patrio, se, mesmo hypotheticamente, admittisse aqui, para a combater,
a objecção da pobreza. Querer vender, para obter algum conto de réis,
que nos não pode salvar, um chão, que não vendido deve produzir muita
illustração, fôra uma simonia horrorosa, e deploravel, uma torpeza, de
que ninguem seria capaz, ¡quanto mais um Parlamento portuguez!
Outras considerações ha na petição a que alludo, e que vos foi
presente, as quaes de certo vos decidirão a despachal-a, não só bem,
mas immediatamente. Abstenho-me de as reproduzir, e mesmo de ajuntar
outras muitas, não menos ponderosas, por não vos tomar superfluamente o
tempo, que deveis a tantos outros importantissimos, ainda que não mais
importantes, negocios do Estado.
Lisboa, 3 de Maio de 1849
A. F. DE CASTILHO.
IX
Artigo do dia no «Diario do Governo» de 7 de Maio de 1849
«Lisboa, 6 de Maio.
«Um pensamento elevado, patriotico, e civilisador, dotou ha poucos
tempos a Ilha de S. Miguel com uma das mais uteis e illustradas
instituições, que se podem organisar em honra e beneficio da
civilisação_ de qualquer povo. Essa instituição, intitulada Sociedade
dos Amigos das Lettras e Artes em S. Miguel_, deu começo n’esta Ilha
a uma era inteiramente nova para a vida moral e physica dos seus
habitantes.
«Abrindo as suas portas a todas as classes, admittindo em seu seio
todos os que amam e cultivam as Lettras e Artes, todos os que desejam
vel-as prosperar, todos os que aspiram a iniciar-se nos seus mysterios,
de repente se fez poderosa pela concorrencia de muitas intelligencias,
e de muitos exforços encaminhados e excitados por uma alma energica e
perseverante, que é toda enthusiasmo e devoção pelas Lettras, e que
toda se abraza em verdadeiro e acrisolado amor da Patria.
«Dentro em pouco esta Associação, composta de alguns centenares de
pessoas, desde a mais alta nobreza, até á mais humilde profissão,
incluindo as principaes Auctoridades da Ilha, e tendo á sua frente o
seu instituidor e incançavel procurador, o snr. Antonio Feliciano de
Castilho, abriu ao Publico aulas, de leitura, de Doutrina christan,
de arithmetica, de geometria applicada ás Artes, de desenho de figura
e paizagem, de poetica e declamação, de hygiene, de francez para
senhoras, de inglez para homens, de geographia, de encadernação,
de agrimensura, de desenho topographico, de dança, de torno, e de
pyrotechnia; e projecta abrir aulas de economia politica, de historia,
de gymnastica, de natação, de calligraphia, e de musica.
«Algumas d’aquellas aulas, frequentadas por um numero consideravel de
individuos, numero que excedeu toda a expectação, vão dando de si os
melhores resultados.
«Fazendo nas suas salas uma Exposição da Industria michaelense,
reuniu abundantissima copia de productos, tão variados, e muitos tão
excellentes, que apresentaram um quadro bem esperançoso dos progressos
industriaes d’aquella Ilha[14]; quadro que em breve ali se deverá
repetir; accrescentado e melhorado sem duvida pelo poderoso estimulo e
nobre emulação, que o primeiro deveria produzir no animo de todos os
industriaes.
«D’est’arte, esta sabia Instituição vai fazendo convergir para um
centro, para um fim de utilidade geral, as ideias e exforços dos
moradores de S. Miguel; e, ao passo que attrai para esta obra de
interesse publico, vai fazendo tolerantes os partidos; vai-lhes unindo
os homens; vai adoçando os costumes, e moralisando o Povo pelas
relações da intima convivencia, pelos apertados laços do interesse
commum.
«Mas para que o pensamento d’esta Associação se possa desenvolver
como o concebeu seu illustre autor, como o expressam os Estatutos
da Sociedade, já approvados pelo Governo, como o desejam todos os
Socios, e com elles todos os Michaelenses, é necessario um edificio,
com a capacidade e construcção proprias para as diversas escolas, para
as sessões, para uma bibliotheca, para um museu, para um theatro de
declamação, para uma sala de concertos musicos, para as exposições, e
para um basar de productos industriaes.
