deputados áquelle bemdito Parlamento de lavradores, de que eu ha dois
mezes vos falava, consentir-me-heis que, ao lume da vossa lareira,
exponha aos vossos juizos, naturaes e não pervertidos, mais alguns
alvitres para então.
¿Quem nos pode prohibir governarmos o mundo em sêcco o nosso
poucochinho? Não só toda a gente o faz, e quasi que se não faz outra
coisa, se não que a maior e talvez melhor parte das Leis, primeiro que
fosse promulgada por legisladores, tinha sido inventada por homemzinhos
obscuros como nós, e d’elles passada á consciencia geral.
* * * * *
Se alguns chamarem _politica_ e ruindade a este uso que nós fizermos do
pouco ou muito entendimento, que Deus nos deu para amarmos os nossos
semelhantes, não vos haveis de agastar, nem eu tornar-lhes resposta;
que, por mais que thesoirem, não nos descozem o saio,--como lá diziam
os nossos velhos.
¿Vêdes vós? acostumaram-se áquillo de ver em tudo _politica_, e de
chamarem _politica_ a tudo; e depois, teem um medo, que se finam, até
das verdades velhas, ¡quanto mais das novas! Lá se entendem; e assim é
bom, para se não irem d’este mundo totalmente desentendidos.
Não, meus amigos, _politica_, no sentido estreito que elles dão a esta
palavra, politica do soalheiro e do mexerico, de acreditar a Pedro
e desacreditar a Paulo, de velhacar Leis e receitar venenos, d’essa
não fazemos nós, que nos regala andar com o nosso rosto descoberto, e
dormir as nossas noites de um somno e com as portas e janellas abertas
em não fazendo frio.
Agora: se ás questões de philosophia social, que elles nunca leram, ou,
se leram, não entenderam, ou que, se as entenderam, lhes não cahiram
a elles em graça; se ao exame dos fundamentos da felicidade publica,
sem referencia a tempos nem a pessoas, chamam _politica_, essa temol-a
feito, e (por mais que lhes pése) havemos de fazel-a sempre, que não
somos nenhuns Esaús da Liberdade, que vendessemos o nosso morgado, como
por si dizia outro poeta chamado Lamartine, respondendo a um satyrico
damnado da sua terra.
* * * * *
Mas.... para nos não parecermos com aquelle parvo do conto, que
sabeis, que em logar de adiantar caminho, para chegar á feira a horas
e negociar, se deteve todo o dia com o carapuço na mão diante de um
pilriteiro, pedindo á sombra movediça licença para passar, eis aqui já,
meus futuros Legisladores, um objecto, que assás me parece digno da
vossa consideração.
A propriedade sobre o terreno, claro está não ser um direito natural;
mas nem por isso podemos dizer que não seja direito, e muito
respeitavel. Sem elle não existiria Agricultura. Sem Agricultura, não
existiria sociedade fixa e civilisada.
Com a sociedade nasceu pois, assim como outros muitos direitos;
confirmou-se com a posse; identificou-se com as ideias e consciencias,
como com os interesses, e ficou sendo, por que assim o digamos, um
direito natural relativo, e secundario. A philosophia, tanto como as
Leis e a força, o deve proteger. Não é quanto a elle que vos lembro
reformações, mas só quanto ao modo de regular o seu uso.
* * * * *
Adquiri eu uma terra por qualquer titulo legal; é minha, não ha duvida.
Posso arrendal-a, posso doal-a, vendel-a, emprestal-a, edificar n’ella,
cultival-a a meu sabor, etc. É corrente.
¿Mas posso eu por ventura, por ser minha, deixal-a estar improductiva?
O senso commum, quanto a mim, responde instantaneamente que não.
¿E porquê?
Porque haveria n’isso lesão de terceiro, que é a sociedade, para cujo
beneficio extra-natureza, se não contra a natureza primitiva, se
instituira e santificára este direito.
