Bateram á porta. Foi pôr o livro na estante.
--Quem é?
--Eu.
Rybine entrou. Tendo trocado os cumprimentos, alizou a barba
demoradamente, olhou para o quarto, e disse:
--D’antes deixavas entrar toda a gente, sem perguntares quem era...
Estás sosinha?
--Estou.
--Julguei que estivesses com o André. Vi-o hoje. A cadeia não corrompe
o homem. O que corrompe mais do que tudo é a estupidez.
Passou ao quarto e sentou-se.
--Venho dizer-te alguma coisa. Tive uma idéa...
A sua gravidade e o seu ar misterioso sobresaltaram Pélagué, que se
sentara diante d’elle.
--Tudo custa dinheiro! começou. Ninguem nasce nem morre gratuitamente.
Ora os folhetos tambem custam dinheiro. Sabes d’onde elle vem para
pagar os folhetos?
--Não sei.
--Nem eu. Em segundo logar: quem os compõe?
--Sabios...
--Gente que está acima de nós. Portanto são os grandes que compõem os
folhetos. Ora se os folhetos são contra elles, que interesse teem elles
em publical-os, gastando para isso o seu dinheiro?
Pélagué fechou os olhos; e ao reabril-os:
--O que pensas? Dize!
--Ah! exclamou, movendo-se na cadeira como um urso. Senti tambem um
calafrio quando me veio este pensamento!...
--O que ha então? Soubeste alguma coisa?
--É tudo um embuste! Entendo que é um embuste! Eu compreendo a
verdade, e não quero entender-me com os ricos. Quando precisam de nós,
atiram-nos para a frente, para que os nossos corpos lhes sirvam de
ponte.
Estas palavras acerbas confrangiam o coração da pobre velha.
--Ó Senhor! exclamava angustiada. E o Pavel que não compreendeu nada
d’isso? Pois dar-se-á o caso de que todos aquelles, que vinham da
cidade, fossem...?
As fisionomias graves de Nicolao Ivanovitch, de Iégor, de Sachenka,
appareceram-lhe na frente.
--Não! não!... Não posso acreditar. São creaturas animadas só pela sua
consciencia, sem más intensões...
--Não é para esses que devemos olhar, mas para mais alto. Os que
mais se nos approximam sabem naturalmente tanto como nós. Crêem que
procedem bem... amam a verdade. Mas talvez que por de traz d’elles haja
outros que não pensem da mesma maneira. O homem não trabalha contra si
proprio, não tendo para isso fortes razões.
E accrescentou, com a tacanha certeza do camponio, eivado de uma
incredulidade secular:
--Das mãos dos grandes e dos illustrados nunca nos virá coisa bôa!
--O que resolves, então?
--Que não devemos alliar-nos aos que estão acima de nós! Ora aqui está!
Tornou a calar-se, como se se dobrasse sobre si mesmo.
--Vou pôr-me a caminho. Desejava ter-me reunido aos companheiros e
trabalhar com elles. Sirvo para isso; sou teimoso, e não muito parvo;
sei lêr e escrever. E principalmente percebo o que se deve dizer a essa
gente... Vou pôr-me a caminho; é o que devo fazer, já que não posso
acreditar. Vou sósinho por essas cidades e aldeias a sublevar o povo, a
quem cumpre correr á conquista da sua liberdade. Se souber compreender,
encontrará para isso uma saída. Tentarei fazel-o compreender que em
ninguem deve ter esperança senão n’elle proprio.
Ella teve piedade de Rybine, a sua sorte assustava-a; parecera-lhe
sempre antipathico; e n’aquelle momento sentia-o mais perto d’ella,
mais familiar.
--O Pavel vae por um caminho... e elle vae por outro. O Pavel terá
menos trabalho... murmurou involuntariamente, accrescentando: Serás
preso!
Rybine olhou para ella e replicou:
--Mas soltar-me-ão!
--A gente do campo será a primeira a entregar-te... e poderás ficar
preso por muito tempo...
--Acabarei por vir para a rua, e voltarei á mesma. Quanto aos
camponios, entregar-me-ão duas ou trez vezes, mas hão de acabar por
compreender que farão melhor escutando-me. Dir-lhes-ei: «Não acreditem
em mim: oiçam-me apenas!» E se me ouvirem, acabarão por acreditar-me.
--Vaes morrer!... disse tristemente a velha, meneando a cabeça.
Elle fitou-a com um olhar cheio de interrogação. O seu corpo vigoroso
estava inclinado para a frente; as mãos apoiavam-se na cadeira; o seu
rosto moreno empallidecera, enquadrado na barba negra.
--Sabe o que Jesus disse do grão de trigo? «Não morrerá, mas
resuscitará em uma nova espiga!» O homem é um grão de verdade... E eu
ainda não estou ás portas da morte...
Levantou-se, vagaroso.
--Vou ate á taverna. Quando o André voltar, repete-lhe o que eu te
disse?
--Sim.
Passaram á cosinha e trocaram algumas frases curtas, sem olharem um
para o outro.
--Adeus...
--Adeus... Quando recebes a tua feria?
--Já a recebi.
--E quando partes?
--Amanhã de manhãsinha. Adeus!
Curvou-se, e saíu um pouco assustado, como contra vontade. Durante uns
momentos, a velha ficou á porta prestando o ouvido ao andar que se
afastava... Depois foi até ao quarto e pôz-se a olhar pela janella.
