Esta obra, além de outras suas, traduzi eu; e por signal que offereci

a traducção a um muito particular amigo d’elle, meu, e vosso, que é o

Secretario da nossa Sociedade de Agricultura.

Ha nos _Fastos_ muitas e mui bellas provas do que eu ha pouco vos

dizia: do amor que o bom do Ovidio tinha á vida campestre.

Amostrar-vos-hei algumas; e vá, por estreia, o final do seu mez de

Janeiro.

Canta assim:

FESTA DAS SEMENTEIRAS

Nos Annaes, onde as festas veem marcadas,

festas em vão busquei das sementeiras.

Vendo-me a folhear, cuidoso, assiduo,

e entendendo-me o empenho,--«Em balde as buscas--rindo

a Musa me diz;--«¿festas mudaveis

das fixas no registro achar querias?

Teem marcada estação, e o dia incerto;

celebram-se no praso em que estão prenhes

de sementes os chãos. Gosae do ocio

á farta manjadoira, ó bois coroados;

lá virá logo a activa Primavera,

á cerviz repoisada impondo jugo,

co’a renascente lida afadigar-vos.

No abrigo do casal durma por ora

a cançada charrua; a terra fria

não deseja, não soffre, o ser rasgada.»

Agora, que jaz finda a sementeira,

lavradores, dae folga ao solo, aos braços;

lustrem colonos sua aldeia em festa,

dêem a seus fogos a annual fogaça.

Tellus e Céres, madres das seáras

já com seus mesmos grãos se propiciem,

já coa’s entranhas da suina fêmea.

D’entre ambas nasce o grão que nos sustenta:

Céres nol-o produz; mantem-n-o a Terra.

Ó consocias em dádiva tão rica,

deusas, por quem a rude antiguidade

se abrandou, se poliu, deixada a glande

por mais nobre manjar, dae aos colonos,

em premio a seu trabalho e a seus desvelos,

colheita sem medida, e que os sacie.

Dae augmento continuo aos germes tenros,

e que a neve á nascença os não destrua.

Em quanto disparzirmos as sementes,

alimpae-nos o ceo com ventos brandos;

mal que enterrada fôr, mandae-lhe as chuvas;

e, pois são gloria vossa as pingues messes,

que em vagas de oiro, ao longo d’essas veigas,

rumorejam fartura, ¡eia, salvae-as

do avido bico das aladas hostes!

Por ora, que inda a terra o grão recata,

vós, formigas poupae-o; usura grande

havereis d’elle, se aguardais a aceifa.

Livre de tôrpe alforra a messe vingue,

e côr de alma saude o Céu lhe influa;

que nem definhe pallida, nem perca

por excesso de viço e nimia pompa.

Joio, á vista nocivo, os chãos não brotem,

nem tôrpe aveia as sementeiras mescle.

Só se vejam medrar profusamente

as cevadas, o trigo, e a rija escándia,

a escándia, a fogos dois predestinada.

Lavradores, por vós taes são meus rogos.

Co’os rogos meus os vossos se misturem,

por que uma e outra deusa os ratifiquem.

Ferina longo tempo a humanidade

só nutriu bellicosos pensamentos.

Mais apreço que a relha a espada tinha,

e em foros de nobreza era anteposto

o corsel que peleja, ao boi que lavra.

Não trabalhava a enxada; ia-se em lanças

dos alviões o ferro; o ensinho em elmos.

¡Graças, deusas, a vós, a vós, ó Cesares!

o Genio marcial agrilhoado

já sob os pés de Roma em vão se extorce.

O toiro acceite o jugo; o solo, os germes;

Céres, filha da paz, co’a paz triumphe.

* * * * *

Ouvi-lhe agora a narração da festa, que em seu tempo se fazia no mez de

Fevereiro, em honra do deus Término, ou Têrmo.

