o jornal verdadeiramente cartista de S. Miguel, _A Verdade_, os
tem enthesoirado; o jornal mesmo da opposição n’aquella ilha os
tem recebido com louvor; o Povo, com agradecimento; o Throno, com
satisfação. Quanto a mim, homem obscuro, e quasi sem forças proprias
além da boa-vontade, relevar-se-me-ha que n’um jornal, destinado a
viver como livro, lance como um protesto contra calumniadores, a menção
do pouco bem que desejei, e talvez consegui, fazer em terra portugueza.
Não é por vangloria que me faço Homero da minha Iliada; é porque o
curar do bom-nome é um dever religioso; e apresentar estimulos para que
outros façam mais e melhor, um dever social; e o deixar exemplos de
Patriotismo a filhos, um dever natural, o mais suave e o mais santo de
todos os deveres.
Entre as lastimas, que em S. Miguel fui descobrir (bem contra o
que de tal Ilha me haviam pintado), as que mais me doeram foram: a
grande mingua de instrucção para o Povo, aliás aptissimo para toda a
especie de boa doutrina; a carencia de estimulos, que de alguma sorte
neutralisassem a perguiça natural; e a pouquissima, e quasi nenhuma,
convivencia dos moradores.
A todos estes males me pareceu que poderia acudir uma Sociedade, se
jámais se chegasse a organisar, que sinceramente posesse peito a crear
escolas com bons methodos; a accender emulações entre artistas e
artifices; e a pôr no possivel contacto as differentes classes.
Uma Sociedade de Agricultura, que já ali existia, prestantissima para
o seu grande fim, era comtudo extranha a todos estes, que a mim se me
representavam como de primeira necessidade e urgencia. Coadjuvando pois
os empenhos d’essa Sociedade exemplar, como redactor que tive a honra
de ser, do seu periodico, e com algumas propostas, que ella se dignou
de me acolher benevola[8], comecei a tratar, ao mesmo tempo, com alguns
poucos amigos, de instituir outra, e mais ampla, Sociedade de Lettras e
Artes.
Nunca jamais a fortuna sorrira tão benigna a projectos meus. Crescemos
de semana para semana, até ao ponto de em minha casa não cabermos,
ser-nos forçoso irmos celebrar no theatro as nossas sessões, e
passarmos hoje de quatro centos, incluindo-se n’esta conta o Prelado,
o Vigario geral, o Governador Civil, o Militar, o commandante da força
armada, o Administrador do Concelho, o Presidente da Camara Municipal,
o Presidente e outros Juizes da Relação, o Juiz de Direito, o Delegado
do Procurador Regio, em summa, tudo que a cidade de Ponta-Delgada
possue de mais alto, de mais illustre, de mais instruido, e de mais
patriotico, sem falar em muitas senhoras respeitabilissimas, que
promptamente se fizeram inscrever para esta cruzada de civilisação.
A Sociedade acha-se pois por sua parte constituida, e os seus estatutos
já subiram á Real Presença para obterem approvação. Os beneficios
que ella tem produzido, sendo apenas recem-nascida, se não egualam,
nem ás publicas necessidades, nem aos nossos desejos, são já todavia
attendiveis, e promettedores de muito maiores.
A Exposição da Industria Michaelense, desde o dia de Natal do anno
proximo passado até muito depois dos Reis, foi mais que um espectaculo
imprevisto e maravilhoso: foi um fomento efficacissimo ao trabalho
e natural habilidade dos habitantes. Quatro grandes salas continham
apenas os productos, que ahi se apinharam, offerecidos á admiração de
cerca de vinte mil visitadores, incluindo n’esse numero os repetentes.
Em todos os generos appareceram primores, e muitos em desenho e
pintura, em gravura, em escultura, em flores artificiaes, de seda, de
lan, de cabello, de pennas, de cera, de conchas; bordados, obras de
ourives, de galvanisador, de doirador, de ferreiro, de serralheiro, de
cuteleiro, de carpinteiro, de marceneiro, entalhador e torneiro, de
machinismo, de tecelagem, de fiação de linho, de algodão, e de seda; de
encadernação, etc., etc., etc.