O avarento poderá ainda ter as suas preciosidades em inercia, e
portanto perdidas; porque em realidade o oiro e a prata, posto que
fecundantes, não são natural e essencialmente productivos. ¡Mas o
torrão, que Deus fez para nos trazer, nos albergar, e nos alimentar! ¡o
torrão, que por si reverdece todas as primaveras, que as nuvens e o sol
andam regando e aquecendo todo o anno! ¡o torrão que é parte do solo
patrio! ¡o torrão ficar dando ortigas e silvas, por indolencia de um
homem estupido, quando á roda d’elle muitos braços carecem de trabalho,
e muitas boccas pedem pão sem o obter!! Eis ahi o que, por mais velha
que seja a posse, nunca jamais poderá chegar a ser bom direito.
Folgára de explanar comvosco este ponto, que é tão facil e abundante em
considerações, quão momentoso para a felicidade commum; mas levar-nos
hia longe.
Seria pois a Lei, que eu propozesse, substancialmente isto:
--O proprietario que passar um anno sem cultivar algum dos seus
terrenos, pagará de multa tres vezes o valor do fruto que esse terreno,
bem tratado, houvera podido produzir.
--O que o deixar dois annos de poisio perdel-o-ha, para ser dividido
pelos pobresinhos da freguesia, ou do concelho, que não tiverem terra.
Meus amigos, se alguem lá por fora nos impugnar o alvitre, que é bom e
santo, e que, adoptado, augmentaria de repente o trabalho, a riqueza
dos particulares, e os recursos nacionaes; se alguem, digo, nol-o vier
assoviar á porta e injuriar-nos sandiamente, pôl-o-hemos tão claro, que
até esses o entendam; e ainda o accrescentaremos com algumas indicações
sobre predios urbanos, que são tambem um dos usos, e podem ser um dos
abusos, da terra.
Janeiro de 1849
VIII
Segundo serão do casal
Fraternisação da cidade e campo
SUMMARIO
Uma boa Lei sonhada.--Os proprietarios ruraes,
residentes na Cidade, são obrigados a viver algum
tempo nas suas fazendas.--Delicias novas que
essa obrigação lhes proporciona.--Nos campos ha
um vislumbre de egualdade.--Bens que a estada
dos senhores no campo trará por elles aos camponezes,
e pelos camponezes a elles.--O autor
sabe, por experiencia, o como nos campos a Natureza
mesma nos melhora e suavisa.--Os camponezes
são menos ruins e infelizes que os cidadãos;
e mais felizes e melhores se hão-de tornar, quando
a Lei passar de sonho a realidade.--Apontam-se
alguns dos muitos melhoramentos, materiaes.--agricolas,
economicos, artisticos, etc., que hão-de
com o tempo brotar d’esta Lei.
Sonhei eu, meus bons amigos, que se tinha a Providencia achado n’estes
nossos tempos em maré de muita poesia: que já existia de veras um
Parlamento de lavradores, e que as Leis, e com ellas os costumes,
tinham chegado a final a grande concerto e formosura.
Uma d’estas Leis bemditas vos quero eu contar; porque se algum dia
(que pode ser) as nossas semeadas Sociedades de Agricultura pegarem,
e, por diligencias d’ellas, tal Parlamento chegar a apparecer,
lá considerareis, com o vosso vagar, se do sonho se não deveria
fazer realidade. O que lhe deu péga foi aquella nossa pratica do
serão ultimo, sobre a obrigação que todo o dono de terra tinha de a
aproveitar.
* * * * *
Sonhava eu pois, que todos os proprietarios de bens rusticos, a quem
não assistia alguma particular rasão muito attendivel para o contrario,
eram obrigados a morar nos seus campos alguma parte do anno.....
* * * * *
Reverdecia a primavera, e eil-os lá sahiam das cidades, colmeias
grandes, onde, entre muitos zumbidos, se fabricam favos de fel. Até
ás barreiras, ainda iam murmurando contra a salutar violencia, que os
bania temporariamente.
