XVIII

Bateram á porta. Foi pôr o livro na estante.

--Quem é?

--Eu.

Rybine entrou. Tendo trocado os cumprimentos, alizou a barba

demoradamente, olhou para o quarto, e disse:

--D’antes deixavas entrar toda a gente, sem perguntares quem era...

Estás sosinha?

--Estou.

--Julguei que estivesses com o André. Vi-o hoje. A cadeia não corrompe

o homem. O que corrompe mais do que tudo é a estupidez.

Passou ao quarto e sentou-se.

--Venho dizer-te alguma coisa. Tive uma idéa...

A sua gravidade e o seu ar misterioso sobresaltaram Pélagué, que se

sentara diante d’elle.

--Tudo custa dinheiro! começou. Ninguem nasce nem morre gratuitamente.

Ora os folhetos tambem custam dinheiro. Sabes d’onde elle vem para

pagar os folhetos?

--Não sei.

--Nem eu. Em segundo logar: quem os compõe?

--Sabios...

--Gente que está acima de nós. Portanto são os grandes que compõem os

folhetos. Ora se os folhetos são contra elles, que interesse teem elles

em publical-os, gastando para isso o seu dinheiro?

Pélagué fechou os olhos; e ao reabril-os:

--O que pensas? Dize!

--Ah! exclamou, movendo-se na cadeira como um urso. Senti tambem um

calafrio quando me veio este pensamento!...

--O que ha então? Soubeste alguma coisa?

--É tudo um embuste! Entendo que é um embuste! Eu compreendo a

verdade, e não quero entender-me com os ricos. Quando precisam de nós,

atiram-nos para a frente, para que os nossos corpos lhes sirvam de

ponte.

Estas palavras acerbas confrangiam o coração da pobre velha.

--Ó Senhor! exclamava angustiada. E o Pavel que não compreendeu nada

d’isso? Pois dar-se-á o caso de que todos aquelles, que vinham da

cidade, fossem...?

As fisionomias graves de Nicolao Ivanovitch, de Iégor, de Sachenka,

appareceram-lhe na frente.

--Não! não!... Não posso acreditar. São creaturas animadas só pela sua

consciencia, sem más intensões...

--Não é para esses que devemos olhar, mas para mais alto. Os que

mais se nos approximam sabem naturalmente tanto como nós. Crêem que

procedem bem... amam a verdade. Mas talvez que por de traz d’elles haja

outros que não pensem da mesma maneira. O homem não trabalha contra si

proprio, não tendo para isso fortes razões.

E accrescentou, com a tacanha certeza do camponio, eivado de uma

incredulidade secular:

--Das mãos dos grandes e dos illustrados nunca nos virá coisa bôa!

--O que resolves, então?

--Que não devemos alliar-nos aos que estão acima de nós! Ora aqui está!

Tornou a calar-se, como se se dobrasse sobre si mesmo.

--Vou pôr-me a caminho. Desejava ter-me reunido aos companheiros e

trabalhar com elles. Sirvo para isso; sou teimoso, e não muito parvo;

sei lêr e escrever. E principalmente percebo o que se deve dizer a essa

gente... Vou pôr-me a caminho; é o que devo fazer, já que não posso

acreditar. Vou sósinho por essas cidades e aldeias a sublevar o povo, a

quem cumpre correr á conquista da sua liberdade. Se souber compreender,

encontrará para isso uma saída. Tentarei fazel-o compreender que em

ninguem deve ter esperança senão n’elle proprio.

Ella teve piedade de Rybine, a sua sorte assustava-a; parecera-lhe

sempre antipathico; e n’aquelle momento sentia-o mais perto d’ella,

mais familiar.

--O Pavel vae por um caminho... e elle vae por outro. O Pavel terá

menos trabalho... murmurou involuntariamente, accrescentando: Serás

preso!

Rybine olhou para ella e replicou:

--Mas soltar-me-ão!

--A gente do campo será a primeira a entregar-te... e poderás ficar

preso por muito tempo...

--Acabarei por vir para a rua, e voltarei á mesma. Quanto aos

camponios, entregar-me-ão duas ou trez vezes, mas hão de acabar por

compreender que farão melhor escutando-me. Dir-lhes-ei: «Não acreditem

em mim: oiçam-me apenas!» E se me ouvirem, acabarão por acreditar-me.

--Vaes morrer!... disse tristemente a velha, meneando a cabeça.

Elle fitou-a com um olhar cheio de interrogação. O seu corpo vigoroso

estava inclinado para a frente; as mãos apoiavam-se na cadeira; o seu

rosto moreno empallidecera, enquadrado na barba negra.

--Sabe o que Jesus disse do grão de trigo? «Não morrerá, mas

resuscitará em uma nova espiga!» O homem é um grão de verdade... E eu

ainda não estou ás portas da morte...

Levantou-se, vagaroso.

--Vou ate á taverna. Quando o André voltar, repete-lhe o que eu te

disse?

--Sim.

Passaram á cosinha e trocaram algumas frases curtas, sem olharem um

para o outro.

--Adeus...

--Adeus... Quando recebes a tua feria?

--Já a recebi.

--E quando partes?

--Amanhã de manhãsinha. Adeus!

Curvou-se, e saíu um pouco assustado, como contra vontade. Durante uns

momentos, a velha ficou á porta prestando o ouvido ao andar que se

afastava... Depois foi até ao quarto e pôz-se a olhar pela janella.