A Ilha mesma ficou admirada das riquezas industriaes, que possuia sem
o saber. Accenderam-se-lhe novos brios com este documento irrefragavel
de suas forças; e tudo nos faz esperar, que a seguinte exposição não
cederá a esta em esplendor. O que n’este momento as Ilhas Canarias
estão forcejando por conseguir, já existe pois nas dos Açores, graças
ao poder da associação.
As escolas são outro bem, menos brilhante sim, porém ainda mais sólido
que o precedente.
As que no gremio da Sociedade se acham já trabalhando, são:
tres de Leitura;
uma de Doutrina christan;
uma de Arithmetica;
uma de Geometria applicada ás Artes;
uma de Desenho de figura e paizagem;
uma de Poetica e Declamação;
uma de Hygiene;
uma de Francez, para senhoras;
uma de Inglez, para homens;
uma de Geographia;
uma de Encadernação.
AULAS ABERTAS, MAS AINDA Á ESPERA DE DISCIPULOS
uma de Agrimensura;
uma de Desenho topographico;
uma de Dança;
uma de Torno;
uma de Pyrotechnia.
AULAS EM PROJECTO
uma de Economia politica;
uma de Historia;
uma de Gymnastica;
uma de Natação;
uma de Calligraphia;
uma de Musica.
Das aulas em actividade, as que teem dado mais satisfatorios resultados
são: as de Leitura, a de Arithmetica, a de Geometria, e a de Desenho
de figura e paizagem, que, por ter sido de todas a primeira fundada, e
a que abriu tão nobre exemplo, merece especial menção. É regida pelo
Director do _Lyceu Açoriano_, o snr. Pedro de Alcantara Leite.
Em realidade, meu bom Amigo, ha já, n’aquelle nascente complexo de
estudos uteis, alguma coisa que para o nosso mesmo Portugal poderia
servir de exemplo. A ordem e a boa policia das classes; o canto
religioso, com que os alumnos se preparam para o trabalho, invocando
a Graça Divina[9]; o amor que manifestam aos seus generosos mestres,
sem prejuiso do respeito e da attenção; o contentamento com que ás
lições assistem; o fruto que tiram dos methodos simplices, racionaes, e
aprasiveis, que ahi se empregam; tudo isto é já muito, e não é senão um
começo; pois somos de hontem, se pode dizer.
O que os _Amigos das Lettras e Artes_, que já por ahi algum velhaco
semsabor, por ter talvez ouvido falar de phalansterios, acoimou de
_phalansterianos_, o que os _Amigos das Lettras e Artes_, digo, teem já
concorrido para desenvolver o espirito de sociabilidade, nem os mais
pirronicos o poderiam negar.
O oitavario de Santa Cecilia[10], por elles celebrado, com poesia
e musica, no theatro de S. Sebastião; as tres noites de saráu
artistico, no decurso da Exposição; as proprias sessões ordinarias;
são documentos incontroversos d’esta verdade. Ahi se teem visto, e
se vêem, reunidos, misturados, com a mais irreprehensivel decencia,
com perfeita satisfação mutua, os artifices, os artistas, os nobres, e
os litteratos; o morgado, e o operario que sua e véla para sustentar
os filhos; os magistrados mais consideraveis, as damas das melhores
familias, e o mechanico sem nome, mas não sem virtudes. ¡Feliz
commercio, em que todos lucram! os pequenos, aprendendo, no trato das
pessoas educadas, as maneiras faceis, elegantes, decentes, que lhes
faltavam; os grandes, educando assim indirectamente o povo, com quem
é forçoso viverem, e forrando-se por consequencia, para o futuro, o
dissabor de muita grossaria.
Se d’estes _phanlasterios_ se pode alguem queixar, não serão senão
os apologistas da taberna, e certas outras casas não menos moraes e
honestas.