Logo ali, ao desembocarem das ruas estreitas e sombrias, que nenhuma
estação altéra, para a amplidão de campos e horizontes, a serenidade do
ceo azul se lhes começa a filtrar dos olhos para a alma. A madre-silva
de cima do cômoro lhes dá as suas rescendentes boas-vindas; e para
o coração se lhes côa parte da bemaventurança que inspira aos seus
filhinhos libertos o aspecto das papoilas côr de fogo, a rir na verdura
sem limites; dos rebanhos, que ondeiam branquejando pelas planicies;
dos moinhos, que bracejam cantando pelos oiteiros. Tudo para elles é
descobrimento e maravilha: os passaros, que altercam graciosos pelos
ramos; as aguas, que manam, a debuxar os arvoredos toucados de flores
e sol; os cantares dos rusticos no trabalho; a choupaninha pobrissima,
mas que tem ainda com que albergar hospedes; as andorinhas, que tambem
vieram lá de outras terras pendurar-lhe por cima da janella unica, e ao
abrigo do tecto de palha, o berço dos filhos.
Atravez d’estas scenas, tão antigas e sempre novas, tão sem artificio
e tão cheias de harmonias, tão casuaes e tão sabiamente variadas e
contrapostas, toda aquella opulenta familia cidadan vai já invejando
a boa sorte dos filhos das aldeias, para quem só parece existir a
Natureza. Ao estrépito da sua carroagem saem ás portas as creanças,
cuja nudez mostra carnes dignas do cinzel de um Assis Rodrigues, e
que riem sempre, como os Seraphins do retábulo da freguezia; moças
esbeltas, a quem o carmim da aurora corou as faces, como pomos, e que
em seus trajos de lan resplandecem como dahlias soberbas em vazos
pobres; e bons velhos, que entre tres e quatro gerações de descendentes
seus ainda os ajudam com o conselho, e o pão que em ocio lhes comem,
lh’o pagam com as vivazes historias do passado.
A carroagem passa por entre essa multidão, tão afortunada quanto na
terra se pode ser; passa; mas no seu vôo colheu e deixou sorrisos de
benevolencia.
Chegada á sua nova residencia a familia cidadan, sente-se mais á larga
em quartos pequenos, d’onde se descortinam campos e montes, do que lá
nos doirados e espaçosos carceres de seus salões.
Tudo para todos os sentidos lhe é novo: a linguagem chan e respeitosa
dos visinhos; as horas e qualidade das refeições; as danças e cantares
do serão; o deitar antes que o sete-estrello vá alto; o erguer muito
primeiro que o sol, e quando o passarinho vem dizer á vidraça que já
é dia; o lavar e almoçar na fonte, por baixo da parreira; o sahir
para toda a parte sem a pesada libré das galas; o descobrir em cada
passeio um sitio incognito, e menos esperado do que para Colombo o foi
o Novo Mundo. Não ha pessoa que os não saude pelos seus nomes, que não
procure algum pretexto para lhes falar, que se não julgasse feliz de os
poder servir. Os obsequios mais delicados lhes affluem a cada hora ás
portas, trazidos por mãos, que só os seus callos accusam de grosseiras.
Na cidade os visinhos não se conhecem, ou são inimigos mutuos; os do
campo, quaesquer que sejam as differenças de gerarchia e fortuna, são
irmãos da mesma tribu.
A donzella de vestido branco não teme perder o seu _Dom_ dançando
no seu jardim ao domingo com a filha do seu honrado hortelão; nem o
mancebo esbelto, que sabe de cór todas as arias novas, e ambas as
chronicas de cada _prima-donna_, se crê deshonrado passando na caça o
dia com o soldado velho, que ainda voltou das guerras para vir morrer
na freguezia de seus paes.