Este deus não era mais nem menos que um marco, de pedra ou pau, que

extremava os predios. Com rasão lhe davam aquelle culto; nada mais

respeitavel, que a propriedade; nada mais judicioso, que santifical-a.

FESTA DO DEUS TÉRMINO

Finda a noite, alvoreça a costumada

festa do deus que nos comparte os campos.

Quer tôsca pedra, ó Término, te embleme,

quer tronco informe pela mão de antigos

enterrado no chão, sempre és deidade.

Para ti donos dois, de oppostas partes,

c’rôa e c’rôa te cingem; bôlo e bôlo

te vem de cá, de lá; como á porfia,

ahi se te engenhou ara campestre.

Lá nos traz a açodada fazendeira

no seu testo quebrado as áscuas vivas

que apurou do borralho. O bom do velho

racha a lenha miuda, ergue-a em pyramide;

sua a cravar no chão ramos festivos.

Agora em cascas sêccas ceva o fogo,

tendo em pé ao seu lado, em quanto assopra,

o filhinho abraçado a largo cesto.

Tres vezes d’ali tira e lança ao fogo

punhados de aurea Céres. Toma os favos,

que a filha pequenina lhe apresenta

pelo meio cortados. Trazem outros

o vinho; tudo aqui se liba ás chammas.

Alvitrajada a turba espectadora

religioso silencio attenta observa.

Co’o sangue quente de immolada ovelha

¡que ufano purpureja o vulto informe

do commum velador, o honrado Término!

e quando, em vez de ovelha, haja leitôa,

não temais que se anoje. O brodio é franco

aos bons visinhos, corações lavados,

que o celebram com fé, que jubilosos

vão tecendo um louvor a cada prato.

Ouvi, ouvi seu rustico descante;

é do deus do festejo o panegyrico:

¡Salve, ó Término sacro, ó tu, que extremas

bairros, cidades, reinos! cada campo

fôra sem ti um campo de batalha.

Mantens, desambicioso, insubornavel,

as herdades em paz das Leis á sombra.

Se a terra Thyreátide te houvéra,

não ceifaria a morte heroes seiscentos

de Argos e Esparta no fatal duello;

não se lêra de Othryades o nome

n’um vão tropheo de mentirosas armas,

que inda á Patria infeliz custou mais sangue.

Capitolino Jupiter que diga

que invencivel te achou, quando ao fundar-se-lhe

a área do templo, ao passo que os mais numes

para dar-lhe logar retrocediam,

tu só, qual nol-o conta annosa fama,

ousaste resistir, ficar, ter parte

no templo augusto, e adorações com Jove;

e inda lá, por que nada alfim te ensombre,

sobre ti ao ceo livre é rôta a abobada.

Nume de tão gentil perseverança,

em qualquer a leveza achára venia;

contradicção em ti suicidio fôra.

Mantém pois sempre, ó sacra sentinella,

mantém pois sempre, ó Término, teu posto.

Despréza os rogos do vizinho avaro;

não lhe concedas do terreno um ponto.

¡Ceder a humanos quem resiste a Jove?!

¿Vem bater-te enxadão, pulsar-te arado?

proclama a vozes: «Meus confins são estes;

d’além, tu; d’aquem, elle; ambos cohibo,

e em cohibir aos dois aos dois protejo.»

Uma estrada une Roma aos Laurentinos,

reino que o Teucro prófugo buscára;

lá, dos marcos o sexto em honra tua

vê que lanosa victima se immola.

Término, já que acceitas cultos nossos,

ampara nos; sustenta o nosso Imperio.

De cada povo o espaço é circumscripto;

são de Roma os confins confins do globo.

* * * * *

¡Quão grande, meus amigos, não era o Povo em que um Poeta podia dizer

isto, sem medo de que o mundo, nem a posteridade, o desmentisse!

E nós tambem, nós, os Portuguezes, já houve um tempo, em que pouco

menos fomos.