«Lembrou-se a Sociedade de o construir á sua custa, e para esse fim
encarregou o seu Presidente, o snr. Antonio Feliciano de Castilho, de
vir pedir ao Governo e ás Côrtes a pequena cerca do extincto convento
da Conceição, e a adjacente área e ruinas da egreja de S. José, para
ali se fundarem os estabelecimentos da Sociedade.
«O requerimento já foi presente á Camara electiva, e depois remettido á
Commissão competente. Uma e outra, dando a este negocio a importancia
e consideração que elle merece, esperamol-o com confiança, não só o
hão-de resolver favoravelmente, mas com a brevidade que reclama um
objecto de tamanho interesse publico.»
X
Carta ao redactor da «Verdade,» semanario michaelense
Snr. Redactor
Permitti, que eu tome na vossa folha um pequeno espaço para um acto
de gratidão; dal-o á primeira de todas as virtudes não é perdel-o.
Entendimento superior, vós comprehendeis que os interesses materiaes,
e intellectuaes, que a vossa folha se encarregou de promover, não são
os unicos de que depende a felicidade publica. Tanto, pelo menos, como
esses, contribuem para ella o desempenho dos deveres moraes, e os
affectos nobres.
Arrojou-me a adversidade (¡se por ventura o era!) para esta Ilha com
tudo que eu mais amava. Cheio de boa fé, e com a minha illimitada
benevolencia, mas sob os mais ruins auspicios, desembarquei n’ella;
vinha precisado de amar, e não vi a quem; de trabalhar, e não achei em
quê. A diante de mim tinha vindo a mentira preparar-me o ruim gazalhado.
Anoiteceu-se-me, de todo, o coração, e esmoreci; era mais um
desencantamento, depois de tantos; era a ultima folha verde das minhas
esperanças, a cahir. Onde cuidára que viria renascer entre irmãos, para
uns a outros nos amarmos muito, dei com a peor das solidões, que tal é
sempre a que se encontra entre homens, e que falam a nossa lingua.
Perdôe Deus a quem, sem nenhuma rasão para me querer mal, me calculou,
urdiu, e teceu essa teia de dias perdidos e noites veladas. Por mim lhe
quizera eu tambem perdoar; mas n’esses maleficios tão gratuitos havia
um quinhão, e largo, para entes que eu amava mais que a mim proprio.
¡E, ainda por cima, se veio ao cabo a extranhar-me que eu não
agradecesse o haver-se especulado com a nossa fome e ignomínia! e
porque arranquei as azas do visco com que se me tinham querido prender,
declararam-me guerra peor que de morte, que assim se pode qualificar a
da calumnia. Emfim, perdôe-lhe Deus, já que em mim a natureza humana
não pode tanto.
Mas n’um dia de festa para o coração, como este hoje o é para mim, devo
dar de mão a todas essas coisas feias e desconsoladas, ou antes, hei-de
agradecer a quem, por isso mesmo que então me fez curtir tamanhas penas
d’alma, concorreu (ainda que sem o querer) para dar mais realce ás
delicias que hoje desfruto. São os jejuns do coração os que fazem as
Paschoas do amor.
Passados aquelles primeiros tempos, em que me parecia ter naufragado
para aqui, como para uma praia ou erma ou inimiga, começaram de me
alvorecer dias mais claros. As falsas ideias que de mim se tinham
mandado a diante, foram-se desvanecendo. Conheceu-se, e reconheceu se,
que eu não viera para a terra alheia para genero algum de malevolencia,
quanto mais para a mais perigosa e peor de todas as guerras, a dos
Guelphos e Gibellinos do seculo XIX; que, pelo contrario, toda a
minha precisão era a Poesia e o Amor, corporificados no trabalho,
que illustra e civilisa. Então os amigos começaram, a um e um, a
apparecer-me; e (posso dizel-o, sem que m’o hajam a vaidade) tudo
quanto por ahi havia de melhor em entendimento e vontade, e não era
pouco, se me foi unindo em espirito e trato. Ressuscitei no meu
cemiterio, e vi-o cidade. Na terra do desterro respirei a peito
cheio ares de Patria. Tornei a achar no interior a alma, e n’ella
a esperança, que murcha e não séca. Reaccendi a lampada da minha
fé social; e tal e tanta encontrei, em torno de mim, a boa gente
desejosa, como eu, das coisas do porvir, e da felicitação do mundo
pelo trabalho, que, sem sabermos como, nos vimos de repente Sociedade
poderosa, activa, descrente em impossiveis, e por isso mesmo capaz dos
maiores milagres. Se tal Sociedade os tem feito, muito mundo o sabe já
hoje. Se para o provar não bastassem as obras, os odios dos ruins o
demonstrariam.