Ao luar, nas médas da eira, ¡vel-os como correm folgando, vozeando,
mergulhando na palha, e reapparecendo ao som de palmas, os imberbes
herdeiros de oito e dez nomes, e os pequeninos, que, sem terem menos
avós, não receberam mais nomes que os de seus paes!
Se em alguma parte se encontra um vislumbre da egualdade, sonhada pelos
philosophos para consolar penas, é só nos campos que essa filha de Deus
se entrevê formosa, travêssa e risonha, como a Galatêa de Virgilio por
entre os salgueiros.
¡D’esta convivencia, que as semanas e os mezes vão apertando cada vez
mais, que vantagens não redundam para os moradores do palacio rustico,
e para os camponezes! Os primeiros esquecem muito passatempo ruinoso,
que julgam indispensavel; os segundos muita grosseria de trato, em que
nunca haviam advertido. A casinha terrea ensinou ao solar sobriedade,
e amor do trabalho; mas d’elle aprendeu o aceio, as commodidades
faceis, e o gosto. O senhor deixou-se entrar da caridade, presenceando
as fadigas e miserias dos seus rendeiros; o trabalhador, vendo-o bom,
cessou de o temer e odiar como o seu genio mau e invisivel. As relações
e valimentos na côrte attrahiram muitos favores, quando menos alguma
justiça, ora para a viuva, a quem pretendiam arrancar o filho para
o Exercito; ora para o lavrador, a quem contratempos desmerecidos
vedaram pagar ao Fisco. As damas, quando se ausentarem, haverão deixado
amigas, que repitam o seu nome sem inveja, e os seus louvores com
desvanecimento; e lá para o inverno, a poisada em que tudo falta a
fóra a esperança, verá muita vez acorrer-lhe lá de longe, do meio da
Babylonia, a sua providencia: o fatinho conchegado para as creanças, o
enxoval para a filha casadoira, o tabaco para a caixa vasia do velho, o
linho para as rocas e o fiado para o tear, e a paga adiantada, para que
o jantar não sejam suspiros, e a ceia lagrimas.
N’uma palavra: as cidades conhecerão e amarão os campos; e os campos
perdoarão e abençoarão a opulencia das cidades. Os grandes terão ido lá
retemperar a saude gastada dos vicios e cuidados, e repoisar a bolsa,
dos duellos, do jogo, das tirannias da moda, das violencias da vaidade
e das paixões.
Estas ferias, dadas a tres coisas tão damnosas, como são o gasto do
corpo, a inanição da alma, e o desbarate da fazenda, pode ser que em
bastantes dos que as disfrutarem venham a produzir mudanças de vida,
mui sinceras, mui duradoiras, e sobre modo uteis para a pessoa e para o
proximo.
* * * * *
Eu por mim, meus ricos pobres do campo, não duvido, se não que o creio
com todas as veras d’alma: porque, ¿vedes vós? eu mesmo já tambem
vivi, e annos, fora e muito longe das cidades, e sei como as estrellas
conversam comnosco em nos colhendo a sós n’essas vossas solidões.
Sei como deitado a um meio-dia de estio, á sombra de um dos immensos
guarda-soes verdes abertos por Deus aos passarinhos, aos rebanhos,
e aos homens, respiramos ares bonissimos de saude, de sabedoria e
benevolencia; folheamos o canhenho do nosso passado, e sorrimos de
desprezo a tanto lidar por nadas, a tanta figura anan que ali fez papel
de gigante, e a tantos montes de oiro, que representaram de grãos de
areia.
¿Tinha-nos irritado a malignidade de um satyrico? Passa-nos por cima da
cabeça um besoiro negro, e envergonhamo-nos de lhe ter dado attenção.
¿Tinhamo-nos consternado com o mallogro de um empenho? O ciciar da
seára visinha nos diz: «Tambem aqui, entre as minhas espigas, vão
algumas negras e vazias; mas nem por isso me chamam pobre.»