Ouvi como o nosso Camões o cantava:

Mas em tanto que cegos, e sedentos

andais do vosso sangue, ó gente insana,

não faltarão christãos atrevimentos

n’esta pequena Casa Lusitana.

De Africa tem maritimos assentos;

é na Asia mais que todas soberana;

na quarta parte nova os campos ara,

e, se mais mundo houvera, lá chegára.

¿Hoje...¿ que são aquella Roma, e este Portugal?

Roma pereceu. Portugal, se não agonisa, enferma gravemente.

Mas para Roma não ha já esperança; para nós ha ainda uma ¿Sabeis qual?

Sois vós, vós mesmos, vós unicamente, ó Lavradores.

Março de 1849.

X

Quarto serão do casal

Continuação do precedente

SUMMARIO

Mais Ovidio.--Recommenda a Germanico o Livro IV dos Fastos, por ser

Abril consagrado a Venus, a ascendente da familia _Julia_.--Nobiliario

troiano dos Romanos.--Rasão por que no calendario de Romulo era

Março o primeiro mez, e Abril o segundo.--Uma etymologia grega de

_Abril_.--Outra etymologia latina da mesma palavra.--Abril pertence

de direito a Venus, como principio de toda a attracção e reproducção

das especies.--Venus tirou os homens do estado silvestre, e fez nascer

a Poesia, e todas as bellas, e boas Artes.--Roma, mais que todos os

povos, deve a Venus adorações.--Origem de uma festa annual dos Romanos

a esta deusa.

O nosso Ovidio, que já conheceis, é quem ha-de regalar-vos este Serão.

Ides ouvil-o no introito do seu Livro IV dos _Fastos_, cantar-vos as

origens d’este mez.

Fala com o Imperador Germanico.

Abril de 1849.

N. B DO EDITOR--Seguia-se na 1ᵃ impressão d’esta obra um largo trecho

da traducção dos _Fastos_; mas como esse fragmento pertence por sua

indole a outro genero de estudos, e entraria aqui descabido até certo

ponto, entendeu o editor, para não allongar demasiado o volume com um

accessorio, aliás brilhante, supprimil-o, remettendo o leitor á edição

especial dos _Fastos_.

DIGRESSÃO

SOBRE A

Sociedade dos Amigos das Lettras e Artes em S. Miguel

ADVERTENCIA

Entre o precedente _Serão do Casal_ e o seguinte, falta o do mez de

Maio. O autor estava ausente.

A 21 de Fevereiro partira para Lisboa, deixando promptos os d’esse

mez e dos dois immediatos, esperando regressar a tempo de não haver

interrupção. Mas os negocios, que tão empenhado o levavam á Côrte, só o

deixaram tornar a 24 de Maio.

Eram estes negocios a approvação dos Estatutos da Sociedade dos Amigos

das Lettras e Artes em S. Miguel pelo Governo, e a concessão de um

pouco de terreno nacional n’esta Ilha, a cerca do extincto convento

da Conceição, desaproveitada, e as ruinas da contigua egreja de S.

José, para a Sociedade ali edificar á sua custa uma casa para as

suas escolas, sessões, exposições, concertos musicos, representações

scenicas, etc.; tudo objectos de publico e manifesto interesse.

Fez o autor em ambas estas diligencias tudo quanto era humanamente

possivel; e, apezar da santidade e generosidade de taes requerimentos,

da optima sombra que de toda a parte os cercou desde a primeira hora,

das formaes e reiteradas promessas dos que mais podiam influir no

despacho, o que só logrou trazer foram os Estatutos approvados (ainda

assim com suas restricções desconfiadas, que uma tão desambiciosa

Sociedade por ventura não merecia), e uma esperança, já então muito

vaga, de se obter o terreno; o terreno, condição tão substancial para a

existencia da Sociedade, como a existencia da Sociedade provadamente o

é para o progresso e lustre das Artes, das Lettras, e da sociabilidade

n’esta paragem.