O amor do trabalho tem recebido notavel impulso do complexo de tudo
isto, e de outra causa ainda, que fará rir os nescios, mas que nenhum
espirito dotado de philosophia deixará de entender: falo do _Hymno do
trabalho_[11], brilhante composição musica de um dos Socios, o snr.
Moraes Pereira.
Este Hymno tornou se de repente o mais popular dos cantos em toda a
superficie da Ilha; as vozes, os instrumentos, o assobio, o repetem
de continuo pelas ruas, pelas salas, pelas officinas, na lavoira, no
theatro, nas escolas, em toda a parte. Áquella constante exhortação
Trabalhar, meus irmãos, que o trabalho
é riqueza, é virtude, é vigor.
D’entre a orchestra da serra e do malho
brotam vida, cidades, amor.
tem-se visto muito braço, que desfallecia com a perguiça, reforçar-se
para a tarefa. O malho e a serra mesmos, como que se magnetisam. Se
eu tivesse uma officina de qualquer industria, quereria que os meus
obreiros cantassem, em côro e a miudo, aquelle Hymno. Se a grave
Allemanha me ouvisse isto, não me negaria a rasão.
Aqui tem, meu bom Amigo, o que é já hoje a incalumniavel _Sociedade dos
Amigos das Lettras e Artes em S. Miguel_. ¿Os seus destinos ulteriores,
quem os calculará? Avivente-a Deus, que teem de ser immensos; ¡tantos,
tamanhos, e tão esperançosos são os bons engenhos, habilidades, e
desejos d’aquelles nossos optimos irmãos insulanos!
Para assegurar, do possivel modo, força e estabilidade a tal instituto,
em terra tão necessitada, e tão propria d’elle, pareceu-me que devia
a Sociedade radicar-se, e tornar-se independente de inconstancias e
entibiamentos de vontades. Para isto, duas coisas eram, a meu ver,
necessarias: grangear-lhe casa, e dote.
De um e outro alvitre me riram a principio, como de utopia rematada.
Nem por isso descoroçoei. Puz-me á capa aguardando monção, e não tardou.
Hoje, nem na Sociedade nem fóra d’ella ha já quem não acredite
firmemente em que de donativos e esmolas, esmolas em dinheiro, em
generos, e em trabalho, havemos de levantar um dote e uma casa á
Sociedade, assim como os Frades erigiram conventos, e para os conventos
grangearam rendas. Os Frades pediam em nome do Ceo, eram acreditados,
obtinham; nós havemos de pedir em nome da humanidade, e do Ceo tambem,
e havemos de obter egualmente, porque o nosso pequeno passado é já, aos
olhos de toda a gente, o fiador do nosso prestimo.
A casa que meditamos, e que eu já d’aqui antevejo feita em menos de um
anno, é para as nossas escolas, para o nosso theatro de declamação,
para as nossas sessões, para a nossa bibliotheca, para o nosso museu,
para as nossas exposições, para os nossos concertos musicos, para o
nosso basar de productos industriaes, em summa: para toda a especie de
bons serviços publicos. ¿Como poderia o Publico deixar de nos favorecer
na edificação, até lhe pôrmos a ultima telha, o ultimo prego, e o
ultimo vidro? Elle e nós havemos de acarretar, todos, pessoalmente,
a pedra a areia se fôr preciso. Nós por entre elle havemos de ir de
povoação em povoação, de casal em casal, sem vergonha e com alegria, a
pé e de sacco ás costas, mendigando para a obra santa.
Quando nós e o povo assim estamos determinados a cumprir o nosso dever
¿poderiam o Governo e o Parlamento, que são a providencia grande do
Reino, deixar de nos coadjuvar? Não podiam nem podem.
É por isso que, a par dos Estatutos para a Real approvação, eu já
fiz subir ao Throno a petição com que, em nome e como presidente da
Sociedade, supplico se nos conceda um pequeno terreno nacional, ha já
annos devoluto, sobre que edifiquemos. Grande, pingue, rendosissimo que
elle fosse, nol-o deveriam outorgar, pois nenhum uso se poderia jámais
d’elle fazer mais proveitoso e abençoavel do que este.[12]
¡Oxalá que em muitas partes do Reino se levantassem institutos eguaes,
sollicitando e obtendo eguaes ou ainda maiores concessões!