¿Tinhamos visto nos homens o egoismo? Estamos sentindo em torno de nós
a prodigalidade a palpitar, a revolver-se, a rescender, a cantar, por
toda a superficie da terra.
¿Tinhamos chegado pela tristeza ao scepticismo? Por cima de nós não
descortinamos senão ceo, e ceos.
Erguendo nos, e afastando-nos d’ali, quando por entre as arvores, além,
nos chama o fumo da nossa cosinha, saudamos ainda mais cordealmente ao
visinho ou ao passageiro desconhecido; jantamos com mais apetite; e se
o mendigo, enviado pela Providencia, vem n’essa hora entoar á porta o
Padre Nosso, assentamol-o á nossa direita, alegramos a sua velhice com
o nosso melhor vinho; e, finda a refeição, ambos damos graças ao Pae
Commum, pela esmola que a um e outro acaba de fazer.
¡Oh que sim! cada folha no campo sabe mais, e aconselha melhor, para
isto de contentamento interior, que todas quantas academias existem de
Pekim até Lisboa, de Lisboa até aos confins da America.
* * * * *
--«Mas--perguntar-me-heis vós--sendo assim, ¿por que não somos nós, os
do campo, inteiramente bons e bemaventurados?»
¡Inteiramente!!.... Não pode ser, que esse _inteiramente_ não cabe ao
mundo; porém menos desgraçados e menos ruins que nós outros, os da
cidade, crêde firmemente que o sois.
Padeceis minguas, que o viandante descobre pela vossa janella sem
vidraças. Sim, mas lá estão muitos palacios, onde, entre arrazes e
sedas, se curtem amarguras, como entre flores se escondem viboras.
Ali, sem espectadores, se representam tragedias inauditas. ¡Quantos
de cima de um cofre de oiro se não levantam pallidos e blasphemando,
para se irem pendurar n’um laço, algozes de si mesmos! ¡Quantos n’um
coche envernizado por mão de pintor heraldico, ou montados n’um cavallo
que lhes custou o preço de duas herdades, não vão lavar com o proprio
sangue n’um duello a afronta, talvez chimerica, que receberam, ou, para
tirarem um espinho da honra, carregar-se para toda a vida com o remorso
de um homicidio!
¿Vedes vós?... E não vedes ainda nada; e nem eu vol-o quero nem devo
mostrar.
Mas crêde; fiae-vos em mim: Lançadas bem as contas por quem
experimentou ambos os vivêres, os menos maus dos maus, e dos infelizes
os menos desaventurados, sois vós.
E a mais ireis, quanto mais d’estas verdades vos convencerdes; que já
lá dizia, ha dois mil annos, outro poeta bem vosso amigo (como todos
os de veras o são), um poeta que só para vós escreveu uma das mais
admiraveis obras do mundo:--«¡Oh! ¡ditosos, ditosissimos os lavradores,
se elles acabassem de entender as suas ditas!....»
Já vêdes, como podeis esmolar virtudes e satisfação aos desconsolados
das ruas largas e das praças espaçosas.
Só por isto, já valia bem a pena de que o nosso Parlamento de amigos da
terra promulgasse, muito depressa, a Lei com que eu sonhava, e com que
ainda sonho.
* * * * *
......Mas cavae-me bem fundo com o discurso n’esta materia, e vereis¡
quantos outros bens vos não promette!
A vossa estrada e os vossos caminhos transversaes estão por fazer; o
vosso rio, a obstruir-se de todo, a comer-vos os campos com areias, e
as vidas com febres. Na vossa capella assovia o vento e côa a chuva;
o seu calix é de estanho; o seu Missal rôto; o seu Crucifixo perdeu o
doirado, e as rosas da corôa da Mãe de Deus, ainda que artificiaes,
estão murchas como as das suas faces. O vosso cemiterio augmenta o
horror á morte, pelo desamparo; lá os vossos parentes não teem sombra
de arvore piedosa, onde a saudade sinta delicias em orar; e os cães e
animaes do monte podem ir pela noite desenterral-os e comel-os.