N’este livro, repositorio de sãos desejos, propostas e ousadias

civilisadoras, entendeu-se não seria mal cabida uma singela memoria

de taes factos, pois quando se lhe pôz por titulo _Felicidade pela

Agricultura_, na palavra _agricultura_ se abrangeram implicitamente,

como até agora se tem visto, e se continuará a ver até ao fim, todos os

outros verdadeiros interesses inseparaveis d’ella, quer os consideremos

activa, quer passivamente; e para os quaes, Deputados e Ministros

amigos da terra não poderiam deixar de olhar com amor principalissimo.

A mesma razão, que o autor no Prologo deu, de haver colligido n’este

volume alguns dos seus artigos impressos no _Agricultor Michaelense_,

lhe fez força para aqui lhes intercalar os seguintes, que, por andarem

dispersos em periodicos, já hoje estavam sendo como se não existissem.

O amor-proprio nada fez para o caso. O autor sabe o pouco valor de

forma litteraria, que ha em tudo isto; mas crê, em sua consciencia,

que deixa a seus filhos um bom exemplo, e a outros cidadãos zelosos

indicações uteis. Finalmente: pela publicidade, que muitas vezes

é mãe da opinião, como esta quasi sempre o vem a ser dos factos,

figurou-se-lhe que poderia, perante o Parlamento e o Throno, dar assim

um derradeiro impulso á pretensão pendente.

_¡Di faciant!_

Não quer o autor perder este lanço de agradecer, perante os

contemporaneos e vindoiros, ás pessoas que mais sollicitas se teem

havido em patrocinar o requerimento:

ao sr. D. Pedro da Costa de Sousa de Macedo, então dignissimo

Governador Civil de Ponta-Delgada;

aos srs. Redactores do _Açoriano_, e do _Correio_ d’esta mesma cidade;

ao da _Revista Universal Lisbonense_, e aos de outras folhas de

Portugal, nomeadamente ao do _Diario do Governo_, o sr. Vilhena Barbosa;

ao sr. Mexia, benemerito Secretario da Camara electiva;

aos honrados Membros da Commissão de Fazenda da mesma Camara;

a um grande numero de Senhores Deputados e Dignos Pares;

ao mui distincto Presidente do Tribunal do Thesoiro;

ao sabio ex-Ministro da Fazenda, o sr. Franzini;

ao exemplar de Governadores Civis, o sr. José Silvestre Ribeiro, etc.,

etc., etc.

......não é premio vil ser conhecido

por um pregão do ninho seu paterno.

I

Carta ao Redactor da Revista Universal Lisbonense

Ill.ᵐᵒ collega e amicissimo snr. Ribeiro de Sá.

Lisboa 6 de Março de 1849.

Se a reconhecida modestia de V. S.ᵃ se oppozesse a que estas poucas

linhas fossem incluidas na sua _Revista_, ficaria eu perante o Publico

insanavelmente condemnado pelo mais vil de todos os ingratos; pois

desde que V. S. se encarregou de tal redacção, com geral e manifesto

proveito, até hoje ainda não perdeu a minima occasião de provar a

sua extremada benevolencia, a sua devoção, o seu (¿ousarei dizel-o?)

fanatismo de amisade para comigo.

Honrando me, como V. S. o tem feito, V. S. se tem sobretudo

engrandecido a si mesmo. Exemplos de tão alta generosidade em tempos de

egoismo tão profundo; linguagem tão do coração, quando a maledicencia

se tornou moda, e se pavoneia como donaire; fidelidade assim para com

a amisade velha, em terra onde as novas mesmo são apenas respeitadas;

pagar todo o pouco louvor que se deve, ajuntando-lhe com alegria o que

nunca chegará a ser merecido, mas que nem por isso deixará de produzir

mui fecundos estimulos para o bem; e, para remate de singularidade,

fazer tudo isto longamente, e com inalteravel constancia, a um homem

desterrado pela fortuna para além-mar por anno e dia, que vale o mesmo

que dizer, a um morto e enterrado sem cipreste nem epitaphio... eis

aqui o que a V. S. o torna unico em merito, e unico a mim tambem em

felicidade.