Quando, para sollicitar do Governo a approvação d’esta mesma Sociedade,
e do Parlamento um pouco de chão em que ella deitasse raizes, me
pareceu conveniente ir eu a Lisboa, e fui, não levei unicamente
saudades de mulher e filhos; S. Miguel toda era já familia minha; todos
aqui nos queriamos já muito, porque emfim, chegaramos a conhecer-nos
de parte a parte, desfeitas as preoccupações e aleives, que, tambem de
parte a parte, se haviam arteiramente disseminado.
Lá, nem o tráfego dos negocios, nem as multiplices occupações do
espirito, nem o brilho de tamanha cidade, nem o affecto que expiram
de si os sitios conhecidos da nossa puericia e adolescencia, nem os
emboras e cortejos da Imprensa obsequiosa, nem mesmo os testemunhos
tão solemnes de apreço, que á porfia me davam todos esses mancebos,
esperanças e já ornamentos da Litteratura e Poesia nacional, nada me
poude entibiar as saudades da minha Ilha, d’este benigno e pacifico
torrão, em que eu fizera mais e melhor que nascer, pois renascêra
n’elle.
Mais que nenhuma outra coisa, estes tres mezes de ausencia me
descobriram quanto lhe eu queria.
¡Oh! se de mim dependesse o tão facil melhoramento dos seus destinos! A
voz, e a penna, essas sim que as empreguei eu incessante em lhe advogar
os interesses da fortuna e do credito; em quanto, por ventura ou por
desgraça, filhos seus, deslembrados do solo com quem nascimento e uso
os travaram em parentesco, empregavam a occultas todos os empenhos e
valimentos para lhe empecer (e Deus sabe se em parte o não conseguiam),
era eu, extranho e obscuro, quem, servindo á verdade e á justiça, lhe
pagava, como podia, a minha divida de gratidão.
Ao regressar, os dias me pareciam não acabar nunca, e os sonhos das
noites me vinham todos povoados de imnumeraveis e cordeaes abraços, de
emboras, perguntas e respostas de bons amigos, de caricias domesticas,
de escolas vicejantes, de salas de industria, da musica do trabalho, de
toda a poesia das esperanças.
Se metade d’isso, que eu vim gosando embalado pelas ondas, por baixo
da immensidade do Ceo, e não me afastando de uma Patria, senão para me
aproximar a outra, se a metade d’esses sonhos se realisar, S. Miguel
dentro em poucos annos será visitada de toda a parte com admiração e
encantamento, que para tudo, mesmo para a realisação das mais altas
utopias do bem, são a sua terra, os seus haveres, e as almas dos seus
moradores.
Nem lisonjeio, snr. Redactor, nem cuido que o bem-querer me desvaire.
As provas do futuro que antevejo, já todos as palpâmos no passado, e
sobretudo no presente.
Apoz dez dias levados no ocio, a sós com a minha alma, n’estas suaves
cogitações, imaginae, snr. Redactor, qual não seria o meu enlevo,
quando, ao aportarmos aqui, pelo sol de uma formosa tarde, que é tambem
esperança, me vi de repente cercado de saudações e festejos, entre os
braços de tudo que mais amo, recebido em verdadeira ovação de amisade,
conduzido pelo braço de minha esposa, entre os meus filhos e os meus
consocios, ao som do Hymno da Industria, ao estrépito de foguetes, por
baixo de flores, e atravez do nosso bom Povo apinhado pelas ruas, até
dentro de minha casa!
Eis aqui, snr. Redactor, o que eu para desafogo de tantos affectos
accumulados no peito, carecia de escrever.
¡Agradecer!?....¿Como hei-de eu agradecer o que apenas cabe em
expressão?
A benevolencia de uma grande cidade, ¿como pode retribuil-a quem, por
uma parte, só possue os bons desejos, e por outra, se sente confundido
e aniquilado com a grandeza mesma do obsequio?
Sr. Redactor, se eu não tivesse já antes consagrado a esta generosa
terra tudo quanto em mim ha de amor e querer, agora lh’o consagrára
para todo sempre, e ficaria ainda empenhado.
Snr. Redactor, o dia _25 de Maio de 1849_ foi o mais bello dos meus
quarenta e nove annos. Egual ou superior a este, só poderá alvorecer
para mim, quando eu a vir tão prospera quanto ella o merece, e o pode
ser.