Não digais nada a ninguem; mas todas essas lastimas, que vós deplorais
ha tantos annos, hão-de findar, como quer que seja, com a estada dos
ricos entre vós.
O solo mesmo sente que em vossas casas fallece a prata e o cobre. Ora
deixae-os residir por ahi alguns mezes, e dir-me-heis, e dir-me-ha
o mesmo solo, e ainda mais galhardamente que vós, se das cidades
enriquecidas pela Agricultura não refluiu a final algum oiro para os
campos.
Os vossos filhinhos carecem de mestres; os da cidade tambem teem
coração, e tambem teem filhos; vereis como vos brindam com escolas.
Hoje frequentemente vos acontece desejardes n’um repente um bom
conselho, que só a Sciencia pode dar, já para o vosso trato agrario,
já para a vossa industria, já para o vosso commercio, já para a vossa
demanda, ou para o governo da vossa vida. Esses homens da cidade teem
livros; teem certas tinturas geraes, que dá o trato do mundo; teem
amigos e conhecidos, a quem podem escrever e consultar. Até o amor
proprio (quando não fosse já a humanidade) vol-os tornaria serviçaes.
O vosso domingo só escápa do tédio pelo somno, pela conversação
ociosa, que degenera em maledicencia, ou... pelos praseres grosseiros,
perigosos e funestos, da taberna. As vossas dansas já a vós proprios
vos cançam de monótonas, e os vossos cantares sem pensamento já faziam
bocejar aos bisavós.
Deixae estar: aquella gente da cidade vos trará (até por seu
interesse), e vos ensinará, recreios que vos encantem. Vereis o que
é um theatro. Amareis e cultivareis a musica. E Deus sabe ¡quantos
talentos, que por entre vós se perdiam, se não hão-de aproveitar!
¡quantas divindades não dareis ainda ás adorações da Capital! ¡quantos
brasões de verdadeiros meritos não grangeará para si o vosso logarejo!
* * * * *
Pensae n’isto, pensae n’isto, meus amigos; e (rebente de inveja quem
rebentar, definhe quem quizer, de odio contra a ventura do Povo)
trabalhae, e orae a Deus, para que venhamos a ter aquellas Côrtes que
sabeis.
Fevereiro de 1849.
IX
Terceiro serão do casal
Indole campestre da Poesia
SUMMARIO
A Poesia nasceu nos campos, e para elles propendeu sempre.--Quem foi
Ovidio.--O seu poema dos _Fastos_.--Duas amostras d’este poema.--Festa
das sementeiras entre os Romanos.--Festa do deus Término.
Dizia-vos eu, meus camponezes, que todos os poetas de veras eram vossos
amigos; não ha nada mais certo.
A Poesia nasceu nos campos, e por muito tempo só conheceu esse viver
viçoso e perfumado. Veio a fazer-se dama ambiciosa de mais refinadas
delicias; assentou vivenda nas cidades; fez-se muito sabia, muito
altiva muito malédica, muito contradictoria; ora devota, ora impia, ora
frivola, ora profunda; mas lá os seus campos nunca se lhe desluziram da
lembrança.
Em nenhuma parte a ouvirieis cantar combates, viagens, descobrimentos,
artes, luxo, amores, ou desejos de melhor vida para alem-mundo, que lhe
não fugisse um olhar de saudade para o seu paraiso de flores.
A edade de oiro, que é a sua scisma contínua, posta umas vezes no
passado, outras no futuro, a edade de oiro (que Deus sabe se é tão
fabulosa como cuidam, a não ser em relação ao seu titulo), ¿que era
ella se não a Arcádia, o viver campestre, manso e regalado?
Livros dos mais antigos do mundo, os de Moisés e os de Homero, uns e
outros mananciaes de Poesia, não teem pagina, que nos não espelhe uns
reflexos das bemaventuranças patriarchal e heroica, que são tambem
Arcadia, com leves modificações.