Para mais facilitar a graça que sollicitamos, e ao mesmo tempo para nos
adstringir mais á observancia dos nossos deveres, eis aqui uma clausula
do requerimento, consignada não menos nos Estatutos:
Se em algum tempo (o que Deus não permitta) a Sociedade dos Amigos
das Lettras e Artes deixar de existir, isto é, se algum dia deixarem
de apparecer as suas obras beneficas, a sua casa e bens passarão para
o usufruto do Hospital do Districto, e lá ficarão até que, ou com os
mesmos individuos ou com outros, mas com os mesmos estatutos, e para os
mesmos fins, a Sociedade reappareça.
Meu caro e incançavel obreiro de civilisação, apadrinhe com a grande
autoridade da sua philosophica e eloquente folha, esta petição, a mais
justa, a mais desinteressada, a mais nobre, que em nenhum tempo se fez;
não para que a despachem, que para ahi não cabem duvidas, mas para a
maior brevidade do despacho.
Cada dia que se perde para as obras de instrucção e moralisação é um
mal, e são males infinitos que se não ressarcem.
De V. S. etc.
ANTONIO FELICIANO DE CASTILHO.
NOTAS DE RODAPÉ:
[7] De feito, nem um appareceu; mas os mexericos sollapados
progrediram, e por derradeiro triumpharam.
Castilho.
[8] Acham-se impressas no 2.ᵒ tomo do _Agricultor Michaelense_.
CASTILHO
[9] Este canto no fim da presente carta se pode ver.
[10] Foi uma esplendida festa. A 2.ᵃ das tres peças de poesia que se
acham depois d’esta carta é o Hymno de Santa Cecilia, que o autor para
esse fim compoz.
[11] No fim d’esta carta se publica apoz o _Hymno de Santa Cecilia_.
CASTILHO.
[12] Pelo Ministerio do Reino nada foi possivel conseguir-se; rasão por
que, perdidas d’aquella parte as esperanças, se recorreu ao Parlamento,
com a petição que ao diante se lerá.
CASTILHO.
II
INVOCAÇÃO A DEUS
ANTES DE COMEÇAR O ESTUDO
Posta em musica, para uso das escolas dos Amigos das Lettras
e Artes em S. Miguel
pelo Snr. Dr. João José da Silva Loureiro
e 2.ᵃ vez em Lisboa pela Snr.ᵃ D. Carolina Smith Rosier
Tu cujo amor em canticos
celebram sem cessar
o mundo dos espiritos,
o Ceo, a terra, o mar,
¡Senhor, acolhe as supplicas
de pobres filhos teus!
¡Illustra-nos! ¡melhora-nos!
¡ampara-nos, ó Deus!
«A luz--disseste--faça-se.»
E a noite em luz se fez.
Dissipe egual prodigio
a sombra em que nos vês.
Nas trevas da ignorancia
não medra o santo amor.
¡Illustra-nos! ¡amemo-nos!
¡Senhor! ¡Senhor! ¡Senhor!
III
HYMNO DE SANTA CECILIA
NA FESTA DA SOCIEDADE DOS AMIGOS DAS LETTRAS
E ARTES EM S. MIGUEL
POSTO EM MUSICA PELA SNR.ᵃ D. LEONOR VIDAL DALHUNTY
Musa das castas citharas
de ethérea melodia,
Anjo, Mulher, Cecilia,
¡salve em teu festo dia!
¡Da terra aos Ceos elevem-se
nas azas das canções
a ti nossos espiritos
e nossos corações!
Melhor que o incenso, a musica,
do ideal linguagem bella,
os ineffaveis jubilos
á mente nos revela.
Dos sentimentos plácidos,
do amor, da paz, do bem,
ella, invisivel mágica,
ella o segredo tem.