VOSSO, etc.
ANTONIO FELICIANO DE CASTILHO
Ponta Delgada 25 de Maio
á meia noite.
* * * * *
N. B. Á precedente carta fizeram varias folhas de Portugal a honra de a
reproduzirem, liberalisando por esta occasião ao autor testemunhos de
benevolencia, que para toda a vida o empenharam em agradecimento.
¡É tão suave para um homem o sentir-se amado! ¡e amado por espiritos
distinctos! ¡e amado, até ao ponto de lhe supporem mais de virtudes e
meritos do que em realidade possue, e ha-de nunca possuir!
Ainda a risco de ser havido por vaidoso, o autor succumbe á tentação de
apresentar aqui a seus leitores, isto é, a muitos outros amígos seus,
uma das mais floridas e ricas mostras de tão parcial e enternecedora
benevolencia; é o preambulo que á predita carta pôz _O Pharol_, folha
verdadeiramente notavel por sua litteraria elegancia, pelo fogo e
independencia de seus juizos, pela sua aspiração forte e constante para
o Bello.
A proverbial severidade das criticas do _Pharol_ faz ainda sobre-sahir
para a gratidão o preço do que se vai ler. ¡Quantas feridas e penas
d’alma se não suavisam e curam com o balsamo de expressões taes!
XI
Artigo extrahido do numero 10 do «Pharol» periodico de Lisboa
_O Senhor Antonio Feliciano de Castilho e os Michaelenses_
«Todos sabem que o sr. Castilho tem titulos valiosos á admiração e
ao respeito da Patria, que elle tem sempre honrado e servido com a
sua dedicação e com o seu genio. Vivos andam na memoria de todos,
os nobres exforços que elle tentou, para rehabilitar as Lettras
portuguezas, e trazer a formosa lingua nacional á competencia com os
mais ricos, flexiveis, elegantes, e expressivos idiomas do mundo.
Sabidos e decorados, se multiplicam, mais pela voz que pela imprensa os
harmoniosos trechos do poeta mais sonoro, mais sabedor, mais correcto,
se não o mais inspirado dos poetas nacionaes contemporaneos.
«Como os grandes genios, o sr. Castilho tem purificado a sua alma pelas
amargas provações da adversidade. Como todos os grandes talentos, tem
visto os invejosos e mesquinhos urdirem-lhe no silencio as insidias,
com que a mediocridade se desforça do talento.
«A sua corôa de poeta não se tem afeminado com as complacencias de
uma vida descuidosa e opulenta. Não é o poeta funccionario, com
avultadas pensões para entoar cantos cortesãos e mentidos. Não é o
poeta-agitador, fazendo servir as inspirações do estro á apotheóse dos
corrilhos de facção. Não é o poeta-aristocrata, dedilhando a lyra por
elegancia, e entoando os dithyrambos da indifferença e da sociedade.
É o poeta-poeta; é o homem que canta, porque nasceu para cantar; que
ama o Povo, porque o Povo é grande; que o não adula porque não espera
d’elle recompensas faustosas. É o homem que respondeu ao ostracismo,
com que lhe celebraram a reputação, indo contar aos Michaelenses, que o
acolheram, não os queixumes amargos do ressentimento, mas as maravilhas
da nova civilisação; que levantou ali um brado generoso de melhoramento
physico e moral; que falou áquelle Povo dócil e industrioso a linguagem
florida e eloquente da Poesia, para lhe apontar as novas sendas do
Progresso; e que teve a gloria de crear mais prosélytos com os seus
hymnos de paz, com as suas homilias ferventes, do que muitos estadistas
com as suas portarias severamente formuladas, com os seus orçamentos
capciosos e inextricaveis.
«Póde-se dizer que o snr. Castilho realisa em S. Miguel o mytho de
Amphion, alevantando os muros de Tebas ao som mavioso e brando da sua
lyra melodiosa.
«O sr. Castilho é o novo thaumaturgo do Progresso. Á sua voz a
civilisação marcha impetuosa, e inaugura-se na humilde possessão de
Portugal. A Industria exalta se, a Agricultura acorda. As Artes, em
convivencia fraternal, auxiliam-se mutuamente. A Instrucção derrama-se
gratuitamente pelas classes menos favorecidas da população. Os costumes
como que se humanisam, deixadas as tristes controversias da lucta
politica; e os habitantes da Ilha afortunada celebram com ineffavel
júbilo e extremada sinceridade o poeta, que foge da metrópole para
viver com elles, trabalhar pela commum prosperidade, illustral-os pela
sua doutrina, e animal-os com o seu infatigavel exemplo.