Densas trevas se apegavam ás vidraças, parecendo esperar o que quer que

fosse que podesse tragar as suas fauces insondaveis.

--Vivo de noite! pensou. Sempre de noite!

André chegou d’ali a pouco, animado, alegre. Quando a velha lhe falou

de Rybine, exclamou:

--Parte?! Pois que vá! que vá espalhar pelas aldeias a verdade, e

accordar o povo. Era-lhe difficil ficar comnosco. Tem na cabeça umas

idéas especiaes, que não lhe deixam adoptar as nossas.

--Falou dos ricos, dos nobres, dos illustrados. Parece haver no caso

alguma coisa torta!... disse ella prudentemente. Oxalá não sejamos

enganados!...

--Isso dá-lhe cuidado, mãesinha? Ah! o dinheiro! não é? Vamos vivendo

por conta d’outrem. O Nicolao Ivanovitch ganha setenta e cinco

rublos por mez, e entrega-me cincoenta. Os outros fazem o mesmo. Os

estudantes, que passam privações, cotisam-se tambem, e conseguem

mandar-nos pequenas quantias, accumuladas kopeck a kopeck. É isto! Ha

homens para tudo: uns enganam-nos, outros não nos deixam avançar; mas

ha os melhores, os que nos acompanham no caminho da victoria!

E esfregando as mãos:

--Mas o triunfo ainda vem longe, ainda! Emquanto não chega, vamos

organisar um primeiro de maiosinho! Ha de ser divertido!

As suas palavras e a sua animação tranquillisaram Pélagué. Elle,

passeando a passos largos continuava:

--Se soubesse que extraordinaria sensação eu tenho ás vezes!...

Parece-me que por toda a parte por onde vou, os homens são

companheiros, incendidos na mesma fé, que todos são bons. Todos se

compreendem sem precisarem de falar, ninguem offende o proximo. Vive-se

em bôa harmonia, cada alma canta a sua canção, e, como regatos, todas

as canções se reunem em um unico rio, que vae avançando, majestoso e

grave, para o mar onde brilham os clarões da vida livre. E digo com os

meus botões que isto ha de realisar se, que isto não póde deixar de

ser, se nós quizermos que seja! E então o meu coração transborda de

alegria; tenho vontade de chorar, tal é a minha felicidade!

A velha nem se movia, para não o interromper. Escutara-o sempre mais

attentamente do que aos seus companheiros porque elle falava com mais

simplicidade, e as suas palavras iam mais fundo á alma. O Pavel tambem

era para a frente que olhava, mas mantinha-se solitario e nunca dizia

o que via. Parecia a Pélagué que André olhava sempre para o futuro

com o coração: a lenda do triunfo de todas as creaturas surgia sempre

nos seus discursos. E aos olhos de Pélagué aquella brilhante lenda

illuminava lhe a compreensão da vida e do trabalho a que o filho e os

seus companheiros se tinham entregado.

--É humilhante isto! exclamou elle de subito. Não se póde acreditar no

homem. Precisamos até de temel-o e de odial-o. O homem desdobra se, a

vida parte-o em dois. Como seria possivel amar somente? Como perdoar

áquelle que se arroja sobre vós, como um animal selvagem? Impossivel!

Não falo por mim. Supportaria todos os ultrages; mas não quero ter

connivencia com os oppressores; não quero que se sirvam dos meus

costados para aprenderem a bater nos outros.

Uma expressão de frieza accudiu ao seu olhar, a voz tornou-se-lhe mais

firme.

--Não devo perdoar o que seja mao, ainda quando não me prejudique. Não

sou só eu na terra. Admittamos que hoje me deixo insultar sem responder

ao insulto; hei de rir talvez, porque não me senti ferido; mas ámanhã

o insultador, que experimentou em mim a sua força, vae tirar a pelle a

outro. Por isto não devemos considerar toda a gente da mesma maneira;

convem reprimir o coração, vêr quem são os inimigos e quem são os

amigos. É justo, embora não seja divertido!

Sem saber porquê, Pélagué pensou em Sachenka e no official. Disse com

um suspiro:

--Como se ha de fazer pão com trigo que não foi semeado?

--Esse é o mal!

No espirito da velha desenhava-se a figura de seu marido, semelhante a

uma grande pedra coberta de musgo. Fantasiou André casado com Natacha,

e o seu filho casado com Sachenka.

O russo-menor e Pélagué tiveram muitas conversas d’este genero. Elle

conseguira metter-se outra vez na fabrica, e entregava todo o seu

dinheiro a Pélagué, que o acceitava naturalmente, como se fosse de

Pavel.

Ás vezes, com um sorriso no olhar, André propunha-lhe:

--Se nós aprendessemos a contar?...

Ella recusava; o sorriso d’André acanhava-a. Pensava, um tanto vexada:

«Se tu ris, para que havemos de falar n’isso?»

Elle notou que a velha era mais frequente em pedir-lhe a significação

de certas palavras; percebia que ella ia-se instruindo ás escondidas, e

por isto deixou de insistir em ensinal-a.

--Vae-me faltando a vista, meu André; sinto-a cançada... disse-lhe, um

dia. Gostava muito de usar uns oculos.

--Está dito! No domingo vamos ambos á cidade consultar um doutor que eu

conheço, e compraremos depois os oculos.

A Mãe · 第 23 / 66 题