Forcejemos por nos conservar como Deus nos fez: corações sinceros e

amantes, almas impermeaveis ás invejosas malevolencias, que tão boas

coisas estragam por esse mundo.

O systema, que V. S. tem religiosamente seguido na nossa _Revista_, de

exforçar e coroar todas as boas vontades, de animar e dirigir todos

os principiantes, de restaurar brios a todos os desanimados, em summa

de manter n’essa folha um honrado campo de exercicios, de emulações

sem odio, e de premio para todos sem distincção, é quanto a mim o mais

glorioso, o mais patriotico, e o mais eminentemente moral, de quantos

systemas se podem adoptar em jornalismo. Para almas pequenas teria uma

inconveniencia, que é a de semear ingratidões muito feias e ruins. Mas

¿onde estaria o merecimento do bem-fazer, se todos fossem agradecidos?

Como experimentado falo: o melhor travesseiro, onde uma cabeça, que

já quer ir branquejando, se pode reclinar para bons somnos, melhores

sonhos, e optimas vigilias, é o bem que se fez sem esperança de

retribuição, e as amarguras passageiras, que maldosamente nos deram a

tragar.

Continue pois V. S. no seu apostolado, baptisando, confirmando, e

convertendo, principalmente a pobre gente moça e inexperiente, para a

unica verdadeira religião terrestre, a illustração e a moralidade.

O que havia de empregar comigo, já muito conhecedor, e muitissimo

desencantado, das vaidades litterarias, dê o exclusivamente á geração

nova, que, atravez de tropeços e quedas, vai caminhando para muito

grandes destinos. Quanto a mim, presente de já pouco futuro, e passado

que a fortuna desfloriu e quebrou antes do fruto, cá me ficarei sentado

na pedra immovel do angulo da estrada, seguindo, com os meus votos de

muito amor, esse bando juvenil que marcha para o futuro, por entre o

qual vai por ventura mais de um que me ama, e muitissimos a quem eu amo.

Dia virá, em que o actual Redactor da _Revista_, depois de os ter

fielmente acompanhado e dirigido, se ha-de tambem, lá a diante,

assentar como eu hoje, e seguil-os só com as saudades. É para então,

meu bom amigo, que o esperam as recompensas interiores, as unicas de

que ninguem nos pode defraudar. Solitario então, como eu hoje, V. S.

conversará, mão por mão, e horas largas, com a sua consciencia; porque

emfim, como diz um excellente Poeta, o bem que fazemos perfuma nos a

alma; sempre d’elle nos lembramos o nosso poucochinho.

Entretanto, meu caro e honestissimo escriptor, nem então deixará o seu

distincto entendimento de pagar, de algum modo, á Patria e á Humanidade

o que todos lhes devemos. Do escripto, V. S. passará a obras mais

positivas: do desejar e do aconselhar, ao emprehender e ao conseguir;

pois que eu mesmo, sem ter ainda inteiramente despedido a Musa, a quem

devi a pouca fama que me deram; sem ter renunciado o meu logar no

banquete commum dos escriptores conterraneos, já me acho, de feito, e

com todas as veras, empenhado n’estas menos brilhantes, mas não menos

uteis, tarefas do nosso seculo.

Os meus poemas hoje são as escolas, os methodos melhorados de ensino, a

instrucção e civilisação dos operarios, a esmola da doutrina ás pobres

almas infantis; porque a doutrina é moeda sem a qual esses pobresinhos

nunca chegariam, em tempo algum, a poder mercar felicidade para si, nem

para as suas mulheres, nem para os seus filhos, se Deus lh’os der, nem

para a sua Patria.