Musa christan, confirma-nos
o ardor que ao bem nos guia.
Auspicioso aos miseros
finde o teu festo dia.
IV
HYMNO
DA SOCIEDADE DOS AMIGOS DAS LETTRAS E ARTES.
EXHORTAÇÃO AO TRABALHO
COM MUSICA DO SNR. JOÃO LUIZ DE MORAES PEREIRA
VOZ
No regaço do luxo a opulencia
os cançassos do ocio maldiz.
Entre as lidas sorri a indigencia;
co’o pão negro se julga feliz.
CÔRO
Trabalhar, meus irmãos, que o trabalho
é riqueza, é virtude, é vigor.
D’entre a orchestra da serra e do malho
brotam vida, cidades, amor.
VOZ
Deus, impondo ao peccado a fadiga,
té na pena sorriu paternal:
só quem vence a perguiça inimiga
reconquista o edén terreal
CÔRO
Trabalhar, meus irmãos, etc.
VOZ
¿Quem dá graças aos Ceos ao sol posto?
¿Quem lh’as dá vendo a aurora raiar?
É o obreiro; o suor lhe enche o rosto,
mas seus dias não turva o pesar.
CÔRO
Trabalhar, meus irmãos, etc.
VOZ
O que vive na inercia aborrida
não somente é de irmãos roubador;
é suicida, e mais vil que o suicida;
é suicida, a quem falta o valor.
CÔRO
Trabalhar, meus irmãos; etc.
VOZ
Caia opprobrio no vil ocioso,
que desherda o presente e o porvir.
Só á noite compete o repouso;
só aos mortos o eterno dormir.
CÔRO
Trabalhar, meus irmãos, etc.
VOZ
Mar e terra, ar e ceo, tudo lida.
Deus a todos poz luz e deu mãos.
Lei suprema o trabalho é na vida.
¡Trabalhar, trabalhar, meus irmãos!
CÔRO.
Trabalhar, meus irmãos, que o trabalho
é riqueza, é virtude, é vigor.
D’entre a orchestra da serra e do malho
brotam vida, cidades, amor.
V
Extracto da «Revista Universal Lisbonense» de 26 de Abril de 1849
«A hora muito adiantada tivemos noticia do Requerimento, que ao diante
publicamos, dirigido á Camara dos Senhores Deputados pelo Snr. A. F. de
Castilho, como Presidente da Associação dos Amigos das Letras e Artes
estabelecida em S. Miguel. Sobre a importancia e grande urgencia do
assumpto diz o Requerimento quanto basta para que a Camara não demore
uma decisão, que será para ella um padrão de gloria, que não morre.
«É para louvar o modo honroso, com que o Secretario, o snr. Mexia,
apresentou este Requerimento. Oxalá que tão bom principio seja signal
de breve e favoravel resolução.[13]
«Em o numero proximo, e na presença de documentos e factos
incontestaveis, faremos por chamar a attenção do Governo, da Camara, e
do Publico, sobre materia de tão alto interesse»
NOTAS DE RODAPÉ:
[13] Adiante se encontra a fala do sr. Mexia.
CASTILHO.
VI
Requerimento á Camara dos Senhores Deputados
SENHORES:
Existe hoje nos confins dos estados Portuguezes uma Sociedade,
talvez sem exemplo, que nasceu grande, possante, auspiciosa, e, em
poucos mezes de existencia, apresenta já momentosos, copiosissimos,
e incontestaveis resultados para a illustração e ventura do Publico.
Esta Sociedade é a dos Amigos das lettras e artes em S. Miguel, cujos
Estatutos já em 3 do corrente Abril foram confirmados por S. M. F.