Passaram os povos antigos, com as suas religiões e usos particulares.
Nos escritos que de então sobreviveram, ¿que é o que mais nos encanta?
Não são por certo as descripções dos seus usos exclusivos, ainda que
para ahi se attrai fortemente a curiosidade; são, sim, os toques
allusivos ao viver rural, porque emfim, ahi é que é o ponto de contacto
de todas as edades, e de todas as civilisações. O campo é que é o
centro de unidade da especie humana.
* * * * *
Se tivessemos vagar, muito nos haviamos de entreter relendo em commum,
aqui no vosso casal, alguns dos mais guapos trechos dos poemas de eras
mui diversas, e paizes mui remotos, por onde acabarieis de conhecer
quanto o vosso trato namorou sempre aos bons engenhos. Fôra leitura
para cem annos bem aproveitados.
Falemos de um só autor, mas, que, pela grandeza do seu talento, vale
centos.
Nasceu este na Italia, em tempo do poderio Romano, vai em dezanove
seculos, e quando o latim era ainda lingua viva e bizarra. Chamava-se
Publio Ovidio Nasão, e era cavalleiro, ou fidalgo d’aquellas eras.
Vivia na Côrte, bem relacionado com a principal Nobreza, e mui cabido
no paço dos Imperadores.
Tinha um engenho prodigioso para a Poesia; cultivou o com os estudos
da eloquencia, com o trato dos outros poetas contemporaneos, com as
sciencias, com as viagens á Grecia, que era a França d’aquelles tempos,
e Athenas a sua París. Compôz uma quantidade de obras, que ainda
existem quasi todas; a maior parte amorosas e voluptuarias.
As mulheres eram para elle o maior bem do mundo; o segundo, as
amenidades da Natureza (ninguem dirá que tivesse mau gosto o nosso
Ovidio).
Este homem, depois de ter gosado quanto era possivel da vida de Roma,
de repente, e já ao descahir para velho, é desterrado. ¡E que desterro!
¡De Italia, para a Russia! ¡do seio das delicias, para uma povoação
barbara, glacial, sempre em contingencias de guerras! Ali se vê,
longe de sua mulher, de sua filha, de seus amigos, dos campos do seu
nascimento, das damas, e dos applausos.
A causa do seu desterro é um enigma, que tem desatinado os
historiadores, e a que ainda ninguem rastreou solução provavel. Coisa
de amores (ou seus ou alheios) deveu por certo de andar por ahi. O que
sabemos é que, lá no desterro, lembrando-lhe com muitas saudades tudo
quanto havia perdido, nada lhe doía mais no coração, que o ver-se
privado do seu quintalinho nos arrabaldes de Roma, onde outr’ora a mão
que tão gentis coisas escrevia se deliciava, muita vez, em podar e
enxertar as suas arvores.
--«¡Coitado de mim!--dizia elle--ainda que eu aqui me quizesse metter a
lavrador, os bois d’esta terra não entendem latim.»
Em tal e tamanho desamparo, que até á morte lhe durou, só as Musas
o não desampararam. A isso devemos duas deliciosas collecções de
magoadissimas Cartas em verso, á mulher, aos amigos, a Cesar mesmo,
sollicitando vir morrer onde nascêra, e metade de um poema intitulado
_Os Fastos_.
* * * * *
Eram os _Fastos_ de Ovidio uma obra em doze Livros, de que só
ficaram os primeiros seis. Tinham por objecto descrever e explicar
as principaes festas religiosas pagans de cada um dos doze mezes; a
origem archeologica de cada uma d’ellas; e a sua coincidencia com as
revoluções astronomicas.
Eis aqui o como elle prepõe a totalidade do seu plano:
_Festas do Lacio anno, origens suas
quaes astros vão, quaes veem, dirão meus versos._