porquê? Porque se desenvolve na vida um coração novo, mãesinha.
Os corações estão todos elles despedaçados pela diversidade dos
interesses, roídos pela cega avareza, mordidos pela inveja, cobertos
de chagas e de feridas purulentas... de mentira, de covardia. Os
homens são uns doentes, que teem medo de viver... perdidos como
em um nevoeiro... conhecendo apenas a sua propria dor. Mas eis que
apparece um homem que illumina a vida com o fogo da razão e que
grita: «Eh! pobres insectos perdidos! Chegou o tempo de compreender
que tendes todos os mesmos interesses e o mesmo direito á vida e ao
desenvolvimento!» O homem que clama está isolado, sente-se triste e
tem frio sósinho. E ao seu chamamento, todos os corações se reunem,
formando um coração immenso, forte, sensivel como um sino de prata. E
este sino diz assim: «Uni-vos, homens de todos os paízes, formae uma
unica familia! A mãe da vida é a affeição e não o odio!» Irmãos, eu
oiço este sino!
--E eu tambem! disse Pavel.
--Deitado, de pé, vá para onde fôr, oiço-o e sinto-me feliz. Eu sei:
a terra está farta de supportar a injustiça e a dôr; éccôa como se
quizesse responder, saúdando o novo sol que desponta no peito do homem!
Pavel ergueu um braço, ia falar; mas a mãe deteve-o, e disse baixinho:
--Não o interrompa.
--Sabem? ha ainda muitas dores reservadas aos homens; ainda muito
sangue lhes será arrancado por mãos ávidas. Mas tudo isto, toda a
minha dor e todo o meu sangue, nada são perante o que já possuo no meu
cerebro, na minha medula, nos meus ossos! Já sou rico como uma estrella
é rica em scintillações. Supportarei tudo, porque tenho em mim uma
alegria, que ninguem nem coisa alguma matará, e que é a minha força!
E até á meia noite, a conversa proseguiu, harmonica e sincera, acerca
da vida, dos homens, do futuro.