Mas... este campo em que entrava agora é vasto; deixemol-o para outro

dia. Eu lhe contarei, para os seus leitores e nossos amigos, o que

n’este sentido já tenho feito com admiravel fortuna; e o mais, e muito

mais, a que se estendem os nossos projectos, que a Providencia, segundo

espero, ha-de continuar a favorecer.

De V. S. etc.

A. F. DE CASTILHO

II

Segunda carta ao mesmo

Meu estimavel Amigo

Lisboa, 8 de Março de 1849

Fiel ao promettido, relatarei summariamente, por não consumir espaço

largo em tão util folha, o que tenho feito e projectado relativo á

Instrucção na nossa formosa Ilha de S. Miguel.

É aquelle, meu bom Amigo, um torrão bemdito quanto a fertilidade

vegetativa, e não menos pelo que respeita a bons engenhos e mãos

industriosas; mas de tão ruim estrella, e tão desamparado da ventura,

que, podendo ter de tudo copiosamente, de quasi tudo carece ainda.

Attribuem muitos este desconcerto ao clima, que dizem entibiar, por

sua molleza, a energia do querer; outros, ao modo como a propriedade

lá se acha repartida; outros teem para si que injustiça, desfavor e

esquecimento da Mãe Patria é que produziram, e teem conservado, aquelle

atrazo. Eu por mim não rejeito explicação alguma d’estas, e deploro

que, logo sobre uma das mais ricas joias da Corôa portugueza, assim

houvessem de cahir, para a marear, tres influxos tão maleficos.

Quanto ao clima, que, por quente e humido, quebranta as vontades, ao

mesmo passo que pucha e encorpa todo o genero de plantas, é mal que não

tem remedio.

A divisão da terra, e a organisação da propriedade, não nos pertence a

nós reformal-as.

Resta o desamparo da pobre enjeitada e desterrada no meio do Oceano. A

esse respeito ha certamente muito e muitissimo, que se pode, e que por

mil rasões se deve, fazer.

Quando bem se adverte em que a Ilha de S. Miguel se alistou na

vanguarda do Exercito libertador, que generosa offereceu haveres e

sangue pelo Codigo e pela Filha de Dom Pedro, e se vê ao presente quasi

toda (ou toda) opposição, é impossivel desconhecer uma força-maior,

que operou tal metamorphose; porque estes Insulanos nem são maus, como

alguns os pintam, nem turbulentos, nem loucos; mas teem, como todos, o

instincto da vida, e o da justiça.

Defenda-me Deus de fazer ao Throno a injuria de suppôr, quanto mais de

acreditar, como alguns por lá dizem no accesso da sua melancolia, que,

de proposito e a acinte, o Governo os tem querido conservar sempre na

ignorancia e abjecção, pondo-lhes de industria magistrados maléficos ou

nullos, difficultando-lhes a instrucção, expremendo-os, torcendo-os,

exhaurindo-os do seu oiro, e não lhes deixando d’elle com que fazerem

nenhuma das faceis obras publicas de que mais carecem.

A verdade é, todavia, que, por mal informado sobre as necessidades

d’aquella Provincia longinqua, e por lhe não chegarem cá os seus

clamores, o Governo (posto que sem imputação) tem commettido, deixado

subsistir e crescer, o mal, até o ponto de não faltar por lá, mesmo

no Povo infimo e rudissimo, mesmo na classe mais alta, e nos mais

distinctos entendimentos, quem sonhe com as perigosas utopias de uma

independencia.

Não digo bem; houve essas utopias; hoje um Governador Civil ás

direitas, como sempre lá e por toda a parte os devêra ter havido,

fez ver áquelle bom Povo que a Soberana, por quem se votou, não é

ingrata; elle lhe promove, até onde pode, as commodidades; lança-lhes

balsamo nas feridas, que flagellos continuos lhes abriram; administra

justiça prompta e inteira; concilia os despeitados; acompanha-os e

precede-os pelo caminho franco do progresso illustrado; é o medico de

todas as dôres, o procurador de todas as minguas para que não basta a

sua autoridade. Graças aos seus exforços, todas as parcialidades vão

a convergir para o grande centro; todas as forças conspiram já para a

luz, para o trabalho, e para a civilisação.

