XIX

Já por trez vezes ella sollicitara licença para ver o filho, recebendo

sempre a negativa benevola do chefe dos guardas, um velho de cabellos

brancos, faces escarlates e nariz comprido.

--D’aqui a uma semana, mulhersinha. Antes, não! Para a semana veremos.

Hoje é impossivel.

--É muito delicado! contava ella a André. Sempre a sorrir!... Não me

parece bem. Quando se é chefe, não se deve levar assim as coisas de

brincadeira.

--Sim, sim... São amaveis, sorriem muito... Se lhes dizem: «Vê aquelle

homem intelligente e honrado? É perigoso para nós: enforque-o!» Elles

sorriem, enforcam-no, e depois continuam a sorrir.

--Aquelle que veio cá fazer a busca era mais simples, valia mais:

via-se logo que era um canalha!

--Dir-se-ia que não são homens mas sim martellos, ferramentas, para nos

talharem por forma a ficarmos ao gosto do governo. Elles proprios foram

accomodados á mão que nos dirige...

...A final, Pélagué obteve a ambicionada licença. No domingo, entrou

na secretaria da cadeia e sentou-se modestamente a um canto. Havia

mais visitas n’aquella casa acanhada e suja, de tecto baixo. Não era

a primeira vez que se encontravam ali: conheciam-se uns aos outros. A

conversa ia-se arrastando lentamente, a meia voz.

--Sabe? dizia uma mulherona já de alguma idade, e que tinha uma

malêta nos joelhos. Esta manhã, á primeira missa, o mestre-capella da

catedral, esteve outra vez quasi a arrancar uma orelha a um menino de

côro.

Um homem de meia idade, com o uniforme de soldado reformado, tossiu

ruidosamente e replicou:

--Os taes meninos de côro são uns garotos!...

Um homemsinho calvo, de pernas curtas, braços compridos, a maxilla

proeminente, passeava d’um lado para o outro, com ares de preocupado.

Sem parar dizia:

--A vida está cada vez mais cara; e é por isto que os homens nunca

foram tão maos! A carne de vacca de primeira qualidade custa a quatorze

kopecks o arratel, o pão dois kopecks e meio...

De quando em quando, entravam prisioneiros, vestidos de cinzento, com

grossos sapatos de coiro. Um d’elles trazia uma corrente no pé. Parecia

que os visitantes estavam acostumados havia muito áquelle espectaculo.

O coração de Pélagué tremia d’impaciencia; olhava perplexa para tudo o

que a cercava.

A seu lado estava uma velhinha com as faces enrugadas e com os olhos

amortecidos. Prestava attenção á conversa, estendia o pescoço delgado e

fugia a olhar para os assistentes, com uma expressão de irascibilidade.

--Quem tem a sr.ᵃ aqui? perguntou-lhe Pélagué com doçura.

--O meu filho, que é estudante! E a sr.ᵃ?

--Tambem o meu filho, operario.

--Como se chama elle?

--Vlassof.

--Não conheço. Está cá ha muito tempo?

--Ha sete semanas.

--E o meu ha dez mezes!

E Pélagué, julgou perceber-lhe no tom da voz, o que quer que fosse

parecido com o orgulho.

Uma senhora alta, vestida de preto, de rosto comprido e pallido, disse

vagarosamente:

--D’aqui a pouco mettem na cadeia todas as pessoas de bem. Já não as

podem aturar.

--Sim, sim! replicou o velho calvo. A paciencia vae faltando. Toda a

gente se zanga e clama, e tudo vae augmentando de preço. É por isto

que as pessoas vão diminuindo de valor. E não apparece nenhuma voz

conciliadora...

A conversa generalisou-se e animou se. Cada qual formulava a sua

opinião acerca da vida, mas todos falavam a meia voz; e Pélagué sentia

n’aquellas palavras o que quer que fosse estranho. Em sua casa,

falava-se d’outra maneira, d’uma maneira mais compreensivel, mais

natural, mais aberta.