«É para satisfazer á divida de reconhecimento que o snr. Castilho
contrahiu para com os bondosos michaelenses, que, ao pisar de
novo aquellas praias abençoadas, elle publicou a carta que abaixo
transcrevemos, modelo de devoção civica, de affectuosa eloquencia, e de
simpleza de coração.
¡«Quantos tribunos ephémeros, quantos dictadores ciosos, que se dizem
alevantados pelo suffragio do Povo, folgariam de poder escrever estas
linhas de congratulação, com a mão na consciencia, com o assentimento
voluntario de uma população inteira, que repete n’um côro numeroso o
refrão do bello Hymno da Industria michaelense:
Trabalhar, meus irmãos, que o trabalho,
é riqueza, é virtude, é vigor.
D’entre a orchestra da serra e do malho,
brotam vida, cidades, amor.
NOTAS DE RODAPÉ:
[14] Na Secretaria do Reino deve existir a magnifica relação, que
d’isso dirigiu ao Governo o sr. D. Pedro da Costa de Sousa de Macedo,
então Governador Civil do Districto. N’esse papel pedia o mesmo snr.
que o autorisasse o Throno a deduzir do cofre central uma pequena
quantia para premios industriaes, além dos que elle do seu bolsinho
particular tencionava offerecer para a seguinte Exposição.
CASTILHO.
FIM DO PRIMEIRO VOLUME
NOTAS
Retrato de Castilho
Ha coincidencias notaveis; é conveniente não as desaproveitar; parecem
arabescos na sobrehumana calligraphia da Providencia.
O retrato com que se adorna este volume, é reproducção em photogravura,
pelo talentoso artista o sr. Thomaz Bordallo Pinheiro, de um pequenino
esboceto pintado por seu excellente pae, o notavel sr. Manuel Maria
Bordallo Pinheiro. ¿Quem diria ao pintor, que, cincoenta e quatro annos
andados, um filho, ainda então por nascer, havia de reproduzir a sua
obra?
O esboceto foi pintado do natural, na casa onde o artista habitava,
rua da Fé, palacete á direita subindo, em alguma visita que lhe fez
Castilho na demora de quasi tres mezes que passou em Lisboa (27 de
Fevereiro a 15 de Maio de 1849), achando-se então de residencia na Ilha
de S. Miguel. Appareceu no espolio do eximio artista, e foi offerecido
a um filho de Castilho.
Vê-se que estava apenas em principio; mas é, ainda assim, documento
precioso, já pela semelhança, que ia bem encaminhada, já pela intenção
affectuosa que motivou tal trabalho.
O velho Bordallo Pinheiro foi muito admirador e amigo do Poeta, e este
ufanava-se de lhe retribuir eguaes sentimentos.
Pag. 12, lin. 3 e seg. =Polemicas=.
Houve, com effeito, folicularios mal ensinados, que pretenderam
inculcar ser Castilho um revolucionario perigoso, uma especie de
demagógo subvertedor de usos antigos e arraigadas crenças; isso deu
aso a guerras crueis, cuja memoria não desejamos evocar aqui, mas que
muito amarguraram o sincero Poeta. Quem ler com attenção este livro,
verá quanto eram infundadas taes accusações. O livro é innovador, e não
desordeiro; amante, e nunca hostil. Lamenta o que vê, deseja o bem,
e procura remedio aos males que nos affligem. Interpretar as utopias
theoricas pelo lado demolidor, é não as entender.
Pag. 27, lin. 7 e 12. =Gessner=.
São tristissimas as vicissitudes da reputação dos poetas. Ha nomes,
que, depois de encherem o mundo, esquecem miseravelmente á propria
phalange dos homens de Lettras.
Salomão Gessner, que no seu tempo foi um luminar, tanto pela belleza
da forma dos seus livros, como pela sua moral, de poucos Allemães é
hoje lido e conhecido a fundo. Castilho, que desde a meninice o leu, o
tratou, o venerou, e até alguns dos seus idyllios traduziu, e imitou
outro, conservou sempre ao virtuoso cantor suisso um verdadeiro culto.