Quando se vê, Senhores, o que uma tal organisação germinalmente
contém de sciencia de moralidade, de prosperos fados para as gerações
que teem de vir, e já mesmo para esta, é impossivel não a abençoar,
desejando-lhe vida sem limite. Para o fim de a conseguir, ella pôz
no remate dos seus Estatutos, como chave de abóbada, a declaração de
que era immortal, como o sentimento de beneficencia que a produzira;
e, para realisar esse nobre sonho de ambição humanitaria, determinou
fundar para si, isto é: para suas escolas, bibliotheca, museu,
representações scenicas, exposições, etc., uma formosa casa, e uma
dotação sufficiente; com a expressa condição de que, se por algum
imprevisto concurso de circumstancias, a sua benefica existencia
cessasse de se manifestar, dotação e casa passariam _ipso facto_ para
o usufructo do Hospital de Ponta-Delgada, o qual, a todo o tempo que
a mesma Sociedade recomeçasse os seus trabalhos, ficaria obrigado a
fazer-lhe de tudo fiel e promptissima restituição; providencia esta,
que mereceu a approvação de S. M. F., como sem duvida obterá tambem a
vossa.
A Sociedade não se dissimula, Senhores, que uma casa e uma dotação
assim, tanto não são empreza facil, que á primeira vista devem parecer
um puro sonho de devaneadores philanthropicos. Entretanto não ha já
hoje n’aquella Cidade e Ilha, quem não esteja convencido da mais que
probabilidade da realisação certa de tal _desiderandum_, só pelo meio
dos donativos, esmolas, e serviços gratuitos, tanto dos Socios, como de
extranhos á Sociedade; ¡graças aos milagrosos frutos, que todos teem
visto brotar da nossa Exposição da Industria michaelense, e das nossas
incançaveis Escolas, de ler, de arithmetica e geometria applicada
ás Artes, de Doutrina christan, de desenho de figura e paizagem, de
francez, de inglez, de poetica e declamação, de musica, de hygiene,
etc..
A perguiça, doença esporádica em toda a parte, mas ali peste geral
e antiquissima, tem já singularmente diminuido com esta maravilhosa
excitação dada a todas as coisas uteis pela Sociedade dos Amigos das
Lettras e Artes; o Hymno do trabalho canta-se já em toda a superficie
da Ilha, e o seu amor vai-se filtrando do canto para as obras.
¿Como poderia pois a população deixar de contribuir gostosa com
esmolas, que a final não são dadas senão a ella mesma e a seus filhos?
Com esmolas de cobre se fundaram e dotaram conventos, como palacios de
Monarchas, nos seculos de Fé. ¿N’esta edade de interesses materiaes,
e de illustração, poderia o bom senso fazer menos em favor do nosso
Instituto?
A Sociedade vem pois, Senhores, á vossa respeitavel presença supplicar
lhe coadjuveis a projectada edificação do seu Solar de Lettras e
Artes, cedendo á mesma Sociedade a pequena cêrca do extincto convento
da Conceição d’aquella Cidade, hoje palacio do Governo Civil, com a
adjacente área e ruinas da egreja de S. José.
A planta, que, junto com este requerimento se offerece á vossa
consideração, bem claramente mostra não haver excesso no pedido, pois
n’aquelle pouco terreno se teem de erigir salas, escolas, basar,
officinas, e theatro, de que não ha um unico publico, n’uma Cidade de
tanta importancia; devendo ficar ainda sufficiente espaço descoberto
para exercicios gymnasticos, tão conducentes para a boa creação physica.
O informe que o Ex.ᵐᵒ Governador Civil do Districto de Ponta-Delgada
dirigiu ao Governo sobre esta pretenção, deve necessariamente concordar
com o exposto, e dar a conhecer, por outra parte, ser aquelle um
terreno, que se acha ha annos devoluto. Nunca propriedade nacional
haverá sido mais util, nem mais louvavelmente empregada, do que esta,
que em menos de um anno, a datar da concessão, estará convertida em
um manancial de instrucção, de moralidade, de affecto para com um
Governo, que não perde occasião de felicitar os povos.
Lisboa 24 de Abril de 1849.