Densas trevas se apegavam ás vidraças, parecendo esperar o que quer que
fosse que podesse tragar as suas fauces insondaveis.
--Vivo de noite! pensou. Sempre de noite!
André chegou d’ali a pouco, animado, alegre. Quando a velha lhe falou
de Rybine, exclamou:
--Parte?! Pois que vá! que vá espalhar pelas aldeias a verdade, e
accordar o povo. Era-lhe difficil ficar comnosco. Tem na cabeça umas
idéas especiaes, que não lhe deixam adoptar as nossas.
--Falou dos ricos, dos nobres, dos illustrados. Parece haver no caso
alguma coisa torta!... disse ella prudentemente. Oxalá não sejamos
enganados!...
--Isso dá-lhe cuidado, mãesinha? Ah! o dinheiro! não é? Vamos vivendo
por conta d’outrem. O Nicolao Ivanovitch ganha setenta e cinco
rublos por mez, e entrega-me cincoenta. Os outros fazem o mesmo. Os
estudantes, que passam privações, cotisam-se tambem, e conseguem
mandar-nos pequenas quantias, accumuladas kopeck a kopeck. É isto! Ha
homens para tudo: uns enganam-nos, outros não nos deixam avançar; mas
ha os melhores, os que nos acompanham no caminho da victoria!
E esfregando as mãos:
--Mas o triunfo ainda vem longe, ainda! Emquanto não chega, vamos
organisar um primeiro de maiosinho! Ha de ser divertido!
As suas palavras e a sua animação tranquillisaram Pélagué. Elle,
passeando a passos largos continuava:
--Se soubesse que extraordinaria sensação eu tenho ás vezes!...
Parece-me que por toda a parte por onde vou, os homens são
companheiros, incendidos na mesma fé, que todos são bons. Todos se
compreendem sem precisarem de falar, ninguem offende o proximo. Vive-se
em bôa harmonia, cada alma canta a sua canção, e, como regatos, todas
as canções se reunem em um unico rio, que vae avançando, majestoso e
grave, para o mar onde brilham os clarões da vida livre. E digo com os
meus botões que isto ha de realisar se, que isto não póde deixar de
ser, se nós quizermos que seja! E então o meu coração transborda de
alegria; tenho vontade de chorar, tal é a minha felicidade!
A velha nem se movia, para não o interromper. Escutara-o sempre mais
attentamente do que aos seus companheiros porque elle falava com mais
simplicidade, e as suas palavras iam mais fundo á alma. O Pavel tambem
era para a frente que olhava, mas mantinha-se solitario e nunca dizia
o que via. Parecia a Pélagué que André olhava sempre para o futuro
com o coração: a lenda do triunfo de todas as creaturas surgia sempre
nos seus discursos. E aos olhos de Pélagué aquella brilhante lenda
illuminava lhe a compreensão da vida e do trabalho a que o filho e os
seus companheiros se tinham entregado.
--É humilhante isto! exclamou elle de subito. Não se póde acreditar no
homem. Precisamos até de temel-o e de odial-o. O homem desdobra se, a
vida parte-o em dois. Como seria possivel amar somente? Como perdoar
áquelle que se arroja sobre vós, como um animal selvagem? Impossivel!
Não falo por mim. Supportaria todos os ultrages; mas não quero ter
connivencia com os oppressores; não quero que se sirvam dos meus
costados para aprenderem a bater nos outros.
Uma expressão de frieza accudiu ao seu olhar, a voz tornou-se-lhe mais
firme.
--Não devo perdoar o que seja mao, ainda quando não me prejudique. Não
sou só eu na terra. Admittamos que hoje me deixo insultar sem responder
ao insulto; hei de rir talvez, porque não me senti ferido; mas ámanhã
o insultador, que experimentou em mim a sua força, vae tirar a pelle a
outro. Por isto não devemos considerar toda a gente da mesma maneira;
convem reprimir o coração, vêr quem são os inimigos e quem são os
amigos. É justo, embora não seja divertido!
Sem saber porquê, Pélagué pensou em Sachenka e no official. Disse com
um suspiro:
--Como se ha de fazer pão com trigo que não foi semeado?
--Esse é o mal!
No espirito da velha desenhava-se a figura de seu marido, semelhante a
uma grande pedra coberta de musgo. Fantasiou André casado com Natacha,
e o seu filho casado com Sachenka.
O russo-menor e Pélagué tiveram muitas conversas d’este genero. Elle
conseguira metter-se outra vez na fabrica, e entregava todo o seu
dinheiro a Pélagué, que o acceitava naturalmente, como se fosse de
Pavel.
Ás vezes, com um sorriso no olhar, André propunha-lhe:
--Se nós aprendessemos a contar?...
Ella recusava; o sorriso d’André acanhava-a. Pensava, um tanto vexada:
«Se tu ris, para que havemos de falar n’isso?»
Elle notou que a velha era mais frequente em pedir-lhe a significação
de certas palavras; percebia que ella ia-se instruindo ás escondidas, e
por isto deixou de insistir em ensinal-a.
--Vae-me faltando a vista, meu André; sinto-a cançada... disse-lhe, um
dia. Gostava muito de usar uns oculos.
--Está dito! No domingo vamos ambos á cidade consultar um doutor que eu
conheço, e compraremos depois os oculos.