A _Revista_ é extranha á Politica; tambem eu o sou; mas isto não

é Politica; pelo menos não o é do genero, especie, e variedade,

d’aquellas com que nada queremos; é um paragrapho singelo de Historia,

util por mais de uma via, e que em resultados praticos pode ser

fecundo. Julguei dever aproveitar-me da occasião de confial-o a um

papel sincero e acreditado, não só para exemplo e incentivo, mas tambem

para galardão e desafronta, pois me consta que já linguas mexeriqueiras

andam por ahi no seu costumado officio de desacreditar e empecer ao que

não podem imitar.

O que nenhuma voz se atreveria a proferir hoje em S. Miguel contra o

chefe administrativo, pois em logar de eccos só provocaria indignação

ou risadas, vem, cobarde e maldosamente, espalhal o aqui, por saberem

que entre as suas calumnias e a verdade está um fosso de 212 leguas de

Oceano. Ora, como os córos de milhares de bençãos, de tão longe, devem

aqui soar menos que as invejinhas presentes, que por todas as abertas

se insinuam, e quanto mais despreziveis mais vão zumbindo, julguei

dever de consciencia levantar por cima d’esse sussurro, pequeno,

anonymo, e ingratissimo, um brado forte e independente. Quem affirma

e sustentará que San Miguel não teve ainda cabeça administrativa mais

zelosa, mais energica, mais intelligente, nem mais bemquista, nem mais

promettedora em tudo e por tudo de uma era nova, que o sr. D. Pedro da

Costa de Sousa de Macedo, quem o affirma e sustentará, é quem assigna,

com todas as lettras de seu proprio nome, esta carta.

Qualquer dos invejosos ou inimigos d’aquella Ilha, que houver dito o

contrario, que levante a luva e descubra o rosto. Com esta condição,

achar-me-ha na estacada prompto a dar-lhe razão do dito.

Nem um, meu Amigo, nem um ha-de apparecer; afianço-lh’o eu; e se

apparecer, tanto melhor; justiça e verdade não se acrisolam senão ao

fogo[7].

A alguem parecerá que, para ser em materia incontroversa, e alheia, já

tenho deixado correr o preambulo por fóra das medidas; mas não é assim,

pois, por uma parte, a zizania que ás mãos cheias se espalha, e se rega

convenientemente, ainda que de certo não será com chuvas de Danae,

sempre a final damna o bom grão; e quanto a serem-me extranhos estes

interesses, tambem o não são, porque defendendo o sr. Sousa de Macedo,

não advogo simplesmente o interesse publico, não me limito em servir ao

amigo como amigo, e, como escriptor, a um excellente engenho portuguez,

se não que arrazôo pelo meu proprio credito. Sim, os nossos inimigos

são communs; communs as accusações que nos fazem.

Segundo elles, quando escrevem e imprimem, ambos somos miguelistas;

segundo elles, quando falam, ambos somos republicanos, communistas,

sansimonistas, fourieristas, e não sei que mais. Segundo elles, por

fora, ambos somos flagellos da Cólera Divina. ¿E porquê? porque, lá por

dentro, bem sabem elles tão bem como nós mesmos, tão bem como toda a

Ilha de S. Miguel, que, se temos ambição, é só de contribuirmos cada um

com todos os seus meios, e com os que o outro lhe possa proporcionar,

para a maior felicidade moral e physica do maior numero; para a

educação e instrucção do Povo; para a prosperidade e esplendor da

terra; para o restabelecimento da harmonia entre os visinhos, e entre

os mais apartados dominios do mesmo Reino.

Felicidade pela Agricultura (Vol. I) · 第 7 / 10 段