O Presidente da Sociedade
dos Amigos das Lettras e Artes em S. Miguel
A. F. DE CASTILHO.
VII
Fala do Secretario da Camara Electiva o Snr. João de Sande e Magalhães
Mexia Salema na sessão de 25 de Abril de 1849 fielmente trasladada do
«Diario das Côrtes»
«Sr. Presidente
«Desci de proposito d’esse logar da meza, para não declinar a honra,
que ha pouco recebi, de ser incumbido pelo sr. Antonio Feliciano de
Castilho, de apresentar a esta Camara uma representação da Sociedade
dos Amigos das Lettras e Artes de S. Miguel, de que elle é dignissimo
Presidente, em que se pede a concessão da cêrca do extincto convento da
Conceição, para n’ella levantarem o edificio do seu solar de Lettras e
Artes.
«Ha momentos, que recebi esta representação; de um rapido lançar de
olhos sobre ella, conheci a importancia e urgencia do objecto. Além da
natureza d’este, a Camara sabe avaliar a consideração, que merece uma
corporação scientifica, pedindo auxilio dos Eleitos do Povo; e muito
mais, tendo á sua testa um nome tão conhecido, não só na Litteratura
portugueza, como tambem na Litteratura europêa.»
N. B--O requerimento foi mandado para a Commissão de Fazenda; de lá
passados poucos dias, ao Ministerio da Fazenda, para informar; d’este
ao Tribunal do Thesoiro, para o ouvir.
Em todas estas tres estações se deram ao requerente as mais agradaveis
esperanças.
Eis ahi o que até hoje, que isto se imprime (24 de Novembro de 1849,)
pode na materia historiar.
A. F. DE C.
VIII
Excerpto da «Revista Universal Lisbonense» de 3 de Maio de 1849
_Concessão do terreno para as escolas da Sociedade dos Amigos das
Lettras e Artes em S. Miguel_
«O nosso promettido artigo acerca da mui patriotica Sociedade dos
Amigos das Lettras e Artes fica perfeitamente substituido pelo
Memorial, que ao deante publicamos, feito pelo seu digno Presidente o
snr. Castilho.
«A brevidade que este negocio requer é inquestionavel; é mistér não
deixar esfriar a fé dos poucos mas honrados Portuguezes, que ainda teem
animo para se interessarem pela verdadeira fortuna da Nação.
«¡Oxalá que tão repetidas instancias influam, não só nas Camaras
Legislativas, mas tambem no Governo, para que se não perca o ensejo de
completar um grande pensamento.»
MEMORIAL
Ill.ᵐᵒˢ Ex.ᵐᵒˢ Snrs.
Em nome e como Presidente da Sociedade dos Amigos das Lettras e Artes
em S. Miguel, tive a honra de vos dirigir um requerimento, para que
o Governo fosse autorisado a metter a mesma Sociedade de posse de um
pequeno chão nacional, para n’elle se edificarem, á nossa custa, casas
para as nossas escolas, para as nossas sessões, museu, bibliotheca,
basar industrial, theatro, etc.. Esse requerimento foi pela Camara
remettido á sua respectiva Commissão.
O meu fim, n’este Memorial, Ill.ᵐᵒˢ e Ex.ᵐᵒˢ Snrs. é sollicitar para a
decisão d’este negocio a maior urgencia.
A Sociedade nasceu, e tem produzido para o Publico beneficios
consideraveis, sem concurso algum da força publica, por effeito
unicamente da sua boa vontade e perseverança, como se prova pelo
Relatorio impresso, que eu ajuntei ao mesmo requerimento.
Todavia, para que a nossa existencia continue, e o publico michaelense
não seja privado dos frutos de instrucção, que já começa a colher,
e mesmo para que o nosso exemplo de illustrado e desinteressado
patriotismo possa vir a ser imitado n’este Reino, até hoje tão baldio
para a civilisação intellectual, é indispensavel que depois de
approvados, como já o estamos, pelo Governo, se nos faça a requerida
concessão, prompta e incessantemente. O adiamento seria matar-nos a fé,
e conseguintemente mallograr, do modo mais vergonhoso e barbaro, os
bens que podêmos, queremos, e sabemos, produzir, como é demonstrado.