Para os que hoje entre nós ignoram quem foi Gessner, duas palavras
biographicas:
Nasceu em Zurich em 1730. Homem bom, quanto se pode ser, benefico,
optimo marido, optimo cidadão começou por typographo; o trato intimo
com as _lettras_ elevou-o ao conhecimento das _Lettras_; graças á
sua applicação e perseverança, tornou-se Gessner um verdadeiro filho
dilecto do Publico: já pela graça e singeleza dos seus idyllios, já
pela moral pura e santa que todos elles respiram. Em toda a parte onde
appareceu recebeu provas de apreço, até das testas coroadas. Falleceu
em Zurich a 2 de Março de 1787.
A celebre Madame de Genlis conta da seguinte maneira uma sua visita ao
poeta suisso:
«Tinha-me Gessner convidado para o ir ver á sua casa de campo; e eu
estava curiosissima de conhecer a mulher com quem elle casára por
amor, e que o soube inspirar. Imaginava-a uma especie de pastorinha
encantadora, e phantasiava a habitação de Gessner como uma choupana
elegante, circumdada de vergeis e flores; ali, segundo eu pensava,
só se bebia leite, e se pisavam pétalas de rosas Chego, atravesso
um resumido quintal, cheio de cenoiras e couves; isto, confesso,
começou a perturbar seu tanto os meus devaneios bucolicos e idyllicos.
Entrei na sala, e ¿que vejo? No meio de uma fumaceira densa de
tabaco, avisto Gessner a fumar cachimbo, e a beber cerveja; ao lado
d’elle sentava-se a mulher, com a sua grande touca, e a fazer meia.
O acolhimento de ambos, a doce união d’aquellas almas, o seu affecto
para com os filhinhos, a singeleza de tal quadro, tudo isso me pintou
ao vivo os singelos costumes pastoris que o poeta costumava cantar.
Assisti pois a um idyllio, presenceei a edade de oiro, não em poesia
brilhante, mas sob o seu aspecto vulgar e desataviado.»
Pag. 27, lin. 8 e 12. =Klopstock=.
Klopstock (Pedro Gottlieb) autor do poema epico _Messiada_, nasceu
em Quedlinburg(?) a 2 de Julho de 1724. Cursou as melhores escolas
superiores da Allemanha, concluindo na Universidade de Leyde o curso
theologico. Desposou uma notavel e talentosa mulher, Meta Moller,
fallecida em 1758. Foi muito protegido por el-Rei Frederico V, de
Dinamarca. Os merecimentos d’este poeta como linguista e estylista são
muito apreciados dos entendedores. Castilho elogiava com enthusiasmo
a _Messiada_. Este denominado _Pindaro_ da Allemanha falleceu a 13 de
Março de 1803.
Pag. 29, lin. 28 =Zimmermann=.
Allude Castilho ao celebre livro _Da Solidão_, por Zimmermann; obra de
pensador, evangelho para solitarios, consolação para tristes; livro
bom e optimo, que é lastima se não reproduza entre nós em traducção.
Castilho prezava muito esta obra, lia-a, relia-a, e fazia-a estudar aos
filhos.
Pag. 36, lin. 34 e seguintes até ao meio da pag. 37.
Esse admiravel periodo que principia: _N’uma palavra: um observador
attento_, é de eloquencia rara. Diz um critico entendedor o seguinte:
Este trecho só um cego o podia escrever; ha ahi uma observação muda,
uma attenção intelligente, que só o sexto sentido que possuem os
cegos de talento sabia expressar. Percebe-se a contenção do ouvido do
corpo, e ainda mais a do ouvido da alma. É uma esplendida manifestação
de forma e de pensamento; é a linguagem do silencio das noites; é a
intuição das trevas.
Pag. 47, lin. 14. =Diario do Governo=
Refere-se Castilho ao _Diario_ como propagandista nato de sans
doutrinas. É preciso notar que até certo prazo a folha official teve
entre nós uma feição litteraria, e não se limitava a simples registo
impresso da chancellaria governamental. Era superintendida por um
redactor, _persona grata_ ao Ministerio reinante, sujeito illustrado
e habil; publicava noticias estrangeiras, artigos de litteratura,
polemicas serias, etc. Por isso o nosso poeta dizia que o _Diario_
devia e podia entrar na propaganda de theorias civilisadoras, mais e
melhor que outras folhas.
Pag. 63, lin. 4, =Ayres de Sá=.