Um guarda, de grande barba grisalha, gritou:

--A Vlassof!

Mediu-a com o olhar e disse:

--Vem!

E foi andando, arrastando os pés. A vontade de Pélagué era empurral-o

para que elle andasse mais depressa. Afinal, n’um pequenito quarto,

encontrou-se com Pavel, que lhe estendeu a mão, sorrindo.

Ella agarrou-a, rindo muito, e dizendo:

--Bons dias! bons dias!

--Olá, mulher! exclamou o guarda. Afastem-se um pouco um do outro. É do

regulamento.

E bocejou.

Pavel pediu á mãe noticias da sua saude, da sua casa. Ella esperava

outras perguntas, procurava-as até, no olhar do filho, mas não as

encontrou. Como sempre, elle apresentava-se tranquillo; apenas um pouco

mais pallido; os seus olhos pareciam maiores.

--A Sachenka manda-te recommendações.

As palpebras de Pavel estremeceram e abaixaram. O seu rosto

dulcificou-se e brilhou com um sorriso.

--Pôr-te-ão em breve na rua? perguntou, irritada de subito. Por que

foi que te prenderam? Sim porque afinal os taes folhetos voltaram a

apparecer.

Os olhos de Pavel tiveram um lampejo d’alegria.

--Serio?!

--É proíbido falar d’essas coisas! observou o guarda, indolente. Só se

pode falar d’assuntos de familia.

--Ora essa! Então isto não é assunto de familia? perguntou ella.

--Sei lá! O que digo é que é proibido. Falem da comida, da bebida, da

roupa lavada, e de mais nada! elucidou, continuando como indifferente.

--Está bem! Falemos da nossa casa, mamã? O que é que tu fazes?

--Levo comida aos operarios, comida e outras coisas! respondeu com

audacia.

Deteve-se e explicou melhor, depois de resfolegar:

--Sopa, carne assada, tudo o que Maria costuma cosinhar, e... toda a

especie de alimento.

Pavel compreendera. O rosto contraíu-se-lhe n’uma gargalhada abafada.

Depois, carinhosamente:

--Minha querida mãe... Muito bem! muito bem! Sinto-me feliz, sabendo

que tens tão bom emprego, que não te aborreces. Não é verdade que não

te aborreces?

--E sabes? Revistaram-me toda quando os taes folhetos tornaram a

apparecer! informou um tanto fanfarrona.

--Outra vez?! exclamou o guarda. Já lhes disse que é proíbido. Priva-se

um homem da sua liberdade, para que elle não saiba do que vae lá por

fóra, e vens tu, mulher, e começas a tagarelar!... Compreendam que o

que é proíbido é proíbido!

--Está bem! não se fala mais n’essas coisas, mamã. O Matvé Ivanovitch é

um bom homem: não devemos fazel-o zangar. Damo-nos bem um com o outro.

É por acaso que elle assiste hoje ás entrevistas dos presos com os

visitantes. Quem costuma assistir é o director. E o Matvé Ivanovitch

receia que tu digas coisas... superfluas.

--Acabou o tempo da visita! disse o guarda, tendo consultado o seu

relogio.

--Obrigado, mamã! muito obrigado, querida mãesinha! Não te dê cuidado,

que dentro em pouco serei posto em liberdade.

Abraçou-a com effusão; ella começou a chorar.

--Separem-se! ordenou o guarda; e, reconduzindo Pélagué, ia-lhe

dizendo, resmungando:

--Não chore... Está aqui está na rua! Vão dar a liberdade a muitos...

os logares são poucos... não cabem todos...

Em casa, ella disse ao russo-menor:

--Falei-lhe... com geito... percebeu-me muito bem.

E acrescentou com um suspiro:

--Percebeu-me, sim, se não, não me abraçava com tanta gana! Foi a

primeira vez...

--Ah! todos desejam isto ou aquillo, mas as mães não desejam senão

affagos!

A Mãe · 第 24